2.2 Yabancılar ve Uluslararası Koruma Kanununun Kabul Ettiği Sistem
2.2.2 Yabancıların Türkiye’de İkamet ve Seyahate İlişkin Koşullar
2.2.2.2 İkamet İzni Almış Olmak
2.2.2.2.5 İkamet İzni Alma Usulü
Embora, no plano teórico-filosófico, o romano dos anos finais do período da República, quando parte das fronteiras do Estado lindava com o mundo helenístico, considerasse a humanitas o critério maior da divisão entre a civilização e a barbárie, as incursões de César pela Gália puseram- no em contato com outro modelo de estrangeiro, que alterou o paradigma romano do barbarus. Até então, em que pese o saque de Roma conduzido por Breno, em 390 a.C., os bárbaros do ocidente eram pouco conhecidos dos romanos330. Conheciam-se bem os povos que moravam além das fronteiras do oriente, já adversários bastante antigos e habituais do mundo grego. Decerto por isso, como adesão à visão típica das poleis quanto a esses reinos orientais, também para Roma aqueles povos eram velhos e decadentes, não representando ameaça ao Estado. Afinal, os Partos – principais inimigos orientais no período Imperial – só iriam se tornar adversários ostensivos nas gerações seguintes, após a derrota de Licínio Crasso em Cárrai, no ano de 53 a.C., e a humilhante perda das águias-insígnias, cuja reconquista tornou-se mote para todas as expedições futuras àquele país. O contato com os povos orientais dera-se no curso dos interesses expansionistas dos romanos, que já os haviam levado a estender seus domínios pelo Mediterrâneo, ao redor do sul da península itálica e em direção às costas do leste. Assim, não só as cidades gregas, mas também o reino dos selêucidas, em 189 a.C., de Pérgamo, em 133 a. C., e o da Síria, em 64 a.C., foram sendo anexados pela República em uma forma de protetorado331, além das possessões do norte da África, tomadas de
330 SCHADEE, Hester. Caesar's construction of northern Europe. The Classical Quarterly, London, v. 58, n.1, p. 158- 180, 2008. p. 161.
Cartago.
Aquele novo modelo de bárbaro alcançava o mundo romano de modo inteiramente inverso do que até então se dera. Se o mundo helenístico, arvorando-se a uma posição de superioridade, chamara o romano de bárbaro, agora que Roma se inserira e dominara o mundo helenístico ocorria um processo semelhante entre Roma e os povos conquistados no norte e no ocidente, com a diferença de que, neste caso, a avaliação dos costumes e do grau de desenvolvimento civilizacional tinha como parâmetro não mais a paideia helenística, aquela cultura importada dentro da qual a rude sociedade romana arcaica teve de se enquadrar desde os fins do século III a.C., mas já aquela
humanitas que começara a se solidificar nos tempos dos Cipiões e que se impregnava tão
rapidamente do decorum romano a ponto de logo poder ser identificada como uma característica do povo, que pode ser resumida em um termo que liga os dois sentidos da nova humanitas: romanitas. Dessa maneira, o romano tornava-se o modelo de civilização que deveria ser imposto aos povos bárbaros, como uma missão ideológica que se aperfeiçoaria durante o Império.
Esse novo tipo de bárbaro tornou-se mais conhecido em Roma pelos relatos de César sobre a campanha da Gália. A partir do ano 58 a.C., ele empreendeu sua série de expedições contra os povos celtas e gauleses, que ultimou, em 52 a.C., com a conquista do território. Sob o pretexto de preservar das incursões bárbaras a província para a qual fora nomeado governador proconsular no ano de 59 a.C., dava ele início ao projeto de consolidação de seu próprio poder político e do controle de riquezas, cujo desenvolvimento acarretou sua nomeação sucessiva, a partir de 49 a.C., para os cargos de cônsul, ditador e, finalmente, ditador perpétuo. E foi como parte de sua propaganda para a eleição consular do ano de 49 a.C. que se publicaram, decerto no ano anterior, seus Commentarii de Bello Gallico332. Elaborada sob o formato de um extenso relatório militar, a narrativa histórica, etnográfica e geográfica tinha o conteúdo de uma verdadeira res gestae, cujo intuito parece ter sido o de mostrar César à aristocracia e ao povo de Roma como aquele que os
libertara do perigo representado pelos gauleses desde o saque de Breno333, em verossímil oposição político-ideológica às conquistas orientais e marítimas de Pompeu, seu tradicional adversário político e conquistador dos reinos do leste. Nos detalhados comentários, a descrição dos povos ocidentais, com a busca da compreensão de sua mentalidade e de seu modo de vida, mostrava-se o caráter primitivo e exótico daquele tipo de bárbaro, transformando César, portanto, no modelo do civilizador do ocidente.
