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A política nacional de pré-escola foi interpretada, inicialmente, como espaços de compensação de carências, principalmente culturais, e o objetivo dela seria auxiliar a criança na escola formal. No entanto, este não foi o sentido proposto pelo Programa Nacional de Educação Pré-Escolar, que retoma o plano nacional de educação pré-escolar do MEC em 1977, alterando partes do texto que foram criticadas por relacionarem o programa a uma concepção compensatória (BICCAS, 1995)

Segundo essa mesma autora, a grande expansão de pré-escolas, ou classes que atendiam crianças de seis anos ocorrida no final de 1970, início de 1980, por meio de iniciativa do MOBRAL, da LBA (Projeto Casulo) e das Prefeituras Municipais. Estas formaram juntos os grandes propulsores dessa oferta que visava, sobretudo, atingir crianças do meio popular.

Mesmo não encontrando registros suficientes que possibilitassem caracterizar os atendimentos existentes no município em períodos anteriores, o que também extrapola o foco do período que delimitamos para a construção desse histórico, porém consideramos relevante registramos que nos primórdios do atendimento à criança pequena no município registramos em depoimentos que foram realizados

110 significativos investimentos da Fundação Educar além de iniciativas vinculadas ao MOBRAL.

No ano de 1979, Contagem, em consonância com as políticas e diretrizes nacionais de educação, inaugura seu atendimento educacional na rede municipal direcionado as crianças de seis anos, por meio das turmas de pré-escola. A entrevista concedida por Diva, que lecionou em uma dessas primeiras turmas, contribui de forma significativa para que conseguíssemos construir os registros e compreender a concepção de educação que esteve presente neste momento significativo para a configuração da política de Educação Infantil. Em seu relato, Diva revela as condições dessa implantação vivenciada por ela na Escola Municipal Nossa Senhora Aparecida:

Na verdade, eu entrei em Contagem atuando com Educação Infantil em 1980. Quando iniciei toda a história de Contagem com a Educação Infantil, sendo em 1979 o primeiro atendimento em escola pública de Educação Infantil e como que ela aconteceu? [...] Na época foram aproximadamente 30 a 40 pessoas que fizeram o curso preparatório para pegar esses meninos, essas crianças. Depois o que aconteceu... Aí nós íamos para a Escola e ia uma pessoa, técnica da secretaria nos acompanhar. E como funcionou? Com diversas experiências. [trecho com ruídos] Eu trabalhava com 40 ou mais de 40 alunos, sem exagero. Numa salinha de madeira lá em cima, na Escola Nossa Senhora, só essa sala era de madeira pra você ver como era tão improvisado! [...] Era o período preparatório. Então a gente entrava e ficava agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro, fazia o preparatório para alfabetização. E era com crianças de seis anos, que iam completar sete. Aí fazíamos todo aquele trabalho do período preparatório e utilizávamos Piaget. (DURTE, Diva Viana Alvarenga, em entrevista concedida ao autor em 26/03/2009).

O grande número de crianças por turma e a improvisação dos espaços, demonstram a insuficiência e a fragilidade do atendimento oferecido pelo poder público. E a proposta pedagógica consistia em preparar as crianças para serem alfabetizadas aos sete anos de idade. Assim, no início dos anos 1980, por um lado, a criança era concebida como bela, pura em uma perspectiva romântica ideal e, por outro eram consideradas carentes, assim o atendimento anterior a alfabetização, antes da escola, denominado “pré-escolar‟ visava compensar os atrasos ocasionados pela “carência cultural” no desenvolvimento da criança e prepará-la para a etapa seguinte, antigo primeiro grau. A proposta pedagógica era pautada na

111 psicologia do desenvolvimento infantil, o foco do trabalho eram as crianças em sua individualidade. Nesse aspecto, eram analisadas e comparadas por uma perspectiva ideal de aprendizagem, construídas a partir de critérios universais.

Ressaltamos que a convergência dos entrevistados em referenciar, neste período, o nome do ex-secretário de educação do município, João Batista dos Mares Guia, que assumindo os trabalhos da secretaria de educação no período imediatamente posterior a promulgação da Constituição de 1988, e tendo participado do processo de discussão que culminou na elaboração dessa legislação, se empenhou na implantação de diversas ações pautadas nos dispositivos legais da nova constituição. Devido à relevância para esta pesquisa, dentre essas ações “pós- constitucionais” destacamos, a política de pré-escola que foi citada em diversos trechos de entrevistas:

[...] 1989 ficou marcado devido a atuação do então Secretário de Educação Sr. João Batista dos Mares Guia. Cria um novo olhar para a cidade. Ele provoca uma discussão. Era uma questão muito forte: Como iremos implantar a Constituição? E você tinha um secretario antenado nas coisas. [...] É ele que vai trazer a discussão desse atendimento em 1989. Quando ele assume a Secretaria de Educação ele traz essa discussão e monta a equipe de Educação Infantil, que é a equipe de pré-escolar, nem era Educação Infantil (LIMA, Rosalba Rita, em entrevista concedida ao autor em 01/12/2009).

E o Mares Guia tinha toda essa discussão política nossa. Ele conhecia nosso trabalho. Então foi a partir daí que deslanchou a questão de Educação no centro do município (DIAS, Maria do Carmo Lar, em entrevista concedida ao autor em 03/12/2009).

Contagem, assim, eu avalio que na época do Mares Guia foi uma época que a gente teve mais assistência do secretário, sabe, assim, de propostas de trabalho, e depois do Mares Guia eu não senti nenhuma outra secretaria assim (ROSARIO, Adarlete Carla do, em entrevista concedida ao autor em 18/12/2009).

