• Sonuç bulunamadı

Entre cada noção e cada ponto do itinerário, pode-se estabelecer uma relação de afinidades ou de contraste que sirva de evocação à memória. De modo que os homens mais sábios do mundo são os que conhecem Zora de cor (CALVINO, 2009, p.20).

Pesquisar sobre as mediações da cidade e seus territórios urbanos na construção de sociabilidade dos sujeitos pressupõe um movimento complexo, por se tratar de questionamentos relativos e pertinentes à vida social e singular dos homens no contexto da vida urbana. Evidencia uma trama saturada de mediações históricas, culturais, políticas, econômicas e sociais.

Essas determinações históricas que incidem na trama das relações sociais influenciam e direcionam a transformação da vida cotidiana dos sujeitos e dos grupos sociais; do mesmo modo movimentam os tempos e espaços dos territórios urbanos.

Assim, por meio das determinações globais, os ritmos e os modos de vida da população vão sendo transformados de acordo com os fluxos e tendências do modo de produção capitalista. As formas de experiência e trato das relações sociais de ordem próxima ao sujeito vão sendo tecidas e recriadas, movimentando as vivências das famílias, a educação formal e informal, as formas de relações entre gêneros, as formas de produzir e distribuir a riqueza socialmente produzida.

Quando se pretende pensar o espaço urbano nos níveis de sua totalidade, objetiva-se identificar as mediações presentes na realidade das cidades, por meio de uma análise que pressupõe um método das articulações, que propõe a conexão entre os fatos, os sentidos, textos e contextos da história social dos homens.

Nesse sentido, a cidade deve ser compreendida como um nível específico dentro da realidade social, na qual os processos gerais perpassam, mesmo que de forma escondida e velada, fazendo parte e compondo a realidade urbana. A cidade somente pode ser entendida, se houver articulação de seus sentidos, ou seja, as formas produtivas, os meios de percepção e pertença do espaço, as relações de classe e suas implicações na construção e reconstrução da vida dos sujeitos.

É com a análise orientada pela busca das articulações entre as relações sociais mais amplas (ordem distante) e a ordem relacionada com as formas de reprodução cotidiana da vida (ordem próxima dos sujeitos), que se intenciona mover os objetivos dessa pesquisa, procurando perceber a dinâmica da construção de sociabilidades no território das cidades para além das aparências imediatas, movendo esforços teóricos e metodológicos para decodificar os códigos e subcódigos existentes na trama da realidade urbana.

Isso não significa entender a cidade dentro de uma perspectiva evolucionista e estruturalista, pelo contrário, é perceber seus limites, contradições, avanços, retrocessos, continuidades e descontinuidades do movimento histórico de sua construção. Parte-se do pressuposto de que a cidade, inserida no movimento das relações sociais, é dinâmica e edificada pela constante relação e intercâmbio entre os sujeitos, modos de vida e forças produtivas, de tal modo, que os sujeitos locais projetam, agem e marcam a cidade evidenciando as lutas entre as classes, as ideologias (religiosas, filosóficas, éticas, estéticas e jurídicas), confrontando no tecer cotidiano que a cidade foi e é produto das mediações que nela penetram e interagem, “a cidade só foi realizada através das mediações” (LEFEBVRE, 2008 p. 61).

A cidade é um espelho ativo das relações sociais, dos movimentos da sociedade projetados sobre um espaço local, que refletem (no nível local) a vida prática e sensível dos homens, fruto da experiência e interlocução com a sociedade. Somente podemos entender a lógica do texto e das escritas urbanas com a análise dos contextos sociais, econômicos, políticos, culturais que incidem sobre a globalidade das relações sociais, que se presentificam no território urbano das cidades por meio das mediações do homem com seu espaço.

Também é necessário considerar que a cidade é composta de vários tempos, ritmos, projetados pela ordem distante, que influenciam a experiência dos sujeitos, construindo e reconstruindo o mosaico das diferenças entre as cidades na cidade. Há uma pluralidade nos modos de reprodução da vida, maneiras diversas de viver e sentir na realidade urbana.

