BÖLÜM 1. KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
1.12. İlgili Araştırmalar
Homens e mulheres calon dispõem de um amplo e detalhado arsenal estético que funciona ao mesmo tempo como “traço identitário”, diferenciando-os dos gadjes e mostrando-se ciganos, e como aparência cigana, a performance apropriada de um modo de ser calon. Com efeito, a primeira medida tomada em relação a um gadje que se casa com um calon é vesti-lo à moda calon, é torná-lo visualmente parecido a um
calon.25 O corpo é suporte de diferenciação, no qual a roupa, as tatuagens específicas
e os dentes de ouro cumprem um papel fundamental.
Os homens usam calça jeans, camisa de modelo social, de viscose ou algodão, em geral abertas até o terceiro botão, de cores vivas e até berrantes, lisas ou estampada, cinto de couro com fivela metálica grande trabalhada com figuras de cavalos ou touros, e inscrições como “Cia de rodeio”, “Bodacious” (touro famoso por sua fúria) [foto 4]. Na cintura, exibe-se um celular preso em uma capinha, um canivete envolto por um envelope de couro, e ainda uma corrente enganchada no passador prende as chaves. Botas de couro de todo tipo, algumas de bico fino e salto, coloridas e com
24 Note-se que aqui uso a noção de “vergonha” em um sentido mais amplo, ligado a um “modo calon” de pensar e ordenar as coisas do mundo. Devo desenvolver esse conceito mais adiante.
25 Nas etnografias amazônicas de Kelly (2005; [2003] 2009) e Vilaça (1999, 2006), “virar branco” alude a uma transformação no corpo, e a incorporação de roupas do branco é um aspecto relevante do tornar-se branco. Essa transformação insere-se no entanto em uma ontologia perspectivista, cujas implicações são próprias a essa área etnográfica. Meu interesse é entender o que significa “virar gadje” ou “virar calon” na lógica calon.
adornos de couro ou metal; o chapéu de palha ou feltro completa o visual. A esse “estilo country”, compartilhado com fazendeiros, boiadeiros e peões do interior do estado, somam-se outros elementos – cabelo comprido amarrado com um elástico, dentes e acessórios de ouro – que deslocam o calon da figura do caubói [fotos 49, 66, 67]. Há uma profusão de correntes grossas, pingentes em forma de ferradura, anéis, pulseiras e relógio, de ouro ou dourados. Fica claro que quando se possui ouro, ele é exibido. “Eu tenho que juntar o meu ouro de novo”, diz um calon, sugerindo que uma pessoa deve possuir uma certa quantidade de ouro. O desejo de ter e exibir (mais) uma corrente de ouro está presente nas conversas cotidianas.
As marcas corporais são parte constitutiva da pessoa calon. Dentes incisivos centrais e laterais, caninos e pré-molares, superiores e inferiores cobertos de ouro fazem do sorriso dourado um traço diacrítico dos ciganos entre brasileiros. Algumas crianças têm os incisivos laterais forrados. Os dentes são serrados para que se possa encaixar uma capa de ouro ao redor de cada um deles. Um dentista gadje conhecido faz o trabalho e oferece “modelos”. Em São Bernardo uma das calins estava com os dentes serrados à mostra, à espera de consulta para receber o novo modelo de capa de ouro, em que a superfície lisa é trocada por um desenho de listras vazado. Um mostruário de cruzes e outros desenhos geométricos vazados estavam à disposição do cliente. Finalmente as tatuagens. Os Calon usam abundantemente tatuagens em várias partes do corpo. Uma das tatuagens características desses Calon é um ponto tatuado no rosto, normalmente na bochecha. Os Calon costumam ter essa marca desde a infância,
traço que os diferencia dos ciganos Rom.26 A maioria das mulheres casadas têm
tatuagem: além do ponto tatuado no rosto, exibem desenhos e escritos na perna, pé ou mão: flores, beija-flores, borboletas, nomes – os seus próprios, de seu marido ou filhos ou mesmo religiosas, como “Jesus” – bem como frases como “eu te amo Jade”, “Simone amo Dinho”. Entre os homens, tatuagens no braço, costas, tronco e pernas, geralmente meio borradas e descoloridas, figuram animais, um rosto de mulher ou uma mulher de corpo inteiro, Jesus; nomes e frases também são tatuados, às vezes de
26 Uma conversa com uma romni Kalderash que se casou com um calon e se “fez” calin: “Os Calon faz pintinha de tatuagem e as ramin não.” [Mas você tem umas pintinhas...] “Tenho porque meu marido fez” [Você tem tatuagem também de ramin?] “Não. Nenhuma.” Por quê? “Porque nossa tradição não usa.” Não? “Não. É muito difícil. Algumas só que tem; não é todas que tem; a pintinha é de Calon”. (DVD 82)
Modos de vestir
74 - Calin em Itapecerica com
vestido de modelo mais comum entre essas calins. As mulheres indicam que “cobrem os ombros”, e se opõem às que usam “alcinha” (ver ig. 78). Brincos de ouro no modelo calon, e um conjunto de pulseiras completam o visual.
