Observa-se, atualmente, o vertiginoso crescimento da produção de imagens, fixas e em movimento, decorrente, principalmente, da disseminação do uso de aparelhos e câmeras digitais. Tal fenômeno é acompanhado da também crescente prática de publicações dessas imagens em redes computacionais. As imagens passam então a circular no ciberespaço em forma de dados codificados, reunindo-se a outros tantos dados presentes nesse ambiente. Diante desse cenário, atenta-se para a necessidade de elaboração de formas eficientes de
busca e organização desses dados. As imagens, que no ciberespaço passam a se comportar como hipermídias, encontram-se submetidas à lógica dos hyperlinks. Nesse contexto já não é possível caracterizar a era que se anuncia como era da imagem. Afinal, como nos lembra Santaella (2007, p.392) “com o hipertexto e a hipermídia, gerados no seio do computador para serem visualizados na tela, o que retornou triunfante foi a escritura (…).”
Por mais que se alardeie a sobreposição da imagem à palavra escrita na cultura contemporânea, observa-se que, na realidade, o que ocorre é a emergência das palavras, de forma ainda mais complexa e vinculada à imagem. De fato, além de se estruturarem por linguagens de programação baseadas no sistema alfanumérico, os sistemas computacionais atuais, em seus dispositivos de busca e organização de dados, caminham para o uso das relações semânticas, de modo cada vez mais desenvolvido. Assim a imagem em movimento, presente na forma de dados no ciberespaço, adquire uma nova relação com a palavra escrita.
Em sistemas computacionais, a estruturação e a busca de conteúdos audiovisuais através da utilização de palavras-chave são comuns. As buscas e as relações entre conteúdos de qualquer tipo - textos, sons e imagens - são, normalmente, baseadas em tags, ou seja, em palavras que rotulam arquivos e que facilitam suas estruturações e interligações. A prática de rotularização está imersa no movimento, próprio da segunda geração da internet, chamado Web Semântica. Como o próprio termo sugere, a web semântica objetiva atribuir significado (semântico) aos conteúdos na internet, para que esses conteúdos sejam perceptíveis pelo homem e pelo computador. Um dos recursos da Web Semântica mais usados em sistemas computacionais é o chamado metadado - forma de atribuir dados a outro dado (principal), acrescentado informações inteligíveis, para o computador, sobre aquele dado principal. Dessa forma, tags ou etiquetas são metadados, pois atribuem informações adicionais a outro dado, como, por exemplo, palavras (tags) que são vinculadas ao arquivo de vídeo publicado em um blog, objetivando, assim, descrever o seu conteúdo. Derrick de Kerckhove (2008),
investigador das novas mídias, em seu estudo intitulado a “Era dos Tags”22, evidencia a capacidade dos tags, tanto para romper com as tradicionais categorias e classificações como, ao mesmo tempo, possibilitar a criação de novas formas de conectividade baseadas em contextos e necessidades específicas.
As televisões presentes no ciberespaço se beneficiam enormemente das relações semânticas estabelecidas nesse ambiente. As ações de agentes inteligentes, como os da webtv DNAStream e do site de relacionamento YouTube, decorrem de relações de similaridade entre os tags vinculados aos arquivos de vídeo. Assim, a oferta de vídeos, que guardam alguma semelhança com o tema de outro vídeo que está sendo exibido, dá-se por associação semântica, ou melhor, por rotinas algorítmicas realizadas por metadados. Da mesma forma, as buscas feitas através de palavras-chave ocorrem por relações entre tags e são essenciais para a localização de arquivos de vídeos em bancos de dados, presentes em qualquer sistema computacional de televisão. Ao contrário do que ocorre com as fitas magnéticas, o armazenamento computacional de arquivos audiovisuais permite pesquisá-los através da descrição textual de seus conteúdos. Os recursos de buscas semânticas, combinados com a modularidade de conteúdos audiovisuais, abrem caminho para inúmeras possibilidades narrativas televisivas como, por exemplo, a seleção, através de palavras-chave, de todas as cenas em que determinado personagem aparece, facultando, assim, uma edição especial focada nas ações desse personagem.
Tais recursos semânticos, que objetivam aperfeiçoar a organização e a identificação dos dados em ambientes computacionais, estão diretamente relacionados às capacidades enciclopédica e procedimental do computador, já identificadas por Murray (2003), bem como aos processos de transcodificação e automatização, salientados por Manovich (2001). De fato,
22 Palestra proferida por Derrick de Kerckhove em 2008. Áudio da palestra disponível no endereço:
a anexação semântica possibilita a busca automática em um universo de dados, os quais, por sua vez, são produtos transcodificados da linguagem humana.
Mas os recursos da semântica apresentam algumas dificuldades. Como nos lembra Jan Simons (2008), os sistemas computacionais ainda não são capazes de lidar com as sutilezas da língua. Polissemias, homônimos, sinônimos e categorias de palavras, por exemplo, são fenômenos linguísticos que ocasionam confusões ao processo computacional de entendimento das palavras. O uso da semântica em redes digitais traz consigo esses problemas. São bastante comuns os casos em que as relações de sentido feitas pelos programas computacionais apresentam resultados completamente desvirtuados da intenção do interator. Um exemplo disso é a busca feita com a palavra inglesa apple. Nessa experiência, os resultados apresentados se referem a coisas sem qualquer ligação ou correspondência necessária entre si, como a fruta (maça), a empresa de informática Macintosh, a cantora pop Fiona Apple e a construção nova-iorquina Big Apple.