Encontramos 35 expostos divididos entre os 26 domicílios analisados. A maior parte desses domicílios possuía apenas um exposto. Os domicílios que possuíam mais de uma criança sob essa condição representavam 27%, sendo que em 23% dos casos identificamos dois expostos; cabe ainda sublinhar que apenas um domicílio possuía mais de dois expostos.
Isso demonstra que a maior parte dos domicílios optava por possuir apenas uma criança exposta em sua residência. Poderia até haver mais pessoas sob essa condição na residência, mas nesse caso, elas possuíam mais de 14 anos, saindo da nossa margem de análise. É o caso do domicílio chefiado por Dona Joana Teodora, no qual encontramos o maior número de expostos, seis. Nesse domicílio havia quatro expostos com idade inferior a 14 anos e outros dois com idade de 15 e 16 anos.
TABELA 16
Número de expostos por domicílio Número de expostos em cada casa Número de domicílios Porcentagem 1 19 73% 2 6 23% 3 0 0% 4 1 4% 5 0 0% Mais de 5 0 0% TOTAL 26 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
A presença de escravos e/ou agregados nos domicílios que possuíam expostos é bem marcante. Apenas um domicílio não contava com a presença de nenhuma pessoa nesta condição. Isso significa que, em domicílios com expostos, era comum a presença de outras pessoas, além do grupo familiar, residindo na mesma casa.
Ao analisarmos a presença domiciliar dos escravos, verificamos que apenas 15% não os possuíam. Em boa parte, eles eram pouco frequentes: em 31% dos domicílios eles variavam entre 1 e 3 escravos. Os domicílios que possuíam de 4 a 6 escravos representavam 19%; de 7 a 9 escravos, 23%, e com 10 ou mais cativos, 12%. Percebemos um número equilibrado, o que não nos permite afirmar que domicílios com mais ou menos escravos tinham uma tendência maior a possuírem expostos. No entanto, ao compararmos com o perfil geral da sociedade de Mariana no período analisado, no qual 51% dos domicílios possuem escravos e 49% não os possuem, constatamos que, nas residências com expostos, a presença de escravos era bastante significativa.
Já os domicílios com agregados apresentam números um pouco diferentes. 31% não possuíam nenhum agregado, além da criança exposta. Domicílios com 1 a 3 agregados representavam 41%; com 4 a 6 e 7 a 9, 12%; e com 10 ou mais agregados, 4%. É importante destacar que todos os 26 domicílios analisados estavam incluídos no tópico acima como “domicílios com agregados”, tendo em vista que naquele tópico os expostos foram considerados como tais.
TABELA 17
Presença de escravos e/ou agregados150 nos domicílios com expostos
Número de escravos e/ou agregados Número de domicílios Porcentagem
Com escravos e/ou agregados 25 96%
Sem escravos e/ou agregados 1 4%
TOTAL 26 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
TABELA 18
Presença de escravos nos domicílios com expostos
Número de escravos Número de domicílios Porcentagem
Nenhum 4 15% 1 a 3 8 31% 4 a 6 5 19% 7 a 9 6 23% 10 ou mais 3 12% TOTAL 26 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
150
No tópico acima, ao analisarmos os agregados dos domicílios, consideramos expostos como agregados. Porém, para as análises das Tabelas 17 e 19, não os consideramos como tais.
TABELA 19
Presença de agregados nos domicílios com expostos
Número de agregados Número de domicílios Porcentagem
Nenhum 8 31% 1 a 3 11 41% 4 a 6 3 12% 7 a 9 3 12% 10 ou mais 1 4% TOTAL 26 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
Nos domicílios os quais residem crianças expostas encontramos apenas três estruturas domiciliares. As casas desconexas, caracterizadas pela presença de indivíduos ou casais com escravos e agregados, representavam 31%. Os domicílios aumentados – presença de indivíduos ou casais com filhos, netos e outros parentes mais escravos e agregados – eram 61%. O outro tipo de estrutura encontrada eram os domicílios fraternos – não possuía chefe de domicílio definido – que representava apenas 8%.