Igualmente, a cidade tem um papel político e histórico no modo de vida, na percepção do homem com seu espaço e com os demais sujeitos. A cidade abriga as decisões, os poderes e as estratégias de lutas e sobrevivência das classes sociais; acolhe diferentes modos de vida em seu âmago.

Isso sinaliza que a cidade não somente atende a função do habitat/do morar, a cidade engloba essa função, mas está para além do simples residir, conflui-se em modos vida, nem sempre lineares ou iguais, sobretudo, distintos, ricos e saturados de formas de construção e intercâmbio de sociabilidades, de modos de trabalho e pertença.

A cidade, como expressão e lócus da vida (principalmente a moderna), acolhe a coexistência da esfera privada, no que diz respeito aos modos de reprodução da vida íntima dos sujeitos, nas formas de compreensão e organização da família, nas expressões da sexualidade, nas relações amorosas e nas formas pessoais de gestão da vida, que se relacionam com a esfera pública, com o que é comum e exigido socialmente.

O próprio habitar manifesta a confluência da esfera privada e pública na construção da vida cotidiana dos sujeitos, pois é o ponto de partida e de chegada das redes de sociabilidade, possibilita o movimento dialético e constante das informações, das ordens, das compreensões sobre o homem, mundo e sociedade. Esse movimento entre a esfera pública e a privada em que a cidade se estabelece, não ocorre de forma linear, sem conflitos; ao contrário, muitas das vezes há divergências e pontos carregados de conflitos entre a ordem próxima dos sujeitos e a ordem distante correspondente aos processos mais globais que incidem sobre a vida social.

Assim, a cidade não se expressa de forma clara e simples, facilmente decodificada e analisada; suas linguagens e expressões movimentam-se no que acontece na rua, nas praças, em seus centros de lazer construídos para isso e aqueles forjados para atenderem a essas necessidades. A cidade fala através de conversas, nos gestos, nas roupas, no sentido ético e estético de seus habitantes, no emprego e utilização das palavras dos sujeitos, na relação que estabelecem com as formas de sobrevivência.

É com essa base que propomos que o estudo sobre a cidade e sociedade urbana esteja afiançado por métodos qualitativos. Isso significa que negamos os aportes do positivismo evolucionista que analisou e que observa a cidade como um processo crescente e puramente harmonioso, positivo e que esquadrinha a cidade como um grande corpo. Essa negativa resulta na busca de novos aportes e sentidos para compreender a sociedade e seus processos civilizatórios, observando a cidade e o contexto urbano para além de suas formas e razões imediatas e parcelares.

Compreende-se que a cidade como forma não se separa de seu conteúdo, ou seja, a cidade, em suas expressões múltiplas desenhadas e evidentes nos muros, nas falas, depoimentos e narrativas dos sujeitos traduz muito sobre o conteúdo da vida urbana. Buscamos, por esta análise, a conexão existente entre as duas dimensões - forma e conteúdo -, no sentido de apreendê-las no curso da história, no movimento que constrói e reconstrói os modos de vida dos sujeitos.

E compreendemos que somente por via da razão dialética, da aproximação com pensamento e reflexão crítica, conseguiremos atingir o conteúdo das relações sociais, em um movimento constante de sucessivas aproximações com o real. Em nosso caso específico, estudando o território urbano da cidade na construção dos vínculos de sociabilidades dos sujeitos, buscaremos apreender como a cidade, em suas formas de vivência, gera a necessidade da relação entre os sujeitos; como suas formas da vida urbana desencadeiam a necessidade da construção de vínculos entre os sujeitos e destes com o espaço em que vivem.

É por isso que objetivamos estudar a cidade por meio de seu território, que justamente expõe e centraliza em sua compreensão no papel ativo dos sujeitos, levando em consideração as ações, as práticas sociais, individuais, a experiência e as relações das pessoas com o espaço onde vivem e tecem suas amizades, casamentos, famílias, o intercâmbio entre as gerações e tantas outras formas de relação e vivência.

É nesse sentido que queremos investigar a forma urbana, partindo do princípio das relações de sociabilidade entre os sujeitos, que não estão desconectados da compreensão ontológica do trabalho. É com esse aporte que desejamos buscar as articulações e conexões para compreender o conteúdo da sociabilidade urbana das cidades.

