Gravada em 1929 pela gravadora Odeon, com o número de série 10.421, com acompanhamento do pianista Henrique Vogeler. Forma: introdução, A, B, C e A. A introdução apresentada pelo violão melodista, além da parte A, com o acompanhamento do piano, é repleta de rubatos,
glissandos, notas antecipadas da melodia e antecipações dos baixos. As partes B e C em
andamento superior (più mosso) tem o caráter mais rítmico, lembrando as valsas em forma de danças europeias.
2.1.1.2 Coração de mãe
Gravada em 1941 pela gravadora Odeon, com o número de série 11.975, com o acompanhamento violonístico de Artur de Souza Nascimento, conhecido com o epíteto de Tute. Forma: A, B, A e C. A parte A tem andamento lento, sendo a melodia predominantemente realizada nas cordas graves do violão, emitida por uma série de glisandos de uma nota para outra. O acompanhamento feito pelo Tute é bem sutil quanto aos contracantos – há uma valorização maior do acompanhamento vertical. A parte B apresenta um andamento superior, contrastando com a anterior não apenas pela pulsação mais rápida, mas também pela perda do discurso seresteiro e modinheiro para uma melodia com uma pulsação mais constante, remetendo às valsas em forma de dança. O acompanhamento do Tute continua a valorizar o lado rítmico-harmônico, mas não se abdica de inserir pequenas frases na região grave do instrumento. Nessa seção, é notória a emissão da nota dó (a nota mais grave do violão nessa gravação) oriunda do violão
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Gravado pela gravadora Vista Son. 66
IDELFONSO, Sebastião. Belo Horizonte/MG, Brasil 10 de novembro. 2012. MP3, 49 minutos. Entrevista concedia a Reginaldo de Almeida Martins.
acompanhador. Com isso, pressupõe-se que Tute teria gravado em um violão de sete cordas, porque a nota mais grave de um violão convencional é a nota mi, obtida na sexta corda solta. No final dessa seção um súbito rallentando é exposto, como forma de ponte transitória para a 1ª seção que está por vir. O retorno para a parte A não apresenta relevantes novidades que a distingue daquela apreciada inicialmente, e ao seu final inicia-se a parte C. Nesta, com o mesmo andamento da parte A, nota-se a emissão da nota dó sustenido (a penúltima nota mais grave do instrumento) o que nos confirma que Artur de Souza Nascimento, o Tute, utilizou um violão heptacorde67. Essa seção lembra bastante o início da música, com alguns trechos da melodia realizada na região grave do instrumento, concomitantemente aos glissandos. De fato, a tonalidade maior é uma novidade, apesar de os materiais musicais, por serem semelhantes àqueles da parte A, não nos trazerem um considerável contraste. Com relação a isso, o que realmente chama a atenção é a 2ª seção, onde se identificam maiores novidades.
2.1.1.3 Evocação
Gravada em 1932 pela gravadora RCA VICTOR, com o número de série 33.547, com o acompanhamento ao violão realizado pelo Rogério Guimarães. Forma: introdução, A, B, A e C. A introdução é apresentada com três acordes maiores: dó maior, lá bemol maior e sol maior. Cada acorde preenche o compasso ternário, porém de maneira livre, sem a preocupação de tocá- los em um pulso determinado. O último acorde, sol maior, tem a sustentação mais longa, precedendo a parte A. Esta possui um andamento moderado, onde se percebe o violão acompanhador fazendo um glissando nos primeiros compassos. O acompanhamento se resume em tocar os acordes concomitantemente à melodia feita por Mozart Bicalho, sem a ocorrência de contracantos na região grave, que são normalmente executados pelo instrumento acompanhador. A ausência desses contracantos pode ser justificada em função de a melodia ser constituída no registro que explora a região grave – o mesmo registro que os violonistas acompanhadores utilizam. Assim, pode-se afirmar que se o violão acompanhador fizesse os contracantos, os mesmos se “chocariam” com a melodia que, por sua vez, se apresenta, também, no registro grave do violão. No final dessa seção há um rallentando que indica o seu término. A parte B contrasta com a anterior, não apenas pela nova tonalidade (lá menor), mas, sobretudo, por apresentar um caráter mais vivo, tipicamente dançante. A melodia aqui é apresentada na região mais aguda do
violão, diferente da seção anterior. O violão acompanhador continua a realizar os acordes no ritmo de valsa com a ausência de contracantos na região grave do instrumento. Essa seção é finalizada em um andamento inferior. A reexposição da 1ª parte não apresenta variações relevantes que a distingam do que fora exposto logo após a introdução. A parte C, em dó menor, assemelha-se à parte B, também em andamento vivo, allegro. Já o violão acompanhador nos desperta maiores atenções: pela primeira vez ele expõe alguns contracantos na região grave, enquanto a melodia é tocada por Mozart Bicalho. Ao final dessa seção, um rallentando nos direciona ao final da valsa Evocação.
2.1.1.4 Divagações
Gravada em 1930 pela gravadora Odeon, com o número de série 10.481, contando com o acompanhamento ao violão realizado pelo Glauco Vianna. Forma: A, em sol menor – B, em sol maior – A e C, em si bemol maior. Esta valsa não apresentou variações no andamento, apesar de em cada parte haver ocorrências súbitas de fermatas que interrompem o fluxo musical, causando uma forte surpresa no ouvinte. Outro detalhe que despertou nossa atenção é o uso da scordatura adaptada pelo violão melodista. Normalmente, a 6ª corda do violão é afinada na nota mi, mas neste caso ela foi abaixada para a nota ré para ampliar a tessitura do instrumento, favorecendo a utilização de baixos. Não é raro encontrar na literatura do violão o uso de scordatura em obras escritas na tonalidade de sol menor. Nesse tom, além de abaixar a 6ª corda, costuma-se abaixar, também, a 5ª corda. No final da obra, na parte C, em si bemol maior, há uma interessante modulação para dó maior obtida através do acorde de empréstimo modal lá bemol maior, seguido por sessões de dominantes: sol maior, lá maior com sétima, ré maior com sétima e sol maior com sétima, finalizando a música em dó maior.