Segundo José Gonçalves da Fonseca, para chegar à missão de São Miguel, era necessário passar por um elevado de terra, provalmente um terraplene, até chegar à planície em que estava fundada a missão88. De acordo com as pesquisas desenvolvidas por Horário Calandra e Susana Salceda na parte leste de Mojo, estas estruturas se manifestam com baixa freqüência e com pouca profundidade. Isto nos leva a pensar que esta característica poderia ser uma experiência adquirida pelo missionário em Mojo e que lhe serviu para a área alagadiça do rio Guaporé. Já para o conjunto urbano da missão de São Miguel, José Gonçalves da Fonseca nos diz que a missão era
quadrilonga com ruas lançadas á linhas em tão boa ordem, que sendo o assento mui plano formão em meio da fundação hum terceiro quadrado de espaçosa grandeza, fazendo huma das quatros faces o frontespicio da Igreja e aposentos de residência que se lhes seguem, e as outras as casas do Índios todas igualmente na altura, sendo a construção de madeira e barro com cobertura de colmo. No meio da quadra se levanta hum pilar formado de um tronco de mais de cincoenta palmos de alto, e no remate huma Cruz (que tudo) ainda que de architectura humilde faz uma perspectiva agradável (Fonseca, 1874: 381).
87 Comunicação pessoal, tendo por referência os dados apresentados no artigo de CRÉQUI-MONTFORT, G. de & Paul RIVET (1913c) “Linguistique Bolivienne – La famille lingüistique Capakura”, Journal de la Société des Américanistes, 10: 119-171.
88 Robert Southey, com base na viagem feita por Manuel Félix de Lima, em 1742, fornece algumas informações parecidas com as de José Gonçalves da Fonseca sobre a missão de São Miguel, as quais vale a pena consultar: SOUTHEY, Robert. História do Brasil. Traduzida do inglês pelo Dr. Luís Joaquim de Olivieira e Castro; anotada por J. C. Fernandes Pinheiro, Brasil Bandecchi e Leonardo Arroyo; prefácio de Brasil Bandecchi. 4. ed. 3 vol. Brás. São Paulo: Melhoramentos; Brasília: INL, 1977.
Interessante notar que esta disposição se assemelhava às missões de Mojos do Oriente, nas quais havia, no centro da praça, uma grande cruz. Porém, na descrição do viajante, não há menção às cruzes menores em cada esquina da praça principal. A Igreja de São Miguel era construída por ordem tão irregular, que fazia duas naves a beneficio de
dezoito esteios de madeira levantados a prumo, que sustentavão (sic) a viga mestra do ultimo ponto de elevação do tecto (Fonseca, 1874: 382), de modo que dividiria a
capella-mór do corpo da Igreja hum arco sem proporção de que resulta ser demasiadamente sombrio o vão da mesma capella, sobre ser toda a Igreja mui falta de luz; consiste a capella mor em huma tribuna, em cuja boca pende hum quadro com a imagem de S. Miguel de pintura mui grosseira e amortecida, além da humilde fantasia com que estava obrada. Não havia retábolo, e o altar se via destituído daquelle asseio e decência precisa para nelle se fazer a sagrada oblação do Santo Sacrifício. Em dous altares collateraes, que há nos vão que faz o arco á parte da Epistola e Evangelho, havia igual desalinho nos paramentos, e crescendo mais estar da parte do Evangelho collocada huma imagem de Christo crucificado de avultada estatura, porém de feitio tão tosco, que pareceu indecência grave estar exposta á adoração dos fieis (Fonseca, 1874: 382).
A residência do missionário e a Igreja eram divididas em várias partes, porém de um só piso, tal como descreve Gonçalves da Fonseca, ocupando assim uma parcela considerável do terreno onde estava edificada. A residência contava igualmente com um corredor sustentado por esteios, local onde o padre recebia seus hóspedes. Havia ainda nesta missão uma casa de engenho de fazer assucar edificada de muito boas madeiras, e todas as mais
officinas erão congruentes ao ministério daquella fabrica. Não moia naquelle tempo, mas dizem ser operários della os mesmos Índios (Fonseca, 1874: 382).
Com relação à vivenda dos indígenas, o viajante as compara com as da missão de Santa Rosa, que, na opinião dele,
erão muito bem fabricadas que as da aldêa de Santa Roza, porque além de serem maiores, todas erão de madeira e barro. A consistência do interior era de igual pobreza ás da dita aldêa. Sómente no que havia execesso era na multidão dos indivíduos; por que cada casa era espécie de senzala, em que vivão tres e quatro famílias de cada nação sem haver mixto de humas com outras (Fonseca, 1874: 383).
Como já dissemos anteriormente, em uma mesma casa podiam habitar até três famílias indígenas, e suas casas, segundo Manuel Félix de Lima, eram rebocadas com uma
espécie de barro branco, chamado de tabatinga, tendo o inconveniente de cair com a chuva
(Southey, 1977:183). Os índios aldeados nesta missão eram os More, que ao todo formavam 4.000 almas, como já mencionamos no primeiro capítulo. De acordo com o catálogo de las
Reducciones de las Misiones de los Mojos de esta Província del Perú de la Compañía de Jesús de 1748 (Pastells, 1948:746), a missão de São Miguel contava, no ano de 1748, com
1.198 casados; 42 viúvos; 80 viúvas; 173 solteiros; 58 solteiras; 672 meninos; 599 meninas; 2.882 batizados; 662 não batizados, somando um total de 3.444 índios (Pastells, 1948: 748). Os campos de cultivo distavam cerca de seis horas da missão de São Miguel, como informa José Gonçalves da Fonseca. O padre jesuíta responsável por esta missão de São Miguel era Gaspar de Padro, natural da Alemanha, de idade ao parecer de oitenta annos: o aspecto
penitente, porém mui agradavel e festivo (Fonseca, 1874:381). Esta missão, segundo Josep
Barnadas, foi fundada no ano 1725 na margem oriental do rio Guaporé (sua localização pode ser visualizada na figura 12). Vale salientar que, segundo os autores pesquisados, havia uma missão homônima a esta na margem esquerda do mesmo rio, como já nos referimos anteriormente.