O Ceará mantinha relações comerciais com a Bahia e Pernambuco, até 1799. Os sertanejos vendiam seus gados e compravam as fazendas e artigos importados de Portugal. Aracati atingiu grande prosperidade serviu de entreposto do comércio de Pernambuco com a bacia do Jaguaribe, no sertão, afirma Brígido (2001, p. 40) “Ali se faziam anualmente charqueadas de 20 a 25 mil bois, e se vendiam cerca de 160 contos de fazendas trazidas de Pernambuco, para onde se expediam anualmente cerca de 60 mil meio de sola, 35 mil couros de cabras e três mil pelicas (camurças)”.
O cultivo do algodão vai se desenvolver mais tarde, com a perda do gado. No ano de 1792 se desenvolveu o cultivo desta cultura, e no ano seguinte, já se exportava 18 mil toneladas de arrobas, conforme Brígido.
A interiorização vai acontecer através da pecuária, que passou a ser proibida sua criação no litoral. Grandes porções de terras eram doadas formando os grandes latifúndios. No Ceará, estas concessões datam entre os séculos XVII e XVIII. As primeiras ocupações ocorreram, principalmente, nas imediações do Rio Jaguaribe, Acaraú, e Coreaú, conforme Farias (1997).
Ramalho (2003) faz referência às rotas das boiadas no Ceará e um destes caminhos cortava o sertão por várias regiões do estado onde se desenvolveu esta atividade tão importante para nossa economia, nossa cultura e nossa identidade.
(...) A outra cortava o sertão do Ceará começando pelos Cariris Novos, atravessando Icó, Tauá, Crateús – então pertencente ao Piauí -, em demanda da capital Oeiras. Crateús era um ponto central de encontro dos vaqueiros, em que se realizavam grandes feiras de animais e víveres. Às margens do Rio Jaguaribe se fundaram as principais fazendas de gado cearense. (RAMALHO, 2003, p.104-105)
As grandes porções de terra e a adaptação do gado à caatinga foi o ingrediente suficiente para desenvolver, no sertão, as grandes fazendas e a presença de uma personagem fundamental, o vaqueiro, que conduzia os rebanhos por sua mão-de-obra não remunerada com dinheiro, mas com cabeças de gado, ou sistema de quartiação, isto significa que a cada quatro bezerros nascidos, um pertencia ao vaqueiro em pagamento pelo seu trabalho de pastorear o gado. Esta figura exótica do sertão tinha um jeito
especial de trabalho que ainda hoje é reverenciado por aquele que reconhece o seu valor.
Os vaqueiros, vestindo roupa de couro e montados em cavalos escolhidos, pastoravam o gado. Símbolo mais fiel do Nordeste, era merecedor de respeito e admiração, em razão da superioridade que lhe conferia o conhecimento da terra, do rebanho, dos métodos de criação etc. Poderia, com o tempo, devido ao sistema “quartiação”, tornar-se dono de fazenda. (FARIAS, 1997, p. 21).
O vaqueiro é realmente uma personalidade do Ceará que ainda hoje merece respeito e admiração. Além da sua importância para o desenvolvimento da pecuária, sua contribuição cultural é ressaltada através do canto ou aboio para reunir ou conduzir o gado na rotina de sua árdua luta. Como bem ressalta Ramalho ao se referir ao canto do vaqueiro como nascido no descampado.
O aboio é a expressão máxima do canto do trabalho do vaqueiro, na solidão da caatinga, à procura de suas reses. Pois esse canto desbravador do sertão povoou de melopéias os caminhos das boiadas, caminhos de idas e vindas, seja em busca de pasto, em direção às feiras ou na volta para as fazendas. Essas trilhas possibilitavam múltiplas trocas culturais e materiais. (FARIAS, 1997, p. 104).
Muitos proprietários das fazendas viviam em áreas litorâneas cultivando a cana- de-açúcar, outra atividade econômico desenvolvida no Ceará. Enquanto isso, a fazenda era entregue ao vaqueiro. A casa da fazenda era um casarão sombrio, baixo, de vastos alpendres e ao longo do terreno existiam miseráveis casebres dos moradores da fazenda, mestiços, negros forros, índios mansos.
Próximos a esses casebres - normalmente de taipa, de chão batido, com tetos baixos e de palha – encontravam-se pequenos roçados de subsistência, trabalhados por mulheres crianças (os homens estavam no pastoreio), que cultivam milho, feijão, mandioca e até um pouco de algodão para fiação doméstica. FARIAS, 1997, p.22).
As fazendas constituíam o núcleo da economia do Ceará. Os proprietários impunham o mando e autoridade, formando o verdadeiro patriarca, de que nos fala Prado Júnior. Eles decidiam quem deveria morrer ou viver, exploravam os camponeses, tornando-os seus servos e utilizando-os como seus jagunços. Nada restava ao homem submisso a não ser fazer a vontade do patrão. Criavam, assim, os núcleos de desordeiros
no interior liderados por um coronel para fazer-lhes os mandos, como tão bem se destaca nos relatos dos querelantes, nos Autos de Querella.
De um modo geral, o cenário da capitania do Ceará, nos princípios de sua ocupação, como nas demais capitanias menos desenvolvidas do Nordeste, era um cenário de desigualdade social. A figura do proprietário fazendeiro era o centro da vida econômica, em que a base era a pecuária e a agricultura de subsistência, sobretudo o plantio da cana-de-açúcar, feijão, milho e mandioca. Depois, desenvolveu-se a cotonicultura, em que o algodão passou a ser o ouro branco do sertão. Afirma Fonseca (2003) que os proprietários dos engenhos e das fazendas de gado, com sua parentela estavam no topo da pirâmide social, embora subalternos à burguesia comercial.
Neste contexto ocorrem os crimes que encontramos nos Autos de Querella, em que a maioria das pessoas que aparece nos processos vive da agricultura e de criar gados. Muitos crimes são de furto de gados, muitos proprietários e fazendeiros são assassinados por rixa velha entre eles. Há uma denúncia em um Auto de queima em um roçado de algodão de um querelante. Enfim, podemos perceber esta realidade dos fatos narrados nos documentos que estudamos.
Como bem destaca Ferreira Neto (2003) que a leitura dos textos dos livros de Autos mantidos pelos ouvidores mostra-nos bem esta realidade do cotidiano da sociedade colonial, principalmente do interior das vilas.
A leitura de trechos dos velhos livros de Autos de querelas e denúncias mantidos pelos ouvidores da capitania do Ceará visualiza o cotidiano da sociedade colonial e expõe, para o presente, detalhes curiosos da realidade dos moradores. (...) São momentos de isolamento das populações do sertão, sendo a justiça acionada apenas pelos mais abandonados. A grande maioria das pessoas, incluindo os vaqueiros, agregados das fazendas, artífices das vilas e vagabundos que perambulavam pelas diversas regiões, desconheciam os serviços dos advogados (raros na capitania) e dos tribunais.O sertanejo, desde o início, passou a conviver ao largo da lei, acostumando-se às relações de compadrio com os seus senhores imediatos, recorrendo à proteção por eles oferecida, sujeitando- se, interminavelmente, aos desígnios das autoridades (padre, juiz, coronel, vereador. Ademais, o crime despontou como resposta para muitos habitantes do sertão, terra inóspita, sem oportunidades, sem escolas, sem leis, onde a vindita soava natural para as vítimas de assassinatos e atentados contra a honra.(FERREIRA NETO, 2003, 158).