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O poema virgiliano é constituído por duas metades (duas héxades=seis livros, como em Ênio), correspondentes aos dois poemas homéricos, por ordem inversa: a Odisséia (l. I- VI); e a Ilíada (l. VII-XII), numa densa concentração narrativa (os 12 cantos da

Eneida=metade de um só dos poemas homéricos).

A narrativa engloba os acontecimentos de sete anos, mas no momento em que tem início a ação, no mar alto, à vista de Cartago, já tinham passado seis anos desde a queda de Tróia. O sétimo ano reúne os núcleos principais do poema: a estada em Cartago e a guerra em Itália, com o breve intermezzo da paragem na Sicília. Os antecedentes são a destruição de Tróia e as viagens de Enéias e seus companheiros em busca de um lugar para a edificação de uma nova cidade. Tudo parte de uma destruição, da morte de uma cidade, para se passar à busca de uma nova fundação, de uma espécie de ressurreição civilizacional. Não o aproveitamento da cultura fenícia, ressurgida em Cartago, mas de uma nova criação, a partir de uma osmose civilizacional entre os povos itálicos do Lácio e os colonos de Tróia. Para se conseguir tal objetivo, foram necessárias mil e uma provações, como as viagens e as guerras. Uma hermenêutica iniciática, como os comentaristas de Homero fizeram, extrairá as ilações referentes à condição humana, sujeita à queda e à provação, mas

sempre interpelada à ressurreição, à luta, à tenacidade no prosseguimento da jornada em ordem à instauração da Harmonia e do Bem sociais.

A mímesis homérica é essencial na produção de Virgílio: na concepção do poema no seu conjunto, na construção de episódios e personagens, nas cenas típicas, na linguagem e no estilo. Esta inspiração não impediu, no entanto, a originalidade do poeta no tratamento das personagens e dos temas, na linguagem e estilo.

Virgílio sintetiza também as conquistas da criação literária e filosófica da cultura romana: o sentido da problematicidade profunda da realidade, o caráter furtivo e ilusório da verdade, a análise psicológica, a atenção aos conflitos intersubjetivos e ao mundo complexo dos sentimentos humanos, designadamente o da paixão amorosa.

A representação do incêndio de Tróia e do drama passional de Dido recebe inspiração da tragédia grega e latina. A influência de Apolônio de Rodes e da poesia helenística e neotérica [Catulo, em particular] cruza-se no canto de Dido, bem como no tema etiológico. O esboço da relação entre mito e história e a tendência para a representação monumental derivam dos autores arcaicos, como Névio, Catão e Ênio, bem como de Lucrécio.

A ação do maravilhoso (“comédia dos deuses”), de acordo com o código épico homérico, divide o favoritismo dos deuses: Vênus protege o filho; Juno persegue Enéias e os Troianos, defendendo Turno e os Itálicos.

Numa concepção estóica, o poema representa um mundo governado por uma ordem providencial, encaminhando os destinos para um fim positivo, justo, e ratificado pela religião. Júpiter, como divindade olímpica suprema, é o depositário da vontade do Destino, revestido de majestosa autoridade. A sua profecia revela a antecipação da história gloriosa da Vrbs, de acordo com esse Destino providencial.

A primeira parte do poema, centrada nas peripécias da viagem, exprime simbolicamente as peripécias do conhecimento. As várias fases da viagem de Enéias (canto III) revelam a demanda progressiva de uma meta sempre dificultada.

A catábasis, ou viagem ao reino dos mortos, no c. VI, desvenda, a partir da entrevista com Anquises, o mistério da verdade do cosmo e do fado: os deuses, principalmente Apolo, deus dos oráculos e tutelar de Augusto, intervêm continuamente para guiarem o herói, embora com indicações ambíguas, como é próprio da linguagem

oracular. Por meio do sofrimento (pathos/labor), Enéias aprende que a sua missão não é conseguir um refúgio para um grupo de expatriados vencidos (Butroto, a nova terra de Heleno e de Andrômaca, que Enéias visita com emoção e tristeza, é uma pálida imagem da pátria troiana destruída), mas o da fundação de uma nova cidade que o Destino lhe proporciona, abrindo-lhe um futuro duro e glorioso, ao mesmo tempo. Esta nova cidade tem origens troianas, mas é diferente de Tróia, já que é projetada para as vitórias e para o poder. Os próprios habitantes do Lácio recebem avisos e profecias. Uma série de prodígios parece indicar a oposição dos deuses ao casamento de Turno e Lavínia, filha do rei Latino e da rainha Amata: num cenário carregado de mistério e de temor religiosos, Latino consulta o oráculo de seu pai Fauno; este lhe revela que Lavínia não terá um esposo indígena, mas um estrangeiro, e dessa união nascerá uma estirpe de dominadores do mundo.

A segunda parte do poema conta o conflito resultante da oposição de forças divinas e humanas ao desígnio do Destino. Juno retarda o seu cumprimento, desencadeando as forças da discórdia e da guerra, representadas na potência infernal da fúria Alecto. Podemos ver o sentido augustano neste conflito: ao vencer o caos das guerras civis, Augusto restituía ao mundo a paz e a ordem, realizando em toda a plenitude a missão providencial de Roma, começada com a vitória de Enéias.

Embora o furor ocupe um lugar importante no poema, encontram-se também personagens de grande virtude e de nobres sentimentos (Lauso, Camila), heróis valorosos e corajosos, ainda que impulsivos e irracionais (Turno). Até personagens mais sombrias, como a rainha Amata (com a sua sede de poder e uma sensibilidade indomável), ou o ímpio Mezêncio (o tirano de crueldade indescritível, que desprezava os deuses) são dotadas de certa grandeza, manifestada na dignidade com que sofrem a sua dor e enfrentam a morte.

Se, do ponto de vista do Destino, os acontecimentos se encaminham para a justiça e a grandeza, ao contrário, o ponto de vista das personagens é constituído pela dor, pelas esperanças destruídas, pelos sentimentos magoados e feridos. Em vez de se deter a contemplar o desfile triunfal dos heróis, Virgílio prefere comover-se com esse sofrimento causado pela realização desse grande projeto. Por isso, o leitor da Eneida é, por vezes, levado a duvidar do desígnio providencial da história: a dor e a injustiça do mundo são contempladas com amargura, como se não houvesse compensações futuras. Este sentido trágico da história e da vida humana é predominante no c. IV, com a paixão e a trágica

morte de Dido, e no c. II, no episódio em que Enéias recorda a noite em que assistiu à destruição da sua cidade. “No meio de um grandioso e lúgubre apocalipse, parece que não só os homens, mas até os próprios deuses se apressam a semear morte e destruição sobre um povo que se sentia vítima injustamente sacrificada”166.

Benzer Belgeler