Entretanto, outro público pode ter sido alvo dos Comentarii: a aristocracia gaulesa já romanizada – a cisalpina e a narbonense – que o conhecia como governador desde 59 a.C. Pela descrição do estado de barbárie dos revolucionários que, chefiados por Vercingentorix, sublevaram grande parte da Gália em 52 a.C., ele, com os exempla de suas vitórias, oferecia àquela aristocracia aculturada e predisposta a lhe fornecer apoio político sua proteção contra os chefes da rebelião, caracterizados então como facínoras em busca da instauração do regime tirânico334.
Foi sob esse duplo enfoque quanto ao público que César dividiu os bárbaros do ocidente em dois grandes grupos étnicos: os gauleses e os germânicos. Separando-os com clareza, ele pôde dispensar tratamentos diferentes e específicos, para conseguir incluir os gauleses e excluir os germânicos em seu projeto de ampliação das fronteiras políticas, pessoais e romanas.
Para analisá-los, César assumiu a posição de superioridade típica daqueles que julgam os seus diferentes como pertencentes à barbárie; chamou os germânicos de homines barbari atque
imperiti – homens bárbaros e ignorantes335 –; e fez Ariovisto defender-se dizendo que não era tão
barbarumque imperitum – bárbaro e ignorante – a ponto de não saber que os héduos não haviam
auxiliado Roma na guerra contra os alobroges336.
César, então, começou pelos gauleses. Primeiro, dividiu-lhes a sociedade em três estratos: os
333 KRAUS, Cristina. Bellum Galicum. In GRIFFIN, Mirian ed. A Companion to Julius Caesar. London: Wiley- Blackwell, 2009. p. 160.
334 CITRONI, M., et al. Op. Cit. p. 337.
335 CAES. Gal. 1.40: Cui rationi contra homines barbaros atque imperitos locus fuisset, hac ne ipsum quidem sperare
nostros exercitus capi posse.
336 CAES. Gal. 1.44: Quod fratres a senatu Haeduos appellatos diceret, non se tam barbarum neque tam imperitum
esse rerum ut non sciret neque bello Allobrogum proximo Haeduos Romanis auxilium tulisse neque ipsos in iis contentionibus quas Haedui secum et cum Sequanis habuissent auxilio populi Romani usos esse.
druidas, os cavaleiros e a plebe. De imediato, excluiu da análise a plebe, em razão de sua pouca ou nenhuma representatividade política, comparável somente à dos escravos. Daí, ele definiu os druidas como detentores de secreto conhecimento religioso, como aqueles a quem era confiada a educação dos jovens e que solucionavam as lides públicas e particulares, proferindo julgamentos e sentenças337. Os druidas não lutavam nem pagavam tributos e sua formação dava-se pelo estudo. Por esse motivo, a educação era incentivada pelos pais, para que os rigores da vida fossem mais brandos aos filhos. Sabiam versos, escreviam em caracteres gregos, acreditavam na transmigração das almas, conheciam astronomia e discursavam para a mocidade sobre a força e o poder dos imortais338. Quanto aos cavaleiros, César limitou-se a dizer, em curtíssimo entrecho, que lutavam se houvesse guerra339.
No que se refere aos costumes, César afirmou que os gauleses eram muito supersticiosos, adeptos inclusive dos sacrifícios humanos – embora logo em seguida ele abrandasse esse dado, ao informar que as vítimas preferenciais de seus sacrifícios eram os ladrões e assassinos. Disse que eles cultuavam as divindades não relacionadas imediatamente com os fenômenos da natureza, como Mercúrio, Apolo e Marte, atribuindo-lhes os mesmos campos de intervenção como os demais países – significando aí a comunidade da koiné340. Finalmente, disse que os gauleses reconheciam algum
direito às mulheres, ao menos no que se refere à herança; que prestavam honras fúnebres a seus mortos341 e que decidiam seus negócios na assembleia pública342.
