Pretendo, neste tópico, situar o debate acerca do conceito de necessidades de saúde, tendo em vista que este tem sido recorrentemente utilizado no âmbito acadêmico e dos serviços de saúde. Interrogo se este uso não passa de retórica discursiva, ou se efetivamente, tem-se um arcabouço teórico-prático de busca de satisfação das necessidades de saúde no SUS.
Interessa-me compreender este conceito em relação à saúde humana, tentando visualizar em que perspectiva seus usos são dissonantes ou se consubstanciam com uma lógica de necessidades humanas básicas, entendidas como necessidades sociais, centradas na premissa do direito à vida.
Entendo que este tema é complexo, denso e, portanto, é essencial refletir sobre o mesmo compreendendo que este está situado no campo das práticas de saúde e no processo saúde-doença, contextualizado as realidades das pessoas/famílias/comunidades em transformação permanente conforme a dinâmica dos territórios na conexão local-global estabelecida nos últimos tempos.
Reconhecer, contudo, a responsabilidade da saúde coletiva neste enredamento, também é de extrema relevância para a elaboração consistente, coerente, e integrada de um conceito na operacionalização dos serviços de saúde. Considero a ESF, com a responsabilidade de tecer novas metodologias de leitura das dinâmicas territoriais para incidir na perspectiva da determinação social da saúde e da promoção da saúde, a meu ver, uma potencialidade deste modelo de atenção.
Entendo que se faz necessário avançar em termos teórico e prático para se constituir práticas de saúde emancipatórias, participativas e constitutivas de uma atuação em saúde, a partir de grupos sociais distintos, contextualizados, reconhecidamente os que padecem mais carecimentos de políticas públicas.
Acredito ser estruturante na abordagem das necessidades de saúde, um afinamento conceitual em relação à compreensão de necessidades humanas, tendo em vista a relação com a saúde humana, de imediato. Outro percurso que se faz necessário para a abordagem das necessidades de saúde é a compreensão das
fundamental é a compreensão do contexto vivido quando falo de política pública, que é o Estado capitalista o operador do SUS.
Considero fundamental a reflexão sobre o tema das necessidades de saúde, primeiramente porque o povo brasileiro tem o Sistema Público de Saúde, que tem o compromisso ético-político com as coletividades humanas. Defendo a estruturação de uma rede de serviços de saúde, que deve ter como base a responsabilidade de suprir necessidades de saúde. Seria interessante destacar quais serviços de saúde são ofertados à população brasileira por meio do SUS na atualidade. Contudo, acredito que seria exaustivo e tangenciaria a discussão central das necessidades de saúde.
Remeto, contudo, a minha discussão das necessidades de saúde ao modelo de atenção denominado ESF. Para mim a estruturação das redes de atenção à saúde, que apresenta a atenção, coordenada pela ABS, tem como primazia do seu processo de trabalho que se deparar com as necessidades de saúde no exercício cotidiano do trabalho em saúde nos territórios/comunidades.
Conforme ressalta Pereira (2006) o processo de formação e desenvolvimento das políticas públicas tem na sua base as necessidades humanas, que foram problematizadas e se transformaram em questões de direito. Será, portanto esta a perspectiva que adotarei aqui: de discutir as necessidades de saúde, como
necessidades humanas que precisam ser respondidas pelo Estado, enquanto direito.
A autora argumenta que os seres humanos não são imunes a carecimentos e fragilidades, tendo em vista que não são perfeitos, autossuficientes, onipotentes, infalíveis e imortais. Estes seres humanos também “[...] são criativos e dotados de capacidade de realização que, impulsionada por necessidades percebidas e socialmente compartilhadas, tem-lhes permitido superar estados de carência por meio do trabalho, movimentos e lutas, ou de contratos sociais.” (PEREIRA, 2006, p.68).
Resultam da existência deste humano, que percebe suas necessidades e
as compartilha socialmente –“[...] as políticas, os direitos, as normas protetoras, o
trabalho e tantas outras respostas resultantes da práxis humana, por meio da qual tanto a natureza quanto a sociedade (e os próprios atores sociais) são transformados” (PEREIRA, 2006, p.68).
