1 OCAK - 30 HAZİRAN 2016 ARA HESAP DÖNEMİNE AİT ÖZET KONSOLİDE FİNANSAL TABLOLARA İLİŞKİN AÇIKLAYICI DİPNOTLAR
DİPNOT 3 - İLİŞKİLİ TARAF AÇIKLAMALARI (Devamı) f) İlişkili taraflara mal ve hizmet satışları
A Redonda de algumas décadas atrás, como estamos a contar, não dispunha de serviços básicos como escolas ou unidades de saúde. São enfáticas nas narrativas dos moradores as dificuldades no acesso a esses espaços, que só podiam ser encontrados na cidade de Aracati e, mesmo assim, escassos e limitados. As mulheres, principalmente, guardam sofridas lembranças nas dificuldades que passavam por ocasião dos partos ou de doenças das suas crianças, conforme nos apresentam as narrativas seguintes:
A finada Biinha teve um parto de um menino da cabeça grande, e esse menino saiu o corpo, mas ficou com a cabeça dentro. Ela passou dois dias nesse sofrimento e noutro dia eles foram, de pés para Aracati, procurar um doutor (...) E mamãe, também sofreu muito, quando foi pra me ter, porque ela não sabia que era dois, uma barriga de gêmeos, eu e Bastião. Aí eu nasci primeiro e ela ficou sofrendo com dores tiranas, sem ninguém saber o que era. Até que foram buscar uma parteira muito boa, lá nas bandas de Peixe Gordo. Quando ela viu, que examinou, disse logo: - é dois, mas tem paciência que se eu conseguir pegar nem que seja na orelha desse menino eu salvo tua vida (Cocoa).
A mortalidade infantil era bem acentuada, ou nas palavras da moradora: “o
sino vivia batendo”.Vejamos:
Criança morria muito naquele tempo. E porque cada criança que morria batia o sino, o sino vivia batendo, tinha dia de morrer quatro ou cinco. As crianças não resistiam, comiam muita farinha, não tinha leite aqui. Morreu muita criança. Pra se ter uma ideia, tinha mãe que teve vinte filho, só se
criou quatro. Dizia que morreu de doença de criança. Eu acho de disenteria, os cuidados que não eram adequados, talvez verme, os cuidados (...) (Chiquinha)
Naquele nosso tempo morria menino que nem folha de pau. Morria menino demais. Porque as mães, por mais que fosse cuidadosa, ela não tinha o ideal, não sabiam o ideal pra criança. Uma que não tinha médico, outra que nós não tinha ensino de ninguém, as mães não tinha ensino de ninguém pra ensinar, sem higiene com as crianças. Aquelas mães que não eram tão sofrida pelo bocado, inda ajeitava os menino, catavam as cabeça dos meninos. Os pezinhos não tinha bicho. Mas essas outras que trabalhavam no mato, passava o dia inteirinho nos mato, trabalhando na agricultura, os menino era cheio de bicho, cheio de piolho, morrendo de fome, esperando as mães chegar de noite, com o algodão na cabeça, as trouxas de algodão. E aí em saúde ninguém nem falava (Luísa).
Percebemos, por esta última narrativa, que os cuidados precários para com as crianças, de início, aparecem para a narradora como resultado de uma falta de conhecimentos por parte da mãe (“não sabiam o ideal pra criança”). Entretanto, no
seguir da fala, a narradora deixa transparecer as reais condições que impediam um cuidado melhor prestado, não sendo simplesmente ausência de conhecimentos, mas, sobretudo, a necessidade, por parte da mãe, de ter que labutar duramente pelo sustento dos filhos – “passava o dia inteirinho nos mato, trabalhando na agricultura,
os menino era cheio de bicho, cheio de piolho, morrendo de fome, esperando as mães chegar de noite, com o algodão na cabeça, as trouxas de algodão”.
Observemos que a própria narradora reconhece que “aquelas mães que não eram
tão sofridas pelo bocado, inda ajeitavam os meninos, catavam as cabeças dos meninos, os pezinhos não tinha bicho”.
