Quando deparamos com a história de uma personalidade em um trabalho acadêmico começamos a questionar: E biografia pode ser trabalhada em uma tese? E perguntamos em outra via: E por que não? Por que história de vida não pode ser objeto
de estudo acadêmico?
Estudos sobre biografia nos infromam que nesse gênero temos mais que a história de uma pessoa. Nela encontramos indícios sociais, religiosos e antropológicos com as características de uma época. Contudo é necessário que em uma pesquisa biográfica devemos ter o cuidado para não transformar uma tese, que nos leva a indagações, em apenas uma narrativa sobre a existência de uma pessoa ou a trajetória da vida particular transformada em uma rede de intrigas.
A biografia nos leva a várias biografias. Quando relatamos sobre um fato ocorrido com uma personalidade, temos ligadas a esta vida outras vidas que se entrelaçam formando assim uma teia, um emaranhado de fatos com um protagonista atuando em várias narrativas. Histórias de vida se entrelaçam com biografias, naquelas temos o coletivo e nestas o foco maior que é o indivíduo. Deixamos, porém, bem claro que para contarmos sobre a vida de alguém, precisamos de histórias de vida, pois o indivíduo é um ser social e sendo assim precisa estar em contato com outras pessoas para que possa interagir e viver em sociedade.
Assim será a história das beletristas1 e educadoras do Ceará provinciano partindo de uma mulher que foi atuante em sua época: Francisca Clotilde.
Histórias de oito mulheres escritoras e professoras que nasceram, viveram e atuaram em solo cearense. Dentre essas destacamos cinco mulheres que foram ao mesmo tempo educadoras e professoras convivendo entre si: Alba Valdez, Ana Facó, Ana Nogueira Batista, Emília Freitas e Francisca Clotilde. Das três seguintes duas não foram professoras, mas se destacaram na literatura e conviveram com Francisca Clotilde: Serafina Pontes e Úrsula Garcia; a última, Adília de Luna Freira (ou Adília de Albuquerque Moraes) foi beletrista e educadora, apesar de não ter convivido com Francisca Clotilde não poderíamos deixar de citá-la, principalmente pela sua importância na crônica jornalística cearense. Neste trabalho serão mostradas ao público suas vidas com derrotas e vitórias. Indagamos: O que levou estas mulheres a
ingressarem em território intelectual masculino? Com quais apoios? Realizaram ou não rupturas sociais, familiares e religiosas para fazerem parte do espaço letrado cearense?
Percebemos então que uma biografia é mais que um gênero literário de não ficção. Dela temos estudos sobre o comportamento de uma sociedade com os seus valores humanos, religiosos, éticos, morais, como também seus costumes e tradições. Em uma biografia poderemos também observar os movimentos literários e educacionais de uma sociedade conforme seu tempo e espaço, a citar, o estudo em questão na nossa pesquisa.
Para realizarmos uma biografia utilizamos várias fontes: da primária obtida em arquivo (público e/ou particular) à secundária. Também temos as obras literárias, porque essas nos dão uma demonstração de como seja um cotidiano de uma sociedade. Em nossa pesquisa utilizamos obras literárias para demonstrar a vida diária escolar. Por exemplo, o dia a dia de uma sala de aula: enquanto que um diário de classe nos informa a quantidade de alunos matriculados em uma série escolar, um livro literário, de memórias ou não, pode nos relatar a convivência entre os alunos, a relação do processo ensino-aprendizagem, a atuação dos partícipes de uma instituição educacional, com seus êxitos ou não.
Uma pesquisa pode, e digamos até em algumas situações, deve utilizar vários modelos de fontes, como também ter diferentes olhares para que possamos conhecer novos caminhos e assim termos um melhor resultado do estudo.
Com este objetivo realizaremos uma trajetória de vida de uma personalidade cearense, considerada pioneira no viés literário e educacional. Teremos história de vida, de cultura, de conhecimento, de estrutura social, moral e ética. Enfim, um estudo que envolve uma pesquisa na qual o indivíduo ilustra o coletivo. Ou seja, da biografia modal de Francisca Clotilde teremos um estudo sobre as mulheres beletristas e educadoras do Ceará na era provinciana e meados da república, período de transição da monarquia para a primeira república.
