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Doze anos após a Mesa Redonda de Santiago do Chile, seria produzido aquele que é apontado pelos intelectuais mobilizados em torno da museologia social como o segundo marco na história daquela categoria: o Ateliê Internacional Ecomuseus – Nova Museologia, no ano de 1984, em Quebec, no Canadá.

Para Mario Moutinho, o essencial do encontro de Quebec e, consequentemente, da declaração que dele resultou, não foi um novo aporte conceitual “pois desse ponto de vista retoma, com as devidas atualizações, o essencial da Declaração de Santiago” (Moutinho, 1995: 28). A importância do Ateliê estava em confrontar “a comunidade museal com uma realidade museológica profundamente alterada desde 1972, por práticas que revelavam uma museologia ativa, aberta ao diálogo e dotada agora de uma forte estrutura internacional autônoma” (Moutinho, 1995: 28). Esta nova estrutura vinha apoiada por uma mobilização importante de agentes do campo, revelada na grande variedade de instituições e práticas museais apresentadas pelo autor como participantes do evento.

Do Níger, Mali, Camarões e Panamá surgiam exemplos de museus nacionais. Era apontada como novidade destas experiências a subordinação das “tarefas museológicas” a algo que está entre o conjunto das funções dos museus desde pelo menos o século XIX: “a construção de uma identidade nacional, provocando uma

percepção própria da função dos museus”, entendida por Moutinho como “um objetivo de primeira importância social” (Moutinho, 1995: 28). Os “museus de vizinhança” nos Estados Unidos também operavam sentidos para articular uma identidade local. 41 A museologia mexicana era qualificada como “renovada”, aproximando-se da prática dos museus de vizinhança. Na Suécia, memória operária e exposições populares “provocaram um novo olhar sobre a sociedade sueca” (Moutinho, 1995: 28). No Reino Unido,

os museus de arqueologia industrial (…) se embasavam na capacidade das populações de se apropriarem dos métodos da arqueologia e da história local, organizando a restauração de espaços industriais e assegurando a sua animação e acolhimento turístico (Moutinho, 1995: 28).

Gestores de ecomuseus apresentaram trabalhos que abordavam a problemática das territorialidades e que tinham a participação das populações não só como público, mas como agentes dos processos instaurados. Sua atuação já apresentava uma multiplicidade de possibilidades, o que alargava “a ideia de ecomuseu e das suas diferentes potencialidades: reivindicação social, investigação e ligação com as universidades, identidade, consoante os meios e países em questão” (Moutinho, 1995: 28).

Logo na introdução da Declaração de Quebec encontramos que “este movimento [pela renovação da museologia] afirma a função social do museu e o caráter global de suas intervenções” (Moutinho, 1995: 30). A carta prossegue reestabelecendo os princípios lançados em 1972, de incrementar os mecanismos de interação com o público, com a realidade em que o museu se insere e lançando mão de instrumentos interdisciplinares para alcançar estes objetivos. Também discorre sobre a importância da preservação do patrimônio e da valorização da tecnologia, mas reforça que estes são instrumentos para o desenvolvimento das populações com que atuam. Atribuem, ainda, aos museus um lugar importante na produção dos projetos de futuro destas populações.

41 Instalados em bairros periféricos de grandes cidades americanas, cuja população majoritária era negra ou hispânica. Um exemplo de “museu de vizinhança” citado é o “AnacostiaNeighborhoodMuseum”, localizado em Washington. Hoje é chamado “Anacostia Community Museum” e pertence à rede de museus da “Smithsonian Institution”.

O documento é finalizado apresentando uma “Tomada de posição”, que busca “acentuar os meios de reconhecimento deste movimento” (Moutinho, 1995: 31) e tem como base a atuação dos ecomuseus e museus comunitários, cujas experiências foram abordadas durante o Ateliê. Também apresentam uma “vontade de criar bases organizativas de uma reflexão comum e das experiências vividas em vários continentes”, além do “interesse em se dotar de um quadro de referência destinado a favorecer o funcionamento destas novas museologias e de articular em consequência os princípios e meios de ação” (Moutinho, 1995: 31).

Impulsionados pelos diversos encontros que precederam a realização do evento em Quebec, e que serviram para organizá-lo, os profissionais envolvidos começaram a gestar a ideia de um novo instrumento de organização dos profissionais do campo que tivesse como foco os preceitos da Nova Museologia. Esta proposta, ao final do evento, encontrou respaldo no ICOM:

Algo começava a mudar, pois o ICOM recebia agora com interesse os projetos do já estruturado movimento e era levado a reconhecer o sucesso em termos ideológicos e organizativos que tinha sido o Ateliê de Quebec. A partir de então, o diálogo como ICOM tem sido uma realidade correndo (sic) hoje em dia, e de forma regular, projetos comuns. (Moutinho, 1995: 28)

As diretrizes práticas definidas na declaração foram a criação de um comitê internacional no âmbito do ICOM, cuja temática seria a dos ecomuseus e museus comunitários e a criação de um organismo internacional dedicado à Nova Museologia. Para alcançar estes objetivos, seria instituído um grupo de trabalho com o intuito de estabelecer as primeiras diretrizes para a criação das novas estruturas propostas, definindo seus objetivos, bem como “a aplicação de um plano trienal de encontros e de colaboração internacional” (Moutinho, 1995: 28). Segundo Moutinho, a primeira diretriz não chegou a ser concretizada, mas a segunda se realizou no encontro seguinte com a criação do Movimento Internacional da Nova Museologia (Minom), que posteriormente foi incorporado à estrutura do ICOM. (Moutinho, 1995: 28)

O autor toma este evento como parte de um processo de abertura do ICOM a profissionais dos museus que adotavam princípios ditos “não tradicionais”. Como já visto, esta é a leitura de um dos lados da concorrência que se estabeleceu, no âmbito do

ICOM, por conceitos e procedimentos que deveriam concernir à museologia. Esta busca por cunhar novos conceitos e postular uma renovação da prática dentro dos museus só pode ser plenamente compreendida levando-se em consideração essa concorrência.

Benzer Belgeler