2. MATERYAL VE YÖNTEM
2.2. İlk Yapay Sinir Ağları
Evidentemente, a Massa Crítica e a Ciclovida possuem estruturas organizacionais e estratégias de atuação pró-bicicleta bem diversas, em alguns pontos, contrárias mesmo. Os fundadores da Ciclovida, inicialmente, aglutinavam-se em torno da Massa Crítica e, após a fundação da associação, passaram, de certa forma, a “encabeçar” as atividades de ambos os grupos. Nesse período, que vai da fundação da Ciclovida até princípios de 2014, a relação entre esses dois “grupos” (ou momentos) do universo cicloativista de Fortaleza foi de extrema proximidade.
O ambiente virtual de comunicação que as duas associações possuíam, como espaço prioritário de comunicação, divulgação de informações e discussões – a página do Massa Crítica Fortaleza no Facebook –, era o mesmo; as pessoas que compareciam aos eventos dos dois grupos ainda eram também, em boa parte, as mesmas. No topo dessa página, como postagem fixa, era onde estavam presentes o convite e o link para se associar à Ciclovida – o que foi o estopim de uma “separação” entre os “grupos”, como exposto adiante.
Após um processo de desgaste nas relações e de críticas – principalmente relacionadas à “institucionalização” da Massa e à “personalização” do grupo – por parte de membros da Massa Crítica que não participavam da associação na página do grupo, os quais consideravam que os integrantes da Ciclovida haviam tornado a Massa um “apêndice” de sua organização. A respeito disso, houve a seguinte postagem no dia 27 de março de 2014:
Pessoal, já tinha pensado isso faz um tempo, mas não entendo por que o formulário da Ciclovida está como fixo no Massa Crítica. Em princípio, o Massa é um movimento não institucionalizado, horizontal, sem líderes (eleitos) e independente da Ciclovida, não? Alguém mais se incomoda com isso ou é só viagem minha? [...] eu penso que nada contra criar a Ciclovida. Todavia, é importante lembrar que são coisas independentes. A Ciclovida é formada por um grupo de pessoas que usa as vias institucionais para conseguir avanços, diferente do Massa Crítica. Da maneira como
está sendo levada a coisa, parece que estão levando o Massa a ser somente um ‘suporte’ para a Ciclovida. Acho que os próprios membros oficiais deveriam, por questões éticas, reforçar essa independência, que acho inclusive que seria bastante saudável. Se quiser, pode até fazer propaganda, como qualquer grupo pode, como ‘Fortaleza de bike ao trabalho’. Mas colocando como tópico fixo fica complicado. Abraços77.
Depois de alguns breves comentários, menos de uma dezena, por parte de ciclistas que participavam tanto da Ciclovida como da Massa, estes mesmos abriram uma votação na própria página da Massa perguntando se deveria ou não haver uma desvinculação e retirada do post fixo da Ciclovida da página. Decorridas 24 horas, com participação de menos de 20 votantes, foi retirado o post fixo, o que foi, de certa forma, um “apartheid” simbólico.
Apesar desse distanciamento inicial, a Massa Crítica Fortaleza e a Ciclovida permanecem muito próximas, com diversos indivíduos participando de ambos os eventos. Um fato que comprova essa afirmação é que, um ano depois desse conflito, o aniversário da Ciclovida foi comemorado juntamente à bicicletada da Massa Crítica. A realização de eventos conjuntos entre as duas “entidades” ainda se dá – amiúde, de forma conflituosa, especialmente pelo fato de a Massa Crítica Fortaleza ter desenvolvido a faceta de realizar ações diretas no espaço público, como já aventado anteriormente.
Nos dias imediatamente posteriores e mesmo após transcorrido um mês depois dessa “cisão” – no espaço virtual – entre Massa Crítica e Ciclovida, a página apresentava um número de
posts bastante inferior ao que normalmente ocorria: se anteriormente eram realizadas mais de oito postagens por dia, logo depois da cisão, houve semanas em que foram publicados apenas quatro
posts. Talvez os participantes do espaço estivessem à espera para descobrir qual página
permaneceria como fórum de discussão dos ciclistas urbanos na cidade78.
Pouco tempo depois, a página da Massa voltou a ter mais dinamicidade e participação, contudo as publicações referentes à Ciclovida raramente são postadas nesse espaço, apesar de vários integrantes ativos do grupo comentarem na página e participarem dela – e das ações e eventos realizados.