75 - Calin em Jaboticabal, parente da
turma de Itapecerica, com o mesmo modelo. Note-se o uso de contraste entre tecido e rendas, em ambos casos.
76 - Exemplo de modelo de brinco
de ouro usado pelos Calon. Há variações, mas todos guardam o mesmo estilo.
77 - Rosa, vestindo outro exemplo do
mesmo modelo de vestido.
78 - Calins de Itapevi, “não
parentes”, mas conhecidas da turma de Itapecerica. Ao ver esta foto, as calins de Itapecerica comentaram os modelos de “alcinha” usados pelas outras: “Que vergonha!”
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forma bastante tosca, sem um desenho prévio. Minha interação com homens foi restrita, portanto não tenho muitos dados sobre como eles falam de suas roupas e dessas marcas corporais, e como estas servem a propósitos de diferenciação. Isto explica a desproporção entre o material masculino e o feminino que exploro a seguir. Entre essas calins, o mais evidente elemento de calonidade é o vestido. A blusa do vestido é em geral feita com mangas franzidas, corte abaixo do seio e cintura marcada. São costurados encaixes de renda na extremidade das mangas, no corte abaixo do seio e na cintura. A saia do vestido é montada com cortes de tecidos, franzidos e costurados com encaixes de renda e fita, cuja largura aumenta
sucessivamente de modo a torná-la rodada. Sob a saia, usam uma espécie de anágua de tecido sedoso e sintético, tipo lingerie, normalmente de cores claras. Fitas e rendas enfeitam o vestido, que deve cobrir a canela. O vestido, ou conjunto de saia e blusa, é
o único tipo de roupa usado pelas calins, inclusive para dormir.27 Nos pés, chinelos ou
tamancos. O cabelo, comprido, por vezes com mechas descoloridas, ou inteiramente pintado, anda sempre preso, com uma piranha, lenço ou elástico, e em dias de festa, com um adorno de flor – preferencialmente um cravo ou uma rosa de plástico.
Brincos, correntes, pulseiras e anéis de ouro são usados no acampamento, e bijuterias em abundância (antebraço coberto de pulseiras, por exemplo) são preferidas para ir à cidade, dizem, como precaução ao roubo. Os brincos de ouro são encomendados a um ourives quando a menina é “moça” e seguem um modelo bastante regular. Três argolas, uma pequena, uma média e uma grande, englobadas sucessivamente, com adornos pendurados no centro e em toda a extensão da argola maior, formando uma franja de ouro.28 [fotos 74, 77, 80, 84]
Além da aparência, a saia tem funcionalidade. O fato de ela ser em camadas permite que a camada exterior, de babados, visível, seja manipulada servindo a múltiplos propósitos, como secar as mãos, limpar o próprio rosto ou o de uma criança, sem que o corpo da mulher fique exposto [foto 79]. Além disso, mulheres deitam de lado, ou sentam no chão sem que haja necessidade de interpor um tapete ou outro tecido,
27 A troca de roupa ocorre após o banho, normalmente no final da tarde. As mulheres dormem com esse vestido “limpo”, e permanecem com ele todo o dia seguinte, até o horário do banho. 28 Agradeço a Mylene Mizrahi por me ajudar a descrever os detalhes da vestimenta e dos tecidos usados pelos Calon.
79 - Calin usando o vestido para limpar o rosto. Vê-se a anágua por baixo,
que protege o corpo de ser visto.
