2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.4. İlgili Araştırmalar
A análise da história do neoliberalismo feita por Foucault em Nascimento da
biopolítica implica uma importante problematização e relativização da hipótese genealógica da normalização, que ocupa um lugar central, por exemplo, em Vigiar e punir433. A sociedade
neoliberal não é uma sociedade de normalização generalizada. Isso, não porque ela exclua os dispositivos do poder disciplinar, mas porque ela não exclui de seu âmbito aquilo que é da ordem do acontecimento, ou seja, aquilo que, por natureza, não é normalizável. Em outras palavras, na medida em que governa pela liberdade, o neoliberalismo procura ser o governo do ingovernável. Apesar da grande eficiência das disciplinas no que concerne à individualização e à capilarização dos efeitos de poder, ela deixa muitos aspectos fora de controle. Para a governamentalidade neoliberal, trata-se precisamente de encontrar um modo de controlar o incontrolável, e isso não se confunde com normalizá-lo. A perspectiva dos neoliberais norte- americanos é diferente.
Tem-se, ao contrário, no horizonte disso, a imagem ou a ideia ou o tema-programa de uma sociedade na qual haveria otimização dos sistemas de diferença, em que o terreno ficaria livre para os processos oscilatórios, em que haveria uma tolerância concedida aos indivíduos e às práticas minoritárias, na qual haveria uma ação, não sobre os jogadores do jogo, mas sobre as regras do jogo, e, enfim, na qual haveria uma intervenção que não seria do tipo da sujeição interna dos indivíduos, mas uma intervenção de tipo ambiental.434
Dessa maneira, podemos dizer que o neoliberalismo norte-americano é a programação governamental de uma sociedade que não é das identidades nem das formas
433 Cf. FOUCAULT, Michel. A sanção normalizadora. In: VP, pp. 171-177. 434 NBP, pp. 354-5.
rígidas, mas das diferenças e dos processos oscilatórios435. O neoliberalismo tolera e, nessa
medida, produz e consome não apenas liberdade, como ocorre no liberalismo clássico, mas singularidades e práticas minoritárias que não são suscetíveis de repressão soberana nem de normalização disciplinar. A arte neoliberal de governar não incide diretamente sobre os jogadores nem sobre sua ação, mas nas regras do jogo, em sua moldura ou, mais precisamente, no ambiente em que eles se encontram. Para eles, não se trata de promover, como nos dispositivos disciplinares, a sujeição interna dos indivíduos, sua capacidade de normalizar a si próprios, o que, de resto, constitui uma forma alienada de autonomia. Trata-se, antes, de fazer valer uma intervenção que é ambiental porque incide sobre o meio social, cultural, institucional, em que se situam os jogadores. Temos aí uma intervenção que resulta de uma governamentalidade ambiental, ou seja, de uma racionalização governamental do meio em que vivem os indivíduos, que é de ordem econômica, mas que também é de ordem política, social e, cabe-nos ressaltar, jurídica.
Como vimos, os neoliberais norte-americanos procuram aplicar a análise econômica a uma série de comportamentos, por exemplo, natalidade, educação infantil, casamento e criminalidade, que não são tradicionalmente considerados comportamentos econômicos. Todavia, a validade da aplicação do modelo do mercado a todo tipo de comportamento humano é questionável. Tendo em vista que a análise neoliberal tem a noção
homo œconomicus como centro gravitacional, o problema pode ser formulado nos seguintes
termos: é válido aplicar a grade de análise do homo œconomicus a todo agente social e, a fortiori, a todo comportamento humano?
Segundo Foucault436, o problema da validade da generalização do modelo do homo
œconomicus, realizada pelos neoliberais norte-americanos, levanta uma série de questões
relevantes, dentre as quais “o problema da identificação do objeto da análise econômica a toda conduta, qualquer que seja, que implique, claro, uma alocação ótima de recursos raros a fins alternativos, o que é a definição mais geral do objeto da análise econômica”.437 Ora, essa é
precisamente a definição do objeto da análise econômica para neoliberais como Mises438. Logo,
a análise econômica tem como objeto a conduta finalizada, isto é, qualquer conduta que acarrete uma escolha estratégica de meios e fins. Trata-se, portanto, do enquadramento de toda conduta
435 Cf. BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. 1968, crise e renovação do capitalismo. In: __________. O novo espírito do capitalismo. Tradução: I. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2009, cap. III, pp. 197-208.
436 Cf. NBP, p. 366. 437 NBP, p. 366.
438 Cf. MISES, Ludwig von. O agente homem. In: __________. Ação humana: um tratado de economia. Tradução:
racional como objeto econômico. Em outras palavras, postulando que toda conduta racional resulta de um cálculo econômico, os neoliberais concebem a economia como análise geral das condutas racionais. Assim, como Foucault439 exemplifica, até mesmo um raciocínio formal
pode ser considerado como uma conduta econômica. Em um raciocínio formal, de um lado, dispomos de meios escassos, isto é, um vocabulário e regras de inferência determinados. De outro lado, empregamos os meios escassos de que dispomos da melhor maneira que podemos para realizar uma certa finalidade, que é chegar a uma conclusão que seja válida em lugar de chegar a uma conclusão que seja inválida. Em resumo, todo comportamento racional é entendido pelos neoliberais como um objeto suscetível de análise econômica.
