BÖLÜM 2: SEÇİMLER, SİYASAL KAMPANYA VE SİYASAL
2.1. İletişim Araçlarının Seçimler, Seçmen Davranışları, Parti ve Adaylar Üzerine
O perfil institucional dos presídios instalados na Ilha Anchieta desde o inicio do século XX, como visto, atendem à demanda da política de controle social para isolar e punir contraventores e outros indivíduos, muitas vezes sem condenação, que se constituíam em alvo privilegiado nas prisões correcionais efetuadas pelo serviço de policiamento urbano. A partir de 1942, o perfil criminal dos presos da Ilha Anchieta conhece uma sensível mudança. Conforme indicado acima, essa mudança foi, em parte, orientada pelo decreto de criação do Instituto Correcional e implicou, por um lado, na expansão quantitativa da população ali encarcerada e, por outro, possibilitou a convivência, na ilha, de presos com perfis criminais muito distintos. A reconstituição do perfil social e criminal dos presos encarcerados na Ilha Anchieta, na ausência das fichas de internação e prontuários, queimados na rebelião de 1952, pôde ser realizada com base na análise de alguns poucos relatórios publicados pelas autoridades policiais ao longo da década de 40 e, principalmente, por meio da documentação arrolada no
21 Parecer dos Drs. Mário Melo Freire, Américo Marco Antonio e Flamínio Fávero à Comissão
82 Inquérito Policial realizado pelo DEOPS, sobre a rebelião, entre 1952 e 1953. É o que apresentaremos nessa seção.
O Diretor Geral da Secretaria de Segurança Pública e Bacharel em Direito Alfredo Issa Ássaly, foi a primeira autoridade policial a visitar a ilha após a reforma realizada em 1942. Contrariando as indulgentes posições dos legisladores do DASP, que esperavam uma redução do arbítrio policial e uma maior intervenção do poder judiciário nas internações, Ássaly, que visita a ilha em , afirma que o )C)A está destinado aos chamados vagabundos, indivíduos presos e recolhidos pela Polícia, sem a menor interferência do Poder Judiciário .22 Em seu relato, ele menciona a presença, no ICIA, de cerca de 450 presos, dentre os quais dezenove menores de idade. Declara ainda que a caracterização do perfil dos presos é prejudicada pela inexistência de dossiês ou mesmo de prontuários com informações básicas dos mesmos. Parece que nada havia que subsidiasse um estudo a respeito da situação daqueles presos; nada sobre seu estado de saúde, sobre os motivos de sua prisão, nem sequer uma simples qualificação do preso, antecedentes criminais, policiais ou judiciários, descrição de sua situação familiar ou estado civil. De improviso, o relator elabora uma ficha para coletar dados gerais sobre a população prisional e entrevista cinquenta indivíduos, entre adultos e menores de idade. Embora não tenha publicado todas as informações coletadas (Ássaly publica informações de cinco presos adultos e de apenas um menor), seu relato traz a público algumas cartas escritas por prisioneiros solicitando a intervenção do Diretor da SSP para que pudessem ser colocados em liberdade: todos alegavam estar presos sem condenação, a maioria por embriaguez.
No mesmo relatório, Alfredo Issa faz uma série de criticas à instituição, muitas delas já apresentadas acima, quando discutimos a posição do Conselheiro Marrey Junior a respeito da concepção penal do ICIA. Ássaly se mostrou reticente às mudanças introduzidas no presídio desde 1942, caracterizando a instituição como o resultado de um confusionismo penitenciário :
Essa heterogeneidade de elementos [diferentes tipos penais e o convívio entre jovens e adultos], no seu bojo existe uma ideia: a da transformação do depósito de presos da Ilha
22 ÁSSALY, A. I. Quatro dias entre quatrocentos vagabundos . )n: Arquivos da Policia Civil de São Paulo.
