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MPT, em maio de 2012, segundo assinala o Sindicato Marreta que também acompanhou a operação, fazendo uso de trabalho degradante, submetendo trabalhadores oriundos da Bahia ao trabalho em condições análogas às de escravo, na construção de prédios residenciais luxuosos nos bairros de Buritis e Belvedere (Belo Horizonte) e em Nova Lima, mediante terceirização("gato"): "As empresas descumprem a legislação trabalhista pagando salários com valores abaixo da convenção coletiva vigente; os ‘gatos’ obrigam os trabalhadores a assinarem recibos com valores acima do que efetivamente recebem, são descontadas as passagens de vinda para Belo Horizonte e também as de volta, e pelas contas dos ‘gatos’, em conluio com as grandes empresas, os trabalhadores sempre estão devendo a firma. Os trabalhadores são impedidos de bater o cartão de ponto no caso das horas-extras que são anotadas pelos encarregados a parte e depois sofrem desfalque no pagamento. Os operários que em sua maioria são aliciados na Bahia (cidades de Araci/Serrinha/Coité/Euclides da Cunha) vivem em situação desumana e são submetidos a trabalho escravo nas obras do luxuoso empreendimento da Camargo Corrêa – ‘Acquaclube’ – Rua Manila, 255 – bairro Buritis (três torres de 20 andares com 384 unidades – vasta área verde, piscinas, quadras, churrasqueiras, fitness, saunas, salão de festas, etc.) e outras grandes e luxuosas obras do Belvedere e Nova Lima". (Vide FLAGRANTE..., [201-?]).

para o Brasil e para o mundo o processo globalizado de fabricação das roupas de grife expostas nas vitrines das lojas de shoppings. O luxo que sai do trabalho humano tratado como lixo ficou evidenciado pelo método aplicado pela Zara em sua cadeia produtiva totalmente terceirizada, que tem início com o tráfico de humildes trabalhadores de países cujas economias são extremamente frágeis, até atingir o seu apogeu de degradação humana na submissão de todos eles ao horror das condições análogas às de escravo.

Relato jornalístico de 2011 diz muito a respeito do perfil social dos donos da marca Zara, do grupo espanhol Inditex, quanto ao modo de acumular riquezas pela exploração predatória da força de trabalho, recorrendo os hábeis capitalistas à terceirização como tentativa inútil de manter as mãos limpas depois de deixar o sangue laboral escorrer nas principais etapas da confecção de suas caras roupas de grife manchada pelo trabalho escravo contemporâneo, senão vejamos trechos longos da matéria realizada pelo Repórter Brasil:

Em recente operação que fiscalizou oficinas subcontratadas de fabricante de roupas da Zara, 15 pessoas, incluindo uma adolescente de 14 anos, foram libertadas de trabalho escravo contemporâneo em plena capital paulista. Nem uma, nem duas. Por três vezes, equipes de fiscalização trabalhista flagraram trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão produzindo peças de roupa da badalada marca internacional Zara, do grupo espanhol Inditex.

Na mais recente operação que vasculhou subcontratadas de uma das principais 'fornecedoras' da rede, 15 pessoas, incluindo uma adolescente de apenas 14 anos foram libertadas de escravidão contemporânea de duas oficinas – uma localizada no Centro da capital paulista e outra na Zona Norte.

A investigação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP) – que culminou na inspeção realizada no final de junho – se iniciou a partir de uma outra fiscalização realizada em Americana (SP), no interior, ainda em maio. Na ocasião, 52 trabalhadores foram encontrados em condições degradantes; parte do grupo costurava calças da Zara.

'Por se tratar de uma grande marca, que está no mundo todo, a ação se torna exemplar e educativa para todo o setor',coloca Giuliana Cassiano Orlandi, auditora fiscal que participou de todas as etapas da fiscalização [...].

A ação, complementa Giuliana, serve também para mostrar a proximidade da escravidão com pessoas comuns, por meio dos hábitos de consumo. 'Mesmo um produto de qualidade, comprado no shopping center, pode ter sido feito por trabalhadores vítimas de trabalho escravo'.

O quadro encontrado pelos agentes do poder público, e acompanhado pela Repórter Brasil, incluía contratações completamente ilegais, trabalho infantil, condições degradantes, jornadas exaustivas de até 16h diárias e cerceamento de liberdade (seja pela cobrança e desconto irregular de dívidas dos salários, o truck system, seja pela proibição de deixar o local de trabalho sem prévia autorização) […]

Quem vê as blusas de tecidos finos e as calças da estação nas vitrines das lojas da Zara não imagina que algumas delas foram feitas em ambientes apertados, sem ventilação, sujos, com crianças circulando entre as máquinas de costura e a fiação elétrica toda exposta. Principalmente porque as peças custam caro. Por fora, as oficinas parecem residências, mas todas têm em comum as poucas janelas, quase sempre fechadas. Tecidos escuros pendurados impedem a visão do que acontece do lado de dentro das células de produção têxtil ocultas e improvisadas.

