As questões relativas a gênero e trabalho são abordadas por diversos autores a partir de distintas matrizes teóricas. A presente pesquisa recorre ao posicionamento de Hirata (2002) que, além de ser considerada uma autora de referência internacional no estudo do “modelo” japonês, por estudos pioneiros e consistentes nessa temática, atualmente se dedica ao estudo das questões de gênero, partindo da referência da sociologia do trabalho. A autora mantém constante interlocução com Dejours (2004g), que inicialmente não abordou a questão de gênero na psicodinâmica do trabalho; todavia, “convencido pelas pesquisas de Kergoat e Hirata”(p. 318), passou a considerar que “as relações sociais de sexo são indissociáveis das relações sociais de trabalho” (Idem). Esses dois autores mantêm posicionamentos divergentes em alguns aspectos54; todavia, produziram consenso nos pontos fundamentais relativos a gênero e trabalho que tocam a presente tese. Partidária da corrente que analisa a divisão sexual do
trabalho em termos de relação social, Hirata (2002) postula que
A divisão sexual do trabalho é sempre indissociável das relações entre homens e mulheres, que são relações desiguais, hierarquizadas, assimétricas e antagônicas. A divisão sexual do trabalho é, assim, indissociável das relações sociais entre homens e mulheres. Que são relações de exploração e de opressão entre duas categorias de sexo socialmente construídas (p. 280 e 281).
Fundamentada em diversas pesquisas empíricas realizadas que Japão e no Brasil, a autora ressalta que “não se pode falar em taylorismo sem falar de divisão sexual do trabalho” (p. 30). A pressão do tempo é sempre maior sobre as mulheres, que
54 Um dos pontos fundamentais em que Dejours (2004g) e Hirata (2002) apresentam divergência se refere à preponderância de elementos sociais ou psíquicos no fundamento da identidade psicológica: se esse debate deve ser fundamentado em referências da sociologia ou da psiquiatria.
se submetem a funções “cronometradas”, em que há maior coação; o preparo para essa posição inicia na infância, quando as mulheres são ensinadas a obedecer, a aceitar ordens, a se submeter. Assim, no mundo da produção as mulheres são caracterizadas como “mão de obra” dócil, porém sem iniciativa, que necessita de supervisão próxima, se adaptando com maior facilidade que os homens às pressões da organização fabril taylorista.
Além explorar as características psicológicas socialmente reforçadas nas mulheres, a organização de trabalho de base taylorista também se apropria das
habilidades chamadas “femininas”, desenvolvidas na “esfera doméstica”; utiliza esse
aprendizado a favor da produção, pois a fábrica explora características como a meticulosidade, a diligência, a habilidade manual. Todavia, as características chamadas “de mulheres” não são valorizadas no universo fabril: as funções que se tornam tipicamente “femininas”55 são as de menor remuneração (HIRATA, 2002).
No PIM as mulheres se tornaram maioria nos postos de linha de montagem. Na década de oitenta, quando se expandiu o segmento eletro-eletrônico com a produção local de componentes, a presença feminina ultrapassou os dois terços neste segmento, chegando a 75% em 1982 (SANTOS,1999). Os gestores do PIM preferem contratar mulheres porque essas demonstram maior habilidade que os homens no manuseio de componentes pequenos, além de demonstrarem maior paciência (VALLE, 2000).
O predomínio da presença de mulheres no PIM inicialmente foi uma alternativa à resistência dos homens à rigidez da hierarquia: esses eram considerados pelos chefes como “muito independentes” e não se submetiam à rigidez dos controles e à monotonia
55 No Japão essas características são explicitamente cultivadas dentro da empresa, através de cursos de arranjo de flores (ikebana) (HIRATA, 2002).
das tarefas. As mulheres são consideradas, pelos gestores, como uma força de trabalho dócil, submissa, paciente e mais adaptada a atividades repetitivas. Além disso, se submetem a salários mais baixos que a média masculina, a despeito de apresentarem produtividade 40% superior a dos homens (SALAZAR, 1992; VALLE, 2000). Valle (2000) destaca ainda que a preferência pelo trabalho feminino, no PIM, tem por base as características que “[...] explicitam, na verdade, a relação de poder que lhes é implícita. A montagem é percebida como ‘trabalho de mulher’ por ser um trabalho ‘simples e fácil’ de realizar56. Disso decorre o seu baixo valor econômico social e a recusa masculina em realizá-lo” (p. 132).
