A metodologia etnodramática implica em criar e analisar sessões de expressão dramática. Tais eventos são elaborados a partir dos registros coletados
pelo investigador nas situações cotidianas de sua participação comunitária, ou seja, consiste na representação dos dados coletados por cenas dramatizadas. (Saldña, 2005).
A expressão e prática dramática são as ferramentas centrais desta abordagem, de maneira que diferentes combinações e propostas de exercícios que suscitam a expressão são utilizados no desenvolvimento de cenas pesquisadas nas abordagens etnodramáticas. Portanto, eliminamos a compreensão de que uma investigação etnodramática utiliza-se somente de sessões de teatro formal em suas aplicações.
“Os corpos dos participantes, sem verbalização nas fases iniciais, são usados para criar representações de conceitos diferentes ao fazer as imagens. Estas instalações corporais podem ser utilizadas como um ponto focal projetivo, onde os participantes podem direcionar e analisar as relações sociais. Ao mesmo tempo, é um processo emocional e afetivo, já que consiste na memória concentrada das experiências que o corpo carrega. Além disso, as projeções refletidas dos participantes sobre as imagens e a criação de narrativas com base nelas, faz a imagem ainda mais expressiva.11” (Kaptani e Davis, 2008:8).
Nos exercícios de expressão, os participantes são convidados a resgatar situações do passado que possam ser representadas ou trazidas ao presente por via
11 The bodies of the participants, without verbalisation at the initial stages, are used to create
representations of different concepts while making the images. These corporeal installations can be used as a projective focal point where the participants can address and analyse social relationships. At the same time it is an emotional and affective process as it consists of the concentrated/condensed
de imagens que, por sua vez, serão narradas pela combinação de expressões gestuais, sonoridades, melodias e movimentos corporais.
Como mencionado no capítulo anterior, sentimentos são consequências deixadas por emoções vividas no momento de determinada experiência de um indivíduo. Neste sentido, participantes de atividades de dramatização são orientados a acessarem imagens por via dos sentimentos atrelados a elas ou vice-versa. Como um dos principais fundamentos da representação é que seja autêntica, os participantes são estimulados a tornarem presentes os sentimentos visualizados, procurando viver novamente as emoções da experiência resgatada. Do contrário, um simples contar de história registrado por vídeo ou manuscrito serviria de dado para o investigador.
Consideramos impossível a reprodução exata de uma emoção, pois a experiência de uma emoção é única do “momento presente” que esta ocorre. É vivida em plenitude apenas uma vez, quando se manifesta. Qualquer descrição, análise ou identificação posterior é uma categorização mental ou afetiva, significada pelo Self. Acreditamos ser possível viver emoções semelhantes, porém já em momentos diferentes, fato que já impossibilita a experiência ser exatamente a mesma.
É também por esta característica que o analisador da dramatização deve ser conhecedor da cultura local, pois se a observação de aspectos psicossociais não é objetivamente estática, tampouco serão passíveis compreensões genéricas e universais, antes de uma interpretação para outras culturas.
Outra consideração sobre o etnodrama é que os atores das cenas são os sujeitos participantes da pesquisa e, eventualmente, também o investigador.
Dificilmente são contratados atores profissionais para a demonstração de situações vivenciadas na comunidade pesquisada. Profissionais são normalmente contratados para formação de atores e direção de espetáculos.
“Personagens no etnodrama são geralmente os participantes da pesquisa, mas os pesquisadores sendo eles mesmos também participantes podem fazer parte do elenco.12” (Saldaña, 2005:218).
No entanto, quando uma atividade a ser observada pelo investigador é estruturada por roteiros elaborados à luz dos conhecimentos tradicionais do teatro e de técnicas artísticas de produção e, por esta via, apresenta questões comunitárias narrando histórias da localidade e evidenciando os enredos que costuram a trama do cotidiano comunitário pela textura cultural exibida, atribui-se o nome de etnoteatro.
“Como definição de trabalho, etnoteatro emprega a arte tradicional e técnicas artísticas de produção do teatro formal para montagens de encenações ao vivo das experiências de participantes e/ou interpretação do pesquisador dos seus dados, pra um determinado público.13” (Saldaña, 2005:218).
