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4.1 MODELİN GENEL ÇERÇEVESİ

4.1.2 Fuar Öncesi Planlama ve Hazırlık Dönemi

4.1.2.9.1 İşverenlerin Davet Edilmesi ve Katılımlarının Yönetimi 156

Na primeira parte da novela, Georg Bendemann singulariza-se por seu modo sonhador, egocêntrico. Em uma manhã de domingo, Georg, um jovem comerciante, após escrever uma carta ao amigo que emigrara para a Rússia, contempla, da janela de seu quarto, o rio que corta a cidade. O amigo abrira um negócio próspero em São Petersburgo; no entanto, aos passar dos tempos, Georg percebia que seu amigo não tivera êxito, pois, nas esparsas visitas à cidade natal, o amigo se lamentava que os negócios não sucediam bem e nem mantinha contato com seus compatriotas. Acresce-se a isso a sua fisionomia: o rosto amarelado, a que a barba mal disfarçava, parecia revelar o avanço de alguma doença, ao que tudo indicava, estava propenso a viver no celibatário.

Após esses dois parágrafos de abertura, os quais apresentam o destinatário da carta de Georg, o discurso indireto continua descrevendo as perguntas que Georg se fazia:

O que se devia escrever a um homem assim, que evidentemente tinha saído fora dos trilhos e a quem se podia lastimar mas não prestar auxílio? (p. 10).

Haveria para ele outro caminho senão regressar e confiar sua sorte aos amigos bem-sucedidos que permaneceram em suas terras? No entanto, nem isso seria possível, pois o próprio amigo declarara não mais compreender as condições vigentes em seu país de origem. Além disso, o amigo teria que voltar derrotado, talvez o melhor mesmo fosse ficar no lugar em que estava. Essas razões haviam pesado na correspondência que Georg, apesar de tudo, com ele mantinha.

Que relação de alteridade é possível apreender do excedente de visão que o protagonista Georg tem do seu amigo? Ou ainda, qual o excedente de visão do autor-criador? Será que é uma percepção de Georg ou do autor-criador? Ou seria dos dois, cada qual com um olhar diferenciado? Antes de tentarmos responder a essas questões, vejamos como é a vida de Georg.

Diferentemente da vida do amigo a sua vida havia mudado muito. Há dois anos, depois da morte da mãe, Georg passou a morar com pai e a assumir com mais determinação os negócios da família. Da notícia da morte de sua mãe, o amigo fora comunicado e manifestou seu pesar em uma carta bastante distante, talvez em decorrência dos novos costumes do outro país. Com relação aos negócios, desde que os assumira, passaram a prosperar a cada dia, na verdade, o movimento havia crescido muito, a ponto de precisar duplicar o número de funcionários. Entretanto, isso fora ocultado nas cartas de Georg ao amigo, pois o contraste seria muito grande: ele, próspero e ativo; enquanto o amigo fracassado e enfermo. Segundo o próprio julgamento de Georg, o silêncio sobre seu próprio êxito era uma forma de delicadeza para com o amigo. Pela mesma razão, tampouco comunicara seu noivado, tratando, em cartas diversas, do compromisso com alguém sem

importância. No entanto, naquele momento, as coisas se modificavam: a noiva, com quem Georg desabafava sobre a situação do amigo e da peculiaridade da correspondência que mantinha com ele, o obrigara a mudar de propósito.

As justificativas trazidas por Georg para o tipo de correspondência que mantinha com o seu amigo deixam evidente que ele apenas escrevia ao amigo distante por piedade, como um gesto para não deixá-lo extremamente abandonado, sozinho. Tal como direcionado pelo autor-criador, Georg parece não ser responsável pelo que dele próprio se diz. Atento ao recurso do discurso indireto – aquele que nomeia, referencia –, o autor-contemplador aceita que é o autor-criador que assim se posiciona:

O que se devia escrever a um homem assim, que evidentemente tinha saído fora dos trilhos e a quem se podia lastimar mas não prestar auxílio? Devia-se talvez aconselhá-lo a voltar de novo para casa, a transferir para cá sua existência, a retomar as velhas relações de amizade – para o que certamente não havia obstáculo algum – e no mais confiar na ajuda dos amigos? (...) que só os seus amigos sabiam um pouco das coisas e que ele era uma criança crescida, pura e simplesmente necessitada de seguir os companheiros bem-sucedidos que haviam permanecido em casa. (KAFKA, 2000, p. 10).

