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1.2. İDARİ YAPTIRIM-CEZA YAPTIRIMI AYRIMI

1.2.2. İdari Yaptırımlar ile Ceza Yaptırımları Arasındaki Farklar

Ilustração 3: Capa do romance Sonhos bloqueados, de Laura Honda-Hasegawa.

(Fonte: http://www.discovernikkei.org )

O romance de Laura Honda-Hasegawa, Sonhos bloqueados, nos chama a atenção para o fator tempo que, ao contrário de Brazil-Maru, não segue a linha cronológica. O romance inicia a história in media res, de forma que o leitor tem conhecimento da trama completa através dos flashbacks da protagonista Kimiko. O recurso utilizado é o tempo psicológico, o qual é caracterizado pelo uso de constantes flashbacks, a partir dos quais retorna sucessivamente ao passado próximo para reviver momentos de sua vida.

Os flashbacks para Kimiko atuam como recursos para justificar sua atitude no presente, assim como para ajudá-la na compreensão dos fatos e nas suas construções identitárias. Nesse sentido, Benedito Nunes salienta sobre a conexão entre o primeiro evento (causa) e o segundo evento (efeito) que não pode ser invertida. O tempo psicológico possibilita o jogo entre o

51 passado e o presente, resultando em momentos imprecisos que se fundem e aproximam-se “ao sabor de sentimentos e lembranças” (NUNES, 2003, p. 19).

Quanto ao narrador em Sonhos bloqueados, temos a narrativa de Kimiko, contando a própria história como narrador protagonista na primeira pessoa e, como participa diretamente do enredo, o seu campo de visão é limitado, ou seja, não é onipresente, nem onisciente.

Diferente de Brazil-Maru, o romance de Laura Honda-Hasegawa não descreve a vinda dos imigrantes japoneses para o Brasil, nem relata as suas expectativas e esperanças no Novo Mundo. O romance de Laura Honda-Hasegawa narra a história prosaica de uma descendente de japoneses, uma simples “dona de casa” em busca da construção de sua identidade hifenizada, ou seja, nipo-brasileira.

O romance está dividido em quatro partes apresentadas da seguinte forma: Do Lar, Da Liberdade, Das Pequenas Alegrias e Lembranças do Passado, Da Ausência de Cada Um. Em cada capítulo a protagonista envereda nas reminiscências27 do passado, numa tentativa de entender o presente. Através do olhar de Kimiko podemos perceber certas nuances das experiências que o sujeito diaspórico vivencia no seu dia-a-dia e quais as estratégias que utiliza para dar a tônica à sua identidade cultural.

A forte tradição patriarcal japonesa é uma das características que a comunidade nipônica brasileira carrega no seio de sua identidade cultural. Contudo, mesmo essas tradições estão sendo descentradas na modernidade, onde o conceito de identidade cultural passa a ganhar um novo fôlego interpretativo. A modernidade é uma via de mão dupla que pode oferecer tanto benefícios como malefícios. Os perigos dos avanços tecnológicos, econômicos e sociais afetam diretamente determinados grupos sociais. Nesse sentido é pertinente a preocupação de vários teóricos com a possibilidade de que um determinado grupo étnico abrace a sua cultura e tente garantir a sua cristalização.

Kimiko nasceu, cresceu e passou toda a sua vida cercada pelas tradições japonesas e brasileiras. A conciliação dessas duas culturas foi negociada pela necessidade de sobrevivência; ela faz parte de um grupo que “são obrigadas a negociar com as novas culturas

27Maria Jandyra Cavalcanti Cunha (2007) explica que sob o “ponto de vista da psicologia cognitiva, a memória

é a faculdade de conservar e lembrar estados de consciência passados e tudo quanto se ache associado aos mesmos. Na psicologia analítica, as memórias são reminiscências, lembranças que ocorrem ao espírito como resultado de experiências já vividas. No domínio da literatura, memórias são o relato que um escritor faz de acontecimentos fundamentados em sua vida particular [...]”(CUNHA, 2007, p.18). Pensando no gênero memórias, a protagonista revela sua identidade feminina e se posiciona como mulher ao lembrar fatos vividos por ela mesma.

