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“Entre o desejo de ser e o receio de parecer o tormento da hora cindida Na desordem do sangue a aventura de sermos nós restitui-nos ao ser que fazemos de conta que somos” (Mia Couto)

Foucault argumenta que, para as relações de poder, não temos instrumentos de trabalho. Entretanto, a proposição do filósofo sobre a ideia de criação de si é-nos bastante cara para pensar um caminho. A sugestão surge com base na discordância do autor em relação à noção de autenticidade de Jean Paul Sartre. Para Michel Foucault, mesmo que Sartre busque evitar uma reflexão do eu como algo que nos é dado, Jean Paul Sartre “retorna a idéia de que temos que ser nós mesmos – ser verdadeiramente o nosso eu verdadeiro” (FOUCAULT, 1995-b: 261).

A proposição de base, que Michel Foucault nos faz, é: devemos buscar relacionar a forma que as pessoas têm consigo mesmas a uma atividade criativa. Nietzsche já falava na criação de si como obra de arte, que é um conceito de potência originária, indicando-nos que devemos nos criar, frente à morte de Deus. “A partir da idéia de que o eu não nos é dado, creio que há apenas uma conseqüência prática: temos que nos criar a nós mesmos como uma obra de arte” (FOUCAULT, 1995-b: 262). Isso implica dizer que as produções construídas pelas pessoas a respeito delas mesmas devem ser compreendidas como arte. Essa é muito resumidamente a proposição da vida como obra de arte, de Foucault.

Nesses termos, entendemos que problematizar a relação de poder na pesquisa é pensar as relações que temos conosco mesmos e com os outros. Assim afirmamos, porque necessariamente nos veremos nessas relações de poder que envolve a pesquisa, analisaremos, estabeleceremos relações, conjecturaremos, criaremos, enfim, relações sobre nós mesmos. Compreendemos, então, essas criações como uma obra de arte.

É também uma obra de arte, tendo em vista que a pesquisa, no nosso caso, tomou as nossas vidas. Modificou-nos. Fez-nos viajar. Ou melhor, nós tomamos a

pesquisa como uma cor numa arte que tem movimento, como nossas próprias vidas. Criamos novas relações com pessoas. Pudemos não só acompanhar, mas vivenciar e criar um pouco da vida campesina com os moradores do Assentamento Recreio. Podemos sim dizer que a pesquisa ganhou vida – ao menos as nossas próprias vidas (passamos a ser sujeitos a pesquisa e, simultaneamente, sujeitos proponentes dela, pensando como gostaríamos de nos criar como pesquisadores). Foi uma composição: criamos a pesquisa; e ela, numa complexa relação entre pesquisador e co-pesquisadores em diversos contextos, sujeitou-nos, exigiu de nós, pediu-nos; e criamo-nos nós mesmos, nessa relação, como pesquisadores.

A atividade criativa da vida é sempre proposta por alguém. E, a esse alguém, Foucault (1995-a) denomina de sujeito. O filósofo indica que o sujeito é o tema geral de sua investigação que, até então, já contava com mais de vinte anos. Obviamente, não poderíamos, e nem é nosso objetivo, fazer uma genealogia do conceito de sujeito. Para fins desta discussão, é-nos suficiente os significados apontados, em Sujeito e Poder. “Há dois significados para a palavra sujeito, sujeito a alguém pelo controle e dependência, e preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito a” (FOUCAULT, 1995-a: 235).

Compreendemos que o sujeito para Michel Foucault sofre uma sujeição a alguém e/ou algo. O sujeito pode estar subjugado a alguém pelo controle e dependência. No nosso caso, podemos dizer que nos sujeitamos a um Programa de Mestrado, buscando cumprir os prazos de qualificação, defesa, publicação, especialmente para podermos fazer jus a bolsa de estudos e à política do Programa. O nosso jugo a uma pesquisa formal também nos fez com que buscássemos a elaboração de um projeto científico que envolveu a definição de um objeto, a eleição de conceitos prévios, a estipulação dos sujeitos que seriam envolvidos, a definição de uma perspectiva teórica basilar, entre muitos outros “recortes” metodológicos que envolvem uma pesquisa acadêmica.

A subjugação pode ocorrer também quando, preso a uma identidade bem definida e territorializada, o sujeito confere muitos esforços para se manter/enquadrar a um determinado “modelo”. Ora, certamente tínhamos em mente, guardadas as devidas adaptações para uma pesquisa-intervenção, construir um espaço em que as crianças pudessem ser sujeitos livres. E, para essa construção tínhamos que habitar um território democrático. Tentamos fortemente nos ligar a essa ideia.

Quais relações conseguimos construir com as crianças neste processo de pesquisa? É algo que não podemos responder apenas com nossas reflexões com elas. Então, caber-nos-á, ao menos, problematizar algumas dessas nossas relações construídas com os co-pesquisadores. Para Virgínia Kastrup (2001) o aprendiz artista não se conforma com seus atuais limites. Pelo contrário, ele busca em si uma invenção complexa e difícil, reinventando-se. É uma forma duradoura de lidar com a decifração de signos.

A aprendizagem, sob a perspectiva da arte, envolve, então uma atitude-limite, que faz escapar da polarização sujeito-objeto, interior-exterior, e habitar a zona de fronteira. A atitude-limite, no caso, não consiste em trabalhar dentro de limites fechados e que não poderiam ser ultrapassados, mas em trabalhar transpondo limites, aprendendo a aprender (KASTRUP, 2001: 24).

Nossa atitude-limite, aqui, será a busca da problematização da relação de poder entre adultos e crianças no decorrer desta pesquisa acadêmica. Aprendendo a aprender interpretar as obras de artes, criadas tanto por mim, quanto pelas crianças.