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Ao contrário da Academia, que agrega o passado e o contemporâneo de modo mais dinâmico, o sistema de ensino enquanto instância de legitimação cultural cumpre um papel semelhante ao ocupada pela Igreja, ao definir o que é obra legítima e o que não é, no momento em que propicia ao indivíduo um corpo comum de categorias de pensamento que torna este campo algo comunicável a todos, segundo Bourdieu (2009). Além disso, esse sistema é mantenedor de um passado, cujo ritmo de evolução é extremamente lento, sendo uma instituição de conservação cultural. Desse modo,

[...] o sistema de ensino contribui para manter a defasagem entre a cultura produzida pelo campo intelectual e a cultura escolar, ―banalizada‖ e racionalizada pelas e para as necessidades da inculcação, isto é, entre os esquemas de percepção e de apreciação exigidos pelos novos produtos culturais e os esquemas efetivamente manejados a cada momento pelo ―público cultivado‖ (BOURDIEU, 2009, p.123).

Essa defasagem temporal entre a produção intelectual e artística e a consagração escolar constitui um princípio de oposição entre o campo de produção erudita e o sistema de instâncias incumbidas de difundir, consagrar e conservar um tipo determinado de bem cultural. Bourdier (2009, p.206) ainda discute sobre o papel da escola como um sistema de integração cultural, em que os indivíduos dentro do sistema de ensino são ―programados‖, ou seja, ―dotados de um programa homogêneo de percepção, de pensamento e de ação‖, partilhando, assim de um mesmo espírito literário ou científico, mantendo com seus pares uma relação de cumplicidade e comunicação imediatas. Nesse sentido, o que existe como realidade para o sujeito está determinado por aquilo que é aceito socialmente como real, sendo a escola aquela que, ao reorganizar o real, orientando-o e ditando modos de fazer e pensar uma forma particular em cada época, hierarquiza à sua maneira os objetos de estudo legítimos e seus pensamentos para o recebimento dos indivíduos no curso de sua aprendizagem.

A língua e o pensamento da escola operam esta ordenação pela valorização de certos aspectos da realidade: produto específico da escola, o pensamento por ―escolas‖ e por gêneros (designados por inúmeros conceitos terminados em ismo) permite organizar as coisas da escola, isto é, o universo das obras

filosóficas, literárias, plásticas ou musicais e, além delas ou por seu intermédio, ordenar toda a experiência do real e todo o real (BOURDIEU, 2009, p.213).

Além disso, ao fornecer indicações como também definir os itinerários, os métodos e programas de pensamento que fazem com que os sistemas de pré-conhecimentos recebidos pelos indivíduos e assim também o seu grau de instrução, a escola acaba por organizar os modos de ler e de se apropriar da forma canônica de se abordar obras e princípios fundamentais de hierarquia cultural.

Assim, cada vez que a literatura torna-se uma disciplina escolar – como por exemplo, no caso dos sofistas ou na Idade Média – constata-se o surgimento da preocupação de classificar, quase sempre mediante gêneros e autores, de estabelecer hierarquias e distinguir na massa das obras os ―clássicos‖, dignos de serem conservados pela transmissão escolar (BOURDIEU, 2009, p.215).

Nesse modo de organizar e reordenar as práticas de leitura e suas apropriações pela escola, as antologias e manuais passam a constituir o gênero por excelência, responsáveis pela valorização e ordenação do que a escola pretende definir. O mesmo, de maneira mais grave, ocorre com o ensino superior. A legitimidade dos veredictos das instâncias universitárias é reclamada pelos produtores culturais, conferindo a essa instância um lugar na ordem do discurso. É desse lugar, portanto, que analisamos o nome de Pereira da Silva.

Nesse sentido, partimos da constatação de que, segundo Bourdieu (2009, p.215), ―As antologias e os manuais constituem o gênero por excelência das obras destinadas à função de valorização e ordenação do que cabe à escola.‖, uma vez que eles cumprem o papel de direcionar os discursos e de estabelecer um modo de leitura e compreensão dos eventos culturais.