Alerta Pereira (2006) que, na “ausência de definição precisa e coerente de
a meu ver, esta definição essencial para a estruturação de práticas de saúde emancipatórias. Em um tópico mais adiante aprofundo a reflexão sobre o modelo de atenção à saúde, denominado ESF, perpassando pelas dimensões do contexto da atenção, vigilância e promoção à saúde, como ações para responder às necessidades de saúde.
Considerando o exposto, este tópico versa sobre estas interações conceituais, numa tentativa de constituir aproximações teóricas, que ancore a partir de uma visão complexa uma perspectiva conceitual de necessidades de saúde. Contudo esta aproximação será sempre permeada por um diálogo com o SUS.
Intenciono avançar em termos de um entendimento de necessidades de saúde, que me auxilie e crie possibilidades de evidenciar como estas foram percebidas/atendidas na ESF no sertão cearense.
Gomes Júnior e Pereira (2013) esclarecem que as necessidades humanas básicas não são um tema consensual e reconhecem a existência de intensos debates sobre suas dimensões, significados e usos. Destacam que a ideia de necessidade
remete a uma situação de ausência ou falta que, se não for adequadamente atendida, poderá causar sérios prejuízos a quem nela se encontra (GOMES JÚNIOR; PEREIRA,
2013).
Esta acepção de necessidade encerra, na visão de Gomes Júnior e Pereira (2013), mais ambiguidades do que certezas e reforçam que a noção de necessidades humanas se tornou na contemporaneidade, vulnerável à crítica emanada de duas influentes fontes, a saber: os economistas políticos neoclássicos, para quem não
existem necessidades sociais, mas sim preferências individuais; e do pensamento pós-moderno, para quem as necessidades são relativas e variam culturalmente.
Com efeito, vários autores apontam a existência de uma fragilidade conceitual e teórica das análises sobre necessidades sociais e da linguagem política que permeia as ações sociais concebidas para enfrentá-las (GOUGH; MCGREGOR, 2008, GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013). Gomes Júnior e Pereira (2013) tomando como referência Doyal e Gough (1991) reforçam que as necessidades sociais disseminadas nas sociedades capitalistas, tratam-se de um cognome de preferências
Esta perspectiva tem se nutrido com o avanço da inovação industrial, o progresso técnico e a comunicação de massa. Com efeito, o campo das necessidades
coletivas se singularizou e se identificou com a esfera das preferências, desejos,
compulsões e sonhos de consumo, que compõe a dimensão privada e subjetiva das pessoas; nesta visão predomina o entendimento de que somente o indivíduo é capaz de definir os seus interesses e o modo como estes devem ser contemplados (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Resulta desta visão uma compreensão de que a oferta de bens e serviços na sociedade deve considerar somente os interesses privados e os requerimentos individualizados. Na base desta visão tem-se que o mercado é compreendido como a instituição capaz de individualizar essa oferta, ou seja, os interesses individuais, e, por conseguinte, a satisfação destes (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
A economia política neoclássica representada pela fusão de neoliberais e neoconservadores professa a supremacia racional do mercado sobre o Estado na provisão do bem-estar social. Esta concepção tem como ideia central que a propriedade privada dos meios de produção é um direito individual por excelência, deixando explícita a supremacia do consumidor sobre o cidadão (DOYAL; GOUGH, 1991, GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Na economia política neoclássica, as políticas sociais representam, portanto, uma imposição ou arbitrariedade contra a livre escolha individual, ou seja, prevalece o império das especificidades de grupos de interesses e a negação da objetividade e universalidade das necessidades humanas (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Ou, em sentido inverso: de que os interesses e, por conseguinte, as “necessidades” das pessoas somente teriam sentido na medida em que fossem objeto de reconhecimento consciente por parte de seus portadores. Deste modo, tudo o que não for apreendido subjetivamente como necessidade, simplesmente não existirá; e movimentos na direção de generalizar esse ou aquele interesse incidirá em arbitrariedades que contrariarão o direito de escolha dos indivíduos. Logo, o Estado jamais poderá transformar esses interesses em alvo de políticas públicas, posto que nem o Estado e nem essas políticas têm condições de atender preferências pessoais relativizadas (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p.53)
Existem, entretanto, posições diferentes e, que, contribuem para o debate do direito à vida, o que dialoga com o direito à saúde. São posições que contrastam com a visão subjetivista e relativista citada acima, que afirmam que o direito à vida desborda os limites estreitos da noção de sobrevivência. Nesta concepção a vida ou
o de direito à vida devem ser tomados por um significado amplo que envolva, para além da preservação e garantia de sua continuidade material, fatores relativos ao seu pertencimento no espaço social.
