B) RENK DEĞİŞİKLİĞİ İÇİN:
1) İLK KEZ ÇIKARTILACAK (FİLİZ) LİSANS İŞLEMLERİ
Não existirá uma data precisa para a entrada do termo “sargento” na designação de cargos ou patentes nas estruturas militares portuguesas. A palavra tem origem no termo latino serviens,entis, com o sentido de servir, estar ao serviço de…109, como tal a sua aplicação poderá estender-se a um vasto conjunto de intervenientes nas acções militares.
Na sua obra, Uma Batalha na Idade Média110, Georges Duby fala dos “sargentos” como:
(…) cavaleiros (…) que não pertencem à ordem cavaleiresca, mas que, no entanto, logo que se encontram no bom campo são ditos valorosos. Trata-se de “sargentos”, de auxiliares extraídos do povo, mas que os príncipes, para serem mais bem servidos, iniciaram nas lides equestres. Ninguém os confunde com os guerreiros nobres, ainda que estejam ajaezados mais ou menos como estes.111
107 Decreto de 2 de Maio de 1808. – Domingos Alvares Muniz Barreto, op. cit., p. 19.
108 Até meados do século passado, o termo marinheiro designava, de modo geral, apenas as praças da classe de manobra. Nas restantes classes, as praças eram designadas pelas suas especialidades: artilheiros, fogueiros, torpedeiros, etc..
109 «sargento (1567) MIL», Dicionário do Português Atual Houaiss G/Z, Círculo de Leitores e Sociedade Houaiss-Edições Culturais Lda., 2011.
110 A batalha descrita nesta obra é a de Bouvines, cujo resultado viria a ter um profundo impacto na história da monarquia francesa. – Georges Duby, Uma Batalha na Idade Média. Bouvines, 27 de Junho de 1214 (Le Dimanche de Bouvines), Lisboa, Terramar, 2005.
Auxiliar é o termo que melhor descreve o papel dos sargentos nas forças militares. Presentes em todos os escalões de comando, os sargentos são sempre auxiliares de outros oficiais hierarquicamente superiores: entre os oficiais generais, o sargento-mor de batalha era adjunto do mestre de campo general; nos terços o coronel era assistido pelo sargento-mor; ao nível das companhias o sargento era o oficial auxiliar do capitão, responsável pela administração do pessoal e da logística.
Em Portugal as grandes reformas militares têm o seu início no reinado de D. Manuel I. É então extinta a milícia de besteiros de conto e dos acontiados das câmaras e o recrutamento de soldados e marinheiros passou a ser feito com base em contratos pagos pelos cofres da coroa. Os antigos cargos de almirante-mor, condestável do reino e marechal passaram a ser exclusivamente honoríficos, sendo os principais cargos militares nomeados por carta régia, de acordo com o livre arbítrio do soberano112.
A necessidade de manter um dispositivo militar que cobrisse toda a extensão dos novos territórios ocupados e conquistados e as dificuldades crescentes para defender as praças africanas que levou, inclusive, à necessidade de abandonar algumas delas, obrigaram D. João III a determinar obrigações militares gerais. De acordo com o regimento de 7 de Agosto de 1549, todos os homens entre os 20 e os 65 anos de idade ficaram na situação de recrutáveis. Este regimento determinava ainda o tipo de armas com que cada um se devia apresentar de acordo com critérios de riqueza pessoal.
A lei das ordenanças sobre os cavalos e armas de 1549, introduz um princípio de militarização geral da sociedade, abrindo para o acesso a privilégios aos que não os tendo de origem, pela riqueza penetravam agora nesse mundo dos «defensores», na parte mais reservada, naquela dos que não podiam ser castigados com pena vil.113
Porém estávamos ainda no limiar das grandes reformas que ocorreriam durante o século XVI. As novas disposições não só não definiam uma cadeia de comando como mantinham algumas formações arcaicas, desajustadas das novas necessidades militares114. Sendo estas algumas das razões apontadas para o seu insucesso, foram, porém, as resistências à sua aplicação, não só da nobreza mas também das camadas populares a determinar a sua ineficácia.
112 Ferreira Martins, História do Exército Português, Lisboa, Inquérito, 1946, p. 109-110.
113 Joaquim Romero de Magalhães, «As estruturas políticas da unificação» in José Mattoso (Dir.), História de Portugal, volume V, Joaquim Romero de Magalhães (Coord.), No alvorecer da modernidade, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007, p. 116.
