• Sonuç bulunamadı

2. KURAMSAL BİLGİLER VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

2.2. İlgili Araştırmalar

A existência do discurso depende diretamente de uma estrutura, a maneira como ele se articula tanto internamente quanto externamente, ou seja, se considerarmos uma frase, sua estrutura interna compõe-se pela organização de palavras, e sua estrutura externa refere-se à sua inserção num contexto, no momento da fala.

Para avançarmos no entendimento da estrutura de um discurso, recorreremos aos conceitos de 'langue' e 'parole', definidos por Saussure89 e adotados amplamente na

linguística e na semiótica90. Consideraremos o discurso

estruturado pela relação desses dois conceitos internamente e externamente. A 'langue' pode ser considerada a língua, um código que é definido arbitrariamente, e é incorporado por uma comunidade, numa espécie de contrato social, quando todos têm acesso ao código e fazem uso dele através da 'parole'. A 'parole' é a fala, a maneira de comunicar fazendo uso dos códigos pré estabelecidos na 'langue' para comunicar uma mensagem. Segundo Paul Ricoeur:91

"[u]ma mensagem é individual, o seu código é coletivo. (...) A mensagem e o código não pertencem ao tempo da mesma maneira. Uma mensagem é um evento temporal na sucessão de eventos que constituem a dimensão diacrônica do tempo, ao passo que o código está no tempo como um

89os conceitos de 'langue' e 'parole' não foram tomados originalmente em Saussure, são estudados

aqui a partir de sua interpretação por Geoffrey Broadbent, George Baird e Charles Jencks, José dos Santos Cabral Filho, Paul Ricoeur, Roland Barthes, Paul Cobley e John Maher.

90optamos por adotar o termo semiótica (Charles Sanders Peirce) no lugar de semiologia

(Ferdinand de Saussure) por ser o primeiro mais abrangente e cujos conceitos intrínsecos (sintática, semântica e pragmática; ícone, índice e símbolo; significado, significante e interpretante ou referente) já fazem parte, de certa forma, do vocabulário da arquitetura. Ver BROADBENT, Geoffrey. Semiotica: una guia para el hombre comun a la teoria de los signos en arquitectura. [Artigo publicado originalmente em Architectural Design. London: Academy Editions. v.47, n.78, 1977. Traduzido por Olga Howard em 1980 da Universidad de Chile, e publicado em estêncil pela Escuela de Arquitectura de la U. del Norte em 1983. Cópia xerocopiada em Espanhol foi distribuída pelo próprio Professor Broadbent em workshops na Escola de Arquitetura da UFMG em 1995 e 1996].

91RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. Lisboa:

conjunto de elementos contemporâneos, isto é, como um sistema sincrônico."

O discurso pode ser considerado um evento, pelo fato de sua existência depender do seu acontecimento, mas só é dotado de significação graças às frases, que articulam as palavras que fazem parte do código, da língua92.

As palavras isoladas são apenas signos93 que foram

arbitrariamente designados para que possamos nos referir às coisas. Os Saussurianos consideram as palavras como 'significantes' e os objetos ou idéias a que elas se referem como seus 'significados'. Ricoeur rejeita a relação entre significado e significante proposta por Saussure, argumentando que trata-se de um sistema auto-suficiente de relações internas, sendo unidimensional, por considerar apenas a relação interna dos signos. "Uma frase é um todo irredutível à soma de suas partes. É constituída por palavras, mas não é uma função derivativa das suas palavras. (...) A frase não é uma palavra (signo) mais ampla ou mais complexa. É uma nova entidade."94 A partir da

frase surge a possibilidade de uma relação dialética, bidimensional, onde, no evento do discurso, é revelada a significação baseada na dicotomia sentido/referência. O significado da frase é dado pelas palavras que são parte do código, ou seja é a interpretação do código pelo ouvinte, mas seu sentido depende diretamente da referência externa à frase, o contexto em que está sendo usada. Ainda quanto a relação de referência da frase no contexto em que é falada, devemos considerar o ouvinte como interpretante, que

92Ricoeur adota 'discurso' no lugar de 'parole', defendendo que a 'parole' de Saussure está

relacionada diretamente ao signo em suas relações internas, prefere ampliar o sentido no 'discurso', onde a frase é que contém a significação do evento, não as palavras. RICOEUR, Paul. Teoria da

interpretação: o discurso e o excesso de significação. Lisboa: Edições 70, 1987.