As vítimas libertadas pela fiscalização foram aliciadas na Bolívia e no Peru, país de origem de apenas uma das costureiras encontradas. Em busca de melhores condições de vida, deixam os seus países em busca do 'sonho brasileiro'. Quando chegam aqui, geralmente têm que trabalhar inicialmente por meses, em longas jornadas, apena para quitar os valores referentes ao custo de transporte para o Brasil. Durante a operação, auditores fiscais apreenderam dois cadernos com anotações de dívidas referentes à 'passagem' e a 'documentos', além de 'vales' que faziam com que o empregado aumentasse ainda mais a sua dívida. Os cadernos mostram alguns dos salários recebidos pelos empregados: de R$ 274 a R$ 460, bem menos que o salário mínimo vigente no país, que é de R$ 545.

As oficinas de costura inspecionadas não respeitavam nenhuma norma referente à Saúde e Segurança do Trabalho. Além da sujeira, os trabalhadores conviviam com o perigo iminente de incêndio, que poderia tomar grandes proporções devido à grande quantidade de tecidos espalhados pelo chão e à ausência de janelas, além da falta de extintores. Após um dia extenuante de trabalho, os costureiros e seus filhos eram obrigados a tomar banho frio. Os chuveiros permaneciam desligados para evitar a sobrecarga nas instalações elétricas, feitas sem nenhum cuidado.

As cadeiras nas quais os trabalhadores passavam sentados por mais de 12 horas diárias eram completamente improvisadas. Alguns colocavam espumas para torná-las mais confortáveis. As máquinas de costura não possuíam aterramento e tinham a correia toda exposta […]. O descuido com o equipamento fundamental de qualquer confecção ameaçava especialmente as crianças, que circulavam pelo ambiente poderiam ser gravemente feridas (dedos das mãos decepados ou até escalpelamento).

Para Giuliana, a superexploração dos empregados, que têm seus direitos laborais e previdenciários negados,é motivada essencialmente pelo aumento das margens de lucro. 'Com isso, há uma redução do preço dos produtos, caracterizando o dumping social, uma vantagem econômica indevida no contexto da competição no mercado, uma concorrência desleal'.

[…] No momento da fiscalização, os empregados finalizavam blusas da Coleção Primavera-Verão da Zara, na cor azul e laranja […]. Para cada peça feita, o dono da oficina recebia R$ 7. Os costureiros declararam que recebiam, em média, R$ 2 por peça costurada. No dia seguinte à ação, 27 de junho, a reportagem foi até uma loja da Zara na Zona Oeste de São Paulo (SP), e encontrou uma blusa semelhante, fabricada originalmente na Espanha, sendo vendida por R$ 139.

[…] Da outra oficina localizada em movimentada avenida do Centro, foram resgatadas nove pessoas que produziam uma blusa feminina e vestidos para a mesma coleção Primavera-Verão da Zara.

A intermediária AHA (que também utilizava a razão social SIG Indústria e Comérico de Roupas Ltda.) pagava cerca de R$ 7 por cada peça para a dona da oficina, que repassava R$ 2 aos trabalhadores. Peça semelhante a que estava sendo confeccionada foi encontrada em loja da marca com o preço de venda de R$ 139.

Uma jovem de 20 anos, vinda do Peru, disse à reportagem que chegou a costurar 50 vestidos em um único dia […].

[…] A oficina e um dos quartos, onde dormiam dois trabalhadores e duas crianças, foram interditados. A fiação elétrica estava totalmente exposta e havia possibilidade de curto-circuito. Os trabalhadores declararam trabalhar das 7h30 às 20h, com uma hora de almoço, de segunda à sexta-feira. Aos sábados, o trabalho seguia até às 13h. Um trabalhador relatou que a jornada chegava a se estender até às 22h.

[…] A Zara foi avisada do flagrante no momento da ação pelos auditores- fiscais e convidada a ir até a oficina de costura, mas não compareceu. No dia seguinte, compareceram à sede da SRTE/SP dois diretores, que não quiseram participar da reunião de exposição dos fatos. Até o advogado da empresa foi embora sem ver as fotos da situação encontrada. Somente duas advogadas da AHA (que no início da reunião se apresentaram como enviadas dos donos das oficinas e até dos trabalhadores) participaram da reunião com os auditores.

[...] A Inditex – que é dona da Zara e de outras marcas de roupa com milhares de lojas espalhadas mundo afora – classificou o caso envolvendo a AHA e as oficinas subcontratadas como 'terceirização não autorizada' que 'violou seriamente' o Código de Conduta para Fabricantes […]'.

A Inditex prevê seguir crescendo no Brasil com a abertura de novas lojas a curto, médio e longo prazo.

