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A experiência como pesquisador-participante no seminário teológico foi um pouco desconcertante. Nossa presença como pesquisador foi aceita oficialmente sem grandes dificuldades pelos padres formadores e pelos seminaristas de um modo geral, já que tínhamos o aval e a aprovação do bispo responsável pela formação no estabelecimento. Mas em determinadas ocasiões, tínhamos uma sensação de desconforto, como se estivéssemos no lugar errado ou que nossa presença não era bem-vinda. Os atores institucionais não sabiam bem o que fazer com um psicólogo pesquisador no seu ambiente de vida. Os formadores também não nos procuraram inicialmente para conversar com eles, além do acordo formal para a realização da pesquisa. Eles não nos ofereceram acesso a arquivos nem a documentos relativos aos seminaristas ou ao estabelecimento. Também não solicitamos nada disso, evitando parecer mais invasivos do que já éramos com nossa simples presença nas atividades cotidianas do estabelecimento. Numa assembléia da casa, o reitor comunicou à comunidade que realizaríamos uma pesquisa no seminário, com conhecimento e autorização do reitor e do bispo responsável. Ele explicou que participaríamos das diversas atividades cotidianas do estabelecimento, uma vez por semana durante algum tempo. Formalmente, não chegamos a definir quanto tempo durariam as visitas de observação. Mesmo porque houve três mudanças de reitor ao logo do tempo em que realizamos nossas visitas. Quando chegava um novo reitor no estabelecimento, nos apresentávamos a ele e renovávamos a autorização de pesquisa, no que não tivemos maiores problemas.

Nossa presença como pesquisador nas assembléias causava um certo incômodo em vários dos seminaristas: parece que eles sentiam sua privacidade invadida por alguém que não devia estar ali: havia “um estranho no ninho”. Era como se eles se perguntassem: “O que esse

leigo está fazendo aqui na assembléia de seminaristas?” Afinal, já tendo recebido o rito de admissão oficial como candidatos ao sacerdócio, os seminaristas não mais se identificavam com os cristãos leigos. Mas ninguém questionava abertamente nossa presença no recinto da assembléia, nem os padres formadores nos pediam que nos retirássemos. Da parte do estabelecimento e dos atores institucionais não havia uma demanda explícita quanto a um trabalho de investigação e pesquisa da vida e dos problemas da formação do clero. Mas havia problemas entre os seminaristas e deles com os padres formadores. Algumas vezes havia sofrimento intenso em ambos os grupos ou entre eles. Então, da parte da equipe de formadores parecia haver alguma esperança de que nossa pesquisa pudesse vir a ajudar a entender e a solucionar alguns problemas. Evidentemente, os padres não imaginavam que para encaminhar algumas questões seria preciso modificar aspectos profundos do modo de funcionamento do seminário e que isso também dependia de uma conjuntura sócio-eclesial mais ampla.

Embora houvesse sofrimento, também havia uma certa noção de que o modo como as coisas estavam sendo realizadas era o mais adequado, conforme prescrito pelo Magistério eclesiástico. Os problemas seriam devidos a fatores de ordem pessoal, individual e intrapsíquicos, as dificuldades eram consideradas disfunções individuais, passíveis de correção nos próprios seminaristas, por exemplo, através do atendimento personalizado que deveria ser realizado tanto pelos padres formadores quanto pela psicóloga do seminário. Havia também uma certa demanda de assessoramento técnico da equipe de formadores do estabelecimento, que poderia ser agendado conforme acordo mútuo. Poderíamos marcar reuniões quinzenais com duração aproximada de duas horas e meia, por exemplo. O objetivo seria colaborar com a equipe de formadores em seu trabalho, contribuindo com um conhecimento teórico-técnico dos dinamismos psicossociais próprios do contexto institucional. Queríamos contribuir também com a reflexão para a formulação de um projeto

pedagógico para o seminário, oferecendo elementos a partir do diagnóstico institucional que estávamos realizando em nossa pesquisa de doutorado.

