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No sistema educacional japonês verificamos o profundo respeito da sociedade em relação à figura do professor. O relacionamento dos alunos com seus professores vai além do cotidiano da sala de aula, sendo comum as visitas sociais recíprocas. No sistema hierárquico japonês o professor ocupa uma posição privilegiada, e a ética do débito acrescenta que nesse caso os dois lados contraem obrigações, já que o progresso é considerado mútuo.

Em seu livro “Desafio Educacional Japonês” White (1988 pg.127) escreve um capítulo intitulado “O Paraíso dos Professores?”. Nele a autora escreve sobre o professor japonês e seu cotidiano, e já no início questiona a realidade por trás da imagem criada desse profissional, ou melhor, quais seriam os motivos de o professor ser uma figura ilustre nesse país:

O professor norte-americano bem pode invejar sua contrapartida japonesa. Ele é muito respeitado, tem estabilidade de emprego e é bem pago. O administrador da escola nos Estados Unidos também poderá invejar o diretor japonês, cujo corpo de professores e assistentes atendem às suas metas e expectativas e cuja direção e ocasional intervenção são vistas como amistosas. Mas qual seria a realidade por trás deste retrato bondoso?

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Como dito anteriormente no capítulo quatro, em uma escola no Japão, à chegada do professor, os alunos se levantam e fazem uma pequena reverência dizendo todos ao mesmo tempo, “professor, por favor,” que pode ser mais bem significado em termos ocidentais como “professor, por favor, nos conceda o favor de nos ensinar”. A imagem mental formada por meio das informações acima, nos dão uma pequena idéia da importância da figura do professor.

Certamente em uma cultura onde a educação é considerada um valor, a figura do professor será valorizada. No caso da cultura japonesa, o professor de antes da guerra era reverenciado como a corporificação da virtude, o conhecimento concreto que a criança poderia absorver seria secundário relativamente, à virtude moral adquirida imitando o professor. Nessa época o professor não tinha uma formação específica e as classes eram compostas com alunos de diversas idades. Recitar era considerado uma tarefa participativa em que se ressaltava o desempenho oral. A capacidade de decorar também era valorizada, pois indicava a capacidade de concentração da criança. Os textos eram confucianos, às vezes budistas, e não serviam apenas para se aprender ler e escrever, mas também serviam como portadores de explícita moralidade pessoal e social38.

A escolha do magistério no Japão é vista como uma oportunidade de ter uma profissão menos burocrática, com mais autonomia. O salário também é relativamente alto, considerando outros empregos públicos, sendo em torno de vinte mil dólares anual. Como é de costume no Japão, os aumentos de salário estão ligados ao tempo de serviço. Sobre a questão de salário White39 escreve:

Respeito se reflete no salário. Os professores japoneses ganham um salário inicial maior que outros funcionários públicos do Japão, sendo que este salário inicial é igual ou melhor do que os das grandes companhias. O magistério é uma carreira muito procurara e gratificante para os bacharéis – nos Estados Unidos os professores são os bacharéis pior remunerados.

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White 1988 pg.129

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White escreve comparando o professor japonês com o americano40, mas no Brasil a situação não é diferente. Para Machado (2004(a) pg.24) a questão do salário também faz parte do rol de problemas do nosso sistema educacional:

[...] Motivados por um projeto coletivo que lhes faça sentido e munidos de condições de trabalho adequadas, o que, naturalmente, inclui uma remuneração digna, os professores cresceriam em serviço, em muito pouco tempo. Muitos dos que, desiludidos, abandonaram as salas de aula, a ela voltariam, por vocação e opção. [grifo nosso]

Ao falar sobre educação, a reivindicação de uma remuneração digna pode parecer redundante ou inadequada, mas vivendo em uma sociedade capitalista como a nossa, ignorar esse problema é pura utopia. Não se trata de pensar na educação como uma mercadoria, e sim de repensar que valores atribuímos a esses profissionais em contrapartida de outros. Sobre esta crise na atribuição de valores Machado diz:

Em sentido amplo, os desequilíbrios revelam-se em todos os âmbitos. Urge, por exemplo, que se reflita sobre o significado de se pagarem imensas quantias a um pequeno número de artistas ou desportistas para realizarem suas atividades, tão dignas de admiração e remuneração quanto as de um padeiro, de um médico, de um enfermeiro, de um professor ou de um lixeiro, enquanto grande parte da humanidade vive sem um mínimo de condições materiais. Urge refletir sobre o esvaziamento na valorização do reconhecimento público que visa ao bem comum. O que, realmente, vale a pena? (2004 (a)pg. 22)

6.3.1 A importância do professor

No livro “Memórias de Escola” de Teresa Cristina Rego, os depoimentos de pessoas sobre suas memórias deste período, evidenciam o poder da figura do professor, tanto para o bem quanto para o mal. Pudemos perceber em trechos das entrevistas que escolhas foram feitas sob a influência do professor, como por exemplo:

Foi uma experiência muito traumática. [...] Eu me lembro perfeitamente quanto eu comecei a escrever números, uma vez eu fiz a minha lição com todos os

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números invertidos. Todos os números eram espelhados, com exceção do oito e o zero que não tinha jeito, e eles eram feitos numa ordem inversa da que a professora queria. Eu me lembro que a professora chamou minha atenção com muita veemência [...] Foi uma experiência muito ruim! A minha vingança é que até hoje eu faço todos os números ao contrário [risos] [...] Até hoje eu tenho uma grande dificuldade para escrever. Por exemplo, eu vacilo na hora de fazer o “a”, vacilo na hora de escrever algumas letras...

[...] eu sempre me lembro da professora quando escrevo. Ela já deve estar morta e no inferno uma hora dessas por ter feito isso [risos]... Guilherme – 45 anos, jornalista (Rego, 2003, pg. 181)

Sobre os depoimentos, Rego chama a atenção para a mistura entre a admiração por determinado professor com o objeto de conhecimento por ele ensinado, apresentada pelos entrevistados:

[...] me veio agora uma professora de português, uma japonesa, professora Minomo, do Ginásio. Primeiro, porque era uma pessoa especial, depois por causa do jeito como encaminhava as aulas. Português era uma matéria que eu tinha dificuldades. [...] Quando eu cheguei no Ginásio, tive a sorte de cair com a professora Minomo, que não dava valor somente para a gramática, mas também para a redação. E eu já escrevia razoavelmente. Gostava de escrever...E a professora Minomo incentiva isso. [...] Celso – 44 anos, jornalista (Rego, 2003, pg. 220)

[...] Eu me lembro das professoras e dos professores de todas as faces, e de seus respectivos nomes, mas as do Primário são as mais marcantes. Elas eram pessoas conhecidas na cidade41, e tinham uma relação afetiva muito especial com todos os alunos. Elas tratavam a gente muito carinhosamente, muito afetivamente. [...] Francisco - 58 anos, professor universitário e autor de livros (Rego, 2003, pg.302)

Na conclusão de sua tese sobre as marcas que a escolarização deixa, Rego atenta para o papel dos professores:

A análise dos depoimentos sugere que, no âmbito escolar, o interesse, facilidade ou dificuldade com determinado assunto ou área do conhecimento, está diretamente relacionado ao perfil e à conduta do professor responsável por aquela

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área do saber. O que reforça a idéia de que é expressiva a influência do professor sobre o aprendiz, capaz inclusive de facilitar ou obstruir, e, conseqüentemente, deixar marcas profundas na performance escolar de cada aluno. Isto fica ainda mais explícito quando comentam sobre os professores que marcaram negativamente. (Rego 2003 pg. 394)

Sobre as lembranças positivas, Rego ressalta a conexão apresentada pelos entrevistados sobre a competência dos profissionais envolvidos. Para a autora, os depoimentos deixaram claro que o fato de se tratar de profissionais competentes fez com que fossem marcantes nas trajetórias individuais. Na maioria dos casos, muitos lembravam o nome, a aparência, seus jeitos, seus hábitos, se eram afetivos, o modo como conduziam a aula, etc., desses professores.

Pensando na valorização atribuída a certos profissionais, citada por Machado, e na importância do professor na formação do indivíduo, relatada por Rego, acreditamos que, diferentemente do que acontece na cultura japonesa, a figura do professor não apresenta no Brasil o mesmo “valor” que o caracteriza no Japão como personagem ilustre no contexto social desse país.

Benzer Belgeler