83 Anchieta, presos por ordem policial, num presídio com ou sem o nome de Instituto... E essa ideia está em marcha, vem despertando criticas como esta.23
No ano seguinte, ocupando o cargo de Secretário dos Negócios da Segurança Pública, Alfredo Ássaly reforça as críticas que fizera em 1943 ao funcionamento do ICIA, principalmente no que diz respeito ao estado de saúde dos presidiários. Havia 405 detentos em 31 de dezembro de 1944 e o Secretário se revela otimista em relação à conduta disciplinar da maioria deles. Segundo a Tabela IV a seguir, elaborada com base nas informações contidas em seu relatório, 67% dos indivíduos encarcerados na ilha foram classificados com exemplar conduta .24
Tabela IV- Avaliação do comportamento dos presos do ICIA (1944) Avaliação de conduta Número de presos Percentual de presos
Exemplar conduta 274 67%
Boa conduta 43 10,6%
Regular conduta 12 2,6%
Sofrível conduta 17 4,3%
Péssima conduta 59 14,9%
Fonte: A Polícia de São Paulo em 1944.
Esse otimismo se baseia no tratamento dispensado aos presos na instituição. Segundo relato do Secretário, a prisão parece cumprir sua função punitiva, mediante o uso de medidas enérgicas contra seus cativos. Estes, na visão de Ássaly, eram
elementos contumazes na prática de distúrbios nas prisões, desordeiros e indisciplinados. Na Chácara Cruzeiro do Sul [Recolhimento da Penha], onde estiveram aguardando escolta para trazê-los até aqui [Ilha Anchieta], encabeçaram um movimento de rebeldia e depredaram tudo que puderam, sendo necessário para subjugá-los a intervenção de praças da Força Policial [Força Pública], Polícia Especial e Corpo de Bombeiros. Esses elementos, nos primeiros três meses, na Ilha, não se portaram convenientemente e estavam contagiando, com maus exemplos, os que ali se achavam internados. Todavia, graças às medidas enérgicas
23 Idem, ibidem., p. 40.
24 A Polícia de São Paulo em 1944. Na gestão do excelentíssimo Senhor Doutor Fernando Costa,
digníssimo Interventor Federal no Estado, tendo como Secretário dos Negócios da Segurança Pública, o Dr. Alfredo Issa Ássaly. Tip. do Departamento de Investigações, São Paulo, Brasil, 1945.
84 que foram tomadas, a disciplina desses elementos melhorou sensivelmente, tanto assim, que estão sendo ocupados no serviço de horticultura25.
Em 1947, o Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Dr. Pedro A. de Oliveira Ribeiro Sobrinho, publicou um relatório sobre as atividades que a secretaria desenvolveu durante os anos 1945 e 1946. Nesse relatório, assim como ocorre com aquele de Alfredo Ássaly, as informações sobre os presos da Ilha Anchieta são quase nulas, restringindo-se a referências que reproduzem, por parte do Secretário, os procedimentos e os jargões de exclusão moral26 que aqueles indivíduos sofrem: Sobrinho se refere a eles como desajustados sociais , indivíduos transviados , presas de inqualificáveis desajustamentos ; na visão do Secretário, a maioria dos presos é formada por batedores de carteira e vigaristas, elementos os mais astuciosos .27 À semelhança do que vimos no relatório de Ássaly, é possível identificar no relatório de Sobrinho uma mudança na qualificação do perfil dos indivíduos encarcerados. Começam a aparecer presos com perfis criminais variados, reincidentes no crime, ébrios, vadios e vagabundos. Ressente-se nesse relatório, contudo, da ausência de informações precisas acerca desses presos.
A situação jurídica dos presidiários é um elemento importante para entendermos o seu perfil criminal. Prender sem condenação era uma prática comum e, em 1945, o Secretário de Segurança demonstra o potencial de desestabilização dessa injustiça no cotidiano das prisões. Em seu relatório ao Interventor Federal, o Secretário Pedro A. de Oliveira Ribeiro Sobrinho28 afirma que determinou a liberação de centenas de indivíduos socialmente desclassificados , ilegalmente detidos na )lha Anchieta. De resto, com o propósito de evitar as prisões ilegais o referido Secretário cria uma Seção
de Processos de Contravenções Penais do Departamento de Investigações, chefiada por
25 Cf. A Polícia de São Paulo em 1944. Na gestão do excelentíssimo Senhor Doutor Fernando Costa,
digníssimo Interventor Federal no Estado, tendo como Secretário dos Negócios da Segurança Pública, o Dr. Alfredo Issa Àssaly. Tip. do Departamento de Investigações, São Paulo, Brasil, 1945.
