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O projeto educacional de qualquer circunscrição governamental deve estar pautado em uma política pública para que, dentro de um planejamento maior da administração do Poder Público que envolva as três esferas (i.e. Federal, Estadual e Municipal), a sociedade possa ter seus direitos básicos garantidos e aperfeiçoados, melhorando as condições de vida de um povo. Nesse planejamento, no entanto, é necessário que seja explicitado a toda sociedade o que se almeja promover, para quem são dirigidas essas políticas e quais os caminhos para atingir às suas metas principais. Para isso, essas políticas devem surgir dentro de uma sociedade organizada abrangendo seus mais diferentes grupos em consonância com o Poder Público. Além disso, devem ser transparentes e ter uma expressiva defesa dos governantes para que a fundamentem e justifique cada etapa de sua realização. Vale ressaltar que essas políticas serão mais eficazes quanto mais organizada estiver a sociedade, tendo uma opinião pública clara e definida, tornando-se uma força decisiva na (re)formulação e execução dessas políticas.

Assim, as políticas não são neutras (Cf. SERRA, 2003, p.67), mas refletem o sistema político vigente, por isso em um regime autoritário a participação da sociedade é mínima, prevalecendo os interesses do grupo que está no poder aliado a uma pequena elite

que o apóia; ao passo, que em um regime democrático essas políticas públicas incluem uma participação da sociedade civil, de suas organizações através de seus representantes, inclusive nas fases de avaliação e monitoramento, as quais devem estar em todas as políticas públicas implementadas.

Sendo tarefa principal dos governantes, os quais na época de campanha chegam a projetar algumas diretrizes para as políticas públicas em seus programas de governo, elas devem abranger as reais necessidades da sociedade nas mais diversas áreas sociais, científicas e econômicas as quais deve se responsabilizar a administração pública, além de incluir todos os grupos que a compõem na busca de uma igualdade de condições e justiça para todos (Cf. SERRA, 2003, p.68).

Na jovem democracia brasileira, existem políticas públicas na área educacional para os três níveis de ensino (Cf. SOARES, 2003, p.101), contudo na última década sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso (período de 1995 a 2002) houve uma ênfase maior na educação fundamental (1ª a 8ª. séries), preocupando-se com a diminuição dos índices de analfabetismo da população brasileira. Também não podemos falar da representação de toda a sociedade civil na elaboração dessas políticas quando, de acordo com o INAF 2001, somente 26% da população brasileira se encontra no nível 3 de alfabetismo (Cf. SERRA, 2003, p.67).

Assim, o Governo Federal como as outras esferas administrativas (estaduais e municipais) deveriam projetar campanhas não apenas para “erradicação” do analfabetismo (importante ressaltar que o termo erradicação é bastante preconceituoso, visto que, geralmente, é usado para designar o extermínio de uma doença ou de seu vetor transmissor), mas da melhoria dos graus de letramento da população brasileira; e em nosso caso do letramento digital. Por causa disso, algumas pesquisas buscam outros parâmetros

para verificar esse letramento, além da verificação geral das habilidades de leitura e escrita, contudo algumas delas são bastante questionáveis, tal como a proposta pela UNESCO, implementada desde a década de 90, que procura analisar o tempo em que o indivíduo passou na escola. Ora sabe-se que isso é muito relativo, pois um indivíduo pode ter cursado até a 6ª. série do Ensino Fundamental e ter desenvolvido um bom nível de letramento em suas atividades diárias, um bom exemplo disso foi o escritor brasileiro Machado de Assis que, embora, não tivesse concluído os estudos tornou-se um dos maiores escritores, sendo reconhecido ainda em vida.

Assim, os critérios para verificar o nível ou o grau de letramento dos indivíduos deverá considerar as especificidades culturais e biológicas do contexto social de cada país, por exemplo, na América do Norte e na Europa, o sujeito só é considerado como um alfabetizado funcional somente depois de 8 ou 9 anos. Além disso, a escola pública termina discriminando os membros das classes sócio-econômicas menos favorecidas, desvalorizando completamente a sua cultura, por isso a maioria das escolas privilegia a modalidade escrita padrão da língua (Cf. SOARES, 2004, p.22) e menospreza a modalidade oral em suas diversas variações lingüísticas de menor prestígio. Assim a língua que é ensinada na escola é muito distante das práticas lingüísticas das crianças das classes populares, configurando-se nelas um “déficit lingüístico”. Esta, certamente, é uma expressão preconceituosa, que estimula ainda mais o fracasso escolar dessas crianças que terão a supressão de oportunidades de um melhor emprego.