52 em que vivem, sem simplesmente serem assimiladas por elas e sem perder completamente suas identidades” (HALL, 2006, p. 88). Mesmo tendo nascido no Brasil, Kimiko se considera uma japonesa nata, diferente de outras mulheres que ela denomina “brasileiras” e em outras ocasiões em que a identidade cultural japonesa é sua aliada, como ocorre em algumas passagens de Sonhos bloqueados (1991).

Embora o convívio de Kimiko seja predominantemente com a cultura japonesa, ela não consegue fugir das experiências diretas com a cultura brasileira. Nesse sentido, o outro pode ser reconhecido como aquele que é dotado de valores peculiares, os quais não impedem um relacionamento mútuo, permitindo permutações construtivas e positivo. Exemplo do contato entre as culturas japonesa e brasileira se dá quando algumas vizinhas resolvem fazer uma visita: “A notícia se espalhou e as vizinhas foram me fazer uma visita. Fiquei meio sem jeito, porque o quarto era pequeno, sem conforto e eu não possuía roupa de cama tão bonita como das donas de casa brasileiras” (HONDA-HASEGAWA, 1991, p. 20).

Em razão disso, através desses contatos, ela é contaminada sem perceber, e de alguma forma isso a deixa perturbada, como no primeiro exemplo em que as donas de casa brasileiras vão visitá-la, com o pretexto de dar as boas-vindas ao primogênito recém-nascido, mas o leitor termina por perceber que a verdadeira intenção delas era delatar o passado promíscuo do marido de Kimiko. O desconforto metaforizado por não ter “roupa de cama tão bonita”, é apenas um indício de que as “fofoqueiras” não vieram fazer uma visita amigável e sincera. Na realidade, Kimiko não se preocupa em imitar as decorações das casas brasileiras, sobretudo porque ela não tem como modelo os estilos de roupas das brasileiras, e sim as japonesas. Isso pode ser notado num comentário, no qual as blusas de tricô e crochê apreciadas e almejadas são as de modelo japonês: “Quanto a mim, possuía uma única blusa de frio; muitas vezes, folheando revistas japonesas de tricô e crochê, eu ficava maravilhada com os modelos de muito bom gosto e elegância, mas ficava só no desejo... Primeiro, as crianças” ( HONDA- HASEGAWA, 1991, p. 43).

A convivência e a preferência de Kimiko e de sua família pela comunidade japonesa é reforçada quando ela e sua irmã caçula vão morar na capital paulista:

O endereço conferia. Era mesmo o pensionato de dona Miyuki Nakamura, viúva de um grande amigo e conterrâneo de meu avô. Haviam chegado todos no mesmo navio, deixando para trás as brancas

53 paisagens de Aomori, na esperança de que aqui encontrariam o Eldorado (HONDA-HASEGAWA, 1991, p. 62).

Nessa passagem podemos notar que uma das características das comunidades diaspóricas é a necessidade em manter-se conectado um com outro. Mesmo vivendo em comunidades diferentes, os sujeitos diaspóricos mantêm uma conectividade muito forte entre eles (TÖLÖLYAN, 1996, p.14). Quando Kimiko vai para a cidade de São Paulo acompanhar a irmã caçula Teresa que ingressara na faculdade, a ligação forte com a comunidade japonesa continua. O bairro é o da Liberdade, mundialmente conhecido pela forte predominância da comunidade japonesa, casas, lojas, hotéis, pensionatos, bancos, todos direcionados à colônia.

