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İLİŞKİLİ TARAFLARDAN ALACAKLAR VE BORÇLAR................................................................ 20-21

Em João Antônio, não há heróis inteiriços, nem na esfera do trabalho nem na da malandragem. O impasse do Macunaíma segundo Gilda Mello e Souza é, grosso modo, posto noutros termos por um autor que não recua: enfrenta a derrota dos dois lados. São, semelhantemente, relações de improviso, mas nas quais nem todos os termos da equação se encontram protegidos, sancionados. Os privilegiados são os que descem na esfera da ordem, mas sob certas condições. Mas já não era assim? Quando Antonio Candido privilegia Leonardo Filho, não se trata mais ou menos da mesma coisa?

Nos contos de João Antônio, a relação entre malandros e otários é, ao mesmo tempo, predatória e de dependência mútua; um justifica a existência do outro, mas não parecem capazes de se compreender uns aos outros, em geral. Os personagens de João Antônio, por uma ou outra razão, são empurrados a um egoísmo violento; centram-se em si mesmos, temerosos de perder mais do que a vida e o tempo já levaram, protegem-se inclusive dos sentimentos, como reza o ensinamento brutal de Laércio Arrudão – ironicamente influenciado por uma espécie de amor paternal e pelo desejo de perpetuar seu mundo querido e permanecer justificado num mundo em ruínas – mas acabam, por isso, caindo num círculo vicioso impossível de quebrar: o vazio dos mais brutalizados vem também de terem se protegido de ter sentimentos. Nesse sentido, o título do livro de João Antônio publicado em 1986, Abraçado ao meu rancor, inspirado num tango antigo, é bastante sintomático e ilumina mesmo sua produção literária anterior.

Esse isolamento tem profundas raízes na obra de Lima Barreto e na de Graciliano Ramos (para Osman Lins, Graciliano Ramos deve a Lima Barreto, sobretudo na construção do São Bernardo, a construção autorreflexiva e isolada dos seus personagens duros). João Antônio, ao escolher o conto, radicaliza ainda mais esse processo profundamente arraigado no romance. O espaço menor do conto faz com que esse egoísmo se adense ainda mais, e que as outras presenças praticamente desapareçam. Note-se a quase ausência de diálogos na obra de João Antônio: as falas aparecem isoladas, como vaticínios, e muitas vezes se repetem, sem conseguirem uma resposta direta. O autor, porém, se concentrou em dois universos que se apoiam um no outro, mas se estranham, não chegam a uma compreensão mais profunda um

do outro, mesmo que cheguem a desejar algum tipo de aproximação. Os malandros e os otários fazem parte de uma espécie de dicotomia na obra de João Antônio, sobretudo nos dois

primeiros livros. Em dois contos, porém, o confronto se aproxima mais; são eles “Visita”, de

Malagueta, Perus e Bacanaço e “Joãozinho da Babilônia”, de Leão-de-chácara.

O livro de estreia de João Antônio, sobre o qual se concentra essa análise, é a coletânea de contos Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963. A coletânea é dividida em sessões, como o autor faria, também, nos livros posteriores. As sessões são: Contos gerais, Caserna e Sinuca. Os três primeiros contos da primeira sessão remetem a uma constante situação de insatisfação com a vida das personagens-narradoras. Segundo Vima Lia Martin:

As personagens que protagonizam os três contos são “otários” que rejeitam os valores burgueses cultivados por seu meio social e sofrem de uma insatisfação profunda advinda de uma certa consciência que possuem acerca das contradições sociais e das limitações inerentes ao lugar social que ocupam. São personagens masculinas que, ao sofrerem a experiência do deslocamento psíquico e ou social, acabam por ser porta-vozes da angústia daqueles que não incorporam a ideologia burguesa, pautada em valores como o trabalho e a família. (MARTIN 2008:73)