Publicada a 6 de Dezembro de 1569, reinava então D. Sebastião, a Lei das
Armas que cada pessoa é obrigada a ter em todos os Reinos e Senhorios de Portugal
não parece ser mais que o reforçar das normas do regimento de 1549, estabelecendo novos valores de riqueza para a obrigatoriedade da posse de cavalos. Também esta lei se defrontou com resistências à sua aplicação que, todavia, não impediriam:
(…) que o rol de todos os moradores de Lisboa, com o
armamento exigido pela recente “lei das armas”, estivesse já concluído pelo S. João [do ano de 1570], permitindo estabelecer a formação de companhias de milicianos, dotadas dos respectivos capitães e oficiais, em cada freguesia. Segundo alguns testemunhos, para o treino destas tropas foram contratados sargentos italianos, peritos nos métodos militares então praticados na Europa.115
D. Sebastião, entusiasmado com o sucesso destes exercícios militares, não «(…) não tardou a marcar novo exercício para o princípio do Outono, desta vez extensivo às tropas a cavalo e envolvendo já trinta companhias.»116 No final desse mesmo ano seria publicado o Regimento dos capitães-mores, & mais capitães117. A partir de então, «(…) os homens que, anteriormente já tinham sido obrigados a dispor das armas, passam a integrar um corpo militar, fixando-se a respectiva posição.»118 Pretendia-se criar uma «(…) estrutura militar susceptível de enquadrar, exercitar e disciplinar todos os homens aptos para o serviço militar»119. Estavam assim criadas as companhias de ordenanças que viriam a revelar-se de importância fundamental na defesa do território nacional, quer durante a campanha da Restauração, quer no combate às tropas napoleónicas.
Cada companhia de homens a pé – infantaria – deveria ser composta por dez esquadras de vinte e cinco homens120. Tinha o seu capitão, um alferes, um sargento e cabos de esquadra que garantiam o enquadramento dos soldados, sendo estes recrutados através das capitanias adstritas a cada circunscrição militar territorial.
115 Maria Augusta Lima Cruz, D. Sebastião, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006, p. 180. 116 Ibidem.
117 Regimento dos Capitães Mòres, & mais Capitães, & Oficiais das Companhias da gente de pé, & de cauallo, cavalo, & da ordem que terão em se exercitarem, Almeirim, 10 de Dezembro de 1570.
118 Joaquim Romero de Magalhães, «As estruturas políticas da unificação» in José Mattoso (Dir.), História de Portugal, volume V, Joaquim Romero de Magalhães (Coord.), No alvorecer da modernidade, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007, p. 117.
119 Maria Augusta Lima Cruz, op. cit., p. 180.
120 «Cada companhia serâ de duzentos, & cincoenta homës cinquenta homens, em que hauera dez esquadras & e tera hum Capitão, & hü Alferez, & hum Sargento, & hum meirinho, & hü escrivão, &
dez Cabos.» in Regimento dos Capitães Mòres, & mais Capitães, & Oficiais das Companhias da gente de pé, & de cauallo, cavalo, & da ordem que terão em se exercitarem., s.l., Impresso por Pedro Crasbeek, 1598.
Responsável máximo em cada capitania, o capitão-mor seria, por inerência, o alcaide-mor ou o senhor da terra, quando nela residisse. Todavia, a situação mais comummente verificada era a não residência efectiva do senhor da terra, cabendo então às câmaras eleger os capitães-mores. Essa eleição não poderia ser aleatória, a selecção dos elegíveis deveria respeitar a regra de «(...) que fossem escolhidas pessoas "principais das terras"»121. Quanto aos restantes oficiais; capitães, alferes e sargentos, a sua eleição «(...) far-se-ia na Câmara pelos seus oficiais e "pessoas que costumam andar na governança", na presença dos referidos capitães-mores.» 122
Ao capitão-mor era atribuída como missão principal o levantamento da «(...) gente que há na sua capitania e termo obrigada a ter armas, fazendo assentar os seus nomes pelo escrivão da câmara em livro que para isso haverá numerado e assinado pelo dito capitão.»123 Para o auxiliar nas suas funções tinha como oficial auxiliar um sargento-mor, naturalmente também ele nomeado de entre os notáveis da terra.