Ao recordar sua própria infância, mais uma vez ela deixa transparecer, implicitamente, essa percepção, quando assim se coloca:
E aí se a gente tivesse com fome assim e ia pedir a mãe um pedacim de rapadura, ela dizia: “muié vai caçar uns palmito ai por debaixo desses coqueiro, pra vocês comerem. Aí a gente ia caçar aqueles coquim, acabar partia em banda e saia comendo aquelas lapinhas do palmito, até a mãe da gente chegar dos mato pra se comer. Era assim que nós vivemos. Teve um tempo que todo mundo aqui passou muita necessidade (...) Criança morria demais. E outra, os menino, as criança, na minha época comiam tanto do barro, tanto do calvão. Tudo com fome, nera? E também num tinha remédio não. Não tinha remédio pra verme não.
A senhora Maria Josina, hoje já idosa, recorda quando perdeu um de seus filhos e da impotência que sentiu porque “não podia caçar um meio” e só lhe restava
parece que em razão de um processo interior de transformação, que vai tornando-se visível para o outro:
Eu tive um fi que morreu de catapora. Depois que sarou as cataporas, ele começou a inchar. Me ensinaram o chá da fulô do sabugo. Eu não sabia fazer direito, aperreada, num prestava atenção as coisas (...) era, de primeiro era assim, quando caía doente, quem pudesse caçava um meio, e quem não podia, ficava pela acolá... Depois pensei no que aconteceu e fui agindo, dizendo, saindo de mim... (Maria Josina)
Em adultos, por ocasião das doenças mais graves, por exemplo, pela carência de meios de transporte e de condições financeiras para o deslocamento, eram comuns as mortes por falta desses recursos, como recorda, com tristeza, uma antiga moradora de Redonda:
Eu tinha uma irmã que morreu com quinze anos e não foi levada pra lugar nenhum; nunca saiu de casa porque nós num tinha condição. Nesse tempo, não se falava em saúde, era cair doente e morrer. Muié morria de parto, morria de três, num ano só. Eu lembro da minha irmã quando adoeceu, ela deu uma dor e nunca ninguém teve com que levasse ela para Aracati, aí ela morreu, com quarenta e dois dias ela morreu (Lia).
Algumas dessas mortes vinham a ocorrer ainda durante o trajeto, à pé, de Redonda a Aracati; trajeto em que a pessoa doente era levada numa rede e carregada por homens da comunidade, em dias e noites de muito sofrimento, como vemos na narrativa a seguir:
A finada Rosa teve uma hemorragia no parto; foi um hemorragia grande, esse sangue num cessava, então tinha que levar pra Aracati. Como levar? A família pobre, sem condição de nada... Foi aí que aquele bando de homem se juntou, botemo ela numa rede e vamo pra frente. Andemo, andemo, quando uns cansava, outros pegava. Era um pau em cada ponta, uns homens no punho da frente e outros no da trás. Passemo o dia e a noite pra chegar em Aracati. Com todo esse sofrimento e mesmo assim num deu nem tempo o doutor ver. Ela morreu. Sofreu muito, a finada Rosa [...] (Manoel)
Um dos traços importantes da forma como a população produz saúde, fora dos serviços sociais destinados para isso, é a participação da família e, até, da comunidade (como vimos no caso de Dalino) nos casos de doença mais graves.
Temos observado nestas experiências do povo de Redonda, como as “cartas da doença”, que quando a população produzia saúde, com seu saber de cuidado e cura, trazia outros aspectos da vida para se fazerem presentes, acabando por lidar com sentimentos de culpa, remorso, vergonha, cuidado, amor, piedade, entre outros, que são importantes para a vida e irão incorporar rezas (contato com o sagrado) e
mudanças de ações das pessoas, influenciando então o doente e as relações interpessoais do ambiente.
Sabemos que no Brasil como um todo, o direito à saúde e a tentativa de garanti-lo mediante políticas públicas que tendem a ser mais igualitárias e equânimes, é uma conquista recente e ainda com grandes desafios a enfrentar mesmo ante o modo como se enfrentam a medicina privada e a pública, o que tem como agravante as crises desse setor. É evidente que foi um avanço a luta social que chegou a implementar o Sistema Único de Saúde (SUS), que tenta enfrentar a lógica da saúde como mercadoria e garanti-la um princípio e prática do direito social de todos.
