“Ana Valéria, olhai os lírios do campo”.
(Professor e pesquisador João Ambrósio de Araújo Filho, na dedicatória do lançamento de seu livro Manejo Pastoril Sustentável da Caatinga na UFC, em 7 de maio de 2014).
No Brasil, se encontram seis biomas, colocados por ordem de tamanho: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampas. A caatinga representa o terceiro maior bioma do país. Tem um papel fundamental na qualidade de vida da população e da sobrevivência de fauna e flora e equilíbrio do planeta; possui alta biodiversidade e uma riqueza única de recursos genéticos. Há registros de pelo menos 1.512 espécies de plantas, das quais 318 endêmicas, além de 240 espécies de peixes, 116 répteis e 51 anfíbios, 510 espécies de aves, 143 espécies de mamíferos; as espécies de invertebrados: 94 de abelhas, 61 de formigas, 93 de aracnídeos e 42 famílias de coleópteros (besouros). Apresenta ainda, um elevado nível de endemismos, variando entre 4,3% para aves e 57% para peixes, por exemplo. Quanto aos solos, metade é de origem cristalina (um tipo de rocha matriz dura e muito antiga que não favorece a acumulação de água) e a outra metade representada por terrenos sedimentares (que possuem boa capacidade de armazenamento de água subterrânea). Sua
vegetação é adaptada para tolerar o clima seco e a disponibilidade variável de água. Para reduzir ao máximo a desidratação, as plantas desenvolveram estratégias, como raízes profundas ou capazes de acumular água, folhas pequenas e em pouca quantidade ou transformadas em espinhos, ou, ainda, caules fotossintetizantes, aqueles que se situam abaixo da superfície do solo (ASSOCIAÇÃO CAATINGA, 2012).
Há uma falta de precisão na comunidade científica em relação à quantidade exata da fauna e flora da caatinga e seu endemismo. A que utilizo é a da Associação Caatinga, por ser a mais recente e estar se renovando constantemente com a descoberta de novas espécies na fauna. No site do Ministério do Meio Ambiente as divergências são ainda maiores, quando comparados os números da fauna aos da Associação Caatinga, mesmo esses dados terem sido coletados em projetos com parceria com o Governo Federal. As outras pesquisas que observei se encontram com uma quantidade maior de tempo, não são atualizadas, apesar de publicações recentes, como, por exemplo, a do professor e pesquisador João Ambrósio, em seu livro Manejo Pastoril Sustentável da Caatinga. A quantidade de espécies já difere dos dados acima apresentados pela Associação Caatinga, já a especificação quanto ao endemismo nos dados do professor são maiores e também divergem da Associação Caatinga.
[...] Sua vegetação é constituída, especialmente, de espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas de pequeno porte, geralmente dotadas de espinhos, caducifólias, perdendo suas folhas no início da estação seca. Estima-se que pelo menos 932 espécies já foram registradas para a região, das quais 380 são endêmicas. A lista de espécies existentes na caatinga ainda está incompleta, devido à falta de estudo na região. Os dados acima demonstram que as referências literárias de que a caatinga é ‘ecossistema pobre, abrigando poucas espécies endêmicas, e, portanto, de baixa prioridade para conservação’, são errôneas e têm origem em seu aspecto visual, devido a sua forma de adaptação à seca, ou seja, a perda de folhas e dormência. (AMBRÓSIO FILHO, 2013, p. 62).
A caatinga, dentre os biomas brasileiros, foi, no período da colonização, o que menos sofreu a ação antrópica. Os invasores consideravam uma terra seca e sem utilidade, em razão de seu clima semiárido, que não servia para a plantação de cana-de-açúcar em grandes extensões de terra. A caatinga abrange todo o nordeste brasileiro e o norte de Minas Gerais. São 844.453 mil km², 11% do território nacional. Sua precipitação varia entre 240 – 1500 mm ao ano. Equivale dizer que chove mais no nordeste brasileiro do que em muitos países da Europa ou de outros continentes. O problema é que são chuvas com má distribuição anual e por regiões. A temperatura atinge 25° a 35° C durante o ano. As condições severas selecionam a biota. Figueiredo (2007) destaca que uma das mais graves questões desse ecossistema envolve a evapotranspiração de 92% de toda chuva que cai nesse chão.
Dominada por plantas com características xerofílicas, ou seja, aspecto espinhoso e seco, extratos compostos por gramíneas, arbustos e árvores de pequeno porte. É preciso observar que não foi sempre assim, que o bioma sofre as ações de milênios, tanto a mudança de temperatura terrestre, como as ações humanas contribuem para a transformação. A caatinga tinha uma floresta densa com arbóreas em predominância, onde ainda encontramos em regiões preservadas como as reservas legais dos assentamentos e Unidades de Conservação. Infelizmente, apenas 2% da caatinga estão em área de preservação.
Interessante observar a diversidade da paisagem que caracteriza o bioma. A diversidade é tanta que permite uma diferenciação, uma separação nos ecossistemas. Essas distinções são baseadas em diferenças nos tipos de relevos, fertilidade, pluviométricas e solos (sempre escutei desde menina que a caatinga é uma colcha enorme de retalhos, como as colchas de cama e tapetes que nossas artesãs fazem com tecidos de sobras). Chama a atenção de estudiosas e estudiosos, pesquisadoras e pesquisadores, nessa enorme “colcha de retalhos” a complexidade de sua geologia que permite diferenças em sua hidrologia, pedologia, geomorfologia e geografia.
Essa caracterização do bioma caatinga mostra-se indispensável, em face da necessidade de discernimento e clareza de desempenho por parte das pessoas em desenvolvimento de técnicas de partilha com o semiárido. Falar de educação significa captar, perceber, absorver, trazer e envolver o ambiente em que se habita em todas as suas dimensões: ambiental, social, política e econômica. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, em março de 2010, o Ceará é o segundo Estado Nordestino que mais degrada a caatinga. E alguns municípios da Região dos Inhamuns estão em processo vertiginoso de desertificação. Precisamos de uma população mais organizada, com direitos básicos garantidos e de um poder público voltada para os interesses da maioria de nosso povo. “A articulação de princípios de Estado e comunidade, sob a égide da comunidade, coloca o Estado como parceiro desta no processo de transformação” (SORRENTINO et al., 2005, p. 285).
Érico Veríssimo afirma que “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”.
No item a seguir surge a necessidade de focalizar o assentamento São Gonçalo relacionando-o com os princípios fundantes da Carta da Terra e do Tratado de Educação
Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. Dois documentos fundamentais na concepção de uma nova construção paradigmática na convivência ambiental,
social, ética, política, econômica e de justiça ambiental, uma busca de uma nova racionalidade epistemológica.
3.4 Assentamento São Gonçalo, a Carta da Terra e Tratado de Educação Ambiental