- Determinantes
A tabela a seguir resume os fatores decorrentes da dinâmica afetiva.
Tabela 13 – Fatores decorrentes da dinâmica afetiva para a mãe B.
Valores obtidos (R=15) Resultados obtidos (R=15) Tipo de Ressonância Íntima 0 K : 1,5 ∑C coartativo
Fórmula Complementar 1 kan : 0 ∑E coartativo
p ro p o rç õ es es p er ad
as K kan + kob + kp 0 < 1+0+0 K < kan + kob + kp
FC CF + C 1 = 1+0 FC = CF + C
FE EF + E 0 < 1+0 FE < EF + E
O T.R.I. e a fórmula complementar são do tipo coartativo, revelando falta de interesses vitais e de investimentos psíquicos. Não há concordância entre as proporções esperadas dos determinantes para uma maturidade afetiva e as apresentadas por B., sugerindo desta forma uma imaturidade que dificulta o contato com seus próprios impulsos e fantasias
Foi apresentada 1 resposta kan, sendo dada na prancha VIII e considerada banal, podendo sugerir maior controle dos aspectos infantis em situações de socialização.
Em relação aos determinantes sensoriais, há presença de cores nas pranchas pastéis, representativa da busca de conter afetos mais infantis. Contudo, sendo determinantes bem vistos, pode-se falar de certa espontaneidade e capacidade lúdica para manejar os afetos.
- Conteúdos
A tabela a seguir é referente aos resultados de conteúdo humano.
Tabela 14 – Resultados decorrentes das respostas de conteúdo humano para a mãe B. Anzieu (1978) Pasian (2000) (percentil 40,50,60) Valores obtidos (R=15) H% 15% 0%-6%-8% 0% H: Hd 2 : 1 --- 0 : 0 H : n° K 1 : 1 --- 0 : 0 H : (H) + Hd + (Hd) H > (H) + Hd + (Hd) --- 0 = 0
Não foi apresentada nenhuma resposta de conteúdo H, supondo maior dificuldade no estabelecimento de relações objetais adultas por possível falta de modelo favorecedor de identificação.
Há excesso de respostas animais (A%=93,75%), com muitas indefinições em sua descrição, como “bichinho, não sei o nome dele” (pr.I), “não sei o nome desse bicho, não” (pr.IV).
Há poucas respostas de Outros Conteúdos além dos animais (A e Ad), tendo apenas uma resposta (Pl) e sendo indicativo de poucos interesses vitais.
Houve recusa na prancha IX, podendo ser indicativo de relações precoces insatisfatórias com a imago materna, corroborando a resposta dada na prancha VII (privilegiadamente da imago materna segundo Augras, 1980) a qual também expressa angústias mais precoces: “Aqui é um bicho só ou pedaços?”. As pranchas VII e IX foram as duas pranchas escolhidas como as que menos gostou.
2.4 Considerações sobre as Entrevistas e o Rorschach
É possível observar pelas Entrevistas o esforço em não se expor e a dificuldade em falar sobre sua vida e sentimentos, além de não conseguir comentar sobre seus relacionamentos, inclusive com o próprio filho. Parece não conseguir identificar os problemas atinentes a ela ou ao filho, nem apresentar alternativas de resolução, o que se destaca pelos vários relacionamentos e filhos gerados, bem como pela maneira com que descreve o tratamento do filho.
Pelo Método de Rorschach, observa-se a tentativa de inibição dos próprios sentimentos para um maior controle das situações afetivas, mas que não é bem sucedido, nem há reconhecimento ou consciência de seus impulsos e da falta de controle emocional (CF=FC, kan>K, ausência de K e FE). Ou seja, não há consciência das próprias dificuldades, na medida em que há uma tentativa constante de negá-las por um posicionamento mais rígido e com tentativa de distanciamento da realidade em direção mais egocêntrica e infantil. Há um constante “não saber” em seu discurso, como se o “saber” trouxesse o risco de despertar angústia, sendo desta forma melhor não querer saber.
3. Sobre a Mãe C.
C. tem 47 anos. Filho M.P. (30 anos) em tratamento no CAPS-AD por adicção a maconha e crack (cocaína). Além deste filho, moram com ela outro filho (20 anos) e marido (60 anos). No mesmo terreno e em outra casa, moram a filha (25 anos), genro (35 anos) e neto (8 anos).
A tabela a seguir descreve o cronograma dos atendimentos realizados.
