Em relação à dimensão psicossocial, é interessante iniciar falando dos ‘meninos’. Eles estavam escondidos em um local muito distante na periferia. A partir do homicídio, não podiam morar nem circular mais em seu bairro porque certamente seriam mortos pelos companheiros ou familiares da vítima. O medo da vingança levava-os a temerem andar em qualquer lugar público e serem reconhecidos. Olhavam, agora, sempre para a cintura dos outros jovens para ver se esses estavam armados. Perderam o contato com a família e com os amigos. Realizavam um enorme esforço para se manterem fora da criminalidade, já que, ao mesmo tempo em que viviam uma experiência de extrema pobreza, também viviam clandestinos e sem vínculos. Eles recebiam inúmeros convites para entrar para o tráfico de drogas e outras atividades ilícitas.
O que ocorria com os ‘meninos’ mobilizava intensamente a todos no grupo. Os jovens eram remetidos às suas experiências de pobreza, de desespero, de violência e ao enorme esforço para estarem ali como João e Pedro. Os outros membros do grupo começaram a perceber com maior profundidade a pressão vivida pelos jovens na periferia. Essa experiência de
pobreza e dificuldade da vida cotidiana fazia cada um criar uma forte defesa contra as propostas do meio social que seriam, aparentemente, resolutivas. Esses convites vinham geralmente do tráfico de drogas e propostas de roubos ou assaltos. A situação do conflito entre a dificuldade cotidiana e o desejo de situações permitindo-lhes um alívio aparente, imediato era intensamente discutida no grupo. Falavam sobre inúmeras cenas de morte ou derrota de amigos em relação ao tráfico, ao crime, ao desprestígio e à humilhação. Além disso, muitas vezes eles tiveram que fazer uso da violência ou compactuar com situações ilegais para sobreviver e não cair nas mesmas situações.
Outro aspecto significativo vivido pelos membros do grupo no que se refere ao território é o da impossibilidade de usufruir os bens simbólicos da região central da cidade. Um dos rapazes conta como sua vida mudou no momento em que teve que se mudar de um bairro próximo ao centro para um local distante, na Zona Leste. Até então, trabalhava e estudava em dois cursos. Aumentando muito o tempo gasto com a condução, foi perdendo a possibilidade de dormir. Com isso, primeiro abandonou um e depois o outro curso.
O que mais emergia no grupo era a forte experiência de desamparo diante da impossibilidade da proteção familiar, do bairro e do Estado. O medo foi o grande motivo para que os ‘meninos’ buscassem armas para conversar e com isto desencadeasse o crime. Foi surgindo, cada vez com mais força, como a vida dos jovens, na verdade, era uma corrida de obstáculos. Passava- se por uma, outra, várias situações limites, mas a qualquer momento poderia se tropeçar no obstáculo e ocorrer o que havia ocorrido com os rapazes que haviam matado. Ou seja, a cena do crime mobilizava intensamente a todos jovens já que demonstrava o que poderia ocorrer com eles a qualquer momento.
A violência sem limite no território fragmentado da periferia tem como uma das conseqüências a manutenção do sujeito em alerta máxima. Os acontecimentos destrutivos podem ocorrer a qualquer instante. O que se instala então é uma ação reativa que alimenta a violência em um circuito fechado. O fato de o sujeito estar tomado pelo medo faz com que tenha que se mostrar valente e violento. A cena do crime dos ‘meninos’ é o que pode ocorrer com qualquer um, tanto no papel de assassino, como no de vítima. A corrida de obstáculos faz com que o sujeito nunca saiba quando e como cairá diante da irrupção daquilo que é familiar e desconhecido, porque pode surgir de uma forma surpreendente e destrutiva. É a vivência do sinistro2 que está em cada esquina. Assim, o medo e o desamparo dominam a cena da periferia. Quanto maior a pressão maior é o esgotamento psíquico e a dificuldade do pensamento e da construção de um projeto de vida.
