Na obra A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino, Pierre Bourdieu(1975) e Jean-Claude Passeron (1975) fazem uma análise do sistema de ensino como instituição forjada para disseminar e garantir a perpetuação da cultura dominante. Especificamente compreendem a escola como instrumento ideológico e legitimador de uma determinada cultura, difusor, portanto, do que chamam de arbitrário cultural, pois, certamente uma cultura que se fez hegemônica não pretende abrir mão de tal situação.
Como instrumento ideológico então, e um dos elementos difusores do arbitrário cultural, a escola é violência simbólica e, desta feita, precisa mascarar as relações de poder e dominação subjacentes, ou seja, busca dissimular as relações de força, relações de poder, que alimentam o “imperativo impositivo” de uma cultura sobre outras ou, invertendo-se a ordem dos dizeres, busca dissimular as relações de força que acabam provocando também um “imperativo receptivo” das culturas dominadas em relação à dominante.
Assim, há uma busca ininterrupta pela manutenção do monopólio da violência simbólica.
Sendo o poder arbitrário, há uma necessidade de mostrá-lo como algo natural, longe da situação conflitiva de relação de forças. Daí porque o grupo que impõe o arbitrário cultural lança mão de certos artifícios no sentido de garantir o curso “normal” das coisas. Segundo os autores supracitados, todo poder de violência simbólica, ao impor suas significações como legitimas, dissimula as relações de força que estão em sua base.
Assim, estampa-se a função legitimadora da ação pedagógica como necessariamente implicando uma autoridade pedagógica. Esta será tanto mais eficiente quanto mais credibilidade possuir ou se fizer acreditar que a possui junto à sociedade. Afirmam os autores que um sistema de ensino deve, para preencher sua função social de legitimação da cultura dominante, obter o reconhecimento da legitimidade de sua ação, ao menos sob a forma do reconhecimento da autoridade dos mestres encarregados de inculcar essa cultura.
Aliás, é através da autoridade pedagógica, efetivamente, que se dá a dissimulação de forças, no momento em que a ação pedagógica se distancia, de modo a poder provocar o seu desconhecimento como condição de seu próprio exercício.
questão, caracteriza-se por produzir e reproduzir a cultura dominante, nesse duplo aspecto, contribuindo da mesma forma para a reprodução da estrutura das relações de força, numa formação social onde o sistema de ensino dominante tende a assegurar-se do monopólio da violência simbólica legítima. Assim, a ação pedagógica, ao tempo em que tende à reprodução cultural, tende à reprodução social.
A Igreja Católica no Brasil da segunda metade do século XIX, em situação conflitiva com o Liberalismo e outras matrizes ideológicas, buscou assenhorear-se do monopólio do exercício legítimo de poder, montando pontos estratégicos na sociedade. Os embates ideológicos que se travaram no campo educacional, a partir do período acima aludido, demonstram o forte interesse da referida instituição na busca pelo domínio do ensino. Havia uma nítida preocupação da Igreja em dar perpetuidade à ordem social da qual era defensora. Mas, para tal intento, era necessário antes infundir nas mentalidades os pressupostos que lhe dariam sustentação.
Desta forma nos foi possível dar início à recomposição da memória dos padres Lazaristas no contexto educacional cearense no século XIX, eles que foram os professores do Seminário Episcopal do Ceará, designados pela Igreja Católica com o intuito de formar padres e, no referido ofício e à frente da instituição, onde permaneceram de 1864, ano de fundação do Seminário, até 1963, compreendendo que a atuação dos mesmos lançou raízes das mais diferentes formas na educação cearense, seja no âmbito da educação escolar ou da educação não escolar, dado que a designação a eles conferida pela Igreja fazia parte de um propósito que consistiu em um árduo processo de reforma eclesial caracterizada por um período de intenso embate ideológico que se travou entre a “tradicionalidade” e as chamadas “forças do progresso”.
Embasada no temor da laicização do mundo, a Igreja Católica postou-se como guardiã da tradicionalidade, oferecendo resistências ao avanço de “ideias novas” cujas matrizes teóricas repousavam no Iluminismo, no cientificismo, no liberalismo, no protestantismo, ventiladas aos mais distantes lugares da Terra, propondo a expectativa de liberdade e de progresso.