A jornalista da Repórter Brasil acompanhou a fiscalização da SRTE/SP como parte dos compromissos assumidos no Pacto Contra a Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções.187

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Após a leitura dos trechos da matéria do Repórter Brasil, que retrata o modelo adotado pelas grifes internacionais do vestuário em suas relações de trabalho no processo produtivo, tem-se a sensação de retroceder ao período da II Revolução Industrial, ao menos quanto a algumas das condições dispensadas aos trabalhadores no curso do desempenho de suas atividades no setor têxtil.

Trabalho infantil e feminino degradantes, jornadas diárias de 16 horas, ambiente laboral propício a adoecimentos laborais e a todo tipo de tragédia, alimentação e habitação precárias, salários irrisórios, privação da liberdade de locomoção, miséria social dos empregados, tráfico de trabalhadores, opressão e repressão patronais levam à Zara a ser uma empresa do grupo econômico Inditex moldada na mentalidade capitalista do século XIX.

Qualquer confronto entre os relatos feitos por Marx e Hüberman sobre as condições de trabalho oferecidas aos empregados na época da consolidação do capitalismo industrial – relatos esses realizados, inclusive, com base no conteúdo de publicações dos periódicos da burguesia inglesa e nas atas dos julgamentos de conflitos trabalhistas pelos tribunais – e a matéria do Repórter Brasil sobre o caso Zara revelará quão parecidas são as práticas dos velhos e novos capitalistas.

Para a obtenção do lucro, vale tudo. Quanto mais elevado o nível da exploração do trabalho vivo, maior será a vantagem econômica alcançada pelo selvagem explorador frente aos seus concorrentes neste mercado mundial tendente à centralização e à concentração de capitais, formando-se, por conseguinte, monopólios e oligopólios econômicos arrebatadores.

Porém não se retrocedeu ao século XIX. Todas as condições materiais são absolutamente distintas nos dois períodos históricos, não havendo instrumento capaz de apagá-las, ressuscitá-las ou simplesmente fundi-las. Se a história não é feita de saltos progressistas nem, como acreditavam alguns idealistas, da linearidade crescente, humanística e social, ela também não se mumifica, muito menos se repete, a não ser na qualidade de farsa ou tragédia, como ensinava Marx. A história da humanidade é um processo de luta entre opostos fundado nas relações materiais de produção.

Há algo, sim, que permanece intacto desde o florescimento do capitalismo como regime econômico: a produção animada pelo máximo de lucro advindo da mais-valia, do mais valor subtraído da classe trabalhadora, tal como profundamente escancarado na matéria

Brasil, [online], 16 ago. 2011. Disponível em: <http://reporterbrasil.org.br/2011/08/roupas-da-zara-sao-

jornalística antes transcrita, que dá muito bem a medida do atual momento histórico para o sistema, na insaciável sede da Zara por ganhos arrancados pelos meios mais perversos possíveis (trabalho escravo contemporâneo). O preço irrisório da mão de obra dos trabalhadores bolivianos e peruanos (dois reais por peça) traficados para o Brasil pela Zara, com o auxílio de suas parceiras empresas terceirizantes, contrasta de forma desmesurada – apenas para confirmar a validade e a plena vigência da teoria da mais-valia – com os altos valores das mercadorias por eles produzidas a serem assim vendidas nas luxuosas lojas dos shoppings centers do mundo afora (indo de cento e quarenta a duzentos reais pela peça cujo custo da mão de obra foi de dois reais).

Há, na verdade, a retomada de algumas das formas supostamente esclerosadas da exploração da mão de obra humana, as quais jamais despareceram completamente do mundo das relações de trabalho, seja em atitudes isoladas da burguesia ou generalizadas para determinados segmentos. O ambiente econômico-político move as ações do sistema capitalista de produção. Havendo crise, de superacumulação ou sobreacumulação, caminha-se naturalmente pela via da intensificação da exploração do trabalho, cujo êxito ou recuo dos propósitos da burguesia está diretamente relacionado ao grau do contrapoder a ser exercido pela classe trabalhadora nessa permanente disputa histórica entre explorados e exploradores.

Portanto, o método da Zara de terceirizar radicalmente a sua cadeia produtiva não é isolado nem atípico, pois permite, por um lado, superexplorar a força de trabalho e, por outro, camuflar por algum tempo a face cruel da grife publicitariamente apresentada aos incautos consumidores como expressão do “chique”, do luxo, do “descolamento”, da modernidade avançada, da jovialidade e beleza eternas.

A “Zaranização”, como mecanismo de precarização absoluta do trabalho, está praticamente em todo o setor têxtil voltado para a confecção do vestuário de grifes famosas mundialmente, segundo se verifica da extensa relação de empresas denunciadas pela prática, em sua cadeia produtiva, de atos configuradores do trabalho escravo contemporâneo, todas elas se valendo da terceirização188.

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Benzer Belgeler