No que se refere aos aspectos sociodinâmicos, fica claro o quanto as relações pautadas pelo medo, pelo desamparo, pela formação reativa, pelo sinistro irão conduzir os vínculos familiares. A queda do pai na corrida de obstáculos pode dar-se pelo alcoolismo, pela drogadição, pela passividade, pela morte, pelo desemprego, etc. A mãe, que conhece muito bem o território em que vive, está sempre também em sobressaltos, atenta a se o filho ou a filha não estão entrando para o tráfico ou alguma situação de ilegalidade e violência, ou, então, derrotada, expõe os filhos a essas condições como medida de sobrevivência. Com isso, as relações familiares vão ficando cada vez mais duras e tensas e tendem à ruptura. Na verdade, elas expressam o território, são permeadas por suas características.
Emerge, no espaço grupal, que a defesa contra o sinistro são as regras da confiança e do respeito. Se o estado, a lei, as relações familiares, a
2 FREUD. S. “Lo Ominoso”. Obras Completas. Vol. XVII. (1919). Trad. José L. Echeverry. Buenos Aires:
polícia, as organizações sociais, culturais e de lazer não dão conta dos fatos, fica estabelecida uma lei própria que rege a relação com o grupo e com quem está fora do território. A violência é tão conhecida pela experiência e tão fantasiada pelo medo que a mínima possibilidade da quebra dessa regra será o gatilho do confronto.
A vida, em grande parte dos casos, não é pautada pelo Estado, mas, sim, pelo vínculo grupal por meio da confiança e do respeito que, em função da sobrevivência, vai adquirindo uma força intensa, rígida, no estilo mafioso. A quebra de determinadas regras, tais como a delação, significa a catástrofe na vida de quem fala e de quem é acusado, como é o caso do rapaz da pista de skate que havia perdido a identidade, o prestígio, o local de moradia. Estava destruído e humilhado. No grupo, esse fato, assim como o caso dos ‘meninos’ e do rapaz morto por eles, serve como referência e expressa o medo e a fantasia inconsciente de todos os jovens do que acontecerá na queda. Ou seja, sem a mediação da lei, do estado, o grupo, para proteger-se e evitar casos como esse, deve ser rigoroso, rígido e, até cruel, como forma de proteção.
Ao mesmo tempo em que se dá a rigidez e a exigência que protege a sobrevivência diante da irrupção do sinistro e do risco da queda na corrida de obstáculos, as relações adquirem também, por sua proximidade e pela radicalidade das experiências vividas, um alto grau de afetividade. Quando alguém é ‘irmão’, significa uma irrestrita solidariedade. Assim , ao mesmo tempo em que a “confiança e o respeito” é um sintoma da violência e da desagregação do território, expressa, como nos diz Milton Santos, a afetividade e contigüidade, possibilitando a reconstrução do território em face da dominação exercida pela pobreza e pelos efeitos da globalização perversa, na construção de uma outra tessitura de vínculos solidários e transformadores. Esses vínculos são a base para a construção das redes culturais, de assistência,
de proteção e geração de riqueza que reconstroem, avançam e reconfiguram o território.
A questão da confiança e do respeito está presente também na relação com as outras classes sociais e com as instituições. Tanto é assim que o crime (não apenas esse, mas também outros cometidos pelos demais participantes) só foi relatado por inteiro no grupo na última sessão, quando já havia uma confiança construída pela interpretação constante das relações ali presentes na transferência grupal.
O grupo operativo inicia com um importante debate na dimensão institucional no Centro Vida: o que fazer diante do crime? A primeira questão era se os meninos deviam ou não permanecer no bairro. Os jovens rapidamente apontaram que, se João e Pedro retornassem ao seu bairro, inevitavelmente seriam mortos por vingança. Na última sessão, já era entendido por todos que o desejo deles de voltarem a seu bairro estava pautado fortemente por um desejo de suicídio por não estarem mais suportando as perdas materiais e psíquicas decorrentes de sua “queda”. Com isso, aliás, fica mais uma vez evidenciado o circuito da violência, em que as perdas vão levando a outras perdas e, assim, sucessivamente.
O fato de a instituição cogitar a idéia de manter os “meninos” na região, inclusive com uma remuneração, foi elaborado como um fator muito significativo do desconhecimento por parte da diretoria e dos técnicos de seu campo de trabalho. Isso mobilizou fortemente o corpo técnico trazendo um importante material no grupo sobre todos os aspectos contratransferenciais vividos pela equipe na forma do estranhamento em relação ao território, à dificuldade de inserção, à manutenção da própria identidade, às respostas à enorme quantidade de demandas e cobranças e, por conseguinte, às defesas que utilizavam inconscientemente para enfrentar tais situações.