337 CAES. Gal. 6.13: Sed de his duobus generibus alterum est druidum, alterum equitum. Illi rebus diuinis intersunt,
sacrificia publica ac priuata procurant, religiones interpretantur: ad hos magnus adulescentium numerus disciplinae causa concurrit, magnoque hi sunt apud eos honore. Nam fere de omnibus controuersiis publicis priuatisque constituunt, et, si quod est admissum facinus, si caedes facta, si de hereditate, de finibus controuersia est, idem decernunt, praemia poenasque constituunt; si qui aut priuatus aut populus eorum decreto non stetit, sacrificiis interdicunt.
338 CAES. Gal. 6.14: Magnum ibi numerum uersuum ediscere dicuntur. Itaque annos nonnulli uicenos in disciplina
permanent. Neque fas esse existimant ea litteris mandare, cum in reliquis fere rebus, publicis priuatisque rationibus Graecis litteris utantur.
339 CAES. Gal. 6.15: Alterum genus est equitum. Hi, cum est usus atque aliquod bellum incidit (quod fere ante
Caesaris aduentum quotannis accidere solebat, uti aut ipsi iniurias inferrent aut illatas propulsarent), omnes in bello uersantur.
340 CAES. Gal. 6.16: Deum maxime Mercurium colunt. Huius sunt plurima simulacra: hunc omnium inuentorem
artium ferunt, hunc uiarum atque itinerum ducem, hunc ad quaestus pecuniae mercaturasque habere uim maximam arbitrantur. Post hunc Apollinem et Martem et Iouem et Mineruam.
341 CAES. Gal. 6.19: Viri, quantas pecunias ab uxoribus dotis nomine acceperunt, tantas ex suis bonis aestimatione
facta cum dotibus communicant. (...) Funera sunt pro cultu Gallorum magnifica et sumptuosa.
Trata-se de uma descrição bastante favorável, que salienta algo que pode ser definido como uma humanitas barbara, graças à demonstração de respeito à lei e à justiça; à reverência aos costumes, aos deuses e aos mortos; ao conhecimento do alfabeto grego; e, sobretudo, à noção de desenvolvimento a partir do esforço no estudo, como na formação dos druidas. Apesar da aparente contradição existente nos termos do conceito de humanitas barbara, tratava-se da tentativa de César de encontrar entre os gauleses elementos civilizacionais que, a despeito de sua condição de desenvolvimento, os aproximava de algum modo dos romanos.
Já os germânicos receberam tratamento bem menos condescendente. César afirmou que eles não possuíam druidas, que não cultuavam outros deuses que não os fenômenos da natureza, que eram barbudos, promíscuos e que se vestiam de peles, deixando grande parte do corpo a nu343. Disse ainda que os germânicos não cuidavam da agricultura, e que só se alimentavam de leite, queijo e caça, que não conheciam a propriedade privada e que se mudavam constantemente, como nômades errantes. Além disso, segundo César, os germânicos não tinham ambição por dinheiro344. Já suas cidades seriam isoladas, pela expulsão dos vizinhos. Durante a paz, não havia autoridade comum que os reunisse e os crimes eram julgados pelos maiorais das cidades. Os latrocínios praticados além das fronteiras não constituíam crime, mas eram tidos como um exercício para a mocidade combater o ócio345.
Foram traçados, portanto, dois quadros bastante distintos da barbárie ocidental, separados pelas margens do Reno. Em contraposição à descrição daquela quase pacífica sociedade gaulesa que, embora bárbara nos costumes e no pouco cabedal cultural, já apresentava grande proximidade com os conceitos romanos da humanitas, o retrato dos germânicos os pintou com grande selvageria, em um estado bem inferior de civilização. Separava-os a ferocitas, tão dos germânicos, mas já
343 CAES. Gal. 6.21: Germani multum ab hac consuetudine differunt. Nam neque druides habent, qui rebus diuinis
praesint, neque sacrificiis student. Deorum numero eos solos ducunt, quos cernunt et quorum aperte opibus iuuantur, Solem et Vulcanum et Lunam, reliquos ne fama quidem acceperunt. (...) Intra annum uero uicesimum feminae notitiam habuisse in turpissimis habent rebus; cuius rei nulla est occultatio, quod et promiscue in fluminibus perluuntur et pellibus aut paruis renonum tegimentis utuntur magna corporis parte nuda.
344 CAES. Gal. 6.22: ne qua oriatur pecuniae cupiditas, qua ex re factiones dissensionesque nascuntur.
345 CAES. Gal. 6.23: Latrocinia nullam habent infamiam, quae extra fines cuiusque ciuitatis fiunt, atque ea iuuentutis
esgotada entre os gauleses, exatamente pelo contato com os romanos.