Vaza Pinheiro ao sublinhar a importância social do sargento-mor no reinado de D. Sebastião124, tentando fazer um contraponto com a actualidade, associa-a ao exercício do cargo, quando na realidade ela é resultado da condição social do nomeado. Este é o típico erro que se pode cometer quando, levados pela emoção, olhamos o passado a pensar no presente. A tentativa de valorizar a classe, através do prestígio social do sargento-mor no século XVI, leva o autor a ignorar uma realidade em tudo diferente da actual.
O pessoal recrutado nas circunscrições atribuídas a cada capitania era distribuído pelas companhias de ordenanças. Estas tinham como seu máximo responsável o capitão-mor que, coadjuvado pelo sargento-mor, devia superintender ao treino militar das companhias. A partir das companhias de ordenanças eram levantados os terços. Esta não era, porém, uma competência do capitão-mor. Era aos comissários reais que estava cometida a responsabilidade pelo levantamento dos terços. Com a extinção das milícias e das companhias de ordenanças, pela reforma liberal de 18 de Julho de 1834, foram também extintas as capitanias, bem como os cargos de capitão-mor e sargento-mor.
121 Cf. Fernando Dores Costa, «Milícia e Sociedade» in Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira (Dir.), Nova História Militar de Portugal, vol. 2, (António Manuel Hespanha (coord.)), Lisboa, Círculo de Leitores, 2004. p. 73.
122 Ibidem. 123 Idem, p. 74.
124 «Como se pode observar, nestas leis de D. Sebastião já era conhecida a categoria de sargento-mor. Mas o que é de realçar é a importância social que nessa altura gozava!» – Vaza Pinheiro, Os Sargentos na História de Portugal. Viagem na Nossa Memória Colectiva, Lisboa, Editorial Notícias, 1995, p. 18.
Na organização militar portuguesa, encontraremos ainda, como adjuntos de outros oficiais hierarquicamente superiores, o sargento-mor de comarca, o sargento-mor da praça e o sargento-mor de brigada. O sargento-mor de comarca era o oficial responsável pelas ordenanças de uma comarca. A ele poderiam estar subordinados vários capitães-mores. O sargento-mor da praça era o encarregado, numa praça de guerra, pela organização e supervisão das guardas dessa praça, passando este cargo a ser designado, a partir dos finais do século XVIII, major de praça. O cargo de sargento-mor de brigada, já anteriormente referido, era ocupado por um sargento-mor, escolhido de entre os sargentos-mores dos regimentos da brigada. Era nomeado pelo brigadeiro comandante da respectiva brigada. Como chefe do estado-maior da brigada tinha, entre outras, a missão de receber as ordens dos sargentos-mores de batalha e de as transmitir ao seu brigadeiro e aos restantes sargentos-mores dos regimentos da brigada. Também este cargo, em finais do século XVIII, passou a ser designado por major, neste caso de brigada.
Nas companhias, os oficiais eleitos pelos concelhos – capitães, alferes e sargentos – gozavam de um conjunto de prerrogativas que, contribuindo para um reforço do seu prestígio junto da comunidade, funcionavam como incentivo à aceitação dos respectivos cargos. Um desses incentivos era o de poder usar o título de cavaleiro125.
Essa prática manteve-se ao longo dos séculos. Ainda no reinado de D. José era possível a nobilitação através do exercício militar. Segundo Sousa de Lobão, «(…) principiam a ter nobreza ainda mesmo “os capitães das Companhias, e sargentos delas”… contanto vivam nobremente com bestas e criados, sem emprego em exercícios rústicos e mecânicos… e todos os mais oficiais da Milícia e Tropa Viva.»126
Nos terços, ao sargento-mor era atribuído um conjunto de funções substancialmente diferentes daquelas que lhe era atribuído nas capitanias. Como adjunto do mestre de campo ou do coronel, desempenhava um papel fundamental na vida da
125 «E pera que os capitães das cõpanhias, & os alferezes, & sargentos dellas folgu
ë mais de servir os
ditos cargos,e por lhe fazer merce. Ey por bem, que cada hum deles goze, & vse do priuilegio de cavaleiro posto que o não seja.» in Regimento dos Capitães Mòres, & mais Capitães, & Oficiais das Companhias da gente de pé, & de cauallo, & da ordem que terão em se exercitarem, [Lisboa?], por Pedro Crasbeeck : vendemse em casa de Iorge Valente, liureiro, 1598.