Reconhece-se nesta visão tudo aquilo que confira à vida um sentido de participação e de preenchimento adequado de requerimentos em que todos possam agir no sentido de transformar a realidade em busca de uma aproximação de uma existência exitosa (GOUGH, 2003, DOYAL; GOUGH, 1991; PISÓN, 1998; BRAGE, 1999; PEREIRA, 2000; SEN, 2000; GOMES JR, 2007).
Esta compreensão pressupõe o reconhecimento de que existem
necessidades humanas objetivas e universais, ancoradas na participação
autônoma dos indivíduos em arranjos sociais não condicionados a qualquer limitação imposta arbitrariamente, tendo como objetivo fundamental o desenvolvimento humano, conforme explicitam Gomes Júnior e Pereira (2013) parafraseando Doyal e Gough (1991).
Estes autores afirmam que as necessidades humanas são objetivas, porque a sua especificação teórica e empírica não está baseada em preferências individuais e subjetivas; e são universais, porque, a concepção de sérios prejuízos decorrentes de sua não-satisfação, ou satisfação inadequada, é a mesma para todos em qualquer cultura (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013). Vale salientar que do ponto de vista antropológico as necessidades humanas não são consideradas absolutas, que há uma relatividade. Não adentrarei ao escopo antropológico por limitação quanto à apropriação do seu estudo por hora, contudo, reconheço a importância para o campo da saúde coletiva de avançar neste entendimento.
Com efeito, a participação das pessoas requer o reconhecimento de que estas são sujeitos de necessidades, o que equivale assumir que a otimização de sua satisfação avança e se torna mais complexa como decorrência desse reconhecimento na esfera social (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013; ANÕN ROIG,1994).
As necessidades humanas pressupõem que somente o atendimento adequado das mesmas pode impedir que se abata sobre as pessoas sérios prejuízos que comprometam, efetivamente, a possibilidade de as mesmas serem coletivamente informadas para exercerem criticamente o controle da sua própria vida (PEREIRA, 2000; GOMES JR, 2007; GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Estes autores afirmam ser necessário o estabelecimento de um limite claro entre o termo desejos e o termo necessidades, tendo em vista, a ambiguidade que acompanha a noção de necessidade, que tende a aproximar as duas categorias a ponto de, em determinadas abordagens, serem assumidas como sinônimos (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Além da clareza da distinção entre desejos e necessidades é preciso estar atento para a diversidade das necessidades, como também da sua satisfação, esta última compreendida como o próprio processo da criação de novas necessidades (FRAGA, 2006).
As necessidades humanas básicas são pré-condições universais para a participação social ou a libertação de homens e mulheres das necessidades, sendo estas pré-condições identificadas como saúde física e autonomia.
Defendem que saúde física é essencial para alguém viver, ser capaz de agir e de participar socialmente. Reforçam que se trata da mais básica das necessidades humanas do “[...] primeiro pressuposto da existência humana e, portanto, de toda a história” (MARX; ENGELS, 1979, p. 39-40 apud GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p. 55).
Apresentam a defesa de que a participação social das pessoas necessita para além da autonomia de agência da autonomia crítica, que conforme Gomes Júnior e Pereira
[...] homens e mulheres também necessitam de autonomia de agência, isto é, da capacidade para fazer coisas informadas sobre o que deve ser feito e como proceder para fazer. E mais, necessitam de autonomia crítica – para conhecer, criticar e contribuir para a mudança do meio em que vivem. Este é o mais alto nível de participação social, sem o qual a criatividade, especialmente em tempos de transformações e crises, não poderá ser desenvolvida. Portanto, trata-se daquilo que, havendo negligências no seu atendimento, implicará ameaça real ao exercício do direito à vida humana, para além da sua dimensão biológica. (2013, p.55).