O pensionato pertencente à dona Miyuki Nakamura não foi escolhido ao acaso; a senhora Nakamura é viúva de um antigo amigo de seu avô. Todos os japoneses vieram juntos no mesmo navio. O deslocamento de Kimiko é apenas espacial, pois ela continua no mesmo círculo fechado da comunidade japonesa. Essa articulação limitada conduz à construção de uma identidade cultural circunscrita numa realidade única e sacralizadora, tendendo sempre ao mesmo quadro de referências.

Outro episódio marcado pelas diferenças culturais é a festa de casamento da amiga Yumi:

Depois do brinde acompanhado de um sonoro “Viva!Banzai!”, todos nós partimos, sem perda de tempo, para os comes e bebes. [...] Constituía um espetáculo à parte a reação dos poucos brasileiros diante das iguarias típicas. Naquela época, diga-se de passagem, a comida japonesa não tinha tanto cartaz entre os brasileiros, não. Poucos se atreviam a prová-la e, se experimentavam, dificilmente repetiam a dose ( p. 77).

A cerimônia foi tipicamente à brasileira numa igreja católica, a festa tipicamente japonesa no Clube Japonês de Vila Carrão, as comidas brasileiras (coxinhas, croquetes e bolinhos de bacalhau) e japonesas (bolinhos de arroz enrolados em alga marinha e aperitivos de peixe cru) “disputavam cada pedaço da mesa, lado a lado”, como descreve Kimiko (HONDA-HASEGAWA, 1991, p. 77). Nesse encontro, as duas culturas, japonesa e brasileira, da mesma forma que parecem conciliar, atritam-se num jogo de assimilação: entram no caldeirão do melting pot brasileiro, se misturam sem deixar de perder a sua individualidade e características próprias. Ou seja, a diferença que existe entre as culturas não pode ser solapada

54 numa estrutura universalista, uma vez que se torna quase impossível e “contraprodutiva” a tentativa de juntar duas culturas diferentes. Sobretudo, ter a pretensão de que essas diferentes culturas possam coexistir pacificamente (BHABHA, 1990b, p. 209).

Kimiko relata que as iguarias típicas constituíram um espetáculo para os poucos brasileiros que compareceram à festa. Porém, um espetáculo no sentido negativo, já que poucos se atreviam a experimentar a comida japonesa e os que provavam, não repetiam. Outro episódio sobre a comida típica japonesa foi quando Kimiko era criança: uma vizinha brasileira ficou horrorizada ao experimentar uma sopa de mariscos feita por sua mãe. Segundo Kimiko, a vizinha ao perceber que a sopa era feita com conchas de mariscos, assustou-se e jogou a tigela no chão e saiu correndo; nunca mais voltou.

A posição de Kimiko com relação aos costumes japoneses também é refletida na forma como ela cumprimenta sua irmã Eiko:

[...] Recebeu-me com um sorriso discreto, estendendo a mão. Não nos abraçamos nem trocamos beijinhos – não era costume nosso. Curiosamente, tanto ela como eu cumprimentávamos as amigas à moda brasileira. Nem sei o porquê dessa diferenciação... (HONDA- HASEGAWA, 1991, p. 89).

Nesse exemplo, cabe notar a posição em que Kimiko se coloca diante dos costumes brasileiros. Ao dizer que “não era costume nosso” e “à moda brasileira”, quando se refere à diferenciação entre o ato de cumprimentar sua irmã e suas amigas, Kimiko se posiciona à margem de “ser” brasileira, como se não pertencesse à nação brasileira. Ela sempre fala em nome de sua cultura japonesa e termina por se referir à cultura brasileira como sendo a cultura do outro. Esta posição de enunciação pode ser refletida conforme a glosa de Stuart Hall (1990): “Todos nós escrevemos e falamos de um lugar e tempo particulares, de uma história e cultura específicas. O que dizemos está sempre “em contexto”, posicionado28(HALL, 1990, p. 222). Para Kimiko ser diferente do “brasileiro” apenas reforça a sua necessidade de garantir a

28 We all write and speak from a particular place and time, from a history and a culture which is specific. What

55 sua identidade diaspórica, em outras palavras, ser nikkei significava manter sua posição hifenizada29 de nipo-brasileira.