80 - Prima irmã de Chalaque em Carapicuíba, acompanhando a mãe na rua.
Note-se a diferença do modelo e dos tecidos (este rendado). O brinco também tem outro modelo. Nessa ocasião sua família não estava no mesmo pouso de Chalaque.
81 - Retrato posado de calon recém arrumado para a festa de casamento. O
uso do branco por parte dos homens calons para ir à igreja é recorrente.
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deixando claro que o vestido é em si considerado “a” mediação entre o corpo da mulher e o mundo. O baixo-ventre deve ser submetido a uma reforçada “mediação”, provida pela sobreposição sucessiva de tecidos da saia: a anágua, faixas de tecidos sobrepostos, as rendas e fitas sobrepostas, fazendo do vestido um agente na manutenção da vergonha.
Estilo e agência
As calins distinguem cores fortes e cores claras: de um lado, azul escuro, “cor de
alface”, “cor de cravo”, “cor de rosa”,29 laranja fosforescente, roxo, rosa escuro,
amarelo forte; e de outro, rosa claro, azul claro, amarelinho, branco. Tecidos em geral finos, transparentes, de composição mista, como crepe de algodão, lisos, estampados ou com relevo servem a diversos modelos: com manga comprida, curta, de alça ou de alça com manga separada e presa ao braço por elástico, feita de um tecido mais fino e transparente; às vezes com pregas sobre o busto ou com fitas cruzadas formando desenho similar ao dos ajustes de um espartilho; “conjunto” de saia e blusa, ou
vestido em uma peça só. O comprimento da saia varia, mas sempre cobre a canela, ou chega até os pés. Fitas e rendas coloridas são sobrepostas aos tecidos, podendo criar contraste ou continuidade de tom com o tecido de fundo. [fotos 74-82]
A similaridade entre os vestidos e o afastamento diferencial em relação à roupa
“simples”30 dos gadje, sugere que estamos diante de um “estilo”, no sentido que
Alfred Gell (1998) dá ao termo em sua teoria antropológica da arte. A unidade de estilo analisada por Gell não é constituída por indivíduos ou escolas, mas por
“culturas” ou “sociedades”. Ele argumenta que a saliência psicológica (as diferenças perceptivas) de uma obra de arte é função da relação estilística entre uma obra qualquer e as demais obras do mesmo estilo. Assim, sua análise enfoca as relações
29 Seria interessante pesquisar mais a fundo esse vocabulário cromático associado à botânica. 30 Além das roupas, os carros também são vistos como “simples”, quando desprovidos de uma série de acessórios. Paulinho conta que o gol dele veio “simples”, “eu fui colocando som, rodas...”. Caberia, em outra oportunidade, aprofundar no entanto, até que ponto esse visual calon se alimentou da própria estética carnavalesca brasileira, exagerando brilhos e cores (os tecidos são comprados nos mesmos centros comerciais que provêm matéria prima aos brasileiros), cujo efeito visual não se encontra entre ciganos alhures. Tudo se passa como se os Calon usassem o “tipicamente brasileiro”, para subvertê-lo, por meio da vergonha, em “tipicamente calon”. Assim, diferenciam-se da brasileira de roupa simples no cotidiano, e também da brasileira do carnaval, associada à exibição vergonhosa do corpo feminino.
