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Tradicionalmente, os direitos patrimoniais e, sobretudo, o direito de propriedade, revelam-se como referências da autonomia contratual, e, portanto, sua submissão ao direito societário e seus princípios seria controvertida, se tomada posição ligada ao individualismo contratual112.

Talvez por essa razão, em que pese sua relevância na atual vida empresarial, os pactos parassociais que ora se designa “patrimoniais” não têm sido estudados de forma sistemática sob a perspectiva da lógica

própria que informa o relacionamento societário, repetindo-se o simples

argumento de que, dizendo respeito a direitos patrimoniais dos sócios e sendo autônomos do estatuto social, seriam regidos pela teoria geral dos

contratos – o que não implica, entretanto, que estejam como que imunes ao

regramento societário, a salvo da incidência de suas regras cogentes e de seus princípios.

Para que sejam válidas, soluções contratuais não podem afrontar ou

distorcer os fundamentos do direito societário, demandando do intérprete e

do aplicador do direito o domínio dessas bases e a reflexão sobre o modo pelo qual forjam a liberdade contratual. Esse controle é tarefa árdua tendo em vista a criatividade dos indivíduos, a multiplicidade das necessidades

112 Co nvém já r eprod uzir a lição de ME N E ZE S CO R D E IR O q ue muito influencia o s

argu mento s deste trab alho, co m relação à ainda freq uente “insensib ilidade” na consideração d e aspectos co mo a lealdad e nas r elações entr e par ticular es: “[o] liber alis mo e as cod ificações dele tr ib utárias fora m po uco sensíveis, no início, à ideia de leald ade. De resto, isso sucedeu, e m ger al, co m os co nceito s indeter minado s que postulava m o rdenamentos alar gado s par a além do ju s po situm. Ao s cid adão s er am reco nhecido s direito s q ue eles exercer iam co mo bem lhes parecesse. Apenas era devid a obediência ao s co ntrato s livr emente celebr ados e, natural mente, à lei. Para além disso, não haver ia mais “lealdades” exigíveis” ( A lealdade no direito d e sociedades, in Revista da Ord em do s Ad vo gado s, d ez/2006 , p . 2). Ademais, sobr etud o em p aíses da

common la w, o respeito ao co ntrato é extremo e, por essa razão q ue escapa à análise de

aplicadores de direito meno s pr udentes, não é salutar reprod uzir mimeticamente o s pacto s e co nvenções id ealizado s em a mbiente institucio nal tão distinto do brasileiro. Cf. nesse po nto, LA U R E N T CO N V E R T, L’imperatif et le supplétif… p. 501 e ss ( “en

Angleterr e, l’imp eratif correspo nd en efet au r espect d e la liber té co ntractuelle, tand is que le supp létif intéresse l’app licatio n effective de la loi légifér ée. C’ est le contra t qui

est obliga toire plu s que la dispo sition léga le. Les co nvetio ns doivent être respectées

par le juge et par le législateur. La véritable loi est en co nséq uence d ’essence contractuelle plus q ue parlementaire. La force obligatoire des co nventio ns se po se en conséq uence en des ter mes d iffér ents de ceux qui prévalent sur le Co ntinent”. Grifo u- se).

que, sempre mais, surgem no mercado e as maneiras nem sempre evidentes pelas quais podem corromper as relações societárias e/ou afetar os alvos de tutela do direito societário. O sigilo desses contratos e sua frequente submissão à arbitragem costuma dificultar, por outro lado, sua análise113.

São raros, assim, os estudos que, para além das discussões específicas sobre acordos de voto, tratam de contratos celebrados no bojo de um relacionamento societário e que compõem aquele conjunto negocial complexo a que antes se referiu. Como já se mencionou, não se encontrou, no Brasil, obra em que essa perspectiva seja adotada e as respectivas conclusões sejam enunciadas com esse específico propósito114.

No Brasil, a discussão centra-se no acordo de acionistas e nas

particularidades relativas a essa forma de contrato parassocial, prevista

expressamente no art. 118 da Lei n. 6.404/76 para a disciplina (i) da compra e venda de ações, (ii) do direito de preferência em adquiri-las, (iii) do exercício do direito de voto e (iv) do exercício do poder de controle115.

Por consequência, a maioria dos estudos acadêmicos brasileiros sobre

acordos de acionistas gira em torno (i) do caráter taxativo ou enumerativo

do rol de matérias previstas no art. 118 da lei, bem como dos efeitos de uma ou outra posição no plano da validade; (ii) da execução específica prevista no mesmo artigo; (iii) de considerações sobre sua eficácia e oponibilidade a terceiros; (iv) de sua rescisão, resilição ou denúncia; bem como de temas específicos dos acordos de voto116.