De oitenta e oito para cá o João Batista foi o secretario que passou aqui e que teve essa preocupação com a implantação de pré- escola. (SEGUNDO, Lindomar Diamantino, em entrevista concedida ao autor em 26/01/2010).

Neste período, registramos avanço significativo nas políticas de Educação Infantil existentes no município, conforme corroboraram entrevistas, nesta época foi estruturada equipe técnica na SEDUC, para discutir o trabalho pedagógico desenvolvido nas pré-escolas do município:

112 Eu acho que de 1989 até 1993 você vai ter investimento específico para o atendimento à Educação Infantil. Foi quando se constituíram a maioria das Escolas. Então você tinha uma equipe dentro da Secretaria Municipal de Educação. Foi quando o poder público começa a entender que ele tem Educação Infantil. Pré-escolar, são crianças de seis anos. De 1994 a l996 a ação é muito fragmentada (Lima, Rosalba Rita, em entrevista concedida ao autor em 01/12/2009).

Em termos de estrutura física, além de algumas salas nas escolas de primeiro grau, também foram organizadas pela SEDUC, instituições que atendiam exclusivamente, as crianças de seis anos, esses espaços, geralmente, cedidos pelo governo estadual e que anteriormente abrigavam escolas estaduais de ensino fundamental, são denominados Pré-escolar. “Em 1989 inaugurou-se a primeira pré- escola construída e mantida pelo poder público municipal: o Polo Piagetiano Beija Flor, na região denominada Ressaca“ (CONTAGEM, 2007, p. 19).

Registramos também, nesse período, a atuação das ONGs, especificamente na construção do prédio que atualmente serve de sede do CEMEI Vereador João Evangelista que foi construído com recursos doados pela ONG italiana AVSI. A proposta inicial seria atender as crianças e famílias vítimas da tragédia de 1992, ocasião em que, Contagem se tornou conhecida mundialmente por causa do deslizamentos e soterramentos que ocorreram na vila Barraginha, quando o acidente provocou a morte de 36 moradores e a lama cobriu 150 barracos. Além dos recursos para a construção da creche, foram viabilizados também recursos para construção de novas residências para as vítimas. Porém, as residências foram construídas no bairro sede longe do local onde moravam anteriormente e o prédio, que serviria como espaço para a creche, foi construído em terreno disponibilizado no bairro Industrial, região próxima ao local da tragédia.

Nesse sentido, o município foi configurando seu atendimento a pré-escolas, mesmo sem uma linha de financiamento estabelecida e poucos prédios específicos. Constatamos, também, nesse período, as primeiras pistas da existência de formações específicas para a educação das crianças de seis anos, bem como a existência de

“um dos primeiros documentos produzidos pela Secretaria Municipal de Educação foi o programa pré-escolar de 1992 [...] tinha como

113 objetivo orientar o professor quanto à realização de seu trabalho, elencando objetivos, conteúdos e atividades a desenvolver, que tinham um foco curricular, preocupando-se em veicular atividades escolares para o desenvolvimento dos conceitos piagetianos de classificação, conservação, com apoio na discussão do conhecimento físico, social e lógico-matemático. Outro aspecto enfatizado era a questão da alfabetização. Usava como referência o material do Programa de Educação Pré-Escolar (Proepre), desenvolvido por um grupo de pesquisadores da Universidade de Campinas. (CONTAGEM, 2007, p. 19)

Percebemos, assim, que o município começa a desenvolver uma proposta política e pedagógica para o atendimento as crianças de seis anos. Porém, a SEDUC implantou esse programa muito voltado para as questões pedagógicas que envolviam a pré-escola e “não havia ainda a preocupação em elaborar uma política pública mais ampla e consistente para o atendimento à crianças de zero a seis anos.” (CONTAGEM, 2007, p. 20).

Outro documento que contribuiu para a organização das instituições das crianças pequenas de Contagem, foi o do Programa de Educação Pré-Escolar da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais. De acordo com Contagem (2007), esse documento abordava a Educação Infantil para as crianças de zero a seis anos, mas não propunha nenhuma política explícita para esse atendimento. As orientações da rede estadual estavam em consonância com os direitos da criança a creche e pré-escola, mas na prática se pautava na implantação somente da pré- escola.

Em se tratando do atendimento as crianças, nos moldes do programa pré- escolar foi discutido no município, inclusive com a promoção de cursos e seminários pela SEDUC em parceria com a SEE. De acordo com Contagem (2007) esse movimento perdurou até 1996.

Nas próximas sessões iremos estabelecer um recorte para a análise. Organizamos dois períodos distintos para a Educação Infantil no município, o primeiro diz respeito as ações desenvolvida de 1997 a 2002 e o segundo de 2003 a 2010. Realizamos tal procedimento visando reconhecer e identificar as principais ações, estratégias e concepções desenvolvidas em cada período, bem como categorizar, classificar as políticas de acordo com períodos, programas, ideologias, partidos políticos, buscando não privilegiar governos ou partidos políticos, mas caracterizar as políticas públicas de educação infantil de Contagem e compreender

114 como elas foram sendo produzidas. Quais contextos influenciaram a formulação das políticas educacionais? E em quais contextos os textos61 foram produzidos? (cf. Bowe, Ball e Gold,1992; Ball, 1994).

4.2 A Nova LDBEN e a Educação Infantil no Contexto das Políticas Públicas de

Benzer Belgeler