93"Un signo en el sentido de Peirce, es simplemente algo que hace posible el pensamiento, y, tal

como él desarolló esta hipótesis, su 'semiótica' aparece como un estudio global de los signos, de los procesos sígnicos, de las mediciones sígnicas y de las demás operaciones complejas que tienen lugar cuando se cambian recíprocamente objetos reales o, (...) cuando se cambian pensamientos por objetos." BROADBENT, Geoffrey. El Significado en la arquitectura. In: JENCKS, Charles & BAIRD, George. El Significado en arquitectura. [Traduzido por Tereza Muñoz]. Madrid: H. Blume, 1975. pág. 55.

94RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. Lisboa:

estabelecerá a conexão sentido/referência durante a fruição do discurso, o que faz com que o discurso seja vivo, sendo considerado um evento.

Para Ricoeur95 o discurso como evento é fugaz, temporal e

atual, enquanto o código (as palavras) permanece, sendo virtual, não existindo de fato. O código só se faz presente através do acontecimento do discurso. Ninguém é capaz de repetir todas as palavras de um discurso, exatamente como ouviu, mas é possível repetir seu 'sentido' com outras palavras, ou mesmo em outra língua. A relação de sentido e referência do discurso permite que sua significação seja alcançada independentemente da relação interna das palavras (signos) em suas frases. Isso leva Ricoeur a preferir uma análise semântica do discurso a uma análise semiótica, argumentando que a semiótica estuda os signos, os códigos como nos são dados, reduzindo-se ao estudo formal, partindo da dissociação da língua em suas partes constitutivas (signos); enquanto a semântica se propõe a estudar a frase enquanto sentido e referência, ou seja, aborda o discurso enquanto evento dotado de significação.

"A semiótica aparece como mera abstração da semântica. E a definição semiótica do signo enquanto diferença interna entre o significante e o significado pressupõe a sua definição semântica como referência à coisa, em cujo lugar está. Assim, a definição mais concreta de semântica é a teoria que relaciona a constituição interna ou imanente do sentido à intenção exterior ou transcendente da referência."96

Aponta, assim, o perigo da redução ao estudo das relações internas dos signos quando da análise semiótica, risco que não correríamos quando de uma análise semântica.

95RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. Lisboa:

Edições 70, 1987.

Para Broadbent97, no entanto, o estudo da semiótica é

extremamente importante para entender a arquitetura, visto que os observadores vão sempre 'enxergar' um significado na arquitetura, seja ele intencional ou não. Ele aponta nove termos básicos da semiótica, divididos em três conjuntos de três, que considera suficientes para que alguém possa entender a estrutura da arquitetura enquanto discurso. Baseado em Saussure, propõe que estudemos 'significante, significado e referente', sendo que o referente é uma complementação à teoria original, tendo sido proposto por Ogden & Richards, onde o significante é o signo (que chamam de símbolo), o significado é o pensamento ou a referência que temos do significante, e o referente é o objeto, pessoa ou evento que está sendo referido. Consideraremos em nosso estudo o significante, o significado e o interpretante, no lugar do referente.98

A partir da semiótica de Peirce, Broadbent extrai a 'tricotomia' ícone, índice e símbolo, por considerá-los a parte mais frutífera da teoria. Entendemos por ícone um signo que se refere a um objeto ou conceito por semelhança a alguma parte do objeto, seriam as representações em geral - metonímias, fotos, vídeos, desenhos. O índice, como o

97BROADBENT, Geoffrey. El Significado en la arquitectura. In: JENCKS, Charles & BAIRD,

George. El Significado en arquitectura. [Traduzido por Tereza Muñoz]. Madrid: H. Blume, 1975. e também BROADBENT, Geoffrey. Semiotica: una guia para el hombre comun a la teoria de los

signos en arquitectura. [Artigo publicado originalmente em Architectural Design. London: Academy Editions. v.47, n.78, 1977. Traduzido por Olga Howard em 1980 da Universidad de Chile, e publicado em estêncil pela Escuela de Arquitectura de la U. del Norte em 1983. Cópia xerocopiada em Espanhol foi distribuída pelo próprio Professor Broadbent em workshops na Escola de Arquitetura da UFMG em 1995 e 1996].

