Ao ter o íntimo relacionamento entre linguagem e divisão de trabalho em mente, Bersntein (1971) desenvolveu seus conceitos de código restrito e código elaborado sugerindo que o primeiro opera em ocupações que são principalmente manuais e o segundo opera em ocupações que são principalmente lógicas (dependentes de raciocínio complexo). De acordo com ele, há dois grupos principais na sociedade que dominam esses códigos: um grupo que controla o código restrito e outro que controla ambos os códigos. Esses códigos lingüísticos modelam os indivíduos de formas diferentes na sociedade e dão a eles habilidades específicas e acesso a diferentes contextos sociais.
Segundo ele, esses códigos podem ser lingüisticamente definidos em termos da predição dos elementos sintáticos que serão escolhidos pelos indivíduos para a organização dos significados (Bernstein, 1971:76). Durante a utilização do código elaborado, os indivíduos utilizam um vasto número de elementos sintáticos, e por isso torna-se mais difícil prever o modelo de organização dos elementos. No entanto, ao utilizar o código restrito, a possibilidade de previsão do modelo é ampliada, pois o leque de escolhas sintáticas é diminuído. Esses códigos são funções de formas de relacionamento social distintas, são qualidades da estrutura social (Bernstein, 1971:77).
Ainda segundo Bernstein (1971:78) o código restrito facilita a construção e a troca de símbolos sociais (facilita a elaboração verbal da experiência do grupo social) e, por sua vez o código elaborado facilita a construção e a troca de símbolos individualizados (facilita a elaboração verbal da experiência do indivíduo). Devido sua natureza menos complexa, o código restrito pode ser aprendido informalmente e mais prontamente. Isso já não acontece com o código elaborado que requer um período mais longo de aprendizagem. Além disso, a aprendizagem dos códigos não está relacionada a fatores psicológicos, e sim com as posições sociais ocupadas pelos indivíduos dentro da sociedade, pois essa posição tornará disponível um ou outro modelo discursivo (Bernstein, 1971:79;130). O que está disponível durante a aprendizagem, as condições em que se dá aprendizagem e conseqüentemente suas limitações são diferentes nesses dois códigos (Bernstein, 1971:81). O código restrito pode surgir a qualquer momento na interação social, desde que o contexto assim exija. No entanto essa situação é diferente daquela em que o indivíduo é limitado ao uso desse
77 código (Bernstein, 1971:109). Como mencionado anteriormente, essa é a situação da maioria dos indivíduos oriundos de um determinado contexto social ou, em outras palavras, de um determinado grupo social.
O código restrito surge onde as relações sociais são baseadas fortemente em significados, identificações e expectativas compartilhadas. Por isso, é possível dizer que o código restrito surge em culturas em que prevalece o nível social (nós), e não o individual (eu) (Bernstein, 1971:146). Bernstein cita como exemplo o relacionamento de longo prazo entre marido e mulher, em que os significados trocados entre eles não necessitam ser completamente explícitos para que sejam compreendidos por eles. Nesse sentido, podemos pensar também na comunicação entre dois grandes amigos que podem contar com gestos sutis e “meias-palavras” para que exista sucesso na comunicação e ambos se entendam. Se pensarmos nesses exemplos, podemos observar que há situações em que o código restrito é completamente apropriado (Bernstein, 1971:147).
Por sua vez, o código elaborado surge em culturas que enfatizam o âmbito individual (eu), mais do que o social (nós). Nas situações que exigem o uso do código elaborado o que se quer dizer não pode ser compreendido por meio de significados implícitos, por isso os significados tem que ser expandidos e explicitados. Há uma grande lacuna entre o falante e os outros envolvidos na interação (Bernstein, 1971:147). Além disso, como vimos, esse código facilita a elaboração e transmissão da experiência individual (Bernstein, 1971:128), ele induz uma expectativa de separação e diferenciação dos outros indivíduos (Bernstein, 1971:133). Segundo Bernstein (1971:133), há dois modos de código elaborado: um que facilita as relações entre pessoas e o outro que facilita as relações entre objetos. Uma pessoa que estuda artes, por exemplo, tem probabilidade de possuir um código elaborado facilitador das relações interpessoais, enquanto uma pessoa que atua no âmbito das ciências aplicadas tende a possuir desenvolvimento na modalidade facilitadora das relações entre objetos. É possível que certos ambientes familiares e escolas possam favorecer o desenvolvimento de um ou outro modo, ou mesmo dos dois. Portanto, assim como nas diferenças de domínio entre o código elaborado e restrito, essa variação no domínio dos dois modos do código elaborado pode ser explicada pela influência ambiental.
Ao estudar o contexto social que origina esses códigos (pois como já foi dito seu desenvolvimento não tem relação com fatores psicológicos) Bernstein (1971:81) relaciona o código restrito com indivíduos oriundos da classe trabalhadora e grupos rurais, e o código
78 elaborado com indivíduos oriundos da classe média (essa relação é probabilística e não determinística, como foi dito acima). Um indivíduo socializado5 dentro de ambientes da classe média tende a desenvolver domínio em ambos os códigos, enquanto um indivíduo socializado em ambientes referentes à classe trabalhadora provavelmente será limitado ao desenvolvimento do código restrito (Bernstein, 1971:136). Isso indica que a posição social vivenciada por indivíduos desses diferentes contextos favorece ou não a elaboração de um determinado código, ou seja, essas diferenças lingüísticas se criam a partir dos diferentes contextos, a partir do acesso que as pessoas têm a determinados modelos discursivos. A forma de uma determinada relação social age na seleção do que é dito, quando é dito e como é dito (Bernstein, 1971:123). Aqui, vale a pena lembrar que essas diferenças lingüísticas refletem na constituição pessoal do indivíduo: habilidades, gostos, formas de pensamento, relacionamentos e outros. A relação que o indivíduo tem com a sociedade, ou seja, “com a estrutura social gera formas distintas de códigos e esses códigos essencialmente transmitem a cultura e, dessa forma, limitam o comportamento” (Bernstein, 1971:122).