Outro fator bastante discutido na estrutura educacional é a idéia de que um método de alfabetização é neutro. Sabe-se que todo ato de aprender é um ato político, sendo indissociável a educação da política, tal como explica Paulo Freire (2003, p.23-25). Por isso, surge uma questão: Esta alienação é fruto da própria incapacidade da equipe técnica

do MEC na elaboração de métodos coerentes para uma verificação mais completa do grau de letramento da população brasileira, ou isso faz parte de um programa intencional para desapropriar o indivíduo de um bem simbólico – a compreensão lecto-escrita de sua própria língua - para que seja facilmente controlado (Cf. SOARES, 2004, p.59), por governantes autoritários e neoliberais que usurpam a sua liberdade?

Ao contrário do que muita gente pensa, o povo brasileiro gosta de ler, tal como aponta os dados coletados pelo INAF 2001 (RIBEIRO, 2003), constatando que cerca de 67% dos entrevistados, independente da classe econômica, gostam de ler para se distrair. Isso por si só desmente uma série de justificativas correlacionadas ao fracasso de muitas políticas educacionais realizadas pelo Governo que atribuem a pouca leitura da população tais fracassos. Na prática, o que se observa é a falta de investimentos mais consistentes na infra-estrutura das escolas, tal como comprovam os dados apontados por Silva (E., 2003a, p.118-119), referindo que apenas 23,5% das escolas brasileiras de ensino fundamental da rede pública possuem bibliotecas. Como podemos falar da democratização do acesso ao

saber se não existem condições mínimas para se estimular a leitura dentro da escola? E

com relação ao letramento digital a realidade não é diferente: o que dizer dos dados

publicados no jornal Folha de São Paulo em 2000, que revelaram a conexão com a Internet de apenas 6.030 escolas, equivalente a somente 3,3% do total de escolas públicas de ensino fundamental do Brasil (Cf.SILVA, E., 2003a, p.116-117)? As dificuldades neste

processo de democratização do acesso à informática são várias. Como alguns exemplos destes obstáculos, temos: o custo do equipamento, a configuração do hardware, os gastos de infra-estrutura e pelo uso licenciado de programas (softwares).

Em vista disso, não podemos nos manter neutros diante da divisão do mundo entre os que conseguiram se apropriar da comunicação através dos computadores e os que

não detêm esse saber. Desta forma, Eco (2005), aponta um retorno à era medieval dentro do processo de exclusão tecnológica, pois desde aquela época, havia os que

[...]eram capazes de ler manuscritos e, portanto, trabalhar criticamente com assuntos religiosos, científicos ou filosóficos, e aqueles que eram educados apenas pelas imagens da catedral, escolhidas e produzidas por seus mestres, os poucos alfabetizados.

Como vimos no segundo capítulo, as novas tecnologias, incluindo a Internet, estão mudando os paradigmas educacionais, sendo indiscutível seu papel reformulador, pois contribuem para o enriquecimento das práticas de ensino e aprendizagem, possibilitando o acesso a um número ilimitado de textos e fontes de informação, além de um sistema de busca que, a cada momento, torna-se o fator mais eficaz que poderia sanar a limitação de textos disponibilizados nas escolas públicas.

Por isso, as autoridades governamentais devem implementar urgentemente suas políticas educacionais voltadas para o desenvolvimento de um bom grau de letramento digital na sociedade. Assim, devem estar pautadas, basicamente, em pelo menos dois pontos fundamentais, tal como aponta Silva (E., 2003, p.13):

- o acesso à informação e à produção do saber, sendo compreendidos como requisitos elementares para o exercício da cidadania;

- o domínio por todos das competências e habilidades capazes de permitir o domínio das práticas de leitura e escrita na hipertextualidade, através de um letramento digital contínuo.

Outro fator relevante está centrado na condição dessas políticas enfatizarem a formação e não o “adestramento” na utilização dessas novas tecnologias, aliado a isso é imprescindível à preocupação com a formação docente, visto que a metodologia para se

trabalhar com a leitura e escrita no texto digital apresenta nuances que difere completamente da utilizada no texto impresso.

Capítulo 5

Benzer Belgeler