Antes da consolidação do Sistema Único de Saúde, o que se via em todos os recônditos do país eram casos como esses acima relatados. Em Redonda, particularmente, a realidade era de abandono dos povos do mar à própria sorte; como disse Manoel, agricultor do lugar: - “as família era pobre, sem condição de nada”. Com a ausência de políticas públicas, restavam a essas pessoas, em termos
de serviços de saúde, os parcos recursos encontrados no município de Aracati, mediante pagamento e a custo de uma difícil travessia, como nos é narrada pelo senhor Manoel – “Passemo o dia e a noite pra chegar em Aracati. Com todo esse
sofrimento e mesmo assim num deu nem tempo o doutor ver, ela morreu. Sofreu muito a finada Rosa”.
Contudo, não podemos deixar de ressaltar que a luta pela saúde não se restringe a ações mediadas pelo Estado. De forma alguma! Senão, teríamos que esquecer o que tratamos no item anterior, em que mostramos os povos do mar e suas práticas populares de cura, frisadas na fala da moradora:
Antes, a gente se cuidava com remédio caseiro, com cura. Com reza. Pra engasgamento, dor de dente, de vermelho, enzipa, desmentidura, espinhela, vento caído, quebrante, fogo saltiador, tumor, aqueles tumor que nasce na gente e precisa estourar, ferida do oi roxo, tanta doença que tinha e a gente cuidava com remédio caseiro, chá e com reza. Sempre se vinha pra ela, pra Tia Germana, ali (aponta para a casa vizinha, onde ela morava). Era só chegar aí que ela recebia todo mundo. Ela era uma mulher de muita fé.
Mas essas práticas precisavam, em certas ocasiões, estar aliadas a outras formas de conhecimento, para enfrentamento aos agravos que acometiam essas populações. Aí, eram quando precisavam se deslocar. Ou, quando não havia a menor condição de transportarem a pessoa adoentada, se utilizavam do recurso de
escreverem cartas da doença para os médicos de Aracati. Nesse caso, alguém da
família ia, a pé, entregar essa carta na cidade. Minha Mestra, como até hoje é chamada a primeira professora de Redonda, era a escrivã dessas cartas, conforme nos esclarece a narrativa abaixo:
Se a pessoa tivesse muito doente, mandava chamar Minha Mestra, que era a professora. Aí ela fazia uma carta, tipo uma lista, dizendo o que a pessoa tava sentindo e se tirava uma pessoa andador e ia pro Aracati consultar, aí lá essa pessoa consultava, mostrava a carta de minha mestra, trazia os remédios. Essa professora vinha, lia o papel, dizia como tava, como num tava (...)
Em saúde não se falava não. Se chegasse uma pessoa a cair doente, aí iam pro Aracati. Daqui pro Aracati é umas oito légua, né? Aí fazia aquela consulta. Mandavam chamar essa dita professora, essa professora que é Marina, a Minha Mestra. Ela vinha, a pessoa contava a doença todinha, ela assentava no papel e outra pessoa ia pro Aracati. Lá consultava a pessoa e trazia os remédios pra pessoa tomar. As vezes era até certo, acertava nas doenças. E vezes que não acertava, morria. Por exemplo, uma mulher desse uma hemorragia. E aí os remédio dela, era as cultura dela era caseira, de mato. Caseira assim de mato, era uma garapa assim de açuque, era, dava uma garapa de açuque, dava uma pila e inventava um chá que era pra ataiá aquele negócio, aquele começo da hemorragia e se esse remédio não desse jeito, não dava tempo de chegar a Aracati não e aí morria. (Isa)
O agricultor Manoel recorda a experiência que viveu com uma dessas cartas da doença, quando, por ocasião da doença de seu pai, precisou ir até Aracati, a pé. Vejamos seu relato:
Só quem sabia ler e escrever aqui era Minha Mestra. Era ela quem fazia as cartas. Ela contava bem direitim o que a pessoa tava sentindo. Conversava com a pessoa e escrevia tudo pro doutor, pra ele ler e passar o remédio. Quando papai ficou doente, ela fez a carta da doença dele e eu fui deixar lá em Aracati, fui à pé, sozinho. Saí de madrugadinha, cheguei quando o sol tava se pondo, já bem dizer de noite, eu cheguei lá, já ia fechar as portas, aí eu disse:
- Doutor, pelo amor de Deus, me atenda que eu venho de longe.