entre as obras para definir o seu estilo. O propósito formal da análise é identificar eixos de coerência dentro do conjunto. O conceito de “objeto distribuído” [distributed object] é usado para descrever uma obra individual que contém intrínsecas as relações com as demais obras que compartilham com ela o mesmo estilo. Como resultado, cria-se uma “rede de relacionalidade transformacional” [network of transformational relationship] entre motivos, sem centro ou origem: qualquer obra pode ser
compreendida como transformação da obra vizinha. Esta formulação se resume na ideia de que um estilo são “relações entre relações” (1998: 215). Não será possível enfrentar neste ponto uma análise exaustiva do “estilo calon”, mas para efeito da descrição, é relevante ter presente a definição de Gell, não apenas do conceito de “estilo”, mas da noção de “agência” – como um sistema de ação imbuído de intencionalidade e capacidade de transformação do mundo – subjacente a toda sua análise de cultura material. A esse respeito, cabe incluir ainda a reflexão de Diana
Young (2006)31 sobre “cores”, na esteira da materialidade gelliana. A autora se
pergunta: como a cor anima as coisas? que efeito causam as coisas coloridas nas relações sociais? A ênfase na agência dos objetos, e das cores a eles aplicadas, revela- se uma conceitualização oportuna para compreender o papel de objetos,
especialmente os que configuram um “estilo”, nos processos de diferenciação dos
Calon que busco descrever aqui.32
A definição desse “estilo” calon deve considerar, assim, as variantes de um motivo. A “saliência psicológica”, isto é, a percepção de que um vestido ou uma barraca é “tipicamente calon” está ligada ao fato de que outros vestidos e barracas
compartilham o mesmo estilo. Somente atentando para o conjunto de peças é que é possível extrair o “estilo”. Quando Guimarães Rosa escreve: “Os ciganos eram um colorido”, ele está descrevendo a saliência psicológica dos ciganos de seu conto,
portanto, seu “estilo”.33 Poderíamos definir o princípio que rege a relacionalidade
31 Esta discussão sobre cultura material é devedora dos comentários de Susanne Kuechler e de estudantes do departamento de cultura material do University College of London durante o Writing up seminar entre setembro de 2008 e junho de 2009.
32 O “estilo calon” que descrevo aqui é reconhecido no senso comum brasileiro como “estilo cigano”. Chama-se “ciganinha” uma blusa com manga franzida, decote, laços e acabamento rendado, vendida em lojas de grande público. Um vestido comprido colorido com fitas e rendas, e um detalhe de fitas cruzado no seio será identificado como “fantasia cigana”. 33 Em “Faraó e a água do rio”, in Tutaméia – Terceiras estórias ([1967]1969: 60).
transformacional do estilo calon como um “princípio aditivo de materiais de cores e texturas heterogêneas”. Um tecido da barraca de uma cor berrante não faz o “estilo” calon; apenas com a justaposição de materiais de cores heterogêneos é que se criará o impacto do colorido e do patchwork que configura o “estilo” calon. Da mesma forma, um vestido calon sozinho é em si produto desse princípio, ao sobrepor tecidos, rendas e fitas de cores contrastantes, mas ele só pode ser entendido como uma variante de um “estilo” que emerge da relação com outras variantes.
Essa concepção permite entender a relacionalidade inerente ao conjunto de vestidos e tecidos de barracas (como colchas, cortinas e panos de fundo) usados por estas calins e as de outras turmas. De fato, não é possível estabelecer um modelo original do qual os demais sejam derivados: as variações entre vestido com fitas em contraste de cor, ou em continuidade; entre busto com pregas ou com detalhe de fita cruzado mostram
as transformações, sem que possamos estabelecer um ponto de origem.34 Disto
decorre que uma turma não está intrinsecamente ligada a um modelo, mas assumirá uma certa configuração entre modelo, cores e detalhes que, vistos de fora produzirão um efeito de diferenciação. Fazendo parte do mesmo “estilo”, os vestidos e panos estão em relação de transformação entre si.
As calins são extremamente perceptivas aos detalhes dos vestidos. Comentam modelos de calins de outras turmas que encontram na rua, que viram em fotos, e pedem à costureira para mostrar os vestidos de outras mulheres. De fato, os vestidos, com seus modelos, cores e tempo de vida, podem ser tomados como agentes,
carregados de intencionalidade, que produzem efeitos nas pessoas (Gell 1998: 6). As calins de São Bernardo e as de Jaboticabal têm modelos similares, usam cores chamativas como vermelho vivo e fosforescentes laranja, verde e rosa, com fitas “contrastantes”, branco sobre vermelho, preto sobre amarelo, rosa escuro sobre rosa claro, vermelho sobre azul. Umas e outras usam mangas, mas os modelos de uma família têm pregas no peito, e acabamento com renda na manga curta; enquanto as de outra, além da manga cobrindo o ombro, têm uma manga larga, mais solta, que chega
34 Talvez uma exceção possa ser feita em relação às mangas. Uma calin comentou que agora podia usar vestido “de alça”, que antes não se usava. “A moda antiga já era”, diz, chamando a atenção para a associação de um modelo de “manga”, que cobre o braço, ligado à moralidade.
a cobrir até o antebraço. As calins de Itapevi usam saia e blusa de alça, e uma manga destacada da blusa.
