• Sonuç bulunamadı

A Rede Globo, desde sua inauguração, é considerada aquela que iniciou o sistema televisual brasileiro, produzindo, desde o início, cerca de 60% de sua programação que atinge hoje a casa dos 90%g É nesse cenário que as obras literárias adaptadas estão incluídas e em que melhor se observa a propriedade da afirmativa de que embora a Literatura tenha substituído em parte a oralidade primária, ela reencontra sua vocação inicial de existir pela

força ativa e pela magia da palavra também oral, que evoca as cenas visuais e os sons e, de certa maneira, subsiste também na oralidadeg

É inegável que assistir a telenovelas é também ouvir e ver narrativas, vocação latino- americana para a manutenção da história, da memória e do imaginário de seu povogHerdeiros de uma liricidade nata, incorporada à própria formação como povo, a partir das perspectivas românticas do século XI, e como países colonizados por povos de origem latina, os latino- americanos trazem resquícios medievalescos do Trovadorismo em sua culturag Eles narram histórias de amor nas telenovelas recheadas de peripécias e interferem no imaginário e nas emoções das famílias em seus laresg Em nosso levantamento de dados, observamos que essa rede levou ao ar, no período de 1965 a 2003, 280 telenovelas conforme o Quadro 5, considerando também as reapresentações, remakes, readaptações e atualizaçõesg

QUADROP5P–PUsosPdePfontesPparaPaPproduçãoPdePtelenovelasPpelaPRede Globo Total de telenovelas exibidas de 1965 até 2003g Total de autores das telenovelas Total de fontes usadas para a produção de telenovelas Total de uso de obras brasileiras para telenovelas Total de uso de obras de outros países nas telenovelas Total de telenovelas escritas para a Rede Globo 280 574 72 52 14 214

Nesse conjunto, percebemos, com evidência, alguns indícios dos processos de disseminação da Literatura Brasileira: a retomada, pelo uso de obras literárias para a produção de novelas; a repetição, pela redundância, que exerce a função conativa; a adequação, pela escolha de obras cujos elementos coincidem com aqueles próprios para o consumo da população, sob a forma de recortes diários; a citação e a reverência, na escolha de obras consideradas de relevância para os consumidores e, nesse sentido, privilegiando também escritores brasileirosg Das 280 telenovelas levadas ao ar, 72 tiveram uma ou mais fontesg Dessas, foram 52 aquelas que utilizaram fonte nacional, enquanto 14 utilizaram fontes estrangeirasg Isso confirma nossa tese de que a televisão dissemina a Literatura Brasileira e a privilegia em detrimento daquelas de outros países, pelo menos se o confirmamos pelas escolhas da nacionalidade das obrasg

Outro aspecto para o qual apontamos é o número de escritores em relação ao número de telenovelasg Para produzir as 280 telenovelas, a Rede Globo mobilizou 574 autores, uma média de 2 autores por produçãog Essa diversidade de escritores e a parceria, planejada ou não, tornam-se um importante constituinte que modela o produto para ser consumido pela massag O número ampliado de escritores confirma um dos caracteres da telenovela como obra coletivag No caso das obras literárias, são poucas as que envolvem mais de um autorg

Uma diferença entre o escritor de telenovela e o de romance, novela ou contos é que, nesses últimos, o escritor entrega a obra acabada, que é feita num universo fechado e o relacionamento autor-obra-leitor só pode ser feito posteriormente e, na maioria das vezes, isoladamenteg Isso porque o livro é um tipo de suporte cuja potencialidade de contato coletivo é menor do que no caso dos aparelhos de TV, cuja facilidade de congregação de muitas pessoas diante de si é maiorg Já o escritor de telenovela escreve aos poucos, enquanto o público recebe a obra, na medida em que ela é encenada e vai ao arg Ele vive num sistema aberto em que sofre as tensões do que virá a ser a recepção e sofre o processo do “enquanto dura” o fazer e o receberg Por isso, é bastante incidente a substituição de autores, diretores, atores, personagens e scripts de telenovelas, com base na opinião públicag Autores e diretores são chamados com a função de mudar roteiros e alterar ritmos de telenovelas, em função da baixa audiência ou de custos excessivosg Recentemente, Mário Prata foi trocado por uma equipe de co-autores com um escritor no comando, porque a telenovela que redigia, Bang

Bang, não conseguiu a empatia do público e atingiu índices de audiência indesejadosg Como

qualquer mercadoria que apresenta riscos para o fornecedor diante do consumidor, a audiência abaixo do esperado leva a mudanças no futuro da novelag Outro caráter da telenovela como obra coletiva é, portanto, a participação do telespectadorg

A extensão da telenovela também merece um destaqueg Comparada com os gêneros dos quais se alimenta, é uma história longa, com mais de cem capítulos e seus scripts ultrapassam três mil páginasg174

As telenovelas costumam durar meses e os telespectadores se mantêm fiéis até o fim, mesmo que, se fossem ler o livro, demorassem poucos diasg

O aparelho de televisão oferece uma distração cômoda, prática e econômicag Para usufruto do lazer, ele dispensa o espectador de locomover-se e irrompe instantaneamente em qualquer parteg175

Ao receber a imagem dentro de sua casa, o telespectador não se dá conta disso: ele crê no “real” da cena, porque a televisão simula um contato íntimo, direto e pessoalg Cabe a ela, por excelência, a função fática, na terminologia lingüística de Roman Jakobsong

É o “alcance da cena”, é a familiaridade que se estabelece com o telespectadorg176

Quanto ao gênero, é perceptível que a Rede Globo tem preferências pelas narrativas e privilegia os romances, conforme o Quadro 6g

174 CAMPEDELLI, 1987, pg 19g 175 CAMPEDELLI, 1987, pg 16g 176

QUADROP6P–PTiposPdePgênerosPutilizadosPpelaPRede GloboPparaPaPproduçãoPdePtelenovelas

Tipos de fontes outras telenovelas

radionovela filmes contos romance teatro

Número de utilizações

16 4 4 4 25 12

O horário nobre da TV Globo, até 1970 quando da saída de Glória Magadan, investiu em superproduções, diretamente plagiadas ou ligeiramente adaptadas de folhetins do século XIX, de romances consagrados ou de filmes hollywoodianos. Nesse aspecto, o que poderia ser negativo – o plágio – permanece como maior proximidade das obras literárias utilizadas, o que se torna positivo para a referência literária, mesmo que da literatura de outros paísesg

Benzer Belgeler