Esses contos são mais dedicados à memória da juventude do próprio autor, na qual João Antônio recorre ao sumário-narrativo e a breves cenas postas mais ou menos em ordem cronológica. Servem para ajudar a compreender a formação do cotidiano do personagem. Ressalte-se, ainda, nesses contos, a fixação dos personagens pela rua, por um distanciamento do cotidiano ordeiro e das expectativas mesquinhas das suas famílias. E não por acaso o livro

abre com um conto chamado “Busca”, sucedido pelo célebre “Afinação na arte de chutar tampinhas”. Mas é no conto “Visita”, o segundo da sessão “Sinuca”, que esse conflito se torna

mais gritante. Enquanto os personagens dos contos anteriores vagam não sabendo ao certo em busca do que, mas talvez bem certos daquilo que não querem, o personagem-narrador de

“Visita” é um arrimo de família que se torna um trabalhador responsável após um bom tempo

preocupando a família e escandalizando a vizinhança ao levar a vida no jogo de sinuca. A pressão social faz com que ele mude, mas o narrador, claramente, não acredita no papel que lhe impuseram nem lhe vê futuro:

(…) bobagem economizar níqueis. Jamais se tem alguma coisa. A taxa do colégio,

uma farra qualquer, levam tudo. O diabo é que eu não nasci trouxa, aqueles tempos de jogo, quando desempregado, me ensinaram que eu não nasci trouxa. Agora, o salário minguado dá para cigarros de vinte cruzeiros e cachaça de quando em quando. Se o mês aperta, corta-se isso. (ANTÔNIO 1987:72)

O descrédito, irônico e amargo, vem justamente de o narrador poder comparar as duas situações.

Já curti um desemprego, cinco meses que eu sei… Vida do joguinho. O dia na cama,

a noite na rua. Cinco meses. Mas naquele tempo eu fumava cigarros estrangeiros e mandava polir as unhas. Não engolia desaforos. Dinheiro? Eu tinha muita cabeça e era um taco de verdade. Noites de levantar quatro-cinco contos! Mas jogo é jogo e eu não nego – peguei rebordosas medonhas – não foi uma vez que deixei o salão

sem dinheiro para o ônibus. A casa… a família reunida para as reprimendas que

duravam duas horas. O vagabundo, o ingrato, o perdido, o isto e o aquilo ouvia sem dizer nem pau nem pedra. Os olhos no bico dos sapatos. Aborrecia-me. Puxava uma, duas das notas maiores e entregava. Preocupação, remorso, vergonha? Não, não, nada disso. Era sono, que eu passara a madrugada em volta da mesa me batendo, jogando, suando, arriscando, perdendo, ganhando. Por isso aturava o esporro – queria dormir. Falassem. Moral para a família rezadeira é agüentar máquina de cálculo oito horas por dia, agüentar chefe estrangeiro. Bitola, manha, idiotice e

ganhar seis contos no fim do mês. Hoje sou um bom rapaz… (ANTÔNIO 1987:73-

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O personagem sai em busca de um velho amigo daquela época, para ver se revive, por um instante, os velhos tempos, mas não o encontra, aliás, não só não o encontra, como o velho amigo, Carlinhos, lhe parece agora interditado, inacessível. O narrador, então, vai a uma sinuca para jogar uma última vez; faz apostas de baixo valor e perde, para logo depois, decepcionado consigo mesmo, ir embora. A impossibilidade de encontrar o fabuloso Carlinhos é a impossibilidade mesma de encontrar o seu velho mundo fácil. Nem a malandragem nem o mundo do trabalho, imagens que o samba alternou, oferecem o horizonte libertador. João Antônio nega os dois termos da equação.

Para Márcia Regina Ciscati (2001:110), o malandro pode eventualmente ser passado para trás, como um otário qualquer, por um outro malandro ou pela polícia, ou melhor, sempre que deparar com um malandro de mais esperteza ou com um poder que ele não pode superar, ou que não pode se arriscar a querer superar. Parece o caso de Joãozinho da Babilônia, leão-de-chácara que se apaixona por uma garota de programa, amante de um velho endinheirado. Guiomar, a garota em questão, jovem, mimada, leviana e irresponsável, mas que conhece a mesma vida dura de que Joãozinho é íntimo, sofre com os ciúmes e a figura patética do velho, que ela não ama e que a vê apenas como um objeto de sua posse, que ele ameaça, inclusive, destruir se não o obedecer. Joãozinho medita na situação em que se meteu. Não se sente bem mantendo um caso com a moça com medo de estar se arriscando e de ela mesma estar pondo tudo a perder, pois, apesar de tudo, o velho lhe faz todas as vontades, cede-lhe o dinheiro e, a princípio, é isso que importa (sobretudo para um malandro experiente como Joãozinho); mas não consegue ficar indiferente ao relato de sofrimento que Guiomar, por ele apaixonada, lhe faz da vida com o velho endinheirado. Joãozinho, então, medita uma saída drástica ao encontrar o velho por acaso.