Essa estratégia de composição dos Commentarii corrobora o duplo alvo de leitores – a
aristocracia gaulesa romanizada e o público romano. A descrição dos brandos e aculturados gauleses, além de lhes dar a já citada confiança em César contra as rebeliões que pudessem ameaçar suas aristocracias, ainda lhes conferia o acesso ideológico inicial à sociedade romana, que vivia então franco expansionismo. Convinha que fossem estabelecidas as afinidades entre os gauleses bárbaros conquistados e os romanos civilizados conquistadores para justificar o empreendimento civilizatório que os inserisse na comunidade da humanitas, por meio da extensão da agricultura, do uso da moeda comum e do emprego do latim, ou seja, da adesão à romanitas. Para aqueles gauleses romanizados, o próprio César já descrevera as vantagens da vizinhança com Roma: os benefícios da contiguidade cultural e a possibilidade de importação dos objetos transmarinos, o que lhes conferia abundância e conforto346.
Além disso, para César, a conquista e o apoio da Gália eram fundamentais para as ambições políticas. César parece ter nutrido a ideia da monarquia universal formulada por Alexandre, com o vago sonho da formação de uma cosmópolis de cunho estoico, ou uma civilização internacional, como uma humanitas universalis – naquele sentido primeiro do termo humanitas que significa o conjunto das gentes. Tanto que, por sua iniciativa, os cisalpinos e os provinciais narbonenses receberam cidadania romana e puderam entrar na representatividade do Senado347. O alargamento do Estado, com a recepção e o entrosamento dos bárbaros romanizados, parecia conter a máxima que Salústio atribuiu a ωésar: “numa grande cidade, muitos e variados são os gênios” 348.
Tendo agora por enfoque a recepção dos Comentarii por parte da população romana, a descrição do estado de selvageria maior dos germânicos parece querer justificar a interrupção da expedição de César, impotente frente ao caudal imenso do rio Reno. Impor um rio praticamente intransponível como limes do processo expansionista empreendido em suas incursões pelo ocidente
346 CAES. Gal. 6.24: Gallis autem prouinciarum propinquitas et transmarinarum rerum notitia multa ad copiam atque
usus largitur, paulatim adsuefacti superari multisque uicti proeliis ne se quidem ipsi cum illis uirtute comparant.
347 GRIMAL, Pierre. Op. Cit. p. 31.
e depois dele fazer habitar uma gente indomável como o barbarus germanicus, de ferocidade ímpar, tornava a aventura bélica de César mais digna do triunfo349.
De qualquer modo, foi mais uma vez a noção da humanitas que norteou a dicotomia entre bárbaros e civilizados naquele prenúncio do regime imperial. Porém, com a hegemonia romana no Mediterrâneo, o conceito de afastamento da barbárie inverteu-se, tornando a proximidade com Roma e a romanidade as marcas da civilização. Instaurava-se uma nova dicotomia entre bárbaros e romanos, que transformava tudo que não era Roma em bárbaro.
As preocupações de César com os tipos de barbárie, porém, não se restringiram aos contatos e à avaliação das gentes das Gálias e de seus tipos de bárbaros. Ele percorreu praticamente todo o entorno do Mediterrâneo, e suas campanhas pelo norte da África e pela Ásia foram tão importantes para sua carreira e finanças quanto o sucesso sobre os gauleses. Ele chegou ao Egito durante a Guerra Civil, na perseguição marítima a Pompeu, que fora vencido em Fársalo e que seria morto logo ao desembarcar em Alexandria, em 48 a.C. Ali César, o ditador de Roma pelo segundo ano consecutivo e cônsul pela primeira vez, conheceu Cleópatra, venceu o faraó – seu irmão e marido –, fez dela rainha do Egito e gerou-lhe um filho – Cesário, que ele esperou nascer antes de retomar a viagem pela Ásia350 em perseguição de Âmpio, que havia saqueado o tesouro de Diana, em Éfeso351. Foi decerto nesse périplo de retorno a Roma pela costa leste do mar Mediterrâneo que César comprou, em Cízico, os quadros de Ajax e de Medeia, pintados por Timômaco, e levou-os como adornos para o Templo de Venus Genetrix, que ele fizera construir em 46 a.C. em culto à ancestral mítica de sua gens e em memória de sua vitória nos campos da Tessália – no mesmo ano em que, voltando da África, celebrou o quádruplo triunfo352. Sabe-se que havia naquele templo uma
349 ARMARIO, Francisco. Los barbaros em Amiano Marcelino. 2001. Tese. Universidade de Cadiz, Cadiz, 2001. p. 238-250.
350 Plu. Caes. 49: Dejó com esto por reina de Egipto a Cleópatra, que de allí a poco dio a luz um hijo, al cual los de
Alejandría dieron el nombre de Cesarión, y marcho a la Siria.
