4. BULGULAR
4.2. İkinci Aşamada Yapılan Deney Sonuçları
O método desta pesquisa se divide em dois aspectos básicos:
(1) estabelecer a estratégia de identificação do quadro de
referência, que permite apreender a forma de organização dos processos mnêmicos e seus campos de significação, sob a influência das determinações do ambiente carcerário;
(2) caracterizar os modos de produção dos dados que sustentam
a compreensão específica de nosso objeto de pesquisa, que será apreendido conforme o quadro de referência construído segundo o item anterior.
Quanto ao primeiro aspecto seguiremos o seguinte percurso:
a) Tomaremos como hipótese inicial a idéia de que a experiência vivida pelo encarcerado no interior do ambiente carcerário, identifica-se com a experiência da servidão humana, descrita e explicada por Espinosa no livro IV da Ética.
b) Mostraremos que o conceito de memória estudado por Espinosa, compreende a idéia de que ela pode ser configurada pelas determinações do meio ambiente externo, no momento mesmo em que os processos memorativos estão em atividade e envolvidos por ele.
c) Buscaremos verificar se no interior do ambiente carcerário, os processos memorativos organizam-se em quadros e encadeamentos de lembranças, caracterizadas pelas propriedades que identificam-se com a experiência da servidão humana, já que, a memória espinosana é considerada como uma memória aberta à influência do ambiente externo (item-b), e este último é tomado, por hipótese, como um ambiente caracterizado pela predominância das propriedades pertencentes ao campo da servidão humana (item-a).
Para o adequado cumprimento dessas tarefas realizaremos as seguintes etapas de trabalho:
1) Estudaremos o conceito de memória e servidão humana elaborados por Espinosa;
2) Trabalharemos esses conceitos tendo em vista a busca da afirmação certa de nossa hipótese inicial, e do item b;
3) Para compreendermos algumas das propriedades fundamentais do ambiente carcerário e para podermos verificar a sua identidade, associação ou justaposição com as propriedades inerentes à experiência da servidão humana, e para estabelecermos a estratégia de interpretação dos dados, fundamentalmente assentados no universo das paixões humanas, trabalharemos com o método interpretativo das escrituras, desenvolvido por Espinosa no capítulo 7 do Tratado teológico- político, e adotaremos os cuidados que se deve tomar no uso da linguagem, para isso reportando-nos ao Tratado Teológico Político parágrafos 81 a 90, livros II e IV da Ética e capítulo 16 da parte II do Breve Tratado, onde Espinosa descreve e explica quais são os cuidados que se deve ter ao interpretar as falas e/ou as palavras escritas, dado o fato de pertencerem ao campo da imaginação.
Desta forma esperamos manter a coerência interna entre a nossa escolha teórica e a nossa opção metodológica, além de que, o método interpretativo desenvolvido por Espinosa e os cuidados que ele ressalta com o tratamento de objetos pertencentes ao campo dos signos, volta-se
exatamente para a interpretação do tipo de dados que estaremos analisando, a memória e a imaginação.
Os itens 1 e 2 descritos acima e os cuidados com a linguagem, serão trabalhados no próprio corpo principal de nossa pesquisa enquanto estivermos apresentando o sistema espinosano, o item 3 será por nós explicado logo a seguir.
Método espinosano de interpretação de documentos históricos:
Marilena Chaui sintetiza o método de interpretação de
documentos históricos – no caso, a Bíblia -, desenvolvido por Espinosa no Tratado teológico-político, da seguinte maneira:
“Espinosa enuncia as condições reguladoras do trabalho
interpretativo: conhecimento perfeito da natureza e propriedades da língua em que o texto foi escrito; coleta e reunião de todos os enunciados referentes a um mesmo assunto, o que possibilita o esclarecimento de um escrito obscuro pela comparação com outros que versem sobre a mesma matéria, sem indagar sobre a verdade das coisas e dos fatos relatados mas apenas sobre o verdadeiro sentido do texto; conhecimento de todas as circunstâncias e particularidades da vida, dos costumes e do temperamento dos autores, das personagens e dos destinatários dos textos, épocas e objetivos da redação e da leitura, fortuna dos escritos (variantes, as mãos em que caíram, alterações que sofreram no curso do tempo, acréscimos, cortes e censuras) e a data da composição da forma atualmente conhecida. Gramática, filologia, etnologia e paleografia devem permitir que o texto seja conhecido por e nele mesmo, de tal maneira que as fontes externas para seu conhecimento sejam compreendidas como internas a ele: inicialmente conhecida enquanto exterior ao texto, aos poucos a história vai sendo apreendida como imanente a ele e melhor compreendida por seu intermédio; se ela oferece as razões do documento, este torna inteligível a
história que o suscitou, ambos instituindo um campo material e cultural internamente articulado” (CHAUI, 1999, p.19).