Havia botequim aberto, um só. Fui apanhar cigarros./Flagrei o velho. Bebia sozinho, último freguês, de costas para a porta. O garção português, bigodes virados, gravata

borboleta, aguardava para fechar com o ferro na mão. Aporrinhado, arriado numa cadeira dos fundos, quase ressonava. Fui chegando manso, devagar, no lance de dar o bote. Batista não me via. O garção não me via. A noite corria sem barulho./chegando. Podia lhe dar uma porrada de cima pra baixo, empapuçar a cara balofa no copo e completar o serviço com uma cadeira. O cachorro não teria tempo de dar à mauser./Quatro e tanta da manhã. Ele estava sonado, meio triste ou enfarado, com explosões de alegria que duravam, cabeça pendida no vinho. Vontade me crescendo. Podia lhe plantar um muquete na cabeça. Ouvi que rosnava qualquer coisa, de dentro do peito, quando em quando abrindo os olhos já ressacados. Provavelmente havia passado a noite num bordel. Mamado, chumbado, derreadinho. Onde eu estava não lhe enfiava o cacete? Ficava menor do que era, encolhido ali. Encorujado. Engrolava na voz pastosa e sumida. Sozinho:/– Chegou Batistão, alegria das mulheres. Chegou o bom, chegou o dinheiro./Então, pedi cigarros, paguei, ganhei a Praça. (ANTÔNIO 1975:83)

Joãozinho da Babilônia não age; nem explica o que o parou. Pensa-se, a princípio, que se trata de piedade: o patético do velho se patenteia em pinceladas rápidas; apesar do seu poder de mando, trata-se de uma figura ridícula, um solitário que precisa comprar companhia. Por outro lado, Joãozinho, como bom malandro, pode ter pensado até que ponto aquele valia a pena: ele mesmo não tinha como dar a Guiomar a mesma boa vida que Batistão lhe dava, e, como se isso não bastasse, cometer um crime por paixão seria uma típica atitude de otário, chamando atenção sobre si desnecessariamente em vez de continuar, quietamente, se aproveitando da situação.

No final, Joãozinho sabe pelos jornais que Guiomar foi assassinada; a notícia não diz por quem, mas ele sabe de quem se trata, e sabe que não pode fazer nada, porque a palavra de um malandro não pode ser ouvida, nem muito menos seria preferida à de um figurão. Batistão, um notório otário, acaba cometendo um crime fútil, pelo qual não será julgado nem muito menos condenado.

Como se vê, nem todos os otários são iguais; o que os distingue é uma característica superficial que, paradoxalmente, muda tudo: o otário é medido, também, de acordo com o seu poder aquisitivo; é isso que lhe permite “baixar eventualmente ao mundo agradável da

desordem” (CANDIDO 2010:37). Batistão, porém, será tanto mais otário quanto mais estiver

disposto a perder, mas também exigirá mais cuidados e, em certo nível, permanecerá inatacável.

Batistão frequenta a malandragem como seu cliente, e jamais deixaria de ser otário, mas tem o direito, por exemplo, de dispor da vida dos que estão ao seu redor sem precisar temer que nada lhe aconteça. Atentar para isso denota a indiferença para com o destino dos marginalizados. Batistão, o otário, continua, protegido, na esfera da ordem, que nunca o desguarneceu, mesmo quando mergulhava no mundo da desordem. E, ainda assim, Batistão é o tipo de otário que jamais deixaria de sê-lo.