Os vestidos são produzidos em levas. Idealmente compram tecidos e rendas em São Paulo, na Rua 25 de Março, freqüentada por multidões. A variedade de tecidos, ornamentos, decoração de festa e uma infinidade de produtos, que são vendidos em lojas e camelôs a preços baixos, valem a viagem. Depois, separam o material de cada vestido (os tecidos para anágua e vestido, mais as fitas e rendas que se quer combinar e as linhas) para levar vários pedidos à costureira no Itaim Paulista (na região norte da cidade). Em São Paulo, a costureira que visitei era a mesma que atendia a ciganos de todas as regiões da cidade e aos de Jaboticabal também. Neguinha é conhecida por todos. Mulher de forte caráter, magricela, que em minha presença desafiou uma calin que havia reclamado que o vestido não servia: “Você traz um tecido certo, engorda e depois vem dizer que não cabe!”. “Eu conheço a ciganada toda!”. Peças de roupa podem viajar com parentes entre cidades até chegar à sua casa, e os vestidos prontos viajam no sentido inverso. Entrega-se à costureira um vestido feito como modelo. Apesar da diversidade de modelos disponíveis ou possíveis de serem inventados, freqüentemente as calins de uma turma mandam fazer uma leva inteira com o mesmo modelo. Como a confecção dos vestidos é sazonal, produz-se uma certa
homogeneidade na turma a cada vez que se encomenda uma leva de vestidos e tecidos da barraca. Isto não impede porém que uma calin se comporte sob um “modo
diferenciante” (para usar a nomenclatura de Wagner 1975) produzindo individuação, que pode eventualmente dar início a um novo estilo. Finalmente, há uma distinção entre os vestidos do dia a dia, pra ir “pra rua”, dos vestidos de “festa”. Estes são mais refinados: quando o tecido não é ele próprio feito de lantejoulas coladas, moedas, rendas e fitas douradas ou prateadas são acrescentadas aos babados usuais [fotos 83- 85]. Todo essa exuberância é silenciada durante o luto de um parente próximo, quando apenas roupas velhas e de cores sóbrias são usadas em respeito ao morto. A aparência é portanto dotada de intencionalidade e potencial de afetar o mundo, transformando-o. Não há uma “calonidade” pré-existente que deve ser cumprida por meio do uso de tais e tais vestidos, antes, a calonidade é ela própria performativa, na medida em que é na performance dinâmica de interação e diferenciação que ela se cria.
Fotos antigas mostram que ao longo do tempo os modelos são ligeiramente
modificados: uma pala sobreposta semelhante às golas de marinheiro, desaparece, em prol de um franzido no busto, uma manga comprida dá lugar a uma manga mais curta, novos materiais são incorporados. A reprodução de um modelo pode potencialmente incorporar algo novo, observado de outras calins ou inventado, em relações de transformação próprias ao “estilo” destes Calon. As Calins de Itapecerica e suas parentes de Jaboticabal usam o termo “roupa simples” para descrever as roupas de gadje. “Não é colorida”, “não é enfeitada, que nem a nossa”. Uma delas, descrevendo seus vestidos guardados em outra cidade, dizia: “Eu tenho meus vestidos tudo
certinho, com renda com fita, tudo”. O “certinho” aqui provendo a definição do ideal da vestimenta. O que há de similar em todos os vestidos é a diferenciação exacerbada
entre eles e a roupa simples dos gadjes.35 Entre calins “mineiras”, pertencentes à
mesma família extensa, mas de turmas diferentes,36 detalhes nas mangas dos vestidos
são apontados, e ganham significado. A adesão ao modelo atual da sua turma, embora
não seja total, cria um traço distintivo que as diferencia em relação às demais. 37 A
diferença torna-se mais evidente à medida que se vai afastando da família extensa. O estilo de que estamos tratando parece ser disseminado entre todos estes Calon “mineiros”, que vivem no estado de São Paulo ou no Paraná, mas não pode ser
35 A vestimenta e a barraca mostram-se também elementos de diferenciação entre roms e calons. Uma mulher kalderash que estava acampada em Jaboticabal, embora casada com um calon de Brasília, mantinha sua barraca e seus vestidos à moda rom. Sua barraca era feita de uma peça única, com tecidos costurados no formato da barraca; o espaço interno tinha