126 Manuel de Almeida e Sousa de Lobão, Tratado Prático de Morgados, Lisboa, Imprensa Régia, 1807 apud Fernando Pereira Marques, Exército e Sociedade. No Declínio do Antigo Regime e Advento do Liberalismo, Lisboa, Publicações Alfa S. A., 1989.
unidade. Era tal a sua importância que Isidoro de Almeida, nas suas Instruções, inicia o capítulo dedicado ao sargento-mor com a seguinte afirmação:
Se a ordem cumpre tanto, nas cousas Militares, ¼ sem ela
nam se pode fazer guerra, cõ auëtaje, në menos alcãçar vitoria: muito cüpre logo ao mestre desta ordem, que he o sargëto moor ter ho perfeito entendimento della: nam tam somente, per longa pratica, & antigua experiencia de guerra, com ter visto muitas cousas & em muitas se auer achado.127
Contrariamente ao que acontecia nas capitanias, nos terços, mais do que o nível social do indivíduo, deveria pesar a experiência militar do candidato ao posto de sargento-mor. A nomeação deveria, assim, recair sobre um militar antigo, experiente na guerra e conhecedor das doutrinas militares.
Alguns anos depois, em 1598, Bartolome Scarion volta a enfatizar as qualidades necessárias para o bom desempenho do cargo:
A todo o genero de hóbre no pertenece ser Sargento mayor, porque deue ser hóbre Rezio, que pueda tolerarlos los trabajos de dia y noche, a pie y a cauallo.
Deue ser tambien platico, y entender las cosas de la milícia tam puntualméte, como qual quier official mayor, y possible fuera mejor, porque de mas de saber platicar las cosas de la milícia, ha de saber ponerlas en execucion, y es cargo tam preheminente, que los Romanos el mismo superior del exercito, que es el General lo vsaua el mismo.128
Já no século XVII, João de Brito Lemos, no Abecedario Militar, inicia o Livro
Segundo com as instruções dedicadas ao exercício do posto: «Do Sargento môr, singular cargo, preeminente na guerra, por cuja mão passa todo o essencial della, como aqui se mostrarâ»129.
Este cargo de Sargento mòr, estâ bem entendido ser Tenente de Coronel de hü Terço, em que serve este cargo, & requeresse que
seja mui hábil, & destro Soldado, o ¼ ha de exercitar, & entender o
tal cargo, & que seja bom contador, robusto, & ágil de sua pessoa, que represente autoridade, & que seja diligente, & vigilante, & ha de ser Procurador, & Mestre principal da gente de seu Terço, & Faraute, de quem pendem todas as diligencias, cuidados, necessidades, & remedios de todo o Terço, & todos os aduertimentos, & provisões que nelle se costumam usar, haõ de passar por sua mão,
127 Isidoro de Almeida, idem, p. 167.
128 Bartolome Scarion de Pavia, op. cit., fl. 56.
129 João Brito de Lemos, Abecedario do que o soldado deve fazer até chegar a ser Capitão & Sargento Mór, Livro Segundo Deste Abecedario Militar (…), vol. 2, Lisboa, Pedro Craesbeeck Impressor del Rey, 1631, fl. 1.
& elle ha de tomar de seu Coronel, como de cabeça, & Caudilho, guia, governo, & justiça ordinaria de seu Terço, todas as ordés, e as ha de executar o Sargento Mayor130.
Apesar da criação do posto de tenente-coronel – com a publicação do regimento de 1707 – que irá alterar de forma significativa o estatuto do sargento-mor na orgânica do regimento, o seu papel na organização e no dia-a-dia do regimento parece não se ter alterado significativamente. Na sua obra Milicia pratica, e manejo de infantaria, publicada em 1740, Bento Gomes Coelho reitera que:
O Officio, e cargo de hum Sargento mayor de hum Regimento de Infantaria consiste (...) em ser vóz do Coronel e Mestre dos Soldados, e o que exercitar este cargo convém que seja de claro entendimento, Soldado visto em todos os sucessos da Guerra, habil, e destro no que quizer executar (...)131.
Acrescenta ainda que por ele deveria passar:
(...) todo o bom governo economico do seu Regimento (…)
guiando-se sempre pela ordem do seu Coronel, ou de quem governar o Regimento, como cabeça, caudilho, guia, governo, e justiça ordinaria do seu Regimento, e todas as ordens, que estes lhes derem, as háde o Sargento mayor distribuir, fazendo-as executar porque nelle descança o seu Coronel, ou Commandante, assim nas Praças, como em Campanha132.