Faremos um tempo histórico (de 1862 a 1935), um espaço de setenta e três anos, porque esse recorte temporal é o período de vida de Francisca Clotilde. Da trajetória literária e educacional de F. Clotilde teremos um estudo do tempo social das mulheres nessa época, no qual o espaço temporal é o Ceará dos meados século XIX aos anos trinta do século XX. Período esse em que há uma predominância de ideias conservadoras, preconceituosas e racistas no Brasil. A sociedade cearense não ficou de
fora desse contexto: mesmo sendo a terra alencarina a pioneira contra a escravatura dos negros, ela tinha seu conservadorismo, patriarcalismo e patrimonialismo.
Ribeiro (2002, p.4) informa-nos que no Brasil, na transição da monarquia para a república,
Predominaram as ideias racistas que influenciaram amplos setores da elite intelectual brasileira. Além de ser o ano da abolição da escravatura no Brasil, 1888 é o ano da publicação da obra de Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira, considerada um marco no pensamento conservador brasileiro da época. Aparece aqui mais um dado a ser considerado – a existência capilar de um discurso racista, preconceituoso, colonialista e de classe, muito útil para manter as classes populares em seu devido lugar que será testemunhado, fartamente demonstrado, e muitas vezes reproduzido, pelas linhas e entrelinhas das narrativas literárias.
Continua ainda o pesquisador (ibidem), e explica que
Esse intervalo de características nitidamente positivistas, evolucionistas e deterministas vai influenciar em muito os autores cearenses e suas obras. Ele entra em declínio, aproximadamente em 1914 com o início da I Guerra Mundial, espaço para uma incipiente industrialização. É o momento do governo de um militar, o Marechal Hermes da Fonseca (1914 – 1918), e sua política dos governadores. No Ceará, esse período coincide com a ascensão, o apogeu e a queda repentina e inesperada da oligarquia do chefe político e coronel, Antônio Pinto Nogueira Acioly, que governou o Estado entre 1896 a 1912.
Nesse espaço e tempo viveu Francisca Clotilde, a qual sofreu represálias dos governantes pelo modo como ela se portava diante de movimentos sociais e políticos, dentre eles o Movimento Abolicionista e posteriormente contra a Oligarquia Aciolina, o Movimento Pró-Rabelista. Mais adiante dissertaremos acerca desse contexto individual e social.
No espaço geográfico teremos quatro cidades com suas quatro visões: sertão, serra, capital e litoral. Francisca Clotilde nasceu no Sertão dos Inhamuns, em Tauá, aos 19 de outubro de 1862. Por motivo das grandes secas nordestinas, a família se muda para a serra, Maciço de Baturité, no qual tinha parentes, os Castello Brancos e Correias Lima. Nas terras serranas realiza seus primeiros estudos. Para dar continuidade a sua vida educacional os pais a matriculam em regime de internato no Colégio da Imaculada Conceição, em Fortaleza. Na capital da província cearense, período da Belle
Époque, Francisca Clotilde participa de movimentos literários e políticos. Ainda na
lecionar nessa instituição educacional. Nesse período tem uma boa produção literária e passa a ser colaboradora de vários jornais locais e nacionais. Por não fazer mais parte do quadro de professores da Escola Normal funda sua escola primária, no centro de Fortaleza, próxima a Praça Marquês do Herval (atual Praça José de Alencar), o Externato Santa Clotilde. O que houve com ela? Foi demitida ou pediu demissão da escola normalista? E por quais motivos ela não lecionava mais na Escola Normal? Veremos adiante. Francisca Clotilde após fundar sua primeira escola passa por dificuldades financeiras e fecha seu estabelecimento de ensino. Sem emprego, sem marido e com filhos retorna à terra dos familiares. Em Baturité funda seu segundo Externato Santa Clotilde. De sua atividade de professora e escritora, fundara com a filha Antonieta Clotilde a revista A Estrella, e passa a viver razoavelmente bem na serra, período que publica o romance A Divorciada, em 1902. Contudo, acontecera algo em sua vida que a fizera mudar-se novamente, indo dessa vez para o litoral, Aracati. Transfere escola e a revista A Estrella para a terra dos bons ventos, juntamente com os filhos. Vive nessa cidade praiana lecionando no Externato Santa Clotilde e continuando a participar da literatura cearense até os últimos dias de sua vida, aos 8 de dezembro de 1935. Maiores informações a respeito desses acontecimentos sobre Francisca Clotilde serão aprofundadas no terceiro capítulo desta tese.