E para direcionar esse instigante processo de viagem pelos territórios urbanos, escolhemos intencionalmente a pesquisa qualitativa como metodologia privilegiada, que nos direciona apreender o real por meio dos sujeitos sociais, compreendendo-os como seres políticos que expressam e movimentam a vida em sociedade.

É pelo olhar qualitativo, que busca a significação dos processos sociais, que projetamos e orientamos esta pesquisa, sabendo que os dados numéricos e estatísticos não são suficientes para balizar a compreensão da realidade humana. É necessário que os homens, como sujeitos que constroem a história, possam ser

percebidos, escutados e ouvidos, já que, se consideramos o território como um conceito relacional, que é tecido e movimentado pelos indivíduos, não teria sentido estudar a sociabilidade a partir de outro referencial metodológico, pois estaríamos negligenciando a própria centralidade de sujeitos e a identidade deste estudo.

Certamente, isso pressupõe um outro modo de fazer pesquisa, no qual não deixa de ser importante a informação quantitativa, mas sem que se excluam os dados qualitativos. Esses dados ganham vida com as informações outras, com os depoimentos, com as narrativas que os sujeitos nos trazem8 (MARTINELLI, 1991, p. 21).

É nesse processo que objetivamos evidenciar o que os sujeitos da pesquisa pensam sobre o que se está pesquisando, compreendendo suas significações como essenciais ao processo de construção do conhecimento, uma vez que uma pesquisa não é feita somente pelo pesquisador, porque sozinho e isolado até se pode aprender, mas não se constrói o saber. Este só tem sentido quando é tecido na trama da partilha, do diálogo e da interlocução entre os sujeitos.

Assim, a pesquisa qualitativa pressupõe uma relação direta entre os sujeitos, pesquisador e pesquisado com o objeto de estudo, implicando a interação de trocas, valorizando a dinâmica das expressões da vida social por meio dos sujeitos participantes pelo que relatam, expressam, ou mesmo silenciam.

Portanto, a pesquisa qualitativa interessa-se por conhecer os modos de vida dos sujeitos; para isso temos de buscar conhecer a experiência humana, os acúmulos vivenciais das pessoas, o que elas experimentaram durante suas vidas, como compreendem os fatos, os valores, os acontecimentos e as repercussões dos fatos históricos em suas vidas.

E é pautado no que Thompson (1981, p. 182) chama de “o termo ausente: experiência”, que puxamos o fio condutor que move nossa inquietação sobre as sociabilidades nas cidades, pois é por meio da experiência que os indivíduos constituem-se sujeitos. E somente trazendo a experiência dos homens, que conseguiremos trazer a centralidade antropocêntrica requerida em objeto de pesquisa.

O que descobrimos (em minha opinião) está num termo que falta: “experiência humana” [...]. Os homens e mulheres também retornam

como sujeitos, dentro deste termo 9– não como sujeitos autônomos, “indivíduos livres”, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida “tratam” essa experiência em sua consciência e cultura [...] (THOMPSON, 1981, p. 82).

A experiência é tão importante para o conhecimento da realidade que ela dimensiona não somente a centralidade no homem, no processo de reflexão, mas impinge a consideração da cultura como processo que movimenta a experiência humana, e que se consolida nos modos de vida dos sujeitos, no processo de como as pessoas organizam material e espiritualmente suas vidas.

Nessa perspectiva, a cultura não é pensada como curiosidade ou um exotismo, mas enraizada na realidade social, impregnada de um sentido intenso, por meio da qual as pessoas se expressam, reagem, exercendo, ou não, suas possibilidades criativas, forjando os processos de mudança social (KHOURY, 2001, p. 80).

Desse modo, entendemos que a pesquisa qualitativa, como um instrumento político que viabiliza crédito às experiências, narrativas, expressões e à cultura dos sujeitos, também traduz os interesses aos quais serve. Está posta em um campo claro de interesses e de lutas políticas, atentas à centralidade dos sujeitos que, por muitas vezes, são negligenciados e/ou passam mudos pela história cristalizada.