As necessidades humanas são necessidades sociais e isso justifica a atuação do Estado mediante políticas públicas, considerando que se vive em uma sociedade marcadamente desigual e excludente. As necessidades de saúde, portanto se apresentam como essenciais para a tomada de decisões políticas, econômicas, sociais e culturais em todas as instâncias governamentais.
As políticas sociais são os instrumentos por meio dos quais as condições possíveis, no capitalismo, para o exercício da autonomia crítica e de agência, devem
ser geradas e expandidas para toda a sociedade (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013). Com efeito, reforçam estes autores, que é inadmissível qualquer condição prévia que não aquela da garantia do direito de todos a exercerem efetivamente o controle sobre a sua vida e a da sociedade; Com este entendimento evidencia-se que somente o Estado pode desempenhar este papel, não sendo, certamente terreno dos desejos e nem do mercado (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Saliento que as necessidades e desejos são universos estreitamente relacionados, contudo não podem ser redutíveis um ao outro. A distinção entre
necessidades e desejos é facilmente visível, visto que é possível desejar ao não
necessário, como também é factível necessitar daquilo que não se deseja (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013; BRAGE,1999).
Reforço ainda, que a não satisfação das necessidades humanas, remete a privações estruturais cujos prejuízos não se restringem a experiências particulares. Nesta perspectiva, “[...] a privação de bens individualizados não pode significar avarias graves à vida e à cidadania, pois, sempre haverá a possibilidade de se empregar outros tipos de bens para atender desejos subjetivos.” (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p. 56).
Destaco que comungo do pensamento de Gomes Júnior e Pereira (2013) em relação à defesa da compreensão do caráter universal de algumas necessidades humanas, como também de sua objetividade, como aspectos centrais para o desenvolvimento da vida e da participação social, e, em oposição, a negação disso, resulta em sérios prejuízos à humanidade.
[...] gozar de saúde plena, compreendida como a realização de todos os requerimentos que impeçam comprometimentos de ordem física e psicológica; dispor e se apropriar de toda sorte de informações e conhecimentos que permitam uma análise acurada da realidade, a construção intelectual de concepções de desenvolvimento humano e a comparação entre o que é visto e o que é pensado; e dispor dos meios e condições suficientes para agir na transformação da realidade de modo a aproximá-la daquilo que foi projetado pelo pensamento como expressão do pleno desenvolvimento humano, são e sempre foram necessidades comuns a todos os seres humanos em todos os tempos e culturas. (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p. 56).
Estou de acordo com Pereira (2000) e Gomes Júnior e Pereira (2013), quando defendem que o tripé composto de saúde plena, autonomia crítica e
confundidas ou classificadas como aspirações, preferências ou desejos, uma vez que a noção de desenvolvimento humano, associada à compreensão de necessidades básicas, expressa objetivamente o concreto pensado (PEREIRA, 2000; GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
As necessidades humanas básicas demandam satisfatores ou requerimentos, que devem satisfazer adequadamente essas necessidades, e estes são relativos (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013). A partir do exposto é fundante que os requerimentos para o gozo da saúde física, capacidade de agência e autonomia crítica expressem a complexidade da realidade em que se inserem (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013). Com este entendimento alertam os autores:
“satisfiers”, também eles, são objetivos e devem refletir o padrão médio dos requerimentos exigidos por uma determinada sociedade para a consecução daquilo que garanta a todo indivíduo o exercício efetivo do controle da e sobre sua própria vida - mas sem deixar de associar o atendimento das necessidades sociais aos direitos e de ter esses direitos garantidos pelo Estado. (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p. 57).
O debate sobre as necessidades deve dialogar com o cenário de crises vivido atualmente. As necessidades de saúde estão também subordinadas a uma lógica de pensar e fazer saúde na sociedade capitalista, e, que há disputas e interesses mercantis em gerar os “desejos não satisfeitos” pelo Estado, a exemplo do SUS.