26 Para uma análise do conceito de exclusão moral, Cf. ROLIM, R. op.cit.
27 Relatório das atividades policiais de São Paulo, nos anos 1945-1946, apresentado ao Excelentíssimo
Senhor Doutor José Carlos de Macedo Soares, Digníssimo Interventor Federal do Estado de São Paulo pelo Dr. Pedro A. de Oliveira Ribeiro Sobrinho, Secretário de Segurança Pública. Typographia do Departamento de Investigações. São Paulo, 1947.
28 Relatório das atividades policiais de São Paulo, nos anos 1945-1946, apresentado ao Excelentíssimo
Senhor Doutor José Carlos de Macedo Soares, Digníssimo Interventor Federal do Estado de São Paulo pelo Dr. Pedro A. de Oliveira Ribeiro Sobrinho, Secretário de Segurança Pública. Typographia do Departamento de Investigações. São Paulo, 1947.
85 dois delegados com funções de autoridades judiciárias e dois promotores p’blicos, designados para presidirem os trabalhos desenvolvidos durante a formação de inquéritos, inquirição de acusados e testemunhas , além de um procurador para exercer o papel da defesa dos réus, e de um corpo de funcionários, desde escrivães, escreventes e investigadores.
Com a criação dessa Seção Especializada, o Secretário não só mescla funções judiciais e policiais num mesmo departamento, como também submete o poder judicial ao poder policial no julgamento dos processos de contravenção. É que a meta primordial da nova Seção Especializada é acelerar o processo legal de condenação. Em seu relatório de gestão, o Secretário deixa claro que a nova Seção é responsável também pelos casos de execução de medidas de segurança detentiva, nos casos enquadrados nos artigos 14, 15 e 59 da Lei das Contravenções Penais (crime de vadiagem) e artigos 88 e 93 do Código Penal, perseguindo jogadores, ébrios, portadores de armas proibidas, vadios etc. O Secretário assegura, assim, que a medida vai garantir que aquelas centenas de indivíduos transviados, presas de inqualificáveis desajustamentos retornem em breve ao ICIA.
A nova Seção foi oficialmente inaugurada em outubro de 1945 e, sua primeira missão foi realizar um levantamento nos prontuários dos presos por contravenção, a fim de eleger os que seriam regularmente processados. Segundo o Secretário, um cadastro com mais de duas centenas de indivíduos foi formado, com base em critérios como passagem pela polícia (máximo de cinco anos), grau de periculosidade e ausência de condenação. Assim é que aqueles considerados mais perigosos, ou seja, aqueles que tinham passado pela autoridade policial há menos de cinco anos e aqueles que ainda não haviam sido julgados, foram escolhidos para serem julgados na nova Seção.
Pedro Ribeiro Sobrinho garantiu que os direitos ao contraditório e à ampla defesa seriam assegurados em todos os casos presididos pelos Delegados especializados Humberto de Sá Miranda e Osório Pereira Cavalcanti. Isso dito, ele foi bastante claro ao defender a condenação tout court da maioria dos indivíduos processados por vadiagem. Vale a pena citar a íntegra de seu argumento:
Sendo certo que a maioria dos vadios processados é constituída de batedores de carteira, vigaristas, etc., com mais de vinte passagens pela Polícia; que se trata de elementos os mais astuciosos; que para reconhecimento de fato contravencional prescinde do dolo ou da culpa;
86 que se presumem perigosos e são obrigatoriamente internados em Colônia Agrícola ou em Instituto de Trabalho de reeducação ou de ensino profissional, os condenados pela contravenção de vadiagem ou mendicância, muito lucraria a sociedade se, após condenados esses malfeitores, não fosse o trabalho da Polícia, preventiva e judiciária, frustrado pela concessão da liberdade vigiada. (...) Esta sugestão visa, apenas, levar à digna magistratura criminal o auxilio de nossa sincera cooperação no saneamento da sociedade, pelos meios legais mais eficientes29
Mais do que agir contra a prescrição legal dos processos-crimes, o Secretario dobra o arcabouço jurídico-penal para atender ao propósito de manter encarcerados, pelo maior tempo possível, aqueles condenados. Somado a isso, o Secretário de Segurança Pública também cria a possibilidade de ser decretada a prisão preventiva de indivíduos presos por crime cuja pena pudesse ultrapassar os dez anos de detenção, mostrando-se convicto quanto à eficácia das medidas de segurança:
Como se sabe, as medidas de segurança, em geral, que pressupõem a prática de fato prevista como crime ou a periculosidade do agente – constituem magnífico instrumento de trabalho para o exercício da polícia preventiva, considerada a expressão no seu sentido mais amplo. E tanto o Código Penal brasileiro, como a Lei de Contravenções Penais cuidaram, com grande oportunidade, da aplicação de tais providencias da nossa moderna política criminal30
O poder da policia de efetuar prisões preventivas pode muitas vezes, como se sabe, entrar em conflito com o poder judiciário, já que esse poder, para garantir o direito à liberdade, pode determinar a soltura dos indivíduos acusados. Não era, contudo, o que ocorria com os presos da Ilha Anchieta. Conforme apontou Alfredo Ássaly, os presos eram, não raro, encaminhados para ali sem qualquer processo legal. Ora, a criação da Seção para julgar, na Delegacia, os acusados de contravenção amplia a atuação da autoridade policial, pois atribui à polícia um papel antes reservado ao judiciário.