É com esse aporte que compreendemos que a pesquisa qualitativa tem significativa importância para a análise da realidade e para a construção do conhecimento, pois é na trama do real, do cotidiano dos homens que a história se constrói. É com essa compreensão que a pesquisa deve justamente buscar o real, o colorido da vida, as tonalidades da experiência humana, das apreensões e percepções dos sujeitos.

Os valores são apreendidos na experiência vivida, na vida material e espiritual dos homens, no processo de apreensão dos sentimentos, das normas e costumes que, transformados em hábitos da vida cotidiana, estabelecem o sentido das práticas sociais dos homens, podendo ser visualizados na família e suas relações, no trabalho, comunidade e na classe à qual pertence o sujeito. Sem o aprendizado proporcionado pela experiência concreto-vivencial dos homens, a vida social não poderia ser mantida e toda produção também seria extinta.

9 Os grifos são nossos.

É no processo de privilegiamento da experiência como processo que evidencia a construção social do modo de vida dos indivíduos, que consideramos que a metodologia da história oral se faz presente e necessária aos nossos objetivos.

Nesse sentido, é possível compreender que na pesquisa qualitativa – com a opção da história oral – existe uma relação fluida, dinâmica e imbricada entre o sujeito pesquisador e o sujeito pesquisado, tecendo uma trama de trocas que vai além da mera coleta de informações.

Nessa relação, é necessário romper com a ideia da coleta de informações e dados, é preciso estar atento e aberto à troca e ao movimento das experiências, ao cuidado na edificação dos vínculos entre os sujeitos. É importante que os participantes e o pesquisador se percebam e se reconheçam na base dessa troca proporcionada pela pesquisa, para que não haja compreensões equivocadas entre ambos, que não atribuam significados distorcidos às narrativas e às diversas expressões de linguagem que compõem essa rica experiência.

É importante expressar que as ciências deixaram o relato oral na penumbra por muitos anos, muito embora a narrativa oral sempre tenha sido a maior fonte de difusão dos saberes, sendo a maior fonte de dados e informações para as ciências, uma vez que em todas as épocas a educação humana baseou-se na narrativa, oral ou escrita; desde os filósofos clássicos até o tempo presente.

É sabido que a escrita veio para traduzir em códigos a verbalização das narrativas humanas, contribuindo para o registro do que é dito. E a partir do momento em que a razão estipulou a escrita como mote veiculador de saberes, os relatos orais passam a ficar em um segundo plano no processo de construção das pesquisas. “Um primeiro enfraquecimento ou uma primeira mutilação ocorre então com a passagem daquilo que está obscuro para uma primeira nitidez – a nitidez da palavra – rótulo classificatório colocado sobre uma ação ou emoção (QUEIROZ, 1991, p.3)”.

Nessa perspectiva, a palavra falada antecede a palavra escrita, antecede a tradução dos vocábulos na nitidez visual do texto. É nesse sentido que as oralidades estão presentes no processo de construção da sociabilidade humana, pois carregam consigo a experiência direta do homem, tradições, cultura e a história da coletividade.

O relato oral antecede outras formas de obtenção e conservação de saberes e informações; a palavra pronunciada parece ter sido uma das mais antigas formas de expressão e comunicação do homem que, com o passar dos anos, vai sendo refinada pelo processo de humanização, no qual o homem vai transformando a natureza e também se transformando como ser social.

A escolha política da metodologia da historia oral tem seu sentido no que tange à centralidade no sujeito e na sua mais fiel forma de se relacionar com o mundo, por intermédio da linguagem falada. Isso resulta em um novo relacionamento entre os sujeitos de uma pesquisa, pressupondo também um novo relacionamento com a forma e a compreensão do processo de pesquisar.

Nesse tipo de abordagem, a igualdade e diferença relacionam-se entre si, não se excluem, pois somente o princípio da igualdade nos direciona a aceitar e entender as diferenças. A igualdade nos possibilita compreender e aceitar a diferença, longe dos padrões hierárquicos e de subordinação originalmente dirigidos à opressão entre os homens. “Sem diferença não há igualdade – apenas semelhança [...]. Somente a igualdade faz a entrevista aceitável, mas somente a diferença a faz relevante (PORTELLI, 1997, p.23)”.