A identidade nikkei de Kimiko muitas vezes a impediu em aceitar certos tipos de trabalho, principalmente quando se tratava de estereótipos construídos pela sociedade. No exemplo seguinte, temos as condições do novo emprego de Kimiko que a deixaram perplexa e atordoada: “Tudo, menos isso!” (HONDA-HASEGAWA, 1991, p. 133), foi sua reação à proposta de ser empregada doméstica. Imediatamente lembrou-se de Marinalva, uma senhora negra e enorme que trabalhava como doméstica. A imagem cristalizou-se em sua memória como se todas as empregadas domésticas tivessem esse perfil. Contudo, o triângulo composto pela identificação linguística, cultural e étnica contribui para que a protagonista aceite seu novo emprego. Mayumi Kobayashi é esposa de um executivo japonês, que permanecerá no Brasil por alguns anos. Ela é jovem, descontraída, educada, culta, e acima de tudo, japonesa. Todas essas características positivas culminaram na aceitação do emprego de doméstica:

Mesmo nos tempos difíceis, quando precisei fazer alguma coisa para ajudar no orçamento, nunca pensara em trabalhar na casa dos outros. Mas agora seria um pouco diferente, porque a patroa era uma pessoa amável, simpática e o principal: japonesa como eu. Embora tenha nascido no Brasil, minha educação foi japonesa e me entendo melhor com os de minha raça. Os brasileiros, muitas vezes, são imprevisíveis, têm atitudes e reações sem sentido para mim. Não sei se é por causa do meu trabalho, lidando somente com mulheres, não sei se é cisma minha mesmo, mas os poucos aborrecimentos que tive na minha profissão, por exemplo, aconteceram com freguesas brasileiras (HONDA-HASEGAWA, 1991, p. 134).

Kimiko, ao reforçar a sua preferência pela “raça” japonesa, demonstra não conseguir superar as decepções que teve com os brasileiros. Segundo Kimiko, os brasileiros tomam certas atitudes que ela não consegue compreender e na maioria das vezes são “sem sentido”. A abertura para o outro neste caso é praticamente nula. O nativo torna-se o outro, o estrangeiro na própria terra.

É o que sugere esse último exemplo, no qual a protagonista queixa-se da não aceitação pelo outro, em relação à aparência do japonês30, principalmente os “olhos rasgados”. Ela

29 Os sujeitos hifenizados, no contexto contemporâneo brasileiro, são aqueles que possuem uma ascendência

estrangeira e nacionalidade brasileira. Temos como exemplos: nipo-brasileiro, sírio-libanês, sino-brasileiros, entre outros. A etnicidade hifenizada no Brasil é predominante, embora não reconhecida (LESSER, 2001, p. 20).

56 denomina os brasileiros de gaijin, que conforme vimos anteriormente, é uma expressão pejorativa que significa estrangeiro.

[...] E o que esses gaijin têm contra os nossos olhos rasgados? Será que incomodam tanto? Mamãe nos ensinava que devemos respeitar e preservar com amor as características que Deus nos deu. Se Ele nos fez com olhos pequenos, devemos agradecer-Lhe e orar pela saúde deles. A beleza exterior advém com a alegria espiritual, com a pureza nas intenções, nos pensamentos, nas atitudes. Minha convivência com mamãe foi de apenas doze anos, no entanto, continuo aprendendo muito com ela, através do seu exemplo de vida (HONDA- HASEGAWA, 1991, p. 158).

Nessa passagem, Kimiko sugere um posicionamento de superioridade ao apontar o brasileiro como o estrangeiro, esquecendo que ela está no Brasil, o país daquele que ela chama de gaijin31.

Benzer Belgeler