A análise de conteúdo das matérias, como vimos, foi a metodologia escolhida para atender ao objetivo principal e aos objetivos específicos da pesquisa, relacionados às
características das narrativas e aos valores-notícia predominantes nas reportagens. No entanto, eles são insuficientes para compreender o processo de produção desses trabalhos e em que medida os repórteres foram influenciados pelo contra-agendamento institucional e qual a contribuição para mudanças na cultura profissional.
Exceto a reportagem Cozinha Verde, de Larissa Pereira, todas as demais estavam incorporadas em séries de reportagem, apesar de só as de Wendell Rodrigues terem sido inscritas como tal no Prêmio. As demais foram inscritas isoladamente, porém foram veiculadas numa estratégia em série.
Estes formatos são intencionais não só para inscrição em prêmios, mas como estratégia editorial das emissoras. Para Sousa (2003), as notícias apresentam um formato e um conteúdo e “o formato corresponde à forma com que o conteúdo se apresenta”, o que condiciona “a atenção e, portanto, a percepção e a apreensão de uma notícia”.
Mas os meios de comunicação influenciam muitas pessoas em simultâneo, daí que os efeitos das notícias, embora radiquem primariamente em cada pessoa, devam ser considerados prioritariamente a nível social, ideológico, cultural e civilizacional. Os efeitos das notícias variam em função das pessoas porque as pessoas são diferentes entre si e vivem rodeadas de diferentes circunstâncias. (SOUSA, 2003, p. 8).
O autor considera que, além das rotinas de produção, fortemente presentes nos estudos de newsmaking e agendamento, as rotinas cognitivas dos jornalistas e sua cosmovisão (DIAS, 2014) são determinantes na construção cotidiana das notícias. As possíveis dissonâncias cognitivas destes profissionais, em função também, das rotinas de produção, ocorrem dentro dos limites da racionalidade a que estão sujeitos, como todo ser humano no seu respectivo ambiente de trabalho.
Portanto, para complementar esta pesquisa e compreender melhor como produziram estas reportagens, os cinco repórteres - Wendell Rodrigues, Richelli Bezerra, Laerte Cerqueira, Sabrina Lima e Larissa Pereira - foram indagados com as seguintes perguntas:
a) como a pauta foi definida e por que ela foi escolhida para concorrer ao Prêmio Sebrae de Jornalismo?
b) qual a sua percepção da relação entre assessoria de instituições e redação na composição do agendamento midiático?
c) a partir desta (s) reportagens ou por influência delas, houve mudanças na forma de enxergar e abordar os temas empreendedorismo e desenvolvimento?
As respostas, na íntegra, podem ser vistas no apêndice A desta dissertação, mas aqui, nos limitaremos à algumas observações e citações a fim de responder a um dos objetivos específicos da pesquisa que é compreender o processo de produção desses trabalhos e em que medida foi influenciado pelo agendamento institucional, contribuindo para mudanças na cultura profissional.
Primeiro que há, editorialmente falando, decisões que favorecem alguns destes repórteres, como é o caso de Wendell Rodrigues, de forma mais explícita, que faz parte de um núcleo especial dentro da redação e, portanto, conta com fatores importantes como equipe ampla, tempo, liberdade e até liderança na condução da pauta e participação no processo de finalização.
A intencionalidade em relação a “ganhar o prêmio” não é explicitada e há casos em que só depois de veiculada, se pensou nesta possibilidade (Cozinha Verde). Há sinais de valores comuns, do tipo “gosto de buscar personagens com histórias de superação”, “acho importante termos matérias positivas, que tragam exemplos” ou “temos que fazer matérias que mostrem como deve ser feito, que existem iniciativas positivas, apesar de muita degradação e ineficiência do poder público”.
Quando o assunto é agendamento institucional, ou seja, a relação com as assessorias das instituições, neste caso o Sebrae, mas não só dirigido a ele, existe um entendimento comum dos papéis de ambos - redação e assessorias - o que também favorece a construção de reportagens. A intervenção direta para garantir que os assessorados destas instituições estejam presentes ou que as reportagens saiam conforme a instituição deseja é mal vista.
“Em relação a assessoria de imprensa, eu acho que tem assessoria que mais atrapalha do que ajuda (...) tem assessoria que quer ajudar tanto, ou quer de toda forma meter um entrevistado e acaba atrapalhando, acaba ficando chato” (RB).
“Para deixar um percentual bem específico, bem real mesmo, eu diria que a cada dez personagens que escolhemos, quatro vem dessa relação, desse diálogo entre as redações e as assessorias, e seis, de fato, de uma percepção, de um olhar nosso” (WR).
Já em relação à influência que estas reportagens tiveram no modo com que estes jornalistas abordam os temas empreendedorismo e desenvolvimento remete a um processo de aprendizado e ampliação do entendimento em relação ao significado de empreender.
“
Eu fiquei encantada com o turismo de experiência. Mudou bastante a minha maneira de olhar o empreendedorismo. Descobri, através da série, que é possível gerarrenda aproveitando as riquezas de um local sem intervir na tradição, na realidade local” (SL).
“Aí eu passei a enxergar as várias facetas, as várias possibilidades de empreendedorismo, não só aquelas empresas fechadas ou aquelas iniciativas de um empreendedor só, mas um empreendedorismo social, coletivo, e que mudou a vida daquelas pessoas e de outras” (LP).
Por fim, destacar que, apesar da conotação geral da mensagem em todas as reportagens, há maneiras de fazer contrapontos entre os pólos negativo x positivo, sem parecer que o jornalismo está deixando de lado o caráter denuncista. A estratégia da série “Caravana JPB” incorporava os dois pólos, trazendo sempre uma reportagem negativa, para depois mostrar soluções encontradas, num exemplo de adaptação do jornalismo cívico.
“Com relação àquela matéria da Agroecologia, a gente queria fazer uma matéria que tivesse exemplos ruins, mas que descambasse para bons exemplos, exemplos que mostrassem que era possível olhar para a natureza de uma maneira sustentável” (LC).
E, para encerrar este subcapítulo das entrevistas, vale ressaltar a percepção do jornalista Laerte Cerqueira, ao observar, espontaneamente, a importância do conhecimento como condição para melhor empreender. Pelo menos em 15 reportagens, o enunciador (repórter) ou as próprias fontes-personagens relatam que buscaram informações, se capacitaram, ou seja, se prepararam para empreender.
“Ninguém é empreendedor sem estudo, sem conhecimento. E eu acho que o conhecimento é transformador. Então, quando você diz „Ah, vou ser empreendedor‟, eu vou precisar estudar alguma coisa, vou precisar ter tem alguma especialidade. Isso é uma transformação. A transformação começa nessa necessidade de obter conhecimento, para se transformar e transformar o outro” (LC).