Assim, a pesquisa qualitativa nos possibilita encontrar e reconhecer o humano genérico, ou seja, possibilita o reconhecimento do outro como parte de nós. A história oral nos ajuda a colocar em movimento a questão da identidade no plano social e interpessoal, “[...] e ajuda-nos a reconhecer a nós próprios no que nos faz semelhantes embora diferentes dos outros (PORTELLI, 1997, p. 23)”.

Mas toda essa compreensão somente é possível pela mudança no olhar, pela mudança na compreensão dos significados da pesquisa como uma possibilidade de igualdade e, por consequência, suas formas de viabilização também. Essa mudança rompe com padrões tradicionais e, por vezes, conservadores que pensam em uma pesquisa neutra, sem escolhas e sem posicionamentos.

Contrapondo a concepção de uma pesquisa neutra e naturalmente “fetichizada” a história oral objetiva-se pelo posicionamento de olhares políticos, tramando uma intervenção de pesquisa que seja crítica e política, voltada às mudanças, aspirada e inspirada pela igualdade nas relações sociais.

Nessa metodologia, é preciso estar atendo aos contextos das narrativas, pois a oralidade expressa uma série de determinações políticas, sociais, econômicas que incidem sobre o modo de vida dos sujeitos. Portanto, o que nos interessa com a

pesquisa qualitativa é como os sujeitos compreendem e percebem seu modo de vida, que é perpassado por seus sentimentos, valores, crenças, costumes e práticas sociais cotidianas (MARTINELLI, 1999, p. 23).

Tratando a metodologia da história oral como “um experimento em igualdade (PORTELLI, 1997, p. 09)”, sinalizamos que existe nesta pesquisa uma troca entre sujeitos com uma visão mútua. Isso porque não é somente o sujeito pesquisado que é observado, analisado, apreendido em suas diversas formas de expressão, mas é na totalidade dessa relação dinâmica que o pesquisador também é analisado, pesquisado e estudado, onde é inquirido sobre suas intencionalidades e verdadeiros objetivos. Com isso, é necessário reconhecer as diferenças para que não se caia em uma ingênua posição de homogeneidade forjada pelo pesquisador e pelo pesquisado.

A entrevista de campo, por conseguinte, não pode criar uma igualdade que não existe, mas ela pede por isso. A entrevista levanta em ambas as partes uma consciência da necessidade por mais igualdade e a fim de alcançar maior abertura nas comunicações (PORTELLI, 1997, p.10).

Para essa discussão, é importante reconhecer justamente as diferenças, para que se realize a pesquisa com o princípio valorativo da igualdade, pois as diferenças não são desigualdades, até podem tornar-se desigualdades, dependendo do contexto e das formas em que a pesquisa acadêmica se movimenta.

O poder é um aspecto sociopolítico importante, torna-se uma questão central levantada direta ou indiretamente em cada encontro entre pesquisador e pesquisado. Superar o poder autoritário na construção de uma pesquisa significa romper com uma hierarquia verticalizada, fortemente enraizada pela pesquisa tradicional que define o “status” e o lugar social do pesquisador e do investigado.

Superar o poder de hierarquias verticalizadas na dinâmica da pesquisa qualitativa equivale a experimentar a igualdade, estar aberto a outras histórias, sinalizando opções éticas e políticas voltadas às experiências sensíveis, opondo-se às relações sociais dominantes.

Quando privilegiamos um método de pesquisa voltado a ouvir histórias antes não ouvidas, estamos diante de interesses de classe, voltando nossos olhares, sentidos e experiências a uma troca que permita o diálogo, a interação e objetivos claros em favor dos que até então não eram tidos como sujeitos da história, apenas

eram confinados a espaços e lugares claramente definidos, ficavam limitados ao rodapé da história (MATOS, 2008).

Por isso, é indispensável estar atento às possibilidades criativas da pesquisa, disponível a ouvir, ver e sentir os sujeitos. Direcionar a atenção ao que narram, expressam com suas diferentes formas de linguagem, com seus silêncios, suspiros,