Nas bicicletadas da Massa Crítica subsequentes a esse “racha”, sempre estiveram presentes pelo menos alguns dos integrantes da Ciclovida, que nunca deixaram, de fato, de participar do evento. Essas tensões parecem ilustrativas da pouca idade e do próprio desenvolvimento e complexificação da cena cicloativista na cidade. Ambas as entidades
77 Disponível em: <www.facebook.com/groups/fortalezacritica>. Acesso em: 5 maio 2015.
78 A página da Massa Crítica funciona como uma espécie de fórum dos ciclistas urbanos de Fortaleza, não apenas dos que participam das atividades do coletivo. A fan page da Ciclovida, por sua vez, é um espaço mais formal, de divulgação de eventos e de compartilhamento de informações, textos e imagens sobre o universo do ciclismo urbano.
continuam crescendo e agregando novos participantes. Um dos ciclistas que participaram da constituição da Massa Crítica Fortaleza e posteriormente da criação da Ciclovida fala a respeito do desenvolvimento das duas entidades e dos posteriores conflitos:
[A Ciclovida] acabou tendo um funcionamento diferente da Massa Crítica, e foi aí que foi se criando essa dualidade. Agora existem a Ciclovida e a Massa Crítica, existem duas coisas diferentes. Mas, na prática, as pessoas que participam de um participam do outro: são basicamente as mesmas pessoas. No fim das contas, é um movimento só. Eu espero que um dia haja uma divisão, porque, quando houver a divisão, significa que a gente tem muita gente dos dois lados e que as pessoas se identificam com coisas diferentes, mas têm o mesmo objetivo, que é o uso da bicicleta. Porque a Massa Crítica tem um viés, as ações da Massa são diferentes, elas são diretas, são menos formais; e tem gente que prefere esse tipo de funcionamento. E a Ciclovida é mais diplomática, tem uma estrutura e organização diferentes. (Ciclista 2: homem, 28 anos, profissional liberal, grifo meu).
Em certos momentos, é difícil para os próprios participantes traçarem as fronteiras entre um grupo e outro. A fala de um ciclista que participa tanto da Massa Crítica quanto da Ciclovida toca exatamente nesse ponto, apresentando ainda um terceiro “momento” na cena do cicloativismo na cidade, o Bike Anjo, que, por sua dinâmica de diálogo direto com os citadinos, e não com as agências estatais, não gera tensionamentos e conflitos com outras formas de ação política e promoção do uso da bicicleta.
São coletivos totalmente diferentes e inclusive algumas pessoas antipatizam umas com as outras, então [...] Eu não me identifico com as correntes anarquistas do Massa Crítica, como outras pessoas, para dizer que eu acho que é a atuação correta, que a ação direta é que vale, que não se deve dialogar com o poder público. Eu acho que existem ganhos de todos os lados, eu acho que a luta passa pelo estado também. Mas eu fico igualmente emocionado quando a gente consegue alguma coisa com a Massa Crítica, com a Ciclovida ou com o DU. Eu fico meio no limbo; eu penso muito nisso, sabe? [...] Eu tenho ultimamente participado muito do EBA. O Bike Anjo não é só o EBA, mas é o maior encontro e a atuação mais visível, porque os outros são atendimentos, são individuais. Aí eu tenho me envolvido mais com o EBA, eu acho um projeto muito bonito também; e eu acho basicamente que elas se complementam, essas organizações. (Ciclista 5: homem, 23 anos, estudante de ensino superior, grifo meu).
O caráter de complementariedade entre os diferentes grupos é um aspecto apontado por diversos ciclistas. As ações anônimas e diretas nas ruas – que fazem o papel de comunicação com os citadinos através de marcas e escritas no espaço e de pressão aos órgãos estatais – da Massa Crítica, a participação e o diálogo constantes com o estado, a produção de dados sobre a mobilidade na cidade e a articulação com outras entidades da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza e com o Bike Anjo – projeto que consiste em ensinar e dar apoio a outras pessoas a andar de bicicleta e adotá-la como forma de transporte na cidade – evidenciam as diferentes perspectivas e formas de atuação política com vistas à “transformação da cidade” e da forma como os citadinos percebem os espaços públicos e
usufruem deles encetadas pelos ciclistas urbanos.