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Agentes culturais, oficineiros e jovens educadores são algumas das denominações dos trabalhadores, na maioria jovens, que vêm desenvolvendo ações socioculturais no contexto da educação integral preconizada pelo Programa Mais Educação e especialmente no PEI da rede municipal de ensino de Belo Horizonte como já visto. Com o intuito de proporcionar uma formação cidadã a crianças, adolescentes e jovens, a escolha pelos agentes culturais partiu da tentativa de aproximar a escola às comunidades. Além disso, por possuírem vínculos com os locais onde as atividades educativas são realizadas, acredita-se no desenvolvimento de uma aproximação cultural entre os educadores e os alunos. Para Dayrel, Carvalho e Geber (2012, p. 159), o conhecimento do território e as suas expressões culturais e simbólicas dos agentes culturais acarretariam formas de transmissão cultural e sociabilidade diferenciadas daquelas construídas entre alunos e professores.

Vimos anteriormente que os agentes culturais pesquisados da Escola B possuíam o nível médio de ensino, embora não fosse exigida deles uma escolaridade mínima, e suas oficinas resultavam de suas experiências, sem correspondência com saberes acadêmicos. Tais dados vão ao encontro do resultado da pesquisa realizada por Dayrel, Carvalho e Geber (2012) sobre os jovens educadores no contexto da educação integral e do estudo realizado por Geber (2010) sobre o perfil dos oficineiros dos projetos sociais. Segundo os autores, questões como as especificidades dos saberes trabalhados nas oficinas, os locais de aprendizagem desses saberes, a perspectiva da valorização do contato com as crianças e jovens e o reconhecimento da importância do processo de socialização nos seus espaços educativos podem ser apontadas como integrantes de uma possível identidade profissional dos educadores.

Conforme os autores, muitos educadores aprendem o que ensinam em diferentes espaços educativos (projetos, grupos, movimentos sociais, amigos) e possuem autonomia na organização das mesmas. Normalmente as oficinas ministradas não fazem parte dos currículos de cursos de formação de professor, nem mesmo se encontram nas grades curriculares das universidades. Mesmo oficinas de esporte não são atribuídas à escola ou à universidade o caráter de principais locais de aprendizagem desses saberes pelos educadores (DAYREL; CARVALHO; GEBER, 2012, p. 163), como foi o caso analisado do Agente Cultural Y que atribuiu a sua experiência como aluno de jiu-jítsu de uma academia de ginástica à prática de sua oficina.

Segundo Dayrel, Carvalho e Geber (2012, p. 160), além das oficinas, muitos jovens educadores são envolvidos em trabalhos voluntários e associações comunitárias ou de moradores assumindo por vezes um papel de liderança em suas comunidades. E, embora responsáveis pela realização de ações educativas culturais e esportivas, possuem acesso restrito a locais culturais da cidade, como parte da população jovem pobre. Outra característica comum identificada entre os oficineiros foi a precariedade dos espaços educativos, materialidade e condições de trabalho na qual desempenham suas oficinas, fato confirmado também entre os agentes culturais da Escola B.

Além da importância dada ao diálogo com os educandos, a perspectiva da oficina para além da transmissão de saberes como momento de realização de uma formação humana, da transmissão de valores e de socialização foram atribuições destacadas pelos jovens educadores das atividades realizadas (DAYREL; CARVALHO; GEBER, 2012, p. 167). Tais perspectivas se assemelharam às relatadas pelos agentes culturais, X e Y, da Escola B, que enfatizaram a socialização, a mudança de comportamento dos alunos na vivência com os colegas e nas oficinas e o diálogo com as crianças e os adolescentes como pontos importantes de seu trabalho. Com isso, podemos dizer que as oficinas dos agentes culturais caracterizam- se mais pela transmissão de valores socioculturais e como um espaço de formação humana do que como um local de transmissão de saberes e de conhecimentos.

Esse fato demonstra de certa forma o tipo de formação que se pretende dar às crianças, adolescentes e jovens no âmbito da educação integral fomentada pelo programa do governo federal Mais Educação e pelo PEI. Uma formação que se pretende mais cidadã, que proporcione o reconhecimento dos alunos como integrantes de sua comunidade, direcionada principalmente a alunos de baixa renda e em condições de vulnerabilidade social. Entretanto, como argumenta Coelho (2010, p. 09), em que medida essas atividades socioeducativas, com essas finalidades, afetam a condição de aluno dessas crianças?Até que ponto essas atividades interferem na realidade escolar, integrando conteúdos/conhecimentos, fazendo “pontes” entre os conhecimentos adquiridos e os intuídos, “qualificando” cada vez mais o ensino fundamental/básico que, em última instância, é ainda aquele que se evidencia como “fundamental” à emancipação?

Mesmo sabendo da necessidade e importância que os programas têm atualmente no contexto das políticas sociais e de enfrentamento à pobreza, não se pode perder de vista o aluno. Sendo assim, as atividades realizadas pelos agentes culturais podem ser parte significativa da formação integral ou completa desses sujeitos, estando incluída aí a formação cognitiva, afetiva, corporal, racional e emocional, desde que integradas ao currículo da escola,

dialogando com os demais saberes ofertados pela escola. Situação não presenciada na Escola B, onde o PEI está implantado desde 2009, mas não é formalmente reconhecido por ela, já que não consta em seu PPP. Além disso, os relatos demonstraram total distanciamento entre os oficineiros e equipe do PEI com os profissionais do turno regular de ensino, havendo um total desconhecimento da comunidade escolar sobre o programa, embora tivesse uma grande conjugação de esforços da professora comunitária em dar visibilidade às atividades. A fala do Agente Cultural Y mostra bem a relação de distanciamento que a escola tem com o PEI:

Porque a gente dá aula aqui como se fosse uma brincadeira, mas é uma coisa séria, mas a gente leva mais como uma brincadeira porque são crianças, né? Não é uma ditadura militar, então que nem aí o pessoal olha, passa, vê as coisas, os meninos ficam assim, às vezes tem muita crítica, né? O pessoal do outro lado, né? O lado B31. (Agente Cultural Y – Escola B).

Dessa maneira, estaria o PEI proporcionando uma formação significativa aos seus alunos desacreditada pela própria escola? Como pretender a educação integral dos alunos se a própria escola parece não ter conhecimento do que ela representa? Por que não potencializar os saberes dos agentes culturais construindo uma nova proposta política pedagógica que dialogue com os conteúdos escolares? E ainda, por que não ampliar a jornada de trabalho dos professores para acompanharem as atividades de seus alunos desenvolvendo pontes entre os conhecimentos escolares e os comunitários auxiliados pelos agentes culturais?

Muitas são as questões suscitadas e poucas são as respostas. Desse modo, passemos aos outros sujeitos docentes do PEI, os bolsistas universitários.

Benzer Belgeler