Na área de inserção automática, objeto da presente pesquisa empírica, as mulheres ocupam todos os postos de revisora; essa função é considerada a menos qualificada da seção: o trabalho é mais monótono, consistindo principalmente na inspeção visual de componentes. Inicialmente essa era a única função desempenhada por mulheres na referida seção, o que evidencia a dimensão sexuada da divisão sexual
do trabalho e as relações desiguais entre homens e mulheres (HIRATA, 2002) presente
na área de automação.
Segundo o gerente da empresa B, os gestores constataram que as mulheres apresentam um desempenho melhor do que os homens; por esse motivo as mulheres também passaram a ser contratadas para o cargo de operadora de máquina, função
56 O perfil buscado para a área operacional, nas décadas de 80 e 90, era o é o de mulheres jovens (16-25 anos), preferencialmente sem experiência (mais fácil adesão à ideologia da empresa) e sem filhos, com disponibilidade para horas extras, o que implicava dificuldade de continuar os estudos. O desgaste resultante do trabalho em linha de montagem conduz a uma curta “vida útil” da montadora, que apresenta redução de produtividade a partir de três ou quatro anos consecutivos neste trabalho, momento em que eram substituídas (VALLE, 2000). Apesar de serem maioria nas linhas de montagem, raramente as mulheres ascendem na hierarquia, especialmente em empresas japonesas: a passagem das mulheres pela fábrica é vista como uma condição temporária, que será interrompida pelo casamento e chegada dos filhos (HIRATA, 2002). Embora no PIM o possível casamento e a possível chegada filhos não representem interrupção da trajetória de trabalho, as mulheres têm menor possibilidade de ascensão na Empresa B.
que anteriormente era desempenhada exclusivamente por homens (SANTOS,1999). A ascensão das mulheres ao posto de operadora também se relaciona à aquisição de máquinas de SMD – Surface Mountain Device, mais velozes: as mulheres apresentam maior rapidez no trabalho que exige perícia manual (HIRATA, 2002). Além disso, o trabalho nessas máquinas é caracterizado como “mais leve”, o que foi mencionado, em informação oral57, como situação que favorece a contratação de mulheres para o posto
de operadora de inserção automática.
Assim, embora ingressando na função menos qualificada, nas duas empresas onde foi realizado o trabalho de campo, as mulheres vêm progressivamente conquistando maior espaço: na Empresa B a presença feminina na inserção automática já representa 30% das vagas (todas as de revisora e algumas de operadora). Segundo o gerente geral desta área58, o aumento na contratação de mulheres se deve ao fato de que elas são mais pacientes, dedicadas e cuidadosas, o que as torna mais indicadas para manuseio de peças pequenas; esse discurso revela a divisão sexual do trabalho também na automação. Na Empresa A as mulheres já são maioria na inserção automática, ocupando 70% das vagas: todas as de revisora e grande parte das de operadora; nessa empresa os supervisores informaram que as mulheres também são mais responsáveis que os homens, além de serem habilidosas.
Dessa forma, na automação de inspiração taylorista do PIM, o aumento de mulheres se relaciona às mesmas razões da linha de montagem tradicional: na divisão sexual de trabalho, elas apresentam as características ditas “femininas”, necessárias em determinados postos, nos quais os homens têm menor produtividade. Não se trata
57 Informação oral fornecida pela secretária da área de inserção automática da Empresa B, durante a pesquisa de campo.
de ampliação de espaço por alguma conquista no plano político, mas de melhor atender aos interesses da produção.
Hirata (2002) analisa a razão pela qual as mulheres se mostram mais submissas que os homens no local de trabalho: apresenta a hipótese de que essas têm maior dificuldade em construir práticas coletivas de defesa contra o sofrimento no trabalho, porque se negam enquanto coletivo sexuado. Geralmente se remetem a saídas individuais e biológicas, dedicando-se à maternidade e lutando menos pela carreira.