No que se refere aos manuais, conforme já anunciamos no tópico acerca do papel da crítica para a manutenção e apagamento do nome do autor, os livros de historiadores da literatura destinados às faculdades de Letras, como os dos autores Afrânio Coutinho, Antônio Candido, Alfredo Bosi e Massaud Moisés, apenas este último traz um capítulo destinado ao autor em questão. Esses manuais, no entanto, mantêm-se atrelados a uma tradição que remete às origens da própria produção de material didático dirigido à formação escolar, cujo pioneiro foi o Cônego Fernandes Pinheiro com a obra Curso Elementar de Literatura Nacional, publicado em 1862, seguido de outros compêndios como a Antologia Nacional de Fausto Barreto que, desde sua primeira publicação em 1895 e adoção em 1970 por todas as escolas

do país, segundo Segabinazi (2011, p.27) foi responsável por disseminar o cânone da literatura brasileira. Só a partir de 1930, surgem as primeiras faculdades de Letras, em que apenas nos seus últimos anos de curso a literatura nacional encontrava algum espaço. Porém, um movimento liderado da USP, em 1946, conseguiu através de um currículo opcional, dar maior espaço à literatura brasileira, segundo Lajolo (2009). Tal dado nos faz compreender a predominância dos manuais de autores como Antonio Cândido e Alfredo Bosi, nos currículos dos cursos de Letras. Assim, segundo Segabinazi (2011), só a partir da década de 1960 que se estabelece um currículo mínimo para o curso de Letras que passa a conferir um lugar privilegiado para a literatura brasileira, mantendo, no entanto, um enfoque historiográfico da literatura até os dias atuais, numa ausência da literatura local.

Nessa construção do cânone nacional, autores como Pereira da Silva passam a receber, no máximo, anotações de rodapé, cujo destaque é dado à figura de Cruz e Sousa. A própria literatura paraibana encontra-se associada aos autores consagrados nacionalmente, sendo a universidade, portanto, reprodutora de uma cultura dominante, baseada em critérios de seleção e escolhas pautadas numa história da literatura narrada a partir de escolas e do ponto de vista evolucionista na perspectiva dos modernistas.

Em contrapartida, algumas tentativas de inserção do nome de Pereira da Silva, assim como da própria literatura produzida por autores paraibanos no sistema de ensino ocorreram, por iniciativa de pesquisadores e estudiosos da literatura local. É o caso dos livros Coletânea de Autores paraibanos e Antologia Literária da Paraíba.

O livro Coletânea de autores paraibanos integra o projeto ―O Autor na Escola‖, num convênio celebrado entre o Secretário da Cultura, Esportes e Turismo e o da Pasta do Planejamento do Estado, destinados, inicial e preferencialmente, aos alunos do ensino médio das escolas paraibanas. Na sua apresentação, os autores – Ângela Bezerra de Castro, Chico Viana, Hildeberto Barbosa Filho, João Batista B. de Brito, João Trindade e Sérgio de Castro Pinto, este último coordenador do projeto – já apontam para o principal objetivo desta coletânea: introduzir autores paraibanos no domínio formal de estudos. Esclarecem, ainda, que não se trata esse livro de uma antologia, no sentido que se atribui ao gênero, mas uma obra de cunho didático, uma vez que as escolhas e o mérito desta coletânea não têm nos seus textos um fim em si próprios, mas tomados como meios para o questionamento linguístico- retórico-interpretativo e até gramatical, visando à escolarização e apropriação da literatura paraibana pelo sistema de ensino. O foco deste trabalho está limitado a uma abordagem de textos, cujo nível das questões levou em consideração a clientela a ser atingida: o estudante secundarista. Os autores esclarecem que este projeto destina-se preferencialmente a alunos do

ensino médio, porém pode ser utilizado nos primeiros semestres da graduação em letras e áreas afins:

Isto porque o suporte teórico em que está embasada consubstancia, em larga medida, sobretudo a nível de texto poético, o contributo das modernas correntes de teoria e crítica literárias. [...] uma seleção somente de autores paraibanos e, direcionada para esses autores, uma visão crítico-analítico moderna; centrada no discurso literário enquanto tal; privilegiando, em detrimento do moralismo e das generalidades pouco efetivas, os reais processos retóricos, linguísticos e semióticos que engendram o literário (PINTO, s/d, p.08).

