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Encerramos aqui essa etapa de nossa pesquisa. Não visamos encontrar nenhuma resposta hermética para os questionamentos levantados, pelo contrário, nossas investigações acabaram revelando a complexa teia que envolve essas narrativas, mesmo que elas, aparentemente, tratem de fatos triviais.

As infâncias na escrita de Clarice Lispector e Katherine Mansfield são marcadas pelo estranhamento diante das regras do mundo adulto. Suas meninas necessitam transgredir a ordem estabelecida, mesmo quando esta as beneficia como acontece com

Kezia, de “A casa de bonecas”. A infância é ampliada pelo olhar das escritoras que não

hesitam em revelá-la sob perspectivas múltiplas, privilegiando, porém, a percepção da criança.

A infância configura um elemento essencial da narrativa clariciana, ela não pode ser domesticada, encerrada a um único espaço de atuação, como nos mostra Nilson

Dinis, ela é “[...] espaço da transgressão, espaço da liberdade, espaço da inventividade,

espaço do sadismo, espaço da perversão, espaço da dor, espaço da alegria. São muitas as faces da infância que nos apresenta Clarice.” (DINIS, 2006, p. 204). Para Katherine Mansfield, a infância é parte essencial de seu fazer literário. Seus contos oferecem uma delicada pintura de seus primeiros anos em sua terra natal, reconstruindo experiências cruciais na vida de qualquer criança através de imagens metafóricas. Seu projeto de escrever sobre a infância manifesta-se em sua escrita confessional.

Agora, agora que quero escrever as recordações de meu país natal até que

o estoque se acabe. Não apenas por ser uma “dívida sagrada” que saldo

com meu país, por termos nascido lá, meu irmão e eu, mas também porque em meus pensamentos caminhamos os dois por todos aqueles lugares relembrados. Nunca me sinto longe deles. Desejo ardentemente recriá-los ao escrever. (MANSFIELD, 1996, p.61).

Realizamos a análise dos contos selecionados que compõem o corpus a partir do referencial teórico apresentado nos dois primeiros capítulos. No primeiro, estudamos a evolução no conceito de infância até a atualidade, que designa espaços e saberes específicos para as crianças. Percebemos que a ideia de poder definida por Michel Foucault é essencial

para que possamos compreender o comportamento dos sujeitos nesses espaços, já as relações de poder permeiam as instituições nas quais as crianças dos contos são apresentadas (a escola e a família) assim como as relações sociais que acontecem em outros espaços.

No segundo capítulo constatamos a presença frequente da infância na Literatura e apresentamos as diferentes representações da criança nas obras literárias. Analisamos o contexto histórico e cultural ocupado pelas escritoras e percebemos que, apesar de mais recente, a escrita clariciana representa problemáticas semelhantes àquelas presentes nos contos de Katherine Mansfield. Evidenciamos também o contado marcante de Clarice enquanto leitora com a escritora neozelandesa e a relação entre suas obras.

No terceiro capítulo realizamos a análise comparativa dos contos escolhidos tomando os estudos de Michel Foucault acerca do biopoder como fundamento teórico. Procuramos mostrar a instabilidade das relações de poder que envolvem as crianças. As instituições, mesmo não utilizando da violência física para controlá-las e discipliná-las, ainda tentam reprimi-las. Elas, em sua maioria meninas, posicionam-se de forma transgressora, questionando as figuras que detém a autoridade, sejam estas outras crianças ou adultos. A criança pode inverter essa posição e surgir como observadoras do panóptico foucaultiano, passando, por sua vez a oprimir o adulto. É o que verificamos em “Desastres

de Sofia” e “Aula de canto”. Nesses contos é o julgamento da criança que controla o

comportamento dos professores. A posição ocupada pelas personagens nesse jogo de tensões está em constante movimento, por isso elas precisam desenvolver estratégias, preparando-se para atuarem ora como opressores, ora como oprimidas. Desse modo, as representações da infância nos contos em questão são elaboradas com complexidade, rompendo com a visão maniqueísta da relação entre a criança e o mundo adulto, ou até mesmo entre as próprias crianças.

Com isso, verificamos que as hipóteses que formulamos se fundamentam. As tensões que ligam a ideia de poder e infância são instáveis, logo não há um lugar fixo a ser ocupado pela criança ou pelo adulto nas relações de poder. As meninas podem questionar a

ordem vigente, como a Sofia, cujo “[...] corpo não obedece, não é um corpo dócil,

domesticado, que se molde com facilidade às normas preconizadas pelo professor, pela mãe

submetidas ao discurso repressor, como as meninas assustadas e chorosas diante ira da

professora em “Aula de canto”. Destacamos que a mudança nas relações de poder ocorrem

dentro do mesmo conto: Sofia teme o professor, assim como a professora do conto de Mansfield teme o julgamento de suas alunas.

Concluímos, portanto que as crianças da contística de Clarice Lispector e Katherine Mansfield subvertem as relações de poder estabelecidas pelas instituições voltadas para a infância. A visão dessas personagens, geralmente associada ao protagonista mesmo quanto não se trata de uma narrativa autodiegética, metaforiza as problemáticas enfrentadas pelas crianças em seu processo de autoconhecimento. Contudo, as representações da infância não se limitam a um único olhar, mas inserem-se no mecanismo panóptico de Foucault. Mesmo enquanto vítimas, elas ocupam uma posição ativa, como a

protagonista de “Felicidade Clandestina”. Dessa forma, percebemos que as meninas de

Clarice Lispector e Katherine Mansfield rompem com a visão da criança como um ser oprimido pelo universo adulto.

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