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De acordo com Jost (2007, p. 60), os gêneros são etiquetas “que permitem reagrupar um conjunto de emissões dotadas de propriedades comparáveis”. Não são classificações estanques, mas rótulos arbitrários, que não se encerram em si mesmos. Da mesma maneira os formatos são como etiquetas atribuídas aos produtos midiáticos que, em última instância, funcionam como um guia para o telespectador. Para Cannito (2010, p. 55), o gênero e o formato são as regras do contrato estabelecido com o público da televisão. Por meio deles, o espectador cria expectativas que, no decorrer da emissão, podem ser quebradas ou mantidas.

Logo, a estratégia de sucesso de um produto televisivo está intimamente ligada ao gênero/formato do programa. Para aderir ao jogo comunicativo proposto (assistir ao programa para ver se corresponde ao que é anunciado), o conteúdo desse jogo precisa ser materializado em estruturas básicas de identificação cultural, isto é, em atributos predefinidos esperados pelo público, o gênero. (CANNITO, 2010, p. 55). Aronchi de Souza é autor de um dos mais completos mapeamentos dos gêneros e formatos da televisão brasileira. Segundo ele, os produtos televisivos podem ser classificados em três grandes categorias: entretenimento, informação e educação. Não por coincidência, essa classificação corresponde às funções clássicas da televisão apontadas pela UNESCO e utilizadas como base para os estudos, por exemplo, de Niceto Blázquez. Na análise dos gêneros e formatos, Aronchi ainda cita a existência de outras duas categorias: “publicidade”,

que abrange mensagens destinadas à venda de produtos; e “especiais”, incluindo programas infantis, religiosos e de minorias, entre outras emissões não contempladas na sistematização.

Assim, visto que os conteúdos são enquadrados inicialmente em categorias, depois em gêneros e, em seguida, em formatos, Aronchi (2004) apresenta um esquema de classificação:

Tabela 2 – Categorias e Gêneros da Televisão Brasileira

Categoria Gênero

Entretenimento

Auditório, Colunismo Social, Culinário, Desenho animado, Docudrama, Esportivo [grifo nosso], Filme, Game show (competição), Humorístico, Infantil, Interativo, Musical, Novela, Quiz

show (perguntas e respostas), Reality show (TV-realidade), Revista,

Série, Série brasileira, Sitcom (comédia de situações), Talk show, Teledramaturgia (ficção), Variedades e Western (faroeste)

Informação Debate, Documentário, Entrevista, Esportivo [grifo nosso] e Telejornal

Educação Educativo, Esportivo [grifo nosso] e Instrutivo

Publicidade Chamada, Filme comercial, Político, Sorteio e Telecompra

Especiais Especial, Eventos e Religiosos Fonte: Aronchi (2004, p. 92)

Para cada gênero, portanto, de acordo com Aronchi, há vários formatos possíveis. No caso do gênero esportivo, que o autor situa como possível de ser enquadrado nas três categorias – entretenimento, informação e educação –, entre as possibilidades de formatos estão o documentário, o debate e o programa de notícias. Nesse último, a estrutura é similar aos telejornais: há apresentadores no estúdio e repórteres na rua, e a elaboração das matérias segue o padrão de estética do telejornalismo de cada emissora. Há, contudo, uma diferença importante: por se tratar de uma veiculação especializada em esportes, permite-se que, mesmo na categoria informação, o programa utilize uma linguagem mais próxima do entretenimento.

Marques de Melo (2010) também sistematizou os gêneros e formatos, mas com o foco voltado para os jornais impressos. Em um de seus primeiros estudos acerca do tema, em 1966, o autor identificou três grandes gêneros jornalísticos na imprensa brasileira: informativo, interpretativo e opinativo. Uma nova pesquisa empreendida pelo autor nos anos 90, porém,

além de afirmar a tese de que o jornalismo brasileiro permanecia polarizado entre a informação e a opinião, evidenciou uma transformação da atividade com o acréscimo de duas categorias à primeira sistematização: os gêneros diversional (de entretenimento) e utilitário.

Na tentativa de apreender em que medida a televisão informa e também entretém os telespectadores, é fundamental citar a maneira como Rezende (2010) organiza o que chama de “subcategorias da categoria telejornalismo”. Em uma perspectiva baseada na conceituação de Aronchi (2004), essa nomenclatura seria diferente: o autor se referiria à classificação de Rezende como os “subgêneros do gênero telejornal, que pertence à categoria informação”.

A categoria telejornalismo manifesta-se na programação televisiva nas seguintes subcategorias: entrevista, reportagem, programa de debates, documentário e telejornal. Além dessas, prevalece em outras subcategorias episódicas, caso do plantão, das inserções jornalísticas nos programas de variedades, em emissões de jornalismo especializado (diárias e, sobretudo, semanais) e nos espetáculos midiáticos globais. (REZENDE, 2010, p. 292).

Para ele, portanto, um programa de notícias esportivas poderia ser enquadrado como uma emissão de jornalismo especializado – inserido no contexto do gênero telejornalismo. Tabela 4 – Subgêneros e Formatos no Telejornalismo

Categoria Gênero Subgênero Formato

Informação Telejornalismo

Emissão de jornalismo especializado

Programa de notícias esportivas

Telejornal Jornalismo informativo,

opinativo, interpretativo, utilitário e diversional Reportagem Programa de Debate Documentário Plantão Espetáculos Midiáticos Entrevista Fonte: Rezende (2010)

De modo geral, as classificações utilizadas para “rotular” os produtos televisivos são distantes da realidade e não refletem, efetivamente, o conteúdo dos programas. “Quando um

programa afirma ser informativo, por exemplo, não está dizendo nada sobre seu conteúdo: que produção cultural não traz informações?”, questiona Cannito (2010, p. 55). Mesmo assim, essas etiquetas são importantes no estabelecimento de um contrato com os telespectadores.

Em Compreender a Televisão (2007), Jost relaciona os gêneros com três mundos: o real, o fictivo e o lúdico. Para o autor, a primeira reação do telespectador diante das imagens veiculadas pela televisão é questionar se elas se referem à realidade ou, então, se constituem apenas um discurso sobre a mesma – é o que o pesquisador francês chama de mundo real. “(...) o primeiro reflexo do telespectador é determinar se as imagens falam do mundo ou não, qualquer que seja a ideia que se faça desse mundo”, ressalta Jost (2007, p. 62), reforçando o argumento já apresentado neste capítulo de que as imagens são tributárias de um contexto.

O segundo dos mundos identificado pelo autor se contrapõe à realidade; é a ficção. Jost destaca que, quando se está diante de um programa do gênero ficcional, como novelas ou séries, se aceita acontecimentos que gerariam incredulidade no mundo real. “(...) o mesmo telespectador que se recusa a crer em uma imagem (...) que mostra uma criança deslocando um copo somente pelo poder do pensamento pode ter imenso prazer em seguir um (...) filme fundado na telequinesia23” (JOST, 2007, p. 63). O terceiro mundo observado pelo francês é o lúdico, que age como um intermediário entre a realidade e a ficção. Valendo-se de aspectos do mundo real e também do fictivo, o lúdico tem por objetivo entreter, divertir, provocar o riso.

Na tentativa de identificar o pacto que é estabelecido entre produtores e telespectadores, também é válido empreender uma análise dos modos de endereçamento por meio dos quais os programas de televisão pretendem firmar um vínculo com a audiência. São esses modos de endereçamento que vão revelar mais claramente, também, as promessas que determinada atração faz aos telespectadores que pretende conquistar com os conteúdos que leva ao ar.

Benzer Belgeler