O espaço cênico proporciona um ambiente singular à observação do investigador, na medida em que proporciona um campo de interação dos atores
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“Characters in an ethnodrama are generally the research participants portrayed by actors, but the
participantes, onde muitos dos fenômenos interacionistas podem ser analisados pelas atuações das diferentes representações que proporcionam espaços para jogar com os diferentes papéis.
Vale lembrar que tanto na vida cotidiana quanto nas encenações das atividades expressivas, as pessoas buscam demonstrar a maior credibilidade possível por via de seus personagens representados. É neste aspecto que as emoções tornam-se elementos fundamentais para uma boa atuação, pois o ator, hábil a trazer a emoção coerente à situação encenada trará, ao mesmo tempo, a credibilidade da representação, uma vez que pessoas julgam a cena autêntica quando percebem que intimamente o indivíduo está correspondendo integradamente suas diferentes expressões com o que demonstra estar sentindo.
Ao serem convidados a adentrarem nos papéis e personagens de seus próprios companheiros do dia a dia, sujeitos percebem-se vivendo a realidade de diferentes pessoas. Esta condição proporciona tanto ao participante quanto aos espectadores a oportunidade de verem-se projetados no lugar dos outros.
Atuando por papéis de distintos participantes, os sujeitos entram nas condições paradoxais das personagens, e reproduzem situações cotidianas, criando ambientes de processos dialógicos14 os quais, inevitavelmente, abrem possibilidades reflexivas na busca por alternativas à situações contraditórias, apresentadas nas cenas.
Ao perceberem-se distanciados da pressão natural de suas vidas, nas encenações os participantes se aproximam da questão comunitária representada, questionam, argumentam, procuram saídas e sugerem ações pertinentes à situação.
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O processo que se desenvolve em encontros grupais de conteúdos programáticos que apresentem contradições constituídas pelas temáticas e significados da realidade comunitária, proporcionando debates, tornando possível pensar e repensar a prática, criar e recriar conhecimentos, ver e rever pressupostos, descobrir e socializar desafios e perspectivas para atuações voltadas à integração do
“Ao se tornar um personagem, uma pessoa pode se sentir mais real. Ao dramatizar qualquer caso de nossas vidas, jogar um jogo ou criar um personagem, nós criamos um certo grau de distância dramática. O paradoxo do distanciamento dramático é que nos leva a aproximar-nos de nós mesmos e de fato nos faz entrar em contato com áreas profundas da experiência encenada que não é acessível de outras maneiras (...). Além disso, o teatro oferece a incorporação ativa das narrativas dentro de um espaço dialógico criado para ação, reflexão e transformação. Ele pode assim oferecer à pesquisadores uma epistemologia que é diferente daquelas que envolvem diferentes métodos de entrevista ou grupos focais, provendo diferentes tipos de dados.15” (Kaptani e Davis, 2008:4).
É importante salientar que muitos encontros não terminam em consensos, e acabam por gerar mais contradições, produzindo um ambiente riquíssimo ao investigador, quando este possui a habilidade não só para analisar, mas também de revelar aos participantes o campo plural, contraditório e diverso que eles vivem comunitariamente.
Cabe ao investigador enquanto facilitador das oficinas etnodramáticas demonstrar que, pelas diferentes maneiras de pensar e agir, os participantes também podem tolerar e desfrutar do rico ambiente de diferenças que combinam em um lugar precioso de aprendizagem do cotidiano e consequentemente, da conscientização da vida comunitária.
15 “By becoming the character one can feel more real. By dramatising any event of our lives or playing
a game or creating a character, we create some degree of dramatic distance. The paradox of dramatic distancing is that it causes us to come closer to ourselves and indeed makes us get in touch with profound areas of experience that are not accessible in other ways (…). Moreover, theatre provides
Ao se reconhecerem nas histórias dos outros, os participantes têm a oportunidade de apropriar-se das dinâmicas envolvidas nas histórias representadas e conscientizarem-se do lugar que ocupam em suas vidas e também na vida dos outros.
“Como prática, o conhecimento do drama está incorporado: culturalmente localizado e socialmente distribuído. Isso significa que o conhecimento é produzido através da interação com outros, e que a reciprocidade entre os participantes cria formas de capital social e cultural” (Nicholson, 2005:39).
Nas práticas dramáticas os participantes têm a oportunidade de observar-se nas ações encenadas, se inserirem nas histórias da própria comunidade e se re- situarem na ação, refletindo sobre a maneira como eles se relacionam com as suas próprias histórias, vendo-as integradas com as histórias dos outros.