351 CAES. Ciu. 3.105: Caesar, cum in Asiam uenisset, reperiebat T. Ampium conatum esse pecunias tollere Epheso ex
fano Dianae.
352 GARDNER. Jane F. The Dictator. In: GRIFFIN, Mirian (ed.). A Companion to Julius Caesar. Oxford: Blackwell Publishing, 2009. p. 57-71.
estátua sua e outra, de ouro, de Cleópatra com os trajes divinos da deusa egípcia Ísis353, o que torna inevitável a aproximação simbólica das duas esculturas e as pinturas de Timômaco, levadas para lá e dispostas no mesmo ambiente. A dimensão política da inclusão das imagens no templo de Vênus parece revelar mais uma forma de propaganda. Afinal, Ájax era um dos mais conhecidos heróis ocidentais, filho de Télamon, o companheiro de Hércules na saga dos argonautas – participante, portanto, da primeira expedição conquistadora que foi ao oriente, cuja acepção imperialista permite aproximá-lo simbolicamente de César, que se preparava para a conquista dos Partos, outro nome dos povos medas, descendentes de Medeia354.
Por outro lado, se César buscava identificar-se politicamente com a fabula de Ájax, a correspondência entre Cleópatra e Medeia parece insinuar-se. Novamente simbolizando a bárbara, a conjugação das imagens dispostas no Templo de Vênus pode vincular-se à presença real de Cleópatra em Roma, recebida como hóspede na casa César355 e permanecendo com o filho na Urbe até depois da morte do ditador. Assim, Medeia foi elevada ao templo familiar dos Iulii sob a mensagem política da recepção da princesa estrangeira cativada pelo conquistador, à semelhança da contemporânea heroína trágica de Lúcio Ácio e de toda a tradição literária das princesas que abandonaram ou mataram o pai por amor ao estrangeiro, como Ariadna, Cila e a romana Tarpeia. Era o anúncio político da aliança entre o ocidente e o oriente, capaz de representar metaforicamente as ambições imperiais, pelas quais, de resto, ele mesmo foi assassinado nos idos de março.
Uma segunda manifestação da propaganda de César e de sua proposta política de reflexão sobre a barbárie356 talvez possa ser percebida naqueles mesmos anos em que Varrão de Átax escreveu seus Argonautica, cuja heroína era mais uma vez Medeia, embora agora narrada em
353 App. B. C. 2.102: He placed a beautiful image of Cleopatra by the side of the goddess, which stands there to this
day.
354 ARCELLASCHI, Andrè. Op. Cit. 214-216
355 SUET. Iul. 35: regnum Aegypti uictor Cleopatrae fratrique eius minori permisit.; SUET. Iul. 52: Dilexit et reginas,
inter quas Eunoen Mauram Bogudis uxorem, cui maritoque eius plurima et immensa tribuit, ut Naso scripsit; sed maxime Cleopatram, cum qua et conuiuia in primam lucem saepe protraxit et eadem naue thalamego paene Aethiopia tenus Aegyptum penetrauit, nisi exercitus sequi recusasset, quam denique accitam in urbem non nisi maximis honoribus praemiisque auctam remisit filiumque natum appellare nomine suo passus est. quem quidem nonnulli Graecorum similem quoque Caesari et forma et incessu tradiderunt. M. Antonius adgnitum etiam ab eo senatui adfirmauit, quae scire C. Matium et C. Oppium reliquosque Caesaris amicos; quorum Gaius Oppius, quasi plane defensione ac patrocinio res egeret, librum edidit, non esse Caesaris filium, quem Cleopatra dicat.
gênero épico, durante a sua juventude auxiliadora. O comprometimento político de Varrão com César era antigo e conhecido, quanto mais que sua origem narbonense já o predispunha favoravelmente às causas do antigo procônsul das Gálias. Por volta de 58 a.C., o atacino celebrara as vitoriosas campanhas de César contra Ariovisto no Bellum Sequanicum357. Por isso, é de se crer