Nossa opção metodológica sofreu muitas limitações e recortes, para podermos conciliar as exigências do método interpretativo de Espinosa, com a pouca extensão de nosso conhecimento sobre tantas disciplinas, o que significa a impossibilidade de podermos utilizá-lo em toda a sua plenitude.
Vejamos as nossas limitações quanto ao primeiro e ao segundo ponto do método, e que se referem a: 1) a necessidade de possuirmos um
conhecimento perfeito da natureza e propriedades da língua em que o texto foi escrito; 2) a necessidade de coletarmos e reunirmos todos os enunciados referentes a um mesmo assunto.
Temos as seguintes limitações:
1) Quanto às nossas entrevistas, não temos o problema de imposição de grandes limites ao texto transcrito, pois, em primeiro lugar, reunimos todas as falas de nossos entrevistados num único corpo de transcrições, e esclarecemos sobre as circunstâncias que as envolviam no momento mesmo em que eram proferidas, o que já satisfaz parcialmente o critério de se conhecer as circunstâncias que envolveram a vida dos depoentes, pelo menos, na atualidade em que se expuseram a nós. No entanto, nem de longe podemos dizer que possuímos um domínio perfeito da língua portuguesa, o que já impõe limitações à nossa interpretação sobre as entrevistas, e até mesmo sobre o ato de transcrevê-las, o que nos leva a pensar que, o que seria adequado para o perfeito acabamento desse trabalho via o método espinosano, seria a ação conjunta de um grupo interdisciplinar de pesquisadores;
2) Quando Espinosa apresentou o seu método interpretativo, ele pretendia realizar uma interpretação crítica da Bíblia, e para isso escreveu uma gramática da língua hebraica, elaborou uma teoria da definição, e utilizou o método geométrico para garantir as relações entre as idéias e entre estas e as palavras (CHAUI,1981, p.11). Quanto a esse último ponto, o método geométrico, vale lembrar que ele se justifica por Espinosa
identificar o método de interpretar a natureza com o método de interpretar as escrituras, pois, como ele mesmo diz:
“Muito resumidamente, o método de interpretar a Escritura
não difere em nada do método de interpretar a natureza; concorda até inteiramente com ele. Na realidade, assim como o método para interpretar a natureza consiste essencialmente em descrever a história da mesma natureza e concluir daí, com base em dados certos, as definições das coisas naturais, também para interpretar a Escritura é necessário elaborar a sua história autêntica e, depois, com base em dados e princípios certos, deduzir daí como legítima consequência o pensamento dos seus autores. Deste modo, quer dizer, se na interpretação da Escritura e na discussão do seu conteúdo não se admitirem outros princípios nem outros dados além dos que se podem extrair dela mesma e da sua história, estaremos a proceder sem perigo de errar e poderemos discutir com tanta segurança as coisas que ultrapassam a nossa compreensão como aquelas que conhecemos pela luz natural” (ESPINOSA, Tratado Teológico-Político.
Cap.7, Tradução de Pires Aurélio, p.207)
O método de interpretar a natureza ao qual Espinosa se refere é o método geométrico dos matemáticos com os seus axiomas, definições, etc., no qual, à partir de princípios certos e definições adequadas das coisas, o processo dedutivo de nosso pensamento pode conhecer as propriedades nelas contidas. Nesse mesmo sentido Espinosa pede-nos que interpretemos também os documentos históricos, o que para ele significa, em primeiro lugar, reportarmo-nos à prima significatio do objeto de estudo, isto é, buscarmos através de um estudo etimológico e filológico, os primeiros sentidos guardados no interior das palavras e escritos que representam o objeto, e em seguida, detalhar todas as transformações historicamente determinadas que ele sofreu. Ou seja, em termos atuais, Espinosa articula o método genético das ciências naturais com o método genealógica das ciências sociais.
A prima significatio equivale aos primeiros princípios genéticos do livro matemático, a gramática da língua equivale às leis internas que regulam o trabalho intelectual do matemático e equivalem também às leis naturais que explicam os fenômenos naturais, e, as variantes ou transformações ocorridas com as primeiras significações, equivalem às propriedades que se deduzem de certos princípios no interior do livro matemático.
O que é importante ressaltar é que, enquanto princípio genético de elucidação de seus variantes posteriores, a prima significatio não se desliga desses últimos, mas é preservada como ratio interna deles e eles são imanentes a ela, ela é a ratio de um sistema de significações particular. Portanto, conhecer a prima significatio do objeto equivale a conhecer o seu princípio formal interno e original de significação, produzido na experiência original dos homens que a fundaram e consolidaram no passado, é a ratio da memória social, histórica e cultural por sobre o objeto, e que assegura o núcleo do sentido atual das palavras que representam objetos semelhantes, e que de modo semelhante afetam os homens contemporâneos.