O seminário já tinha uma psicóloga que participava do movimento da Renovação Carismática Católica oferecendo atendimento individual aos seminaristas. Ocupar a função de psicólogo no seminário teológico era um pouco desconcertante, conforme pudemos verificar no dia-a-dia e através de conversas com a profissional. Soubemos que o acordo de trabalho da psicóloga com o seminário consistia em que ela somente poderia trabalhar com clientes a partir de um contrato de sigilo total, base imprescindível para o estabelecimento da confiança que possibilitaria a abertura do indivíduo, tendo sua privacidade assegurada. Tratava-se sobretudo de uma questão de ética profissional. Assim, embora a psicóloga fosse contratada pela instituição, o cliente seria cada seminarista que a procurasse. Portanto, ela não poderia emitir nenhum tipo de relatório ou parecer sobre os seminaristas que viessem a procurá-la. Essas eram as condições mínimas para criar um espaço no qual os seminaristas pudessem falar livremente sobre qualquer assunto com a profissional. Ela se limitaria apenas a certificar que eles estiveram em atendimento psicológico durante determinado tempo, se isso lhe fosse solicitado. A esse respeito, ela não parece ter tido maiores problemas.

Como não havia uma sala para atendimento psicológico no estabelecimento, eles improvisaram, adaptando um quarto no andar térreo, perto da portaria, no qual foram colocadas algumas poltronas. A psicóloga foi apresentada aos seminaristas e eles foram orientados numa assembléia a procurarem por ela, para atendimentos. Ela tinha oito horas por semana para os atendimentos psicológicos. Como a procura era grande, ela buscava atender os seminaristas quinzenalmente. Em virtude de passar bastante tempo no seminário, eles a abordavam informalmente e marcavam um encontro inicial logo que possível. Ela realizava sessões de atendimento que abrangiam aconselhamento e acompanhamento psicoterapêutico com os seminaristas que a procuravam. Presenciamos diversas vezes a psicóloga chegar para

o atendimento e haver uma atividade coletiva no seminário: tarde de espiritualidade, visita de formadores, do bispo diocesano ou assembléia. Nem os formadores nem os seminaristas que ela atendia se lembravam de avisá-la! Ela chegou uma noite para trabalhar e se deparou com uma festa de despedida de um reitor e a recepção do novo! Surpresa, foi jantar com os seminaristas e participar das homenagens!

De fato, apesar da boa vontade, os padres formadores não sabiam bem o que fazer com um psicólogo pesquisador no seminário, apenas sentiam que era importante ter um profissional como o psicólogo trabalhando ali, já que os seminaristas eram considerados pessoas que têm grandes problemas afetivos, oriundos de “famílias desestruturadas”, sendo “emocionalmente feridos” e rebeldes para com a autoridade. Então o psicólogo seria alguém que poderia “dar um jeito” nos indivíduos problemáticos. Seus serviços psicoterapêuticos eram acréscimos quase luxuosos ao processo formativo. Mas não se esperava, evidentemente, que esse profissional estivesse ali para colaborar com os padres formadores diretamente: ele devia apenas fazer psicoterapia individual. Esse é o papel clássico que se atribui ao psicólogo: como a subjetividade é reduzida à interioridade psíquica do indivíduo, a função desse profissional seria atuar numa clínica intersubjetiva e trabalhar na ortopedia da individualidade identitária. Tanto que era fácil se esquecer dele, não vê-lo, não notá-lo no estabelecimento, não avisá-lo de atividades que coincidiam com seu dia e horários de atendimento. Isso indicava sintomaticamente a relevância desse profissional no contexto do processo formativo.