A partir desse emergente grupal foi possível examinar com clareza os limites e as distorções que o desconhecimento do campo gerava no planejamento e na execução dos projetos institucionais. O fato de a Diretoria do Centro Vida participar do grupo impediu que o desconhecimento do território fosse encoberto com ações demagógicas e de um falso saber. Todos, isto é, técnicos, gerentes, intelectuais, os jovens e os coordenadores puderam aprender juntos, realizando uma imersão na periferia por meio do grupo operativo. Com isso, certamente, a identidade da instituição se fortaleceu uma vez que seus membros se sentiram muito mais seguros diante do problema sobre o qual trabalhavam.
Na dimensão comunitária, sabe-se que o espaço da periferia é amplo, porém as relações ali estabelecidas em função da concentração da riqueza material e simbólica nas regiões centrais da cidade limitam a circulação dos jovens. É claro, no grupo, há grande distância entre os dois espaços. Essa distância traz uma forte sensação de perda e impossibilidade de usufruir os bens simbólicos do centro da cidade.
A distância entre o centro e a periferia se expressa também na diferença entre as leis e a forma como regem um e outro espaço3. No centro da cidade, há transporte, serviços urbanos, culturais, lazer, beleza etc. A periferia é cinza e marrom dos tijolos à vista. O Estado aparece de forma repentina na repressão, ou, então, exatamente por sua ausência, constituindo aquele espaço um território de exceção como nos diz Agamben4. Para este autor, desde o direito romano, há a figura do homo sacer, aquele que está submetido à vida nua, sem nenhuma proteção da lei e do estado, e que não é sacrificável aos deuses porque não tem valor nenhum. Por essa mesma razão, tal ser é “matável” por quem detém a soberania sem que esse crime gere culpa
3 ENDO, P. A violência no coração da cidade. Um estudo psicanalítico. São Paulo: Editora Escuta, 2005. 4 AGAMBEN.G. Homo Sacer. O Poder Soberano e a Vida Nua. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004.
e condenação. A situação paradigmática da suspensão da lei é o campo de concentração. A política, para o autor, se dá exatamente no processo de inclusão do sujeito na pólis da lei e proteção do Estado ou na exclusão do sujeito em direção à vida nua. O processo de inclusão na pólis para ele passa também pela passagem da voz à linguagem. É assim que esta dificuldade de locomoção, as rígidas leis como forma de substituição do papel do Estado e das instituições, a inacessibilidade aos bens materiais e simbólicos, a exaustão pela sobrevivência geram uma captura do sujeito no território, do qual é dificílimo sair.
Nesse sentido, podemos pensar a periferia também como uma instituição total que, como nos diz Agamben, é regida pela exceção fora da lei e, nela, a morte tem o caráter de clandestinidade e sem importância. O poder soberano age na ausência da lei, fazendo o território fragmentado ser tomado pela violência e uma grande massa de nossa população ficar relegada à vida nua. Pensar a periferia utilizando a metáfora da instituição total, como uma prisão ou manicômio, ajuda-nos a entender o que estamos relatando em termos da angústia, de repetição, de impossibilidade e de diferentes leis que os jovens traziam no grupo. Em uma das sessões, eles relataram que um japonês amigo deles foi visto pelos traficantes da favela se masturbando perto de um muro. Foi chamado à presença deles. Pediu desculpas, disse que não estava fazendo mal a ninguém, mas não adiantou. Os traficantes obrigaram-no a colocar sua cueca na forma de uma calcinha e, diante de todos, fuzilaram- no.
Com esses e outros fatos presentes na dinâmica, pode-se dizer que um importante emergente grupal são as conseqüências devastadoras da ausência do Estado e da Sociedade Civil. Esse fato faz o tecido social constituir-se pela lei do mais forte, extremamente sádica e rígida, impedindo a mediação entre os sujeitos, tirando o poder da palavra, fragmentando o
território e as relações entre pessoas, entre grupos, entre instituições. Os jovens introjetam a fragmentação do território e a violência nos vínculos cotidianos e, com isso, tornam-se os reais executores da política neoliberal nas periferias.