Isso significa que a maior parte dos chefes de domicílios, que possuíam expostos em suas casas, também residia com pelo menos um filho. Eles representavam 61%. O número de filhos nesses domicílios variava de 1 a 4, sendo 23% dos domicílios com apenas 1 filho, 15% com 2 ou 3 filhos, e 8% com 4. Não podemos, portanto, afirmar que a ausência de filhos do chefe de domicílio justificaria a opção de desejar criar um exposto, pelo menos na maioria dos casos aqui analisados.
TABELA 20
Estruturas domiciliares das residências com crianças expostas
Estruturas domiciliares Número Porcentagem
Singulares 0 0% Desconexas 8 31% Nucleares 0 0% Extensas 0 0% Aumentadas 16 61% Fraternas 2 8% TOTAL 26 100%
GRÁFICO 16
Estruturas domiciliares das residências com expostos - área urbana de Mariana (1819) 31% 61% 8% Desconexas Aumentadas Fraternas
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
TABELA 21
Chefes de domicílios com filhos residindo na mesma casa
Número de filhos dos chefes de domicílio Número de domicílios Porcentagem
Nenhum 10 39% 1 6 23% 2 4 15% 3 4 15% 4 2 8% 5 0 0% Mais de 5 0 0% TOTAL 26 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
Além da presença de filhos, procuramos analisar também a presença de “crianças alheias” que conviviam no mesmo domicílio que as expostas. Através da Tabela 22, percebemos que, na maior parte dos domicílios, apenas expostos eram encontrados, sendo que apenas em 31% das residências analisadas encontramos a presença de “crianças alheias”. Em relação a este grupo de domicílio, cabe sublinhar que a maioria possuía apenas uma criança nessa condição.
Entretanto, uma das residências nos surpreende pelo número de “crianças alheias”. Ela era chefiada por Dona Maria Josefa, branca, solteira, 45 anos. Neste domicílio encontramos 12 pessoas além da “chefe de domicílio”, sendo três escravos, sete agregados e dois expostos. Dos sete agregados, temos cinco
crianças: um recém-nascido de 6 meses, chamado Francisco; três meninas – Maria Eufrazia, Maria Antonia e Maria cabra – com 10, 11 e 3 anos; e Manoel Francisco, de 14 anos. Dentre os expostos havia Dona Joaquina de 14 anos e Maria de 12 anos. No entanto, pelo menos no caso dos domicílios em que residiam expostos, a presença de um grande número de crianças, tal qual havia na casa de Dona Maria Josefa, não era comum.
TABELA 22
Presença de “crianças alheias” nos domicílios com expostos Número de “crianças
alheias” no domicílio Número Porcentagem
Nenhum 18 69% 1 6 23% 2 1 4% 3 0 0% 4 0 0% 5 1 4% Mais de 5 0 0% TOTAL 26 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
A última análise feita dos perfis dos domicílios é sobre as ocupações dos moradores das residências com expostos. Dos 26 domicílios, em 12, ou seja, 46%, não havia a presença de moradores com ocupação. Como podemos observar, nos outros 14 domicílios, pelo menos um morador apresentava algum emprego. Dentre esses, encontramos alguns cargos de destaque, como advogado, escrivão de órfãos e sacristães. Há também os ofícios mecânicos como carapina, carpinteiro, ouvires, pintor e fazer esteiras. Os outros ofícios encontrados são os de escrevente, negócios, vendas e solicitador.
Em algumas ocupações, como os ofícios mecânicos e as pessoas que trabalhavam com vendas ou negócios, a presença de expostos poderia ser interessante para o uso de mão de obra. Porém, é difícil constatar se essas ocupações influenciaram ou não os expostos, mas possivelmente alguns deles se tornaram aprendizes nesses ofícios.
TABELA 23
Ocupações dos moradores das residências com crianças expostas
Ocupação Número Nenhum 12 Advogado 1 Carapina 1 Carpinteiro 4 Escrevente 1 Escrivão de órfãos 1 Fazer esteiras 1 Negócio 2 Ouvires 2 Pintor 1 Sacristão 2 Solicitador 1 Venda 2
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651