113 Co nsulto u-se também, sem êxito , o s anuár io s d a I CC ( I nter natio nal Chamb er o f

Co mmerce) de Par is, em que decisões arb itr ais são p ublicadas.

114 Os p areceres co mp ilad os pelo Prof. FA B IO KO N D E R CO M P AR A T O em Novos En sa ios e

Pareceres de Direito E mpresa rial, cit. , são daqueles po uco s textos em q ue o mesmo

viés é obser vado . Não se enco ntro u, porém, o bra que co mp ilasse as conclusões q ue deles pode m ser extraíd os par a a teor ia geral do direito societár io.

115 Inser ido pela Lei n. 10. 303/2001.

116 A d esp eito da evidente relevância d e tais q uestões, importa desde já frisar q ue sua

análise ser á aq ui e mpreend ida apenas de for ma ancilar , q uando assim se mostrar útil para o desenvolvimento da tese. O esforço deste estudo é, precisamente, lançar luzes sobre proble ma q ue escapa àq ueles tipicamente abordado s p ela do utr ina pátria no q ue tange aos co ntr ato s p arassociais.

Como pano de fundo à discussão desses principais temas ligados aos

acordos de acionistas fica a afirmação superficial de que eles – como

também outros contratos entre acionistas cujas matérias extrapolam as previstas em lei – são regidos pelo direito geral das obrigações.

A ênfase em afirmar a submissão dos contratos parassociais ao direito geral das obrigações e à teoria geral dos contratos, contudo, foi feita por OP PO para salientar a distinção entre esses contratos e os

estatutos e contratos sociais, tendo em vista os ditames específicos

direcionados a esses últimos pelo direito societário e não de modo a afastar sua relevância no contexto societário vivido pelas partes117.

Sem refletir sobre esse ponto, permite-se que se obtenha impressão – não devidamente contestada na doutrina brasileira118 – de que os contratos parassociais, porque distintos do contrato social e, sobretudo, quando não tratam das matérias previstas no art. 118 da lei acionária brasileira, não

seriam sujeitos à disciplina societária, com o que não se pode

razoavelmente concordar.

Por consequência, ajustes parassociais que não se enquadram no rol de matérias previsto em lei, ou mesmo aqueles que, previstos no art. 118, refiram-se a direitos individuais dos sócios (e.g., compra e venda de ações), acabam por não receber a devida análise e interpretação sob a

perspectiva do direito societário, podendo levar a resultados não

acurados119.

117 Cf. item 4.2, Capítulo 4 .

118 Na maior ia da prod ução doutr inár ia sob re o assunto, os jur istas não esclarecem co mo

o direito so cietár io deve incidir sobre co ntr ato s parasso ciais, valendo -se d e expr essõ es vagas. Por exe mplo, vid e a obser vação de FAB I O KO N D E R CO M P AR A T O: “a valid ade de tais negócio s era, então (antes d a Lei n. 6 .404 /76), co mo aind a é hoj e, sub metida às nor mas co muns do d ir eito privado , a pa r da s reg ra s gerais do direito so cietá rio ” (Eficácia do s a cordo s de acion ista s, in Novos en sa ios e pa receres d e direito

emp resarial, Rio d e Janeiro, Forense, 1981, p. 7 6. Grifo u-se).

119 Realizada p esq uisa na jurispr udência p átr ia, ver ifico u-se a escassez de decisões

judiciais q ue indiq uem a aplicação do direito societário a co ntrato s parasso ciais. Os julgado s lo calizado s apenas tangenciam o pr oblema, não enfrentand o clara mente a questão. Par a as po ucas exceções, cf. a análise presente na seção AN Á L IS E S

Faz-se necessário, assim, examinar o modo pelo qual o direito societário impacta os pactos parassociais patrimoniais no direito brasileiro, propondo pautas para sua interpretação em consonância com seus princípios e fundamentos e com a relação societária desejada pelas partes ao celebrá- los.

Para que o direito societário cumpra seu papel de oferecer ao mercado instituições com um padrão mínimo de aceitação, conferindo segurança jurídica e viabilizando as relações entre os vários agentes econômicos, é imprescindível verificar essa sempre mais complexa realidade negocial formada pelos pactos parassociais patrimoniais que, ao intérprete menos atento, poderia ser tida por mero conjunto de contratos

entre particulares (i.e., sem qualquer relevância para a disciplina

societária)120.

Mais que simplesmente revisitar a posição de OP PO – e dos demais

autores que trataram dos pactos parassociais - ou mesmo discuti-la, urge tomá-la como apenas um ponto de partida para, avançando, examinar os

pactos parassociais patrimoniais considerando sua função na disciplina do

relacionamento entre as partes que se associam em sociedade e, com isso, sua interpretação sob a égide do direito societário.