98Na relação proposta por Broadbent, o significante é o signo - como a palavra que usamos para

nos referirmos a alguma coisa - o significado é o pensamento que o significante desperta, e o referente seria o objeto ou idéia a que os dois primeiros se referem. Estamos considerando que essa proposta ainda se restringe à relação interna dos signos, por não incluir o observador e a referência externa que propicia o 'sentido' na significação. Quando propomos a substituição do referente pelo interpretante, não estamos desconsiderando o objeto (que seria o referente), estamos deslocando-o para o lugar do significado, considerando que cada observador tem uma relação distinta com o objeto, ou seja, o objeto significa diferentemente a cada interpretação, assim como o signo que é seu significante. Segundo estamos entendendo, o significante é o signo que 'substitui' o objeto quando de sua comunicação; o significado é o que o objeto significa para quem interpreta, ou seja, a referência do próprio objeto para o interpretante; enquanto o interpretante é o observador que faz a conexão entre o significante e seu significado. Com a presença do interpretante a relação sígnica deixa de ser interna, ampliando-se ao 'sentido' dependendo do contexto, além de levar em conta a dinâmica da percepção.

próprio nome diz, é um signo que indica, anuncia alguma coisa, estabelecendo uma relação de cumplicidade entre observador e objeto, visto que só é índice se o observador assim interpretar; são índices os sintomas de doença, o termômetro, etc. O símbolo pode ser definido como um signo que deixa de ser arbitrário, sendo estabelecido culturalmente, por uma espécie de pacto social, é menos direto, e mais difícil de ser identificado; quando entramos numa sala para uma reunião formal, se somos parte integrante do grupo cultural, sabemos identificar onde devemos nos assentar e onde a pessoa que dirigirá a reunião se assentará, a hierarquia é simbolizada pelo posicionamento das cadeiras, ou mesmo por sua distinção. Símbolo é um signo que é uma lei em relação ao seu objeto, podendo encerrar em si tanto o ícone como o índice, e sua significação estabelece-se segundo uma convenção ou pacto coletivo, a que chamamos contextualização, que está sempre condicionada à relação espaço temporal. O símbolo sempre oculta um sentido invisível mais profundo e é instável.

O terceiro conjunto de conceitos foi desenvolvido por Charles Morris, discípulo de Peirce, que divide a semiótica em três níveis básicos: pragmático, sintático e semântico. A pragmática pretende avaliar os efeitos dos signos nos seus 'usuários', as reações que os signos despertam. A sintática trata das relações internas dos signos, como as palavras se juntam para formar uma frase, sem considerar o nível do significado nem do contexto. A semântica aborda a significação dos signos em seus diversos níveis e formas de aparecimento.

Consideraremos em nossa avaliação tanto a semântica proposta por Ricoeur quanto a semiótica proposta por Broadbent, por identificarmos em ambas contribuições para o entendimento da arquitetura enquanto discurso e sua significação. Tanto a semântica geral de Ricoeur99 quanto a

99RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. Lisboa:

semântica proposta por Charles Morris100 vão focar a

significação do discurso em seu contexto, sendo que o primeiro divide sua semântica em três 'atos' - locucionário, ilocucionário e perlocucionário - e o segundo divide a semiótica em três níveis - sintático, semântico e pragmático. O ato locucionário identifica-se com a sintática, a organização que é dada à frase no acontecimento (evento) do discurso. O ato ilocucionário identifica-se com a semântica, é onde se explicita a intenção da fala, sua significação; ainda enquanto evento, o ato ilocucionário possibilita a interpretação do sentido da frase no contexto em que é pronunciada. A pragmática relaciona-se com o ato perlocucionário, e indica a sensação causada pelo evento do discurso, avalia as 'respostas' dos observadores/ouvintes.

Consideraremos a semântica da arquitetura em seu sentido mais amplo, porém enfocaremos o ato ilocucionário - a semântica da análise semiótica. É nosso objetivo manter no registro a significação da arquitetura enquanto acontecimento, propiciando a interpretação do sentido segundo o contexto (referência). Não nos interessa avaliar a reação do usuário, nem a maneira como os elementos arquitetônicos se articulam entre si, visto que não é nosso intuito aqui trabalhar com o processo de produção da arquitetura. Embora tenhamos consciência da importância dessas duas avaliações na arquitetura e também em seu registro, pretendemos apenas levantar as características do discurso arquitetônico que devem ser presentadas quando de seu registro. Se o registro trouxer as mesmas possibilidades de significação da arquitetura, mantendo a mesma relação semântica (ato ilocucionário), automaticamente ficam garantidas também as possibilidades pragmática (ato perlocucionário) e sintática (ato ilocucionário).

100BROADBENT, Geoffrey. Semiotica: una guia para el hombre comun a la teoria de los signos

en arquitectura. [Artigo publicado originalmente em Architectural Design. London: Academy Editions. v.47, n.78, 1977. Traduzido por Olga Howard em 1980 da Universidad de Chile, e publicado em estêncil pela Escuela de Arquitectura de la U. del Norte em 1983. Cópia xerocopiada em Espanhol foi distribuída pelo próprio Professor Broadbent em workshops na Escola de Arquitetura da UFMG em 1995 e 1996].