Analisando essa questão da submissão das mulheres no trabalho, Dejours (2004f) ressalta que as estratégias de defesa dos homens contra o sofrimento do trabalho se fundam na negação do real; no caso das mulheres, as estratégias coletivas de defesa se fundam no reconhecimento do real e da experiência afetiva do fracasso que lhe está associado. Sendo mais realistas, as mulheres reconhecem os riscos e
preferem ceder para evitar conflitos e rupturas; paradoxalmente, perdem na guerra da
dominação. Os homens, em contrapartida, se negam a reconhecer o fracasso e procuram manter o domínio da situação, tanto nos embates no plano do trabalho como na esfera doméstica.
Os posicionamentos dos dois teóricos são diferentes, mas não antagônicos; e indicam pistas de análise. Na fala das operadoras não foi possível identificar se estas se reconhecem como coletivo sexuado; e a busca da conciliação parece presente na tentativa de se desdobrar para conciliar as múltiplas demandas daquelas que necessitam trabalhar em casa e na fábrica; convém destacar que, no caso das operadoras que são “mães solteiras” e provedoras, conciliar “casa” e “trabalho” não é uma opção, mas uma questão de sobrevivência.
2.4.1. Trabalhadoras de múltipla jornada: operadoras / mães / donas-de-casa
As situações familiares se relacionam às condições profissionais de forma indissociável (HIRATA, 2002). Um dos aspectos que atinge a mulher de forma contundente é a realidade da múltipla jornada, pois necessita se desdobrar em diversos papéis: o de profissional, de dona-de-casa e de mãe. As mulheres que são mães, não dispõem de ajuda do pai da criança e de mais ninguém para os cuidados com os filhos, e ainda são provedoras de família, estão em uma situação delicada e singular, que determina a maneira como se relacionam com o trabalho e com o risco do desemprego.
Essa condição de “mãe solteira” e de provedora exerce uma influência decisiva na forma como as trabalhadoras se submetem a situações desgastantes, movidas pela necessidade de sobrevivência. O considerável desgaste do trabalho fabril se soma ao
desgaste do trabalho noturno, que possibilita “conciliar” as tarefas “de casa” com as da
fábrica, ao custo de enorme esforço, como explica Isabel, operadora da Empresa B:
Eu optei [pelo terceiro turno] porque... eu não tenho com quem deixar minha filha durante o dia. Tinha uma pessoa que cuidava dela só que... não cuidava bem da minha filha, não cuidava direito, e minha filha não tava gostando mais de ficar com ninguém, ai então eu tive que optar por esse turno, ai até ela acha bom (...) esse turno não é... é um turno muito cansativo, mas se você tem filho, tem casa, ai se torna um pouco [mais] cansativo. Eu optei por causa disso (solteira, mãe de uma menina de 5 anos).
O desgaste da dupla jornada de trabalho no terceiro turno (22 h às 06 h) e do cuidado com a casa e com as crianças durante o dia também é um reflexo do baixo poder aquisitivo. As trabalhadoras de renda mais elevada, em Manaus, usualmente pagam a outras pessoas para executarem os trabalhos domésticos. No caso da
operadora Isabel, o cansaço é tamanho que ela chega ao ponto de recorrer ao uso de estimulantes para conseguir trabalhar: usa guaraná em pó para se manter ativa durante a jornada de trabalho, porque não tem tempo para dormir o mínino indispensável durante o dia:
(...) O terceiro turno não é pra qualquer um não, tem que ter muito pique, porque... pra quem é dona de casa...É, vou lavar, passar, cozinhar pra ela [filha].(...) Se tivesse alguém pra ficar com ela durante o dia, eu trabalhava durante a noite sem tanto sofrimento, né, que pra noite não é pra qualquer um não... (...) porque se conseguir dormir durante o dia... trabalha normal assim. Eu [não dorme durante o dia], só tomando pó de guaraná” (Empresa B).
A situação de sobrecarga a que está submetida a operadora Isabel atinge muitas mulheres no PIM e revela uma faceta das relações sociais entre homens e mulheres, em que a dominação masculina submete a mulher à responsabilidade pelo cuidado com os filhos e pelos trabalhos domésticos, além das tarefas profissionais. A naturalização dessa situação exemplifica a relação de exploração dos homens sobre as mulheres: o pai não assume qualquer responsabilidade sobre os cuidados ou despesas da criança, cabendo à mãe se desdobrar e “conciliar” casa e trabalho, ao custo de extremo cansaço, que conduz ao uso de estimulante, agravando os riscos à sua saúde.