Para tal trabalho é necessário que façamos uso de várias fontes, em sua maioria primária, mas também, em alguns momentos, a utilização das fontes secundárias.
Segundo Rodrigues (2007, p.5), a fonte primária é aquela em que o pesquisador busca informações em arquivos oficiais, constituídos pelos relatórios, formulários ou algo semelhante. Como também a correspondência oficial ou pessoal do pesquisado e declarações de informantes, enfim, tudo que constitua material original. As fontes secundárias são teses, relatos de pesquisa, livros cujos conteúdos sejam estudos do tema da pesquisa. Expressa mais do que uma simples informação factual, contendo estudo, análise, reflexão, classificação ou descrição, não é apenas um registro ordenado.
Utilizaremos também algumas obras literárias para compreendermos a sociedade da época, com seus costumes e normas. Pois a Literatura nos dá subsídios para adentrar cidades, salões, eventos, grêmios literários e instituições educacionais.
2.1 – História, Literatura e Educação
Por que trabalhar a história? Concordamos com o pensamento do Prof. Jorge Nagle quando afirma que a história é a base para compreensão de acontecimento local e mundial. Por exemplo, para se entender as reformas educacionais que o Brasil teve, é necessário conhecer o desenvolvimento histórico que o país sofreu para compreender o contexto atual. Segundo Nagle (In CAVALCANTE, 2002, p.10):
[...] não existe pesquisa em história da educação. Existe pesquisa em história no campo educacional. De modo que, a história da educação é história. A base é história, e, portanto, nós temos que seguir aquele padrão que é próprio do trabalho do historiador. Às vezes, a gente esquece isto e começa a fazer relatos muito sobre educação, esquecendo que os padrões que definem esses relatos são os padrões da história propriamente dita.
Desse modo podemos dizer que ao estudar a história iremos ao mesmo tempo descobrir sobre a história educacional de uma instituição e de uma pessoa, pois a vida de alguém está entrelaçada a história de um povo e de um lugar com seus costumes, tradições e culturas.
Le Goff (2003) divide a História em quatro vertentes: 1 – Historiografia ou história da história; 2 – História e memória; 3 – História e estruturalismo; e 4 – História como história dos homens em sociedade. Com o estudo sobre Francisca Clotilde entrelaçar-nos-emos nestas quatro teceduras da História, pois precisaremos de cada uma para entender todo o contexto da vida de uma pessoa.
Segundo Heródoto, o pai da História, esta surgiu como um relato, a narração daquele que pode dizer algo, ―eu vi, senti‖ (LE GOFF, 2003, p.9).
Temos, então, o surgimento da história não mais narrada por deuses, musas, personagens imaginários, com as narrativas fantásticas, e sim por um narrador de terceira pessoa que relata o fato objetivamente. Acontece a ruptura da literatura, em muitas das vezes fantástica, da história propriamente dita, a real. Por isso que ficou por muito tempo o conceito de história (history) para narrativa real e estória (story) para a fictícia, a imaginária.
Com Heródoto temos a narrativa real, histórica. Acontece uma perspectiva pragmática que transmite para as gerações futuras a herança cultural de um povo. Ela substitui os personagens lendários e fantásticos e põe um narrador, o contador da história, o mestre da verdade não é mais atuante da cena, torna-se ausente da história,
passa a narrar a verdade. O uso do pronome e verbo em terceira pessoa transforma o comentarista em narrador de terceira pessoa.