A principal resistência se deu através da reforma eclesial empreendida pela hierarquia, liderada pelos bispos obedientes à Santa Sé, ou seja, fielmente ligados ao Pontífice Romano, que pretendeu remodelar a vida moral dos clérigos, bem como
redirecionar a vida do povo, de acordo com princípios tridentinos. No Brasil, notadamente, significou também varrer do próprio clero a influência liberal e o tradicionalismo luso- brasileiro. Este último porque havia formatado as mentalidades de acordo com um cristianismo devocional cheio de superstições.
A Igreja Católica alimentou a consciência de que a obtenção do êxito de seus propósitos necessariamente passaria por um projeto de educação. Desta forma, lançou mão de um preceito básico traçado ainda na Contra Reforma, a partir do Concílio de Trento, que era a promoção da educação e formação de seus quadros em ambientes apropriados para esse fim, os seminários.
Pretendia-se restabelecer a hierarquia eclesiástica e social. Portanto, a Igreja tinha a convicção de que a função da instrução religiosa e da educação católica era fazer com que a obediência à hierarquia fosse cumprida por razões de consciência. Assim, a Igreja antevê a educação como instrumento ético de manutenção da sociedade tradicional e da ordem estabelecida.
Nesse contexto de intenções da Igreja em tomar, ou retomar, as rédeas da situação, a então província do Ceará passa a fazer parte ativa do referido processo devido à criação, em 1854, de sua Diocese e, a partir da iniciativa de seu primeiro bispo, do surgimento do Seminário Episcopal do Ceará em 1864, localizado no bairro da Prainha, em Fortaleza. Possivelmente, em terras alencarinas, o seminário foi a arma mais poderosa da Igreja cearense no combate às ideias seculares. Notadamente porque de lá emanou um dos projetos pedagógicos da maior relevância na história do Ceará, dado que aquela instituição de ensino representou, no nosso contexto educacional, um dos primeiros núcleos de ensino formal no Estado.
Cumprindo a sua missão religiosa e pedagógica, o referido seminário foi responsável pela formação de quadros intelectuais que comporiam, além da função missionária, também o corpo do exercício do magistério e das letras, tanto em Fortaleza, como nas mais afastadas cidades e vilas da terra alencarina; ou bem além de suas fronteiras, porque, por ser a nossa primeira escola de nível superior, atraiu também pessoas de muitos lugares, pois, conforme é relatado, vinham nem sempre com o propósito de se consagrarem à fé, mas atraídos pelas luzes da instrução.
instituição educacional referida, ou seja, o Seminário da Prainha, para adquirir credibilidade junto à elite, que vislumbrou certamente a possibilidade de instrução a seus filhos, precisava de um corpo docente capacitado e moralmente de acordo com os preceitos da reforma que se desenrolava.
Se compreendermos desta forma, havia nesse processo de reforma que a Igreja Católica desencadeou, um arbitrário cultural moralizante e os padres professores da Prainha tiveram por missão o cultivo e a disseminação de um determinado hábito que expressasse os valores morais da romanização que, conforme visto, ultrapassou os limites do meramente religioso para influenciar ações nas diversas vertentes sociais, dentre elas no campo da educação e, principalmente, nas ações docentes.
Há certas evidências que nos levam à compreensão acima exposta porque, após a fundação do Seminário, houve uma disseminação de escolas, principalmente secundárias, em Fortaleza, cujos fundadores eram egressos da referida instituição de ensino religioso, padres ou não padres, que saiam instruídos para o mundo não religioso, em vias de laicização e, por isso mesmo, na visão da Igreja, necessitado de reformulação moral, de educação religiosa católica. De certa forma, esses fundadores de escolas estavam atrelados à Igreja, dela participavam de uma maneira ou de outra.
Se isso nos dá indícios da influência dos padres Lazaristas sobre o cenário educacional cearense da segunda metade do século XIX. É forçoso compreendermos que a Igreja Católica montava trincheiras na sociedade no intuito de garantir o monopólio da violência simbólica, estendendo seu poder e disseminando-o através da educação da juventude. Compreenderemos que, com a abertura de escolas, é possível acreditarmos numa demanda por mestres, moldados e modeladores dos princípios da reforma então em curso.