1.1. Problem Durumu
1.1.4. İlgili Araştırmalar
John, o Selvagem, serve como a figura que estabelece os diálogos de contraponto ao mundo civilizado do Estado Mundial. Esse contraponto fica evidente e mais sistematizado a partir do seu contato com o Administrador. De forma geral, não há concordância em nenhum aspecto das suas visões de mundo. Há um item, no entanto, que chama a atenção positivamente do Selvagem, e que ele logo destaca no início da conversa com o Administrador: “existem coisas que são muito agradáveis. Toda essa música no ar, por exemplo...” (p. 265).
Essa música, que é tocada através de alto-falantes e pelo rádio – que é onipresente em ambientes de forma geral e nos helicópteros – e executada em bares e locais de diversão, é definida no texto como „sintética‟. Uma alusão que pode ser identificada com a forma como é produzida e com o conteúdo propriamente dito (ela também é produzida de forma centralizada através de especialistas no prédio da Fleet Stret). Ela é descrita como simplificada e simplória e é toda produzida e executada de acordo com fórmulas que facilmente agradem os ouvintes. Numa das descrições da música executada num local
94 O Selvagem seguia tradições da sua vida de Malpaís e em certos momentos da vida ele sentia
a necessidade de se auto-flagelar com um chicote como forma ritualizada de purificação. As cenas dele se auto-infligindo os golpes acabaram gerando uma fascinação pelo exotismo da cena e pela possibilidade de ser mais uma “sensação” a ser vivida.
chamado Cabaré da Abadia de Westminster - no qual as atrações são anunciadas como: “O MELHOR ÓRGÃO DE PERFUMES E CORES DE LONDRES. A MÚSICA SINTÉTICA MAIS RECENTE”95 (p. 93) – há a ênfase na satisfação
espontânea do público como algo desejável: “carregando os segundos obscurecidos de uma expectativa intensa. E enfim a expectativa foi satisfeita. Houve um súbito nascer do sol explosivo e, simultaneamente, os Dezesseis entoaram a canção” (p.94).
A ida aos cinemas, a audição de música sintética, o consumo de soma, a prática constante de esportes, as viagens turísticas e o sexo sem relações afetivas e com parceiros variados são práticas que se interligam e servem para ocupar o tempo livre de forma constante. O condicionamento faz com que a pessoa – em estado normal – não se sinta bem quando há silêncio ou vazio. Numa situação na qual Lenina e Marx saem para um passeio de helicóptero, Marx decide pairar em silêncio sobre o mar. A isso Lenina reage - sintetizando a forma considerada normal de agir – com veemência: “Mas que horrível – disse Lenina, afastando-se da janela. Estava aterrorizada pelo vácuo envolvente da noite, pelas negras ondas espumantes que se encapelavam abaixo deles, pelo disco pálido da lua, espantado e atormentado entre as nuvens que corriam. – Vamos ligar o rádio. Depressa” (p. 110).
O silêncio e o vácuo geram horror e, por isso, é fundamental haver sempre algo que ocupe o fluxo de uma possível consciência, algo que seja capaz de tornar exterior aquilo que consciente ou inconscientemente acabaria por gerar a instabilidade, o ruído e, por conseguinte, a reflexão que caracterizam Marx ou o Selvagem, os anormais. Marx justifica sua intenção, sua ideia do que é o silêncio e a contemplação: “Isso me dá a sensação de ser mais eu, se é que você compreende o que quero dizer. De agir mais por mim mesmo, e não tão completamente como parte de alguma outra coisa. De não ser simplesmente uma célula do corpo social. Você não tem a mesma sensação, Lenina?” A resposta dela revela, então, como o „cidadão ideal‟ de Admirável vê o mundo: “- É horrível, é horrível – repetia. – E como é que você pode falar assim de não querer ser parte do corpo social? Não podemos prescindir de ninguém. Até dos Ípsilons...”
(p. 111). A resposta ou o argumento sempre recai num verso hipnopédico inculcado desde cedo e tudo se torna parte de uma grande maquinaria social.
Esse modo de vida, que afasta todos de momentos solitários, que poderiam se transformar em reflexões, faz parte do planejamento do Estado Mundial como um todo. O tempo que se passa sozinho é visto com desconfiança, como possibilidade de desequilíbrio, como algo que pode sair do controle. O Administrador fala, por exemplo, sobre a questão dos livros - “Não se pode consumir muita coisa se [você] fica sentado lendo livros” (p. 64) – que bem pode ser aplicada a qualquer atividade distante das práticas coletivas. Booker (1994b) acrescenta que: “a leitura [ou qualquer atividade solitária] é uma atividade essencialmente individual, que é difícil de controlar, porque os livros requerem bastante tempo para ler, criando o perigo de uma longa exposição que pode conduzir ao pensamento, desviando os leitores de atividades economicamente produtivas nessa sociedade ultra-capitalista” (p. 58).
Assim como acontece com o cinema, o conteúdo do rádio do Estado Mundial também é marcado pelo show, pela diversão, pelo espetáculo, pela transformação dos fatos numa cena de cinema ou de circo. Isso fica evidenciado, novamente, quando o Selvagem se exila da cidade. Quando é descoberto em seu mundo estranho aos civilizados, não tarda a chegada dos repórteres equipados com microfones para a transmissão ao vivo das palavras do Selvagem:
É que, naturalmente, nossos leitores se interessariam muito em... – Inclinou a cabeça para um lado, seu sorriso tornou-se quase sedutor. – Apenas algumas palavras suas, Sr. Selvagem. (...) Alô – falou ele ao microfone. – É você, Edzel? Aqui, Primo Mellon. Sim, encontrei-o. O Sr. Selvagem vai agora tomar o microfone e dizer algumas palavras. Não é, Sr. Selvagem? – Ergueu os olhos para o Selvagem com outro daqueles sorrisos cativantes. – Queira simplesmente dizer aos nossos leitores por que veio para cá. O que o fez deixar Londres (não corte, Edzel!) de maneira tão repentina. E, naturalmente, fale-lhes do seu chicote. – (O Selvagem sobressaltou-se. Como sabiam do Azorrague?) – Nós estamos todos ansiosos por ouvi-lo falar a respeito do chicote. E, depois, diga-nos alguma coisa sobre a Civilização. O senhor sabe a que espécie de coisa me refiro. “O que penso da Mulher Civilizada.” Algumas palavras somente, umas poucas...” (pp. 302-303)
O resultado desse contato acaba gerando raiva e desconforto no Selvagem, que desfere um pontapé no repórter. Mais uma vez o mundo do espetáculo tem fatos para abastecer os jornais: “Oito minutos mais tarde, uma nova edição do Rádio Horário era vendida nas ruas de Londres. “Repórter do Rádio Horário Recebe do Selvagem Misterioso um Pontapé no Cóccix”, dizia a manchete da primeira página. “Sensação no Surrey” (p. 303). Na sequência da publicação outros veículos seguem em direção ao farol para acompanhar a vida do Selvagem e outros repórteres irão em busca de curiosidades sobre a sua.
Os meios de comunicação transformam a vida do Selvagem numa grande distração, capaz de alimentar os jornais, o rádio e o cinema por algum tempo. Por alguns dias, haverá algo sobre o que comentar. A “opinião pública” terá se abastecido de fait divers, de mais uma frivolidade útil à manutenção de uma população confinada em permanente infância.