Ora, como na filosofia espinosana estão identificados o princípio formal e o princípio dinâmico, resta-nos indagar qual seja esse princípio dinâmico guardado no interior das palavras. São eles, os costumes, os hábitos inveterados, enfim a história e a cultura que conservam e reproduzem o sentido primeiro das palavras, através da reprodução dos mesmos hábitos e costumes que afetaram a memória e a imaginação de seus primeiros autores, e que foram transmitidas geração após geração através de suas instituições e da composição entre instituições, e que por fim permitiram expressar novas formas de representação do objeto sem grandes deformações da experiência sentida pelos homens em contato com objetos semelhantes.
Em nosso caso, escolhemos as palavras cárcere, prisão, cadeia e presídio como objetos de nosso estudo a representar as principais significações que identificam o ambiente carcerário, pois, consideramos que a experiência comum identifica essas palavras como representantes da
experiência de encarceramento. No entanto, a confusão ou composição entre elas não nos parece casual, mas, constitui-se mesmo numa expressão de reunião e composição delas ao longo da história, enquanto as ações e as percepções espontâneas originais cristalizavam-se em instituições concretas e estáveis.
Como o leitor poderá notar em nosso estudo e inventário etimológico, os sentidos originais dessas palavras ainda estão muito claramente guardados no interior das falas dos prisioneiros, e estão guardadas também na própria descrição do ambiente carcerário, parecem pois representantes de algumas das principais propriedades atuais de sua existência.
Porém, não pudemos pesquisar todas as variantes dessas palavras ao longo da história, até porque no período compreendido pela baixa idade média já não conseguimos fontes bibliográficas suficientes para expor as suas transformações, o que já tornaria impraticável o projeto ideal.
Por tudo isso, ao invés de empreendermos a tarefa de esclarecermos sobre o resumo das circunstâncias históricas e sócio- culturais que as envolviam a cada momento, limitamo-nos ao puro inventário etimológica delas, e limitando-nos ainda a não pesquisarmos a particularidade da vida de seus autores e os seus destinatários, outra tarefa que seria grandiosa demais para nós, e até porque perguntamo-nos sobre como poderíamos, por exemplo, conhecer características pessoais da vida de autores como Homero e Hesíodo? Que são mesmo os principais autores a expressarem a prima significatio dessas palavras.
Cremos aqui termos também esclarecido sobre as nossas limitações quanto ao conhecimento das circunstâncias que envolveram a produção dessas palavras e seus variantes. Além disso, o tempo foi assaz devorador de nosso projeto, consumimos cerca de cinco meses apenas para realizarmos o levantamento que está exposto nesse trabalho, e as dificuldades envolvidas com textos em grego e latim foram também muito grandes. O que nos lembra uma última limitação que é a nossa ignorância da gramática em que os textos foram escritos, o grego e o latim, e, para
suprirmos essa carência recorremos sempre a vários exemplares de dicionários, fazendo a justaposição das diversas interpretações que deram ao sentido das mesmas palavras, e empreendemos a tarefa de recorrer a todas as fontes originais que pudemos encontrar para verificarmos a sua concordância real, buscando o sentido da palavra no contexto do texto em que se encontravam.
Realizada toda essa tarefa, verificamos um ponto de confluência entre a raiz da palavra cárcere (carcer) e a raiz da palavra refrear (coercendis), que é a palavra arcere (conter, reter, apertar, apartar, afastar, repelir, impedir, mandar vir, mandar tirar, e também, governante, chefe, pastor, princípio orignante e sustentador de um poder, etc.).
Coercendis é uma das palavras utilizadas por Espinosa na definição da
servidão humana, designando o ato de refrear os afetos sob a influência de causas exteriores, ela tornou-se o nosso ponto de apoio para a identificação entre as propriedades do ambiente carcerário, e a experiência nele vivida como servidão humana, como sendo expressões particulares e imanentes de uma raiz comum - arcere.
Passemos agora ao segundo aspecto do método de nossa pesquisa, a caracterização dos modos de produção dos dados de investigação.
Fundamentalmente a matéria básica de análise desse estudo são depoimentos de pessoas encarceradas, pois, consideramos que para os objetivos desta pesquisa, os depoimentos constituem a mais compatível aproximação entre a idéia do objeto de nosso estudo, o processo memorativo no interior do ambiente carcerário, e a esfera circunscrita de experiências vividas por nossos entrevistados, a vida em cárcere com outros homens com os quais trocam experiências de vida.