Reconhecer que no contexto de globalização e da reestruturação econômica e política pautada por imposições de condutas aos países periféricos, sob inspiração dos interesses dos países centrais consubstancia uma nova gramática política em que reina o mercado que a (quase) tudo e a (quase) todos subordina. Neste aspecto é crucial perceber que o público cede ao privado. Este, que é regido pelo mercado, e tem na sua base a competição e o mérito, como decorrentes da iniciativa, da agência individual, resultando na noção de que as desigualdades são positivas por emularem à sua superação (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Este universo, denominado por Gomes Júnior e Pereira (2013) de “mundo- mercadoria”, acaba despedaçando lugares, práticas, memórias num movimento de ocupação privada por parte de distintos segmentos da sociedade, num ritmo de
atração e repulsão que transforma espaços, indivíduos e percepções (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Destacam, com efeito, os autores, que esse movimento alimenta uma nova dimensão, identificada como “necessidades mutantes”, uma categoria cuja definição só pode ser obtida no contexto do mercado (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013).
Assim, a supremacia do mérito individual e dos expedientes que o acompanham, como os desejos e as aspirações, assomam:
[...] à posição de necessidades num imaginário social que busca a identidade não mais na promoção da igualdade dos direitos ao que é primordial ao desenvolvimento humano; e sim de uma igualdade que a tudo e a todos se iguala pela pasteurização das diferenças. (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p. 59).
Visualizar esse processo de pasteurização e relativização dos valores, diferenças e necessidades, que são homogeneizados como um único e exclusivo conjunto de desejos, expectativas e determinações, idêntico para todos, conforme sugerem Gomes Júnior e Pereira (2013) é de extrema relevância para a reflexão nas práticas dos serviços de saúde, em especial na Estratégia Saúde da Família (ESF).
A ESF como um elemento do Estado em diálogo permanente com estas tensões, precisa conhecer e reconhecer como se realiza a manipulação do imaginário social fragmentado decorrente da velocidade das transformações no mundo globalizado. Também é salutar identificar a existência de um movimento permanente em direção aos requerimentos que satisfarão individualmente aspirações e desejos.
É indispensável que os serviços de saúde compreendam o antagonismo existente entre as necessidades humanas e as necessidades do capital. Reforçam Gomes Júnior e Pereira (2013) que, na atualidade vive-se sob o império das necessidades do capital, onde a noção de cidadania perde significado, enquanto a condição de consumidor ganha relevância.
Para estes autores as necessidades do capital resultam “[...] no estranho entendimento de que ser cidadão é ser livre para exercer o direito de consumir aquilo que o mercado “democraticamente” oferece como sendo necessário a sua vida.” (GOMES JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p. 60).
Alertam os autores citados acima, que há uma falácia não explícita, quanto ao uso dos conceitos de: necessidades, liberdade e de democracia. Estes conceitos são capturados a serviço da sociedade capitalista, em que: “as necessidades são
preferências individuais; a democracia é a liberal-burguesa, restrita aos que têm mérito conferido pelo sistema dominante; e a liberdade é a negativa, definida como ausência de regulação estatal sobre as esferas individuais protegidas.” (GOMES
JÚNIOR; PEREIRA, 2013, p. 60).
Pereira (2000) chama a atenção para a distinção entre necessidades humanas e necessidades do capital. A meu ver, esta distinção numa sociedade extremamente desigual é essencial para a compreensão do que é e como caminhar na busca de justiça social, democracia e participação.
Gomes Júnior e Pereira (2013) afirmam que um objetivo fundamental da vida humana, que é social e política consiste na participação em alguma forma de vida sem sérias limitações arbitrárias. Para estes autores: “É isso que permite a definição de necessidades humanas básicas como sendo aquelas precondições universais que possibilitam participação e mudança transformadora”. (p.61).
Avançam estes autores no seu pensamento sustentando que a compreensão da não satisfação das necessidades humanas básicas precisa ser lida a partir da ideia de abatimento de sérios prejuízos, de riscos sérios, que são acarretados a uma parcela de indivíduos/populações que não têm respostas adequadas às suas necessidades, a exemplo, as necessidades de saúde.
Vale destacar, que se entende por sérios prejuízos como a “[...]