A construção das cenas dramatizadas são processos de construção coletiva, que partem das referências dos participantes, construindo um campo referencial coerente a trajetória dos mesmos.
Nas experiências coletivas de criação e atuação dramática, os participantes se deparam, ao entrelaçarem suas histórias de vida, com a construção de um saber compartilhado, o saber da cultura local.
Outrossim, ao construírem coletivamente uma cena, escutam as questões apresentadas, comparam às suas demandas pessoais, identificam-se ou não, propõem e escutam soluções. Em tais dinâmicas, por estarem num meio de referências comuns, os participantes relacionam-se mais direta e abertamente
consigo e com os outros, dinamizando sua singularidade com a do coletivo, de forma a ampliarem sua visão sobre a realidade contextual que desejam dramatizar.
Assim sendo, na medida em que adentram às discussões e reflexões nas práticas criativas, de pensamento crítico, questionamento contínuo e da percepção de si no outro, estabelecem um lugar de significados culturalmente comuns e neste sentido, garantem as condições próprias ao seu protagonismo.
Por este caminho, se objetiva a conscientização pela correspondência da dramatização com os ambientes cotidianos, a fim de proporcionar aos participantes novas visões de mundo e impulsioná-los no movimento condutor da atuação consciente, protagonista e transformadora, no retorno aos ambientes de atuação cotidiana (Moreno, 1975).
São por essas sessões reprodutoras de realidades cotidianas que investigamos os aspectos emocionais enquanto componentes dos processos de conscientização e empoderamento dos indivíduos.
Neste momento frisamos que não implementamos nosso estudo como uma investigação etnodramática, no entanto desenvolvemos nossa pesquisa por via de técnicas de dramatização, por sua vez empregadas nas investigações etnometodológicas.
Assim o fizemos para delimitar nosso campo empírico, tendo em vista que a significação de sentimentos e emoções se concebem à luz cultural da sociedade ou localidade que são simbolizadas.
Neste sentido, uma observação apurada requer um rigor metodológico que sustente a investigação sem perder de vista a referência da cultura ou subcultura em que se insere o estudo. Ou seja, a manifestação emotiva de determinada situação
Outrossim, para que o estudo contribua na avaliação da transformação de sujeitos sob intervenção social, é somente pela apropriação das condições contextuais vividas no cotidiano que se possibilita uma reflexão precisa dos processos em que pessoas se conscientizam e se empoderam, apropriando-se dos aspectos emocionais implicados nas suas ações cotidianas.
Vale considerar que as técnicas teatrais utilizadas, cujo público espectador participa das sessões são denominadas de teatro participativo.
Desta forma, podem ser consideradas técnicas de teatro participativo o
Playback Theatre, o Teatro do Oprimido e o Sociodrama, entre outras.
Vale elucidar que nem todas as técnicas teatrais dentro a uma pesquisa etnodramática podem ser consideradas atividades etnoteatrais.
Para se configurar como uma atividade de etnoteatro, a produção teatral deve se desenvolver por roteiros previamente elaborados, pautados nos registros da investigação participante, além de seguirem os preceitos do teatro convencional.
Assim sendo, para técnicas de teatro espontâneo, entre outras práticas expressivas que não utilizam de scripts pré-elaborados, quando compreendidas em investigações etnometodológicas, a designação mais adequada seria o etnodrama ao invés do etnoteatro.
Já o teatro participativo, admite tanto a perspectiva etnodramática quanto a etnoteatral, uma vez que sua caracterização se dá pela participação do público espectador, independentemente do tipo de pré-elaboração ou produção. Utilizamos de técnicas caracterizadas pelo teatro participativo em todas as nossas atividades.
No entanto, primeiramente apresentaremos o Playback Theatre mesmo não sendo utilizado em nossa pesquisa de campo, pelo motivo desta técnica ter sido de grande importância em nossa trajetória porque, pelo seu intermédio, se evidenciou a
possibilidade de observar e analisar emoções como elementos do processo de conscientização por via de dramatizações. No entanto, como sua implementação exige a contratação de diversos atores profissionais, não foi utilizada na coleta de dados de nossa pesquisa. De qualquer maneira, consideramos uma técnica de grande valia tanto para observação de emoções quanto para intervenção para conscientização de participantes de projetos sociais. Por esta razão apresentamos os principais aspectos desta técnica de teatro participativo.