Apesar de tudo, durante os anos de 2003 e 2004 participamos de algumas interessantes reuniões com os padres formadores do seminário teológico, do filosófico e com o bispo responsável pelo acompanhamento do processo formativo nos seminários. Nessas reuniões, discutia-se a situação dos seminários de filosofia e de teologia, além dos problemas que as equipes enfrentavam. Discutiu-se bastante sobre a possibilidade de transformar os dois grandes seminários apenas em centros de estudos interdiocesanos e que os seminaristas se

mudassem para seminários diocesanos específicos, juntando filósofos e teólogos com padres formadores de suas dioceses, em casa simples da periferia. Os formadores desejavam que os seminaristas levassem uma vida modesta, numa casa pequena: ali aparecia novamente a utopia redentora da “pequena comunidade”, eles viveriam juntos em quartos coletivos, usariam os ônibus urbanos para se locomover, “para que experimentassem a vida da classe trabalhadora do nosso país”. Certamente isso causaria – e causou – grande resistência por parte dos seminaristas. O projeto esbarrava ainda na dificuldade financeira e na necessidade de padres formadores para as diversas dioceses: o investimento seria grande e os quadros eclesiásticos eram escassos. Então, como já relatamos, resolveu-se promover uma ampla consulta aos seminaristas, religiosos, leigos, padres e bispos, sobre o tema de dividir o seminário filosófico e teológico por dioceses. Sobre isso escrevemos longamente acima.

As urgências cotidianas da formação sacerdotal nos seminários eram intermináveis. Por outro lado, as orientações gerais emanadas de Roma e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil relativas ao modo de funcionar das instituições de formação do clero estavam bem definidas e deviam ser seguidas sem maiores questionamentos. Isso tudo, certamente aliado à fragilidade financeira e ao nível de formação intelectual e crítica dos padres formadores – imersos numa forte cultura clerical –, tornava quase um luxo a questão de um projeto formativo específico para a província. Era como se eles dissessem “nós formamos padres de acordo com as orientações da Igreja” e pensassem que isso bastasse.

No plano intelectual, os padres formadores e bispos com os quais procuramos trabalhar estavam evidentemente muito distantes das perspectivas de uma psicologia social crítica, das diversas e complexas teorias da análise institucional e de um enfoque dialético das suas práticas formativas na instituição seminário. A implicação subjetiva é sempre um desafio a ser construído. É possível às vezes encontrar nos padres formadores um discurso arrojado, inclusive de esquerda, mas ele está normalmente desconectado de implicações efetivas e reais.

Nosso trabalho como pesquisador consistiu também em procurar problematizar a necessidade de um projeto político, pedagógico e místico para equacionar os problemas que detectávamos na formação dos seminaristas. Nossas intervenções, tanto orais em reuniões, quanto em nossa produção escrita, tinham esse sentido. Cremos que foi possível fomentar essa inquietação e propor uma discussão que provavelmente frutificará no futuro.

Surgiram resistências entre alguns padres formadores quanto às nossas intervenções: começaram a achar que sempre defendíamos os seminaristas, que os estimulávamos a se insurgirem contra os padres formadores, pensavam que estávamos colocando-os contra os seus superiores. Mas isso não nos foi dito de modo claro, direto e aberto. Depois de algum tempo, não fomos mais convidados para as reuniões sobre a formação dos seminaristas. Não recebemos nenhuma comunicação formal quanto a isso. Fomos desligados de modo sutil, sem maiores detalhes. Estratégia comum entre o clero: não enfrentar abertamente, mas simplesmente ignorar e congelar, expurgando mais tarde o que lhes está incomodando. Então ficamos sabendo por alto de que havia uma oposição surda ao nosso discurso. Em 2005 passamos a ser tolerados apenas como pesquisadores. Prosseguimos então com visitas semanais ao seminário teológico, conversando com os seminaristas, tomando as refeições com eles, coletando mais algum material e participando das jornadas de estudos. Em 2006 continuamos com visitas sistemáticas durante o primeiro semestre e finalmente realizamos apenas visitas esporádicas no semestre seguinte.

3.2 O DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO DOS SEMINARISTAS ESTUDANTES DE