Mais radicais, os neoliberais norte-americanos, como Becker440, consideram que a
definição do objeto da análise econômica deve ser ainda mais estendida, de modo a incluir os comportamentos não racionais. Por trás do objetivo epistêmico, que consiste em tentar analisar o não racional, encontra-se o objetivo político, que é o de governar o ingovernável. Tendo isso em vista, os neoliberais norte-americanos propõem uma ampliação da noção de comportamento racional, que passa a corresponder a todo comportamento que não estabeleça uma relação aleatória com a realidade, que aceite, ou ainda, que responda, de maneira sistemática, a alterações no meio em que ocorre.
O homo œconomicus é aquele que aceita a realidade. A conduta racional é toda conduta sensível a modificações nas variáveis do meio e que responde a elas de forma não aleatória, de forma portanto sistemática, e a economia poderá portanto se definir como a ciência da sistematicidade das respostas as variáveis do ambiente.441
Definindo o objeto da análise econômica como o conjunto das respostas sistemáticas de um sujeito às alterações em seu ambiente, os neoliberais norte-americanos poderão acoplar à economia uma série de métodos e técnicas comportamentais, cuja finalidade não é meramente analítica. Trata-se, nessas técnicas, de produzir comportamentos. Foucault442
indica que as elaborações mais desenvolvidas, mais rigorosas e também mais aberrantes dessas técnicas se encontram nos trabalhos de Skinner443. Para os behavioristas, a ideia não é conhecer
o significado das comportamentos de um indivíduo, mas o conjunto dos estímulos que produz
439 Cf. NBP, p. 367.
440 Cf. BECKER, Gary. Human capital: a theoretical and empirical analysis with special reference to education.
3.ed. Chicago/Londres: University of Chicago Press, 1993.
441 NBP, p. 368. 442 Cf. NBP, p. 368.
443 Burrhus Frederic Skinner (1904-1900) foi um psicólogo e psicolinguista norte-americano, professor em
Harvard, criador do behaviorismo radical e responsável por estudos inovadores no campo da psicologia experimental. Cf. SKINNER, Burrhus. Controle econômico. In: __________. Ciência e comportamento humano. Tradução: C. Todorov e R. Azzi. 11.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, cap. XXV, pp. 418-436.
respostas regulares e sistemáticas por parte desse indivíduo. Uma vez identificados e correlacionados os estímulos e as respostas, é possível intervir no comportamento analisado introduzindo, através de mecanismos de reforço, novas variáveis e, por conseguinte, produzindo novos comportamentos. Nesses termos, a psicologia comportamental pode ser encaixada na definição de análise econômica fornecida pelos neoliberais norte-americanos.
Com isso, o neoliberalismo norte-americano se distingue do liberalismo do século XVIII, no qual o homo œconomicus aparece como um elemento intangível para o poder, como
algo ingovernável. No liberalismo clássico, o sujeito econômico é concebido como aquele que só deve obedecer ao seu próprio interesse, isto é, como aquele que se deve deixar quieto, que se deve “deixar fazer”. O homo œconomicus é, ao mesmo tempo, o sujeito e o objeto do laissez-
faire. Ao contrário disso, para os neoliberais norte-americanos, o agente econômico surge como algo que é governável porque e na medida em que responde a alterações promovidas no meio em que se encontra. Uma vez que reage de maneira regular às alterações em seu meio, o homo
œconomicus
aparece justamente como o que é manejável, o que vai responder sistematicamente a modificações sistemáticas que serão introduzidas artificialmente no meio. O homo œconomicus é aquele que é eminentemente governável. De parceiro intangível do
laissez-faire, o homo œconomicus aparece agora como o correlativo de uma
governamentalidade que vai agir sobre o meio e modificar sistematicamente as variáveis do meio.444
Nesses termos, podemos concluir que o neoliberalismo norte-americano é um tipo de governamentalidade ambiental, que formaliza todo comportamento humano com base no modelo do homo œconomicus, a fim de torná-lo inteiramente governável, por meio de intervenções no meio em que os indivíduos e a população vivem. Para isso, a tecnologia neoliberal de governo lança mão de técnicas de psicologia e de engenharia comportamentais, mas essas não são as únicas.
Cabe lembrar que parte das técnicas ambientais que são mobilizadas pela arte neoliberal de governar é jurídica. Com efeito, o direito integra a tecnologia de governo ambiental característica do neoliberalismo, funcionando tanto como regra do jogo quanto como rede institucional. A tecnologia jurídica neoliberal, isto é, o conjunto formado pelas leis, pelos procedimentos e pelas instituições jurisdicionais de uma sociedade neoliberal constitui um enorme e altamente complexo aparelho de enforço, no qual e através do qual é possível intervir seja para pôr, seja para retirar incentivos, interferindo de maneira decisiva na produção de comportamentos e na condução de condutas. Portanto, podemos dizer que o direito não é o
único, mas é um dos mais eficazes dispositivos de enforço que marcam a sociedade neoliberal445. Voltaremos à discussão em torno da relação entre o direito e as tecnologias de
enforço adiante.