Consideramos que os depoimentos permitem um livre curso de pensamentos e de lembranças, e por isso, são apropriados à expressão daquilo que experimentaram ao longo da vida, sem a interferência de um padrão exterior de entrevista que os emoldurem.
Para acolhermos esses depoimentos fizemos uso de um gravador para registrar a fala de nossos entrevistados, e para registrarmos
as entrevistas de apoio que pudessem esclarecer questões importantes sobre a vida em cárcere.
No primeiro rol de entrevistas, optamos por entrevistas onde iniciávamos com um pedido de depoimento sobre a história de vida do entrevistado, e depois não mais interferíamos em sua narrativa a não ser nos casos em que: (01) precisássemos entender melhor o contexto ou alguma condição particular em que a experiência narrada estava encerrada;
(02) nos casos em que parecia ininteligível o que era dito, seja pelo
constante ruído que nos envolvia por causa das reformas do prédio que nos abrigava, e que foi destruído por uma rebelião; seja porque o entrevistado estivesse falando num tom muito baixo, o que dificultaria a gravação; seja porque às vezes suas palavras se embaralhavam e pedíamos a ele que repetisse o que havia sido dito, para não tornar ininteligível a futura transcrição da fita, o que de qualquer modo não pudemos impedir que ocorresse.
No caso das entrevistas de apoio, com os encarcerados, estas tinham um padrão mais estruturado, onde buscávamos informações mais precisas sobre as dificuldades que o ambiente carcerário impunha ao livre depoimento de histórias de vida, sobre o que entendiam ser a identidade prisioneira e sobre a vida política do país percebida por eles. Essa última questão colocada tinha a intenção de perceber o significado da política para eles, pois, esperávamos ver aí revelado o que para eles significava a sua relação com a alteridade na vida em cidade, e o significa do poder público, o mesmo que hoje os constrange no cárcere.
Também realizamos entrevistas com três carcereiros para conhecermos um pouco de sua profissão, de sua vida pessoal, e como percebiam os encarcerados, para que pudéssemos ter uma idéia da relação entre eles, pois, dentre todos os agentes prisionais, os carcereiros são os que convivem mais próximos dos encarcerados, e portanto, tem uma percepção mais experiente da vida que levam, além disso, tínhamos o objetivo de conhecer o que eles entendiam ser a condição e a figura do encarcerado, para que pudéssemos compreender as similaridades ou
disparidades de seus depoimentos com os dos próprios encarcerados, e ver aí, possíveis zonas de encontro ou de conflito entre essas interpretações.
Por fim, entrevistamos a pessoa responsável pela coordenação dos cursos de formação de carcereiros, para que pudéssemos entender com que preparo e com que compreensão os carcereiros vêem a exercer o seu trabalho, e também para conhecermos um pouco do paradigma subjacente a esse preparo, pois, consideramos que tal paradigma pode justificar intelectualmente certas ações praticadas pelos carcereiros, e gostaríamos então de conhecer que sistemas de idéias subjazem a elas desde a sua origem oficial.
Essas entrevistas com os encarcerados, carcereiros e com o responsável pela coordenação dos cursos de formação de carcereiros, foram todas gravadas e em seguida transcritas para o papel, sendo que, a linguagem de comunicação foi mantida tal como expressa pelos entrevistados.
Posteriormente, as entrevistas dos encarcerados foram transpostas para um quase formato de monólogo, procurando expressar um
continuum narrativo. Optamos por esse formato de apresentação por um
desejo de estilo, e por considerarmos que o importante seria o conteúdo ali expresso. Consideramos também que as nossas intervenções não foram causadoras de desvios expressivos de sua narrativa, e por isso, o continuum narrado é tal como foi expresso, sem qualquer mudança de organização.
Realizamos também entrevistas com o delegado de polícia titular e com o diretor de disciplina da instituição, para que conhecêssemos melhor a sua estrutura, e a visão que tinham da mesma e dos encarcerados, e também para que firmássemos uma ponte de confiança com eles, explicando a natureza de nosso trabalho. E, na verdade, o nosso principal elo de ligação com os prisioneiros foi um outro sentenciado que prestava assistência jurídica aos demais encarcerados, e que os chamava sempre que vínhamos entrevistá-los.
Todas essas entrevistas serão ao longo da dissertação explicitadas quanto ao seu conteúdo, e quanto à situação em que se deram, por ora, esperamos apenas relatar parte do modo como foram realizadas.
Vejamos agora quem foram os nossos depoentes principais, descrevendo também o histórico e a estrutura da instituição em que se encontram.