Seguindo essa abordagem, o autor Hildeberto Barbosa Filho é o responsável pela abordagem da poesia de Pereira da Silva, na qual traz uma pequena biografia do escritor e um poema o qual será motivo de questionamentos linguístico-retórico-interpretativos.

O segundo livro, Antologia Literária da Paraíba (1993), das autoras Idelette Fonseca dos Santos, Lindalva Patrício de Morais, Maria de Fátima Almeida e Rivaldete Maria Oliveira da Silva, também seguem a mesma proposta da coletânea coordenada por Sérgio de Castro Pinto já citada, conforme indicado na apresentação do livro, diferenciando-se por escolher textos em prosa e em versos. Esta antologia é resultado do projeto didático-literário desenvolvido pelas professoras da UFPB, cujo objetivo primordial é colocar o aluno ―frente à realidade literária do seu estado e consequentemente de sua região.‖, conforme afirmam as autoras na apresentação do livro (SANTOS, 1993, s/p). Essa antologia talvez tenha encontrado um maior público leitor, uma vez que alcançou outra edição, como a que possuímos.

Entretanto, como afirma Bourdieu (2009), o sistema de ensino baseia-se na reprodução de uma estrutura de distribuição do capital cultural digno de serem desejados e possuídos. Assim, consciente desse papel que ocupa o sistema de ensino e as demais instâncias de consagração e manutenção do capital simbólico, os autores da Coletânea de autores paraibanos alertam para o fato de que não basta publicar o livro, para além desse passo é necessário o envolvimento efetivo dos órgãos educacionais como a Secretaria de Educação e a Universidade Federal da Paraíba, de cujos esforços dependem o êxito de iniciativas como estas.

No entanto, não encontraram ecos na Universidade Federal da Paraíba esses dois projetos citados. Nem mesmo na Biblioteca Central da UFPB, encontramos um livro dos sete escritos por Pereira da Silva, ao contrário ocorrendo com autores como Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, entre outros, todos estes consagrados pela

história da literatura atual, confirmando o fato de que os nomes da literatura paraibana, que ecoam nas salas de aula de seu ensino superior, limitam-se nomes de autores já consagrados nacionalmente.

As palavras dos autores da Coletânea de autores paraibanos vão ao encontro de todas as discussões que apresentamos ao longo de nossa tese: a literatura não está dissociada dos fatores externos a ela, muito menos distante das lutas simbólicas operadas pelas instâncias de poder a que se integra que, no caso desse capítulo, são elas a crítica, as Academias e o sistema de ensino, estes responsáveis por circular e tornar lida a produção do escrito nas diversas comunidades de leitores.

Assim a permanência ou exclusão de um nome de autor da lista do cânone passa por esses conflitos e tomadas de posição que cada agente de produção e consagração cultural ocupa. Essa organização das posições no tocante à legitimação, organizada segundo uma hierarquia, não se manifesta de forma consciente por seus agentes. Isso interfere também nas próprias escolhas das especialidades intelectuais e artísticas (semelhante ao que rege as escolhas profissionais – o êxito econômico e o status social).

Dessa forma, podemos concluir deste capítulo os seguintes aspectos: a crítica que se tornou autorizada silenciou o nome de Pereira da Silva, as Academias de Letras Brasileira e Paraibana não mais reeditaram nem retomaram seus livros em vista a dar-lhe mais visibilidade e, por fim, o próprio sistema de ensino que legitima um passado determinando a partir dele o que deve ou não ser lido e estudado, esses três fatores, aliados à falta de reedições há mais de setenta anos dos livros do autor, restringem sua comunidade de leitores àqueles que, por motivos diversos, ainda possuem seus livros guardados nas suas bibliotecas particulares ou a ele retomam por interesses de pesquisa.