Massaud Moisés (2005, p.113) nos explica sobre o foco narrativo:
Por ponto de vista, ou foco narrativo, se entende a posição em que se coloca o escritor2 para contar a história, ou seja, qual a pessoa verbal que narra, a
primeira ou a terceira? O primeiro foco, relativo ao emprego da primeira pessoa, esgalha-se em dois: a personagem principal relata-nos sua história, ou uma personagem secundária comenta o drama do protagonista. Por sua vez, o emprego da terceira pessoa bifurca-se em 1) o escritor, onisciente3, conta-nos
ou mostra-nos a história, e 2) o escritor limita-se às funções de observador, apenas comunicando o que estiver ao seu alcance.
Este último, item dois, é o mais característico do historiador. Ele narra os fatos de acordo com suas observações e pesquisas.
Ao fazer história, o homem trabalha com várias histórias, temos a história das representações, que nesta está a história política; a econômica e social; e a cultural. Na história das ideologias temos as concepções globais da sociedade. Na história das mentalidades temos as estruturas mentais comuns a uma categoria social, a uma sociedade e a uma época. Na história do imaginário temos as produções do espírito ligadas não ao texto, à palavra, ao gesto, mas à imagem. Na história do simbólico temos as condutas, as práticas, os rituais que nos remetem a uma sociedade oculta e subjacente. Há a história psicanalítica, cujas provas de estatuto científico não parecem ainda reunidos. E finalmente a história da história, mais conhecida por historiografia, ou seja, uma ciência histórica numa perspectiva histórica.
E nesse fazer histórico temos o entrelaçamento da própria história em si com a arte da literatura e com as narrativas de vidas. Ao cruzar as vidas de pessoas estamos construindo um contexto social, cultural, familiar, religioso, econômico, político e educacional dos envolvidos na trama e dos seus personagens coadjuvantes. O historiador torna-se um investigador, ele procura elucidar os fatos. Concordamos com a afirmativa de Vasconcelos Júnior (2006, p.24) quando diz que:
[...] o ofício do historiador seria próximo de detetive e do médico, que pelo indivíduos e pequenas provas, reconstrói um mundo de significação, no caso de detetive, o crime, no caso do médico, a doença. Porém, a liberdade de que
2 Sentido de narrador.
3 O narrador que conta a história, que sabe tudo e não participa dela, como é o caso do narrador
se vale o historiador não deve prescindir de provas, muitas vezes somente vislumbradas na vida de protagonistas anônimos da história.
A necessidade do historiador de entrelaçar relato e explicação fez da história um gênero literário, uma arte e ao mesmo tempo uma ciência. Mas, com o avanço do tecnicismo da ciência, ficou difícil para o historiador ser também um ―ficcionista‖, ou seja, escrever a história de um modo que não ficasse tão literário e sim o mais próximo possível de uma linguagem formal. Porém, no texto, com marcas literárias ou não, sempre haverá a escritura da história, o registro dessa. Temos como exemplo a história e biografias que Jacques Le Goff escreve, a citar, de Francisco de Assis.
Sabemos que o tempo, a cronologia e o calendário são peças fundamentais para se entender a história, porém hora e semana estão ligadas à cultura e não à natureza. O calendário é produto e expressão da história: está ligado às origens fantásticas dos mitos e religiosas da humanidade. Enfim, são dois pontos primordiais de partida para a história: a partida cronológica e a busca pela periodização.
E por que este interesse ao passado, visto que as pessoas no presente projetam muito o futuro, daí fazerem tantos planos? Segundo o método regressivo de Bloch (LE GOFF, 2003), o interesse no passado está em esclarecer o presente. O passado é atingido a partir do presente.
Sobre passado/presente, Le Goff (2003) nos adverte que não devemos transportar o presente ao passado e vice-versa, pois para ele existem rupturas e descontinuidades inultrapassáveis, em ambos os sentidos. Le Goff (2003, p.24-25) explica que a
A ideia da história dominada pelo presente baseia-se numa célebre frase de Benedetto Croce em La storia come pensiero e come azione4, que sugere que ―toda a história‖ é ―história contemporânea‖. Croce entende por isso que, ―por mais afastados no tempo que pareçam os acontecimentos de que trata, na realidade, a história liga-se às necessidades e às situações presentes nas quais esses acontecimentos têm ressonância‖ (1938,p.5). De fato , Croce pensa que, a partir do momento em que os acontecimentos históricos podem ser repensados constantemente, deixam de estar ―no tempo‖; a história é o ―conhecimento do eterno presente‖ (GARDINER, 1952).
