4.3. Regresyon Model
4.3.4. İkinci dereceden etkileşimli regresyon model
Assim como detalhes biográficos acerca de Kafka não são fundamentais para este estudo, os de Freud tampouco os são.392 Todavia, assim como alguns aspectos de Praga ajudam a entender a obra de Kafka, certos elementos sobre Viena e sua relação com Freud ajudam a entender a psicanálise.
Carl Schorske lembra um chiste que Freud fez quando fora nomeado como professor adjunto, aos 45 anos, em uma carta a Fliess. Ele consistia em um suposto reconhecimento da teoria psicanalítica pelas autoridades austríacas, quando de fato a realidade política da época era muito diferente, caracterizada muito mais pela paralisia, já que o parlamento mal funcionava. Freud se ressente, na verdade, pelo fato de ter resolvido cultivar os poderosos, já que sem isso seu reconhecimento poderia tardar: “Aprendi que o velho mundo é governado pela autoridade, da mesma forma que o novo é cultivado pelo dólar. Curvei-me pela primeira vez à autoridade”.393 Em tom de
arrependimento, ele escreve a Fliess dizendo que teria tardado a buscar esses recursos. Não deve ter sido sem motivos que ele se resolveu a isso somente depois da publicação de A interpretação dos sonhos.
A nomeação de Freud para o cargo de professor demorou a ocorrer, necessitando que ele se curvasse às autoridades devido ao fato de ser um judeu. Freud sentiu em sua vida profissional a pressão do antissemitismo, que se acirrava em Viena principalmente nos anos de crise econômica do final do século XIX. Desde os anos de 1880 até sua nomeação em 1902, Freud teria se recolhido socialmente e se restringido a um círculo pequeno de amigos. Sua produção intelectual não foi afetada com isso, mas talvez essa situação peculiar em que Freud vivia, passando a odiar aspectos de Viena devido a
392 Para esclarecimentos biográficos sobre Freud, ver E. Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 1989. 393 Freud citado por C. E. Schorske, Viena fin-de-siècle: Política e Cultura, 1988, p.180. Trata-se da carta a Fliess de 11 de março de 1902, contida em J. M. Masson, A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904), 1986.
entraves políticos que se associavam ao antissemitismo, compusesse um contexto social que lhe forçava à reflexão, à clarividência, como diz Marthe Robert, “enquanto os cidadãos plenos de direito podiam se enganar facilmente”394. As reflexões sobre o
antissemitismo presente em sua obra dão provas disso, além de conceitos que são fundamentais para entender os mecanismos do preconceito. Mas há uma contradição em Freud acerca dessa clarividência, pois sua obra oscila entre descrever um indivíduo que já não existia em sua época – como se fosse um indivíduo da era liberal que se formava em um Estado de Direitos – e um indivíduo já marcado pelas mudanças sociais e declínio da experiência. Como entender que mesmo depois dos anos 1920 Freud ainda insiste em uma descrição anacrônica do indivíduo?
As contradições entre a fachada oficial e a realidade no interior do Império atingiam um nível absurdo em Praga. Já Viena, principalmente na época da infância de Freud, podia-se respirar em um clima cultural do liberalismo dos anos de 1860. No campo político, o pai de Freud se alegrou, em 1867, quando ministros liberais ascenderam ao poder, o que para os judeus representava um grande alívio. Essa época era lembrada com saudades por Freud em relação a um clima político mais favorável.395 O
fato de ter sido criado em um contexto de um liberalismo confiante em relação ao aprimoramento das instituições e conquista de liberdade fez com que os ideais liberais o tivessem marcado por toda a vida, o que o impediu de enxergar claramente o declínio do Estado de Direito e sua relação com a formação do indivíduo. Por outro lado, sua posição de judeu nessa sociedade não poderia lhe deixar tão esperançoso em relação aos rumos políticos da Europa e isso o fez certamente perguntar pelo papel do indivíduo nessa tendência social e política.
Segundo Schorske, A interpretação dos sonhos é um tratado científico misturado a uma narrativa pessoal. Freud teria lutado para um reconhecimento no campo científico, já que não pôde obter no campo político, como seria de desejo de seu pai. Os sonhos de Freud que ele mesmo analisou em sua obra inaugural da psicanálise teriam mostrado essa jornada rumo à vitória sobre o pai, uma vez que ele formulou uma teoria cujo princípio
394 M. Robert, Acerca de Kafka. Acerca de Freud, 1970, p.116.
central “é que toda política é redutível ao conflito originário entre pai e filho”396. O autor
diz isso com base em A interpretação dos sonhos em que Freud, ao analisar seu ‘sonho revolucionário’, afirma que a descrição das autoridades superiores remontava à rebeldia contra seu pai e que o pai é a autoridade primeira e de onde descendem as outras autoridades sociais. A tragédia de Édipo Rei viria em seguida para generalizar sua experiência pessoal.
O que vale ressaltar aqui é o fato de que tanto Kafka como Freud desenvolveram produções intelectuais importantes tendo como forte motivação a tensão na relação com o pai. Também é importante notar que o fato de Freud ser quase trinta anos mais velho que Kafka fez com que seu conceito de indivíduo fosse marcado pela imagem do homem da era liberal, mas não sem contradições. Isso tudo não diminui em nada o brilhantismo da teoria freudiana. Kafka, mais jovem e em um ambiente mais hostil à liberdade, expos as tendências do capitalismo tardio e do surgimento do indivíduo substrato do nazismo.
Em seguida buscar-se-á evidenciar melhor essas contradições da psicanálise com a ajuda das reflexões anteriores acerca de Kafka.