A leitura dos textos que compõem o anexo 1 a este trabalho, permitir-nos-á ter uma noção mais exacta da complexidade das funções do sargento-mor. Ele era não só o elemento de ligação entre as unidades de manobra e o comandante do terço, mas também o responsável pelo treino e disciplina do seu regimento:
(...) a universal obrigaçaõ do sargento mayor, consiste o
primeiro, em saber dar, e distribuir as ordens, e conhecer o para que se applicaõ, e o effeito para que se daõ: o segundo, saber ensinar os Soldados, para que estes manejem as armas com boa desenvoltura, ar, e graça; e ao mesmo tempo movaõ os seus corpos com acerto; e saybaõ como haõ de executar os movimentos, que se lhes mandarem fazer com igualdade (...).133
Era, ainda, aquilo que hoje designaríamos por comandante operacional, o oficial táctico por excelência que teria que conhecer o «(…) quanto essencial he para o seu
130 Idem, fls. 3-4.
131 Bento Gomes Coelho, idem, p. 35. 132 Idem, p. 36.
credito o saber as formas; e o quando se háde utilizar delas (…)» 134. Por esta razão teria que:
(...) o Sargento mayor naõ só ser pratico em entender as
cousas da guerra, como os (....) Generais, ou outro qualquer Official mayor, mas (sendo possivel) melhor; porque de mais de saber praticar as cousas da milicia, háde saber dallas á execução (...).135
A acção do sargento-mor poderia mesmo, em determinadas circunstâncias, vir a revelar-se decisiva no decorrer de uma batalha. Em Alcácer Quibir, de acordo com alguns autores, terá sido uma voz de comando, dada pelo sargento-mor Pedro Lopes, a precipitar a retirada de parte das tropas portuguesas, a qual iria estar na origem da desorientação e pânico que se seguiriam nas fileiras cristãs136.
Como acontece em muitos outros momentos históricos, também aqui a unanimidade se encontra ausente. Para Maria Augusta Lima Cruz, não terá «(…) sido o grito de Pêro Lopes a causa determinante do descalabro [das forças portuguesas] mas, antes a desorganização e a falta de coordenação da infantaria.»137
Há ainda os que defendem a acção de Pêro Lopes:
O capitão Pêro Lopes, sargento-mor dos aventureiros, velho soldado de África, deu a voz de ter, quando estes no seu avanço, tinham destruído o centro inimigo; tb. não é menos evidente que ele queria manter a formação; só assim era possível resistir aos Mouros obstinadamente até provocar a sua dispersão.138
Não nos envolveremos nesta discussão. Apenas pretendemos aqui sublinhar o papel central que o sargento-mor poderia ter no campo de batalha.
134 Idem, p. 38.
135 Idem, p. 42.
136 Francisco de Sales Loureiro descreve deste modo aquele episódio: «Entretanto, o esquadrão dos aventureiros arranca impetuosamente para o grosso das tropas inimigas, levando de fugida os Mouros, com o seu chefe Mulei Hamet. E é então que o sargento-mor Pedro Lopes, ao ver ferido o capitão, Álvaro Pires de Távora, grita o tristemente célebre “Ter Ter!, que, quebrando o ímpeto dos nossos, faz recobrar a coragem dos Mouros em retirada, para se ressarcirem no ataque, que nos foi fatal.» – Francisco de Sales Loureiro, «D. Sebastião e Alcácer Quibir» in José Hermano Saraiva (Dir.), História de Portugal, vol. 4, Lisboa, Publicações Alfa, 1983, p. 150.
137 Maria Augusta Lima Cruz, op. cit., p. 280.
138 G. de Mello e Mattos, «Alcácer Quibir (Batalha de)» in Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 1.º vol., Lisboa, Editorial Verbo, s.d.. – Para este autor «(…) foram a má direcção do exército e a má qualidade das tropas as causas da derrota. D. Sebastião não comandou; combateu heroicamente, mas dispersou-se, sem plano fixo (…). Os terços provinciais, pela maior parte, foram incapazes de combater.»
Até à publicação do Decreto de 1 de Agosto de 1796, o sargento-mor poderia acumular com as suas funções, a de capitão de uma companhia139. Mais do que uma opção, esta parece ter sido, aliás, uma prática comum e quase obrigatória:
O Sargento mór, deue ser capitam düa cõpanhia de ifanteria, & esta deve ser a segunda depois do Mestre de Campo, & assi deue ter as priminencias, & ventajes no segundo lugar: custama se ter companhia por ter mor autoridade. Deue fazer eleição, de hum nobre