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Nos estudos literários, o conceito de maravilhoso com o qual se costuma trabalhar é o postulado por Tzvetan Todorov, teórico búlgaro já apresentado anteriormente. Em linhas gerais, a categoria narrativa do maravilhoso proposta por Todorov (2008) é apresentada como relacionada às categorias do estranho e do fantástico. Vejamos de que forma.

O fantástico, segundo o autor, “é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento sobrenatural” (TODOROV, 2008, p. 31) que não pode ser interpretado à luz das leis naturais, nem ser atribuído com certeza ao sobrenatural. Ele reside precisamente na dúvida e integra nela o leitor implícito, o leitor enquanto instância narrativa, exigindo dele uma cumplicidade com relação à hesitação. A hesitação, em suma, deve ser um dos temas da obra. O fantástico nos coloca diante de um dilema: acreditar ou não.

Quando ao leitor ou à personagem é dada a possibilidade de optar por uma solução que permita às leis da realidade permanecer intactas, então a hesitação se acaba e estamos diante do estranho. Se, ao contrário, percebe-se que são necessárias novas leis da natureza para explicar um fenômeno, igualmente a dúvida se dissipa, mas estamos no gênero do maravilhoso.

De acordo com o autor, o maravilhoso puro não tem limites claros, mas pode-se afirmar que nele os elementos sobrenaturais não provocam qualquer reação particular em personagens ou no leitor implícito. “Não é a atitude para com os acontecimentos narrados que caracteriza o maravilhoso, mas a própria natureza desses acontecimentos.” (TODOROV, 2008, p. 60). Todorov explica que para compreender o maravilhoso puro pode-se diferenciá-lo de outras instâncias do maravilhoso, em que o sobrenatural ainda recebe algum tipo de explicação ou justificativa. Essas instâncias são:

Maravilhoso hiperbólico: os fenômenos não são sobrenaturais a não ser por suas dimensões, superiores às que nos são familiares. Ele pode ser, portanto, uma simples maneira de falar. O exemplo citado por Todorov é referente a animais enormes descritos em contos das

Mil e uma Noites. Do relato poliano, é possível recolher exemplos semelhantes: carneiros com caudas que pesam trinta libras, bois enormes, que têm a força de cinco bois normais, etc.

Maravilhoso exótico: narram-se acontecimentos sobrenaturais sem apresentá-los como tais. Uma vez que o leitor implícito não conhece a região onde se desenrola o acontecimento, não o coloca em dúvida. Ao leitor implícito o acontecimento parece natural. Novamente os contos das Mil e uma Noites servem a Todorov para exemplificar esse maravilhoso e o exemplo usado repete-se no Milione20. Trata-se do o pássaro ruc (o grifo), desmesuradamente grande e que, para se alimentar, ergue um elefante em suas garras e o deixa cair do alto, para que se despedace (POLO, 2010, p. 510). Vale notar que a descrição poliana do grifo desfaz a crença corrente de que ele é metade leão e metade águia, e pressupõe a aceitação do leitor para isso, uma vez que ninguém nunca havia visto efetivamente um grifo. Além desse pássaro, poderiam ser colocados nessa instância o petróleo (POLO, 2010, p. 110), as pedras negras que queimam (o carvão mineral in POLO, 2010, p. 298) e a serpente muito grossa e com patas, capaz de engolir um homem (o crocodilo, in POLO, 2010, p. 334).

Maravilhoso instrumental: pequenos gadgets aparentemente irrealizáveis na época descrita, mas possíveis. Necessariamente eles têm de ser frutos do engenho humano. Os exemplos dados por Todorov, mais uma vez oriundo das Mil e uma Noites, são o tapete mágico, a maçã que cura e um tubo de longa visão, que o estudioso identifica com os hodiernos helicóptero, antibiótico e binóculo. Não identificamos no relato poliano instrumentos com tais características, mas talvez algumas técnicas possam ser identificadas com esse ponto de vista.

Vejamos o seguinte trecho do texto polo-rusticheliano:

E sì vi dico che, quando d’elli è bisogno, egliono cavalcano bene dieci giornate sanza vivanda che tocchi fuoco, ma vivono del sangue delli

20 A descrição do pássaro é feita tanto por Sindbad, o marujo, quanto pelo narrador do Milione. Trata-se

loro cavagli, ché ciascuno pone la bocca alla vena del suo cavallo e bee.” (POLO, 2010, p. 203).

A peculiaridade dos guerreiros tártaros poderem galopar por 10 dias seguidos sem parar para se alimentarem, às custas do sangue de seus cavalos não é contada, como se pode ver, como algo sobrenatural atribuído a Deus ou ao demônio, mas sim como uma habilidade desenvolvida em algum momento, por uma determinada necessidade.

Maravilhoso científico: o sobrenatural é explicado por leis racionais, mas ainda desconhecidas da ciência contemporânea. No Milione podemos pensar no tecido de amianto, que colocado no fogo não se queima e fica limpo. Embora o autor não se refira a ele como maravilha, é sem dúvida uma das grandes revelações da obra, especialmente porque ajuda a desconstruir uma lenda europeia — a das salamandras.

Maravilhoso puro: não se explica de maneira nenhuma. No Milione há fenômenos que o próprio narrador não explica e que poderiam ser colocado nessa dimensão do maravilhoso: os milagres todos, os copos que flutuam até as mãos do imperador, cheios de líquido, quando este deseja beber (POLO, 2010, p. 221), o mau tempo afastado do palácio do Grande Khan (POLO, 2010, p. 220) por artes mágicas, etc. Alguns desses fenômenos são referenciados textualmente como maravilhosos, outros não, mas sem dúvida todos eles estão em um mesmo patamar.

Por fim, finalizando nossa resumida apresentação da proposta do teórico búlgaro acerca da conceituação do maravilhoso, repetiremos uma citação de Pierre Mabille, em seu Le Miroir du Merveilleux21 feita pelo próprio Todorov (2008, p. 64):

“Para além da satisfação, da curiosidade, de todas as emoções que nos dão as narrativas, os contos e as lendas, para além da necessidade de distrair, de esquecer, de buscar sensações agradáveis ou terrificantes, a finalidade real da viagem maravilhosa é (...) a exploração mais total da realidade universal”.

21 A referência bibliográfica da obra citada por Todorov é MABILLE, Pierre

. Le miroir du merveilleux. Paris: Les Édition de Minuit, 1962, p. 24.

Pois não é precisamente esse o intento explícito da obra polo- rusticheliana? “E però disse in tra se medesimo che troppo sarebbe grande male s’egli non mettesse in iscritto tutte le maraviglie ch’egli ha vedute, perché chi non le sa l’appari per questo libro”. (POLO, 2010, p. 80)

Benzer Belgeler