Aí ele leu, entendeu tudo, escreveu outra carta de resposta, passou os remédios, eu comprei e voltei na mesma noite pra trás. A escuridão era tão grande que eu me perdi no caminho. Em vez deu pegar o caminho que saía na Canoa e na Majorlândia, eu fui sair ali pelas bandas do Cumbe, do Córrego, por ali. Eu avistei uma fogueira no meio do mato e me aproximei. O pessoal teve foi um susto deu aparecer uma hora daquela. Eu também tava me acabando de medo, era um breu horrível. Eles disseram:
- Você tá muito longe da Canoa, ainda vai andar muito.
Aí explicaram como eu fazia e eu segui [...] Com o dia amanhecendo, eu apontei em Redonda. Minha Mestra leu a carta do doutor e explicou como era pra fazer [...]
Podemos extrair que a “carta da doença” surgiu, nesse momento da história da comunidade, como uma resposta das pessoas do lugar diante de suas reais
necessidades de saúde e como uma tentativa de diálogo com os saberes elaborados pela ciência. Freire (1992; 2005) mostrava a potência de transformação do mundo popular, quando frente à necessidade, ultrapassa situações-limites, em direção a novos patamares de valor solidário e prática social, rumo ao inédito-viável. E, nesses percursos em busca de transformações, prescindir da esperança, diria ele, é frívola ilusão.
Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica, É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã.
Sem um mínimo de esperança não podemos sequer começar o embate mas, sem o embate, a esperança, como necessidade ontológica, se desarvora, se desendereça e se torna desesperança que, as vezes, se alonga em trágico desespero. Daí a precisão de uma certa importância em nossa existência, individual e social, que não devemos experimentá-la de forma errada, deixando que ela resvale para a desesperança e o desespero. Desesperança e desespero, conseqüência e razão de ser da inação ou do imobilismo.
Nas situações-limites, mais além das quais se acha o “inédito viável”, às vezes perceptível, às vezes, não, se encontram razões de ser para ambas as posições: a esperançosa e a desesperançosa (FREIRE, 1992, p.5-6).
Em seu conceito de atos-limites” - atos que ultrapassam as situações-limites,
que exigem transformações –, Freire (1992, 2005) mostra como as populações realizam mudanças substanciais, quando a situação é desafiadora e se torna insuportável. Há, contudo, de se fazer uma leitura crítica para modificá-la. O processo da transformação que modifica a alienação e nos humaniza é consciente e requer um movimento de leitura de mundo outro, diferente da passividade e do fatalismo.
Situações-limites levaram a comunidade de Redonda a adotar o velho Xixe -
antigo morador do lugar, filho de João Crispim, de quem falamos ao tratarmos das primeiras ocupações - como um depositário de suas esperanças, na carência de cuidados em saúde. É assim que nos dizem algumas moradoras:
Quem cuidava de nós, naquele tempo, abaixo de Deus, era Xixe. Xixe era nosso doutor, porque se uma pessoa caísse doente a gente ia pra lá. Ali ele ensinava aquele remédio. Às vezes, quando ele tinha o remédio ele dava, via que a pessoa não podia comprar, ele dava. O nosso doutor, abaixo de Deus era Xixe (...) Sem ele, o que a gente tinha pra resolver era um chá (...) (Cocoa)
Pra nós aqui de Redonda ele era um doutor, porque ele era um homem sabido, cheio de sabedoria. Até parto de mulher ele sabia fazer (Luísa)
diferentes, significam um empenho de superação, como diria Freire (1992), uma negação em aceitar o que está dado, uma postura decidida frente ao mundo. A situação-limite aí contida era, a grosso modo, que as necessidades em saúde desses povos do mar não eram objeto de atenção do Estado (apesar de compreendermos que a ação do Estado não é tudo que se busca em saúde, mas que é parcela muito importante). Como afirmou Cocoa acima: “o que a gente tinha pra resolver era um chá”. As ações estatais, por esse período, no Brasil, quando
existiam, eram movidas por outros interesses em jogo. É o que nos revela a história das políticas de saúde de nosso país.