Sobre o funcionamento da Seção Especializada, criada na gestão Sobrinho na Segurança Pública, é possível obter informações no relato de seu sucessor na pasta, o Coronel Nelson de Aquino. Aos olhos do Coronel, a principal inspiração para a sua criação foi a necessidade de internação, na )lha Anchieta, de numerosos vadios, ladrões,
29 Relatório das atividades policiais de São Paulo, op. cit., p. 72 30 Idem, p. 74.
87 vigaristas, punguistas, caftens etc., elementos perigosos cuja liberdade constitui permanente perigo para a sociedade 31. Nesse sentido, Aquino lembra que a Seção garantia o respeito ao formalismo legal para ampliar a luta contra toda a espécie de contraventores perigosos .
Mesmo com a criação dessa espécie de tribunal no interior do Departamento de Investigações da Policia Civil de São Paulo, as autoridades constituídas indicam alguma ingerência do poder judiciário nas prisões realizadas pelo serviço de policiamento. Em seu relatório de gestão, o Coronel Aquino apontou uma série de cuidados para que os policiais não fossem vítimas das armadilhas do formalismo processual e tivessem seu trabalho de policiamento anulado pela soltura dos acusados por ordem do Judiciário. Para ele, a autoridade policial não tinha condições de ouvir três testemunhas a respeito da vida do investigado, conforme determinação da norma processual para a produção de provas necessárias ao indiciamento. Além disso, a lei proibia a autoridade policial de ouvir o acusado sem a presença de um defensor, assegurando assim ao investigado o direito de não produzir provas contra si mesmo. Ora, o presumido vadio pode assim, segundo Aquino, se servir de inúmeros subterfúgios para escapar a uma condenação. Por exemplo, ele pode declarar-se vitima de uma situação de desemprego, apresentando como prova de vadiagem involuntária nomes ou testemunhos de antigos patrões. Estes, para o Secretário, também falsificavam seus testemunhos para embaraçar a construção das provas da vadiagem, subterfúgios aos quais outros de somavam:
Outro expediente também em voga é o consistente em estabelecer-se o vadio com um comércio qualquer, pagando pontualmente os respectivos impostos, comercio esse, entretanto, que uma investigação mais aprofundada revela não proporcionar lucros, que garantem ao menos, a sua subsistência. É o caso de velho punguista que logrou absolvição num processo de vadiagem, mediante a prova que fez de estar estabelecido com comercio de roupas brancas, embora o seu verdadeiro oficio fosse o de batedor de carteiras, como ficou apurado na sindicância procedida32
Esse perfil dos vadios esquadrinhado por Aquino demonstra que a presunção de periculosidade pode ser aplicada até mesmo àqueles que, possuindo fonte de renda,
31 Relatório da Polícia de São Paulo, no ano de 1947, apresentado ao Excelentíssimo Senhor
Governador do Estado de São Paulo, Doutor Adhemar de Barros, pelo Coronel Nelson de Aquino, Secretário de Segurança Pública. São Paulo, 1948, p. 52.
