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Hoje, devido ao colapso e degradação de vários ecossistemas, o modo de se pensar o mundo não deve ser visto apenas a partir do domínio utilitarista e uso crescente dos recursos naturais. As atividades humanas devem-se integrar da

109 melhor maneira possível com a questão ambiental, evitando-se novos impactos ambientais e eventos críticos que alteram a forma de todas as pessoas.

Esse artigo identificou vários impactos ambientais e seus consequentes efeitos (sob a ótica de moradores) num trecho da bacia hidrográfica do Rio São Francisco (município de Pirapora-MG). Os principais impactos ambientais indicados pelos entrevistados foram: desmatamento; assoreamento; represamento; diminuição da vazão; alteração da qualidade da água; diminuição da quantidade de peixes; mudanças e efeitos socioambientais; pressões antrópicas; ausência de tratamento de esgotos; e o não conhecimento de leis e políticas ambientais.

Os impactos ambientais apresentados são percebidos por moradores que reconhecem as consequências decorrentes desses impactos, que têm alterado diretamente os seus hábitos e seus modos de vida. Além dos impactos ambientais percebidos por esses moradores, Thé (2003) no seu estudo com pescadores do Alto São Francisco, ressalta o grande conhecimento que essas pessoas têm sobre a reprodução das espécies de peixes no rio, seus locais de desova, comportamentos migratórios e cuidados parentais. Mostrando a importância do saber que esses moradores possuem, que podem ser utilizados em questões de planejamento e gestão da água.

Tem-se hoje uma necessidade de estabelecer novas formas de relação e de gestão dos recursos hídricos. É necessário desenvolver novos métodos de gestão que englobem os diversos aspectos ambientais e todas as comunidades ribeirinhas e sociedades. Esses métodos devem ampliar a participação de moradores locais nas ações de gestão da bacia hidrográfica, incentivar a participação por meio de campanhas e mobilização social, transmitir o principal objetivos e projetos dos Comitês de Bacias Hidrográficas fazendo com que a população conheça esses comitês, e ainda elaborar projetos e programas socioambientais com a gestão e conservação da água que sejam contínuos e frequentes.

Para uma melhor gestão na bacia hidrográfica do Rio São Francisco é necessário levar em consideração o conhecimento ambiental e a percepção de impactos de seus moradores locais. Isso pode se tornar muito útil para o auxílio na tomada de decisão para programas, projetos e ações que visem melhorar a conservação da água e gestão ambiental da bacia hidrográfica, visto que esses moradores possuem um vasto conhecimento dos principais impactos, suas causas e consequências nessa bacia hidrográfica.

110 Pescadores, ribeirinhos e moradores locais demonstram um vasto conhecimento de práticas e valores cotidianos que podem vir a contribuir na relação de manejo dos recursos naturais, tal como a época reprodutiva de várias espécies de peixe e sua relação com a época do defeso (DUMONT, 2007), percepção dos principais impactos, consequências e causas. Isso pode ser útil na elaboração de programas de repovoamento do rio São Francisco, necessidade que foi constatada por vários moradores entrevistados durante a realização desse estudo.

É necessário também se pensar em medidas estratégicas para o combate dos principais impactos que degradam o Rio São Francisco, aprimorando a gestão para a tomada de decisão, facilitando ações mais rápidas e eficazes para a conservação da água, interferindo nas causas dos impactos, e não apenas em ações paliativas que visam combater as suas consequências.

Observou-se durante a realização da pesquisa o envolvimento dos moradores com algumas ações que ajudam na conservação desse local, muitos moradores realizam limpezas nas margens do rio e até mesmo dentro do rio enquanto saem para conversar ou pescar. Também em seus discursos sempre citam que são eles, os próprios moradores, que mantém essa área limpa de resíduos, discorrem também que várias vezes já plantaram mudas nativas nas margens do rio São Francisco para tentar repovoar e evitar o desmatamento da região. Existem ainda grupos folclóricos entre os moradores entrevistados que afiram que fazem ações para promover a conservação do rio São Francisco, organizando mutirões de limpeza, ações para o plantio de mudas e sensibilização da importância do rio entre outros moradores.

Por fim, deve se pensar em termos de segurança hídrica, ressaltando quatro principais aspectos relacionados: oferta de água para toda a população; manutenção de uma qualidade boa da água; sistemas de monitoramento eficazes contra eventos críticos e impactos ambientais; e o desenvolvimento da gestão integrada da bacia hidrográfica.

A gestão integrada da bacia hidrográfica do rio São Francisco precisa ser revista e aprimorada. Em 2003, no estudo realizado por Thé (Thé, 2003), já foi ressaltado todo um conjunto de conhecimentos, práticas e crenças por moradores do Alto São Francisco, questionando a manutenção do modelo de gestão centralizado nas mãos do Estado, com pouca participação das comunidades locais nos planos de manejo dos recursos. Mesmo assim, hoje, como observado nesse

111 artigo, grande parte dos entrevistados (73%) não possuem conhecimento sobre as leis, políticas e ações propostas para a gestão e conservação da água. Constata-se que os moradores ribeirinhos, pescadores profissionais e outros moradores locais não fazem parte das ações de integração na gestão da água dessa localidade. Deve-se levar em consideração a compreensão e o entendimento desses moradores, para assim realizar a desejada gestão integradora e participativa da água, contribuindo efetivamente para a redução dos impactos ambientais ainda existentes no Rio São Francisco. Uma vez, que conhecendo as políticas, se sentido parte integrante das ações, e sendo ouvidos pelos gestores, políticos e tomadores de decisão, os moradores locais podem auxiliar na proteção e conservação da água.

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Capítulo 4

Contribuições para a