Ilustra Costa (1985) apud Andrade, Barreto e Bezerra (2012, p.797) que “durante todo período colonial, e mais precisamente, até meados do “século XIX, no Brasil, os problemas de saúde e higiene ficavam sob responsabilidade das localidades”. Eram as próprias localidades que encampavam medidas no que se refere, por exemplo, a limpeza das ruas e quintais. Explanam esses autores que:
A assistência à população pobre e indigente ficava sob cuidados da iniciativa filantrópica de figuras de importância econômica e social, e de instituições beneficentes, ligadas à Igreja Católica, como as Santas Casas de Misericórdia. A parcela restante da população buscava socorro dos médicos existentes, ou então de cirurgiões, barbeiros, sangradores, empíricos, curandeiros, parteiros e curiosos (COSTA, 1985 apud ANDRADE; BARRETO; BEZERRA, 2012 p.797).
De fato, os povos do mar de Redonda vivenciavam as duas situações: tanto mantinham suas iniciativas locais em forma de mutirões, quanto recorriam aos serviços médicos existentes nas cidades circunvizinhas, como Aracati e até mesmo Mossoró – RN, para onde também fluíam em busca dessas iniciativas filantrópicas a que se referem os autores. É o que podemos aferir a partir do episódio seguinte relatado por uma moradora:
Quando comadre G.R.S endoidou, foi uma luta muito grande pra nós levar ela pra Mossoró, pra ela ficar internada lá, porque a situação tava muito difícil com ela aqui, querendo rasgar todo mundo, dava pisa em gente de deixar estirado no chão, corria até pegar, subia em cima da cacunda, era uma coisa tirana, era da gente morrer do medo. Aí teve um dia que nós levemo pra Mossoró, atrás dum recurso lá (Maria José)
No cenário nacional, elucidam Mendes (1999) e Paim (2003) que, desde o final do século XIX até a primeira metade do século XX, predominou o chamado modelo Sanitarismo Campanhista, caracterizado por seu estilo repressivo de intervenção sobre os corpos individual e social. Tendo nosso país o modelo
econômico agroexportador, as prioridades eram as políticas de saneamento dos espaços e a erradicação ou controle de doenças que poderiam prejudicar as exportações. É bom lembrar que, nos anos correspondentes à república velha (1889 – 1930), se sobrelevavam as doenças transmissíveis e as endemias rurais, com ocorrências de epidemias que ameaçavam os interesses econômicos (MENDES, 1999; PAIM, 2003).
O contexto da saúde pública, no referido período, segundo Paim (2003, p.589), demandou intervenções da parte do Estado para manter as exigências das oligarquias dominantes. Nos termos do autor:
A ocorrência de epidemias e doenças pestilenciais no início do século XX, ameaçando os interesses do modelo econômico agrário-exportador, favoreceu uma resposta do estado mediante a organização de serviços de saúde pública e a realização de campanhas sanitárias. Os trabalhadores do campo (maior parte da população brasileira) e da cidade, bem como seus familiares, não tinham acesso a serviços de saúde. Diante da doença de um indivíduo, o atendimento médico somente era possível para os que podiam pagar ou por intermédio da caridade.
Mesmo que a economia agrário-exportadora fosse dominante neste período, já despontavam as primeiras indústrias, que paulatinamente iam sendo instaladas. Com a presença delas e com a precarização das condições de trabalho e de vida das populações urbanas, foram surgindo movimentos embrionários, que lutavam por uma legislação trabalhista e previdenciária (PAIM, 2003). Ao mesmo tempo, se fortalecia o modelo etiológico baseado no controle dos insetos e animais vetores, consequência da adoção cada vez mais frequente de saberes fundamentados pela bacteriologia e pela microbiologia (MERHY, 1992).30
O período da chamada Era Vargas, compreendido entre 1930 a 1964, traz mudanças para a saúde pública, que passa a ficar vinculada ao Ministério da Educação e Saúde, com valorização da educação sanitária e de programas especiais. Já a medicina previdenciária e a saúde ocupacional ficam a cargo do