Tabela 15 – Cronograma dos atendimentos realizados com a mãe C.
Data dos agendamentos Nº do atendimento Atividade realizada
07/06 1º Entrevista
14/06 2º Aplicação do Método de
Rorschach
21/06 3º Entrevista
28/06 --- Falta
05/07 --- Falta (com justificativa e
reagendamento)
12/07 --- Falta
C. compareceu a três encontros consecutivos, dizendo gostar de participar da pesquisa por ser possível ter alguém para falar tudo o que acontecia em sua vida. Neste momento, a entrevistadora falou sobre uma possível psicoterapia após os encontros, caso quisesse, pois demonstrara interesse. Porém, nos encontros seguintes aos três realizados, não compareceu, justificando-se pela necessidade de ficar no local de trabalho e conseqüente falta de tempo.
C. falava muito rápido durante os encontros, dificilmente surgindo pausas. A frase “Eu vou ser sincera para você,...” era repetida com frequência, além de repetir várias vezes a mesma frase sobre o assunto em pauta. Agradecia muito ao final dos encontros.
3.1 Entrevista com a Mãe sobre seu filho
Em relação ao filho, C. não acreditava muito no tratamento que ele realizava no momento: “Vou ser sincera pra você, ele não quer se tratar... no ano passado até queria, mas nesse ano, não”. Vale dizer que a procura pelo tratamento na instituição foi do próprio M.P.
Quando questionada pelos motivos que ele poderia apresentar para não querer se tratar e pelo motivo dele ter procurado tratamento, C. disse: “Meu filho não pensa em fazer tratamento, ele
só quer fazer tatuagem... não sei por que tá vindo”.6
Disse que o início do consumo de drogas foi aos 13 anos com maconha. Descobriu quando o viu fumando em sua casa: “conversei muito com ele, mas não adiantava”. Com 14 anos começou a beber: “o pai sempre bebeu, então, era algo normal, mas o pai pelo menos é mais controlado, o M.P. bebia até cair”. No ano passado, disse que o viu usando crack e imagina que foi o começo do uso: “Primeira vez que vi crack na minha vida foi em casa, ele estava no quarto, em cima da cama junto com uma latinha, vi pela porta, falei com ele depois e ele quis tratamento, só dessa vez! Acho que o problema foi o pai bater muito na sua cabeça”. Relacionou o fato de o marido ser agressivo quando M.P. era criança com o uso de drogas e a violência apresentada pelo próprio filho.
Sobre a infância de M.P., disse que tudo ocorreu bem: “engravidei logo em seguida ao casamento, eu queria ter um filho, não com aquele marido...”, “a gestação foi boa” (comparou a outras duas gestações nas quais perdeu dois filhos, quando M.P. tinha um e três anos). Quando questionada sobre outras gravidezes perdidas, disse que logo ficou grávida novamente. Relatou que o parto foi normal, sem nenhuma complicação e o desenvolvimento psicomotor dentro do esperado.
Quando questionada sobre o desenvolvimento de M.P., C. disse: “os problemas começaram na escola... quando ele entrou na escola tinha sete anos e já não entrava na aula (por quê?) não sei, a única coisa é que ele era burrinho desde pequeno pras coisas de escola, nunca foi bem (...) começou a ser arteiro e agressivo com as outras crianças também, ao mesmo tempo em que era um amor (...) ele sempre foi assim, M.P. varia, às vezes é muito agressivo e às vezes é um amor.”, “repetiu vários anos e parou de estudar na 4ª ou na 5ª série, ele conseguiria se formar, mas não tinha santo que colocasse ele dentro da sala de aula...”.
Quanto ao relacionamento familiar, fala sobre as dificuldades no momento: “ele tá muito só, não se dá bem com o irmão, apesar dos dois terem gênios fortes e o Willian também usar drogas, só que é só maconha, eles brigam muito... na irmã até bate... com o pai nunca se deram, antes o pai batia muito nele, agora eles brigam só de gritar... eu até tento falar com ele, mas é difícil...”. Diz que com os outros filhos consegue se relacionar melhor. “Quando M.P. fica mal eu saio de perto... (mal como?) quando ele está irritado, fico com angústia, nervosa, não quero nem voltar para casa”.
6
Soube-se por funcionários do CAPS-AD, após a pesquisa realizada com a mãe, que M.P. traficava dentro da instituição.