Em seus estudos sobre os diferentes códigos, Bernstein (1971:123;135) lembra que apesar dos códigos serem diferentes e criadores de indivíduos distintos, não há motivos para acreditarmos que um código é melhor que outro, pois cada um possui sua estética e possibilidades. Os códigos se constituem nas diferenças contextuais, que são materializadas por meio de escolhas sintáticas e lexicais. O contexto social induz o indivíduo a fazer determinados tipos de escolhas, ao invés de outras. Assim, mudanças nas relações sociais agem na seleção das opções lexicais e sintáticas. “Formas diferentes de relações sociais podem gerar sistemas de fala ou códigos lingüísticos ao afetar os procedimentos do planejamento” (Bernstein, 1971:124).
Desde criança, quando um indivíduo aprende a falar ele aprende códigos que agem como reguladores de suas ações verbais e, assim, ele aprende o que a estrutura social que o envolve exige dele. Por isso, sempre que “a criança fala ou ouve, a estrutura social a que ele pertence é reforçada e sua identidade social limitada” (Bernstein, 1971:124;144). Dessa forma, os indivíduos aprendem seus papéis na sociedade por meio do processo de comunicação. “A habilidade para trocar de código controla a habilidade para trocar os
5“Socialização refere-se ao processo em que um ser biológico é transformado em um ser cultural específico.”
79 papéis” (Bernstein, 1971:129;144). Segundo Bernstein (1971:124), papel pode ser definido em termos dos inúmeros significados compartilhados, que permite que o indivíduo participe de interações persistentes, consistentes e reconhecidas como outros membros da estrutura social. Dessa forma:
“Um papel é uma atividade codificadora complexa que controla a criação e a organização de significados específicos e as condições para sua transmissão e recepção. (...) Quando uma pessoa aprende a subordinar seu comportamento a um código lingüístico, que é a expressão do papel, ordens diferentes de relações tornam-se disponíveis para ela. (...) Seguindo este argumento é a transformação lingüística do papel que é a maior carregadora de significados: é por meio de códigos lingüísticos específicos que a relevância é criada, a experiência dada de forma particular, e a atividade social limitada. (...) Crianças que têm acesso a sistemas de fala diferentes (...) podem adotar procedimentos sociais e intelectuais bastante diferentes apesar de terem um mesmo potencial.”
(Bernstein, 1971:125;144-145 – tradução da autora)
Segundo o argumento de Bernstein (1971:143) não é difícil compreender como a formação de classes pode ser mais bem explicada por meio de códigos lingüísticos do que por código genético. As relações sociais regulam as opções lingüísticas (sintáticas e lexicais) que os falantes podem fazer, fazendo com que sistemas de falas diferentes (ou códigos lingüísticos) sejam criados (Bernstein, 1971:144). A posição social do indivíduo regula a função ocupacional, os relacionamentos familiares e a receptividade da escolarização (Bernstein, 1971:150). Nas palavras de Bernstein (1971:174), “socialização é um processo para colocar as pessoas em segurança”, pois ela age na criação de uma sensação de inevitabilidade de um determinado arranjo social, e na limitação das áreas onde a mudança é possível. Durante o processo de socialização de um indivíduo, quatro ambientes principais atuam no ensino desses papéis: o ambiente familiar, o ambiente entre amigos, o ambiente escolar e o ambiente do trabalho (Bernstein, 1971:145;174).
Partindo das definições de Bernstein, é possível pensar em uma linha cujos extremos são os dois tipos de códigos que, por sua vez, podem ser relacionados com os conceitos mais recentemente propostos por Bernstein (1996; 1999): discurso horizontal e discurso vertical. O primeiro é constituído por linguagem simples do dia-a-dia e o segundo por uma
80 linguagem mais elaborada. Assim, é possível alinhar o discurso horizontal com o lado manual da linha e o discurso vertical com o lado mental da linha.
Ao tentar repensar os conceitos de Bernstein de forma mais linguisticamente criteriosa e dar a eles uso prático na educação, este trabalho sugere que os conceitos mencionados acima podem ser alinhados com linguagem ideacional para que seja possível contrastar diferentes padrões lingüísticos, inclusive os mais complexos que são considerados necessários para o desenvolvimento de habilidades do discurso acadêmico (Bernstein, 1999; Martin e Rose, 2008). Dessa forma, é possível alinhar os conceitos de Bernstein com o conceito de entidades, proposto por Martin e Rose (2003) porque, como discutido, o termo entidades refere-se aos participantes de um texto quando observados do ponto de vista do campo. Há três grupos principais de entidades: concretas, abstratas e metafóricas (Martin e Rose, 2003:113-114). Cada um desses grupos é dividido em sub- categorias com tipos específicos de entidades, como pode ser observado na figura abaixo:
Figura 15. A relação entre entidades, discurso horizontal e discurso vertical
A figura acima ilustra o relacionamento entre o conceito lingüístico de entidades e os conceitos sociais de discurso horizontal e discurso vertical. Como ela captura a idéia de como o conhecimento é estruturado, será usada para interpretar os resultados da análise de entidades.
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