88 supostamente não conseguem garantir a própria subsistência. Diante da autoridade policial, sob o risco de ser enquadrado no perfil de contraventor, é compreensível que os acusados se sirvam de subterfúgios para burlar qualquer tipo de suspeita sobre seu comportamento. Por outro lado, a autoridade policial também elabora estratégias para enquadrar os suspeitos de forma a assegurar sua condenação. O ceticismo da autoridade diante das declarações prestadas pelo acusado era, como se nota na declaração reproduzida acima, um dos recursos utilizados para enfraquecer as contraprovas apresentadas. Assim, Nelson de Aquino, com o intuito de tornar mais eficaz o policiamento sobre os vadios voluntários , reinstitui33 o Termo de tomar ocupação, por meio do qual o investigado produz, ele mesmo, uma declaração de vadiagem. Após apresentar-se na delegacia, o suspeito de ter cometido a contravenção prestava suas declarações à sindicância policial e assinava o Termo, comprometendo-se a entregar à autoridade policial provas de que encontrará ocupação remunerada. O que Nelson de Aquino descreve como tendo valor meramente administrativo era, na verdade, a admissão por escrito da prática contravencional. Muitos indivíduos que se apresentavam de início apenas como suspeitos, após terem assinado esse documento tornavam-se mais vulneráveis à condenação, pelo próprio gesto. Criava-se, vale dizer, condições para que a polícia atuasse para assegurar uma prisão justa , pois a prova era a própria assinatura do investigado no Termo. O suspeito se transformava assim em presa fácil do policiamento, pois, segundo o Secretário, o não cumprimento do compromisso assumido no termo importa a instauração imediata do processo, eis que se tornou patente por parte do sindicado a disposição de permanecer na ociosidade .34
O numero de condenações aumenta com a instituição do Termo de tomar
ocupação. Segundo dados apresentados por Aquino, entre os 252 processados, durante o
ano de 1947, 245 foram condenados pelas varas criminais especializadas, sendo que o
jogo do bicho e a vadiagem foram os tipos mais comuns.
A compreensão desse processo de criação e funcionamento da Seção de Processos por Contravenções Penais se justifica por revelar as circunstâncias em que a polícia produzia os delinquentes que seriam encaminhados à Ilha Anchieta, no final da
33 A reinstituição deste Termo pelo Coronel Nelson de Aquino revela a continuidade de certas
tendências penais herdadas da Primeira República. Para uma análise mais completa a esse respeito, cf.: ALVAREZ, M. C.; SALLA, F.; SOUZA, L. A. F. de. A sociedade e a lei: o Código Penal de 1890 e as novas tendências penais na Primeira Rep’blica . )n: Justiça & História, Porto Alegre, v. 3, n. 6, 2003.
89 década de 1940. Essa estratégia de controle social está, em boa parte, embasada na noção de potencial de periculosidade dos indivíduos, uma ideia que não tinha nenhuma relação direta com a responsabilidade penal ou com a possível imputabilidade do ato criminoso. De acordo com o artigo 78 do Código Penal é presumida a periculosidade nos seguintes casos: I. aqueles que, nos termos do artigo 22, são isentos de pena (hipótese dos irresponsáveis); II. os referidos no parágrafo único do artigo 22 (pena abrandada por se tratar de retardo mental); III. os condenados por crime cometido em estado de embriaguez pelo álcool ou substancia de efeitos análogos, se habitual a embriaguez; IV. os reincidentes em crime doloso; V. os condenados por crime que hajam cometido como filiados a associação, bando ou quadrilha de malfeitores. Mas é na Lei das Contravenções Penais, em seu artigo 14, que o conceito de presunção de periculosidade é complementado, estendendo-o a vadios, mendigos, reincidentes em jogos de azar ou jogo do bicho. Ora, uma vez presumida a periculosidade, como afirmado anteriormente, aplica-se a medida de segurança. Há, portanto, um suporte legal para a atuação da polícia na determinação da periculosidade dos acusados.
Em texto que exerceu grande influência na orientação das práticas policiais, tendo sido exaustivamente citado nos relatórios dos Secretários de Segurança Pública, Oswaldo Silva, também Delegado de Polícia, afirma:
Tem-se argumentado que é quase impossível reunir, num inquérito policial, provas suficientes que autorizem a condenação, desde que se trate de um vigarista ou um punguista, sabido como é que tais delitos, instantâneos por excelência, e com aspectos todos especiais na sua execução, não deixam qualquer vestígio além da queixa e dos protestos da vítima.