A história passa a ter ritmos diferentes e a tarefa do historiador é reconhecer esses ritmos.
A história exprime três conceitos diferentes: I – que a história é a procura das ações realizadas pelos homens, transformando, assim, em ciência histórica; II – que a história é uma série de acontecimentos; III – e que a história é uma narração. Esta última levou a uma narrativa verdadeira, representada por ―história‖ e a de conto, uma fábula, a uma realidade imaginária, a ―story‖ (LE GOFF, 2003).
No Brasil ficou-se por muito tempo utilizando ―história‖ e ―estória‖, sendo a primeira relacionada a algo real, verdadeiro; o segundo termo como algo imaginário, irreal, fictício. Data-se de 1919, o neologismo de ―estória‖ no Brasil utilizado por João Ribeiro (membro da Academia Brasileira de Letras) inspirado pelas duas versões inglesas, ―story‖ e ―history‖. E segundo Ferreira (1986), há muito tempo este termo ―estória‖ não é mais usado para fazer essa diferenciação. Para saber que a obra utiliza termos fictícios com alguns fatos verdadeiros, usa-se o termo ―romance histórico‖.
O crítico literário Orlando Pires (1989, p.180) define que o romance histórico é aquele que
Tem a fabulação baseada em fatos e personagens com registro na história. O romancista apenas os retoca com traços que lhe fornece sua imaginação criadora, livre do compromisso de manter-se irrestritamente fiel à realidade referente. Assim, torna dramático um assunto histórico, negligenciando as biografias individuais. Sua pretensão autêntica é fixar caracteres e sentimentos verossímeis num ambiente histórico verdadeiro ou aceito como tal pelo autor e pelo leitor. Foram seus cultores: Walter Scott (Waverley novel)5, Alexandre Herculano (Eurico, o presbítero), José de Alencar (O
Guarani), Stefan Zweig (Maria Antonieta, Joseph Fouche), André Malraux (A condição humana).
No Ceará temos vários autores que trabalharam a linha de ―romance histórico‖, citamos como destaque Rodolfo Teófilo, cujas obras literárias têm cunho histórico, por exemplo, A Fome, uma história fictícia, mas com fatos e localidades reais do período de grande seca na terra cearense, de 1877 a 1879. Almeida (2007) nos informa em sua dissertação de Mestrado que o citado romance é constituído de quatro capítulos: ―Êxodo‖ (com 12 subcapítulos); ―A Casa Negreira‖ (10 subcapítulos); ―Misérias‖ (34 subcapítulos); e ―Epílogo‖ (2 subcapítulos). Em ―Êxodo‖, início da narrativa, relata-se a fuga de uma família: Manuel de Freitas com sua esposa D. Josefa Maciel, três crianças menores de 10 anos, a filha Carolina e uma criança que ainda amamentava, fazendo assim um total de sete retirantes. 1877, ano de uma seca que fez vários retirantes saírem de seus lares, do interior cearense, à procura de Fortaleza, com a
intenção de encontrar a salvação na capital. Seca que é fato histórico no Ceará, considerados os três anos seguidos (1877 a 1879), sendo o pior deles o ano de 1878, quando várias pessoas foram vitimadas pela fome e pela varíola. O escritor realiza um romance histórico, pois em A Fome Rodolfo Teófilo utiliza a ficção para relatar um fato verídico e ao mesmo tempo denuncia o descaso das autoridades governamentais em relação ao problema da seca no Ceará.
Eis uma exemplificação de ficção com fatos reais, pois para entender o romance A Fome é importante que o leitor tenha informações sobre os problemas econômicos e climáticos do Ceará para compreender certas descrições que Rodolfo Teófilo coloca em sua obra, a informação da quantidade de vítimas e como elas ficavam com os corpos marcados por causa da doença. A varíola deixava horríveis cicatrizes