No entanto, quem é responsável pelos enunciados? Após relermos com atenção, observamos que, sob a imparcialidade do discurso indireto, interfere o discurso indireto livre. Tal como já verificado por Bakhtin/Volochínov (2006), no discurso indireto livre há a interferência de duas vozes: a do autor-criador e a da personagem, desaparecendo, assim, o espaço distintivo de um e outro. Dessa forma, percebemos, no fragmento acima, a entonação da voz do protagonista, ao mesmo tempo em que a responsabilidade pela construção do enunciado é deixada para o autor-

criador. Conforme já elucidado na análise de A metamorfose, o uso do discurso indireto livre permite articular dois pontos de vista.

No caso de O veredicto, temos a visão de Georg, circunscrita a si mesmo, no seu êxito em contrapartida ao fracasso do amigo que saíra de casa; e a visão do autor-criador, a qual abarca o que é inacessível à personagem, isto é, sua atitude egocêntrica e ingênua. Embora pelo princípio da exotopia o autor-criador tenha uma visão global da personagem, é a compreensão participativa que lhe permite o acabamento. Na atividade estética, a exotopia deve ser conquistada, ela só é assegurada ao autor- criador quando este perde a autonomia com relação à personagem, ou seja, quando consegue distanciar-se dela, apreendendo um contexto axiológico diferente ao por ele vivenciado.

Após os seis primeiros parágrafos da novela, acima referidos, o discurso indireto, ou melhor, o discurso indireto livre é interrompido com a advertência da noiva:

- Então ele não virá de modo algum para o nosso casamento – dizia ela. – E eu tenho o direito de conhecer todos os seus amigos. (p. 13).

Georg assim se posiciona:

- Não quero perturbá-lo – respondia Georg. (...) talvez ficasse com inveja de mim; e certamente insatisfeito e incapaz de pôr de lado essa insatisfação, regressaria sozinho. Sozinho – você sabe o que é isso?

A noiva prossegue:

A impugnação da noiva não parece chocá-lo, pois sua resposta prolonga seu caráter enigmático.

– Bem, a culpa é de nós dois; mas mesmo agora eu não queria que as coisas fossem diferentes. (KAFKA, 2000, p. 13).

Lembra que ainda disse a sua noiva:

“Eu sou assim e é assim que ele tem de me aceitar”, disse consigo. “Não posso talhar em mim mesmo uma pessoa que talvez fosse mais ajustada à amizade com ele do que eu sou.” (KAFKA, 2000, p. 13).

Os enunciados acima, antecedidos por travessão, são do tipo

discurso antecipado e disseminado, tal como exposto por Bakhtin/Volochínov (2006). Aparecem nitidamente duas entonações: a primeira remete às lembranças da conversa que Georg teve com a noiva; a segunda, a do autor-criador, está presente na medida em que “não dá plena voz” às duas personagens – ‘dizia ela’; ‘respondia Georg’, ou seja, o diálogo entre elas, para ter um efeito de recordação, surtiria com mais efeito se viesse mediante o discurso interior do protagonista, tal como o último enunciado destacado, o qual é colocado entre aspas. Entretanto, este último já não se trata de discurso direto, mas de indireto, do tipo impressionista, tal como definido por Bakhtin/Volochínov (2006) como aquele que serve para transmitir o discurso interior dos pensamentos e sentimentos da personagem. Enfim, caracteriza-se como uma variante intermediária, na medida em que evidencia traços característicos da personagem e, ao mesmo tempo, percebe-se a acentuação do autor-criador.

Por que a opção de trazer as recordações de Georg via discurso direto? O que podemos constatar nesses enunciados em discurso direto é a

presença de uma pluralidade de vozes, a de quem recorda (Georg), a de quem participa (Georg e a noiva) e a de quem interfere (o autor-criador). Além disso, percebemos que para além de criar um efeito de recordação, a intenção de Kafka, ao utilizar o discurso direto, é a de representar a própria percepção/o próprio posicionamento de Georg da relação que mantinha com a noiva.

O que observamos nesta primeira parte da novela é uma diversidade de formas de apreensão da voz alheia, tais como o discurso indireto, momento em que o autor-criador, de forma valorativa, transmite a individualidade de Georg; o discurso indireto livre, momentos em que Georg lembra de seu amigo – nesses casos ocorre, num mesmo enunciado, a interferência da voz de Georg e do autor-criador; e o discurso direto, momento em que lembra da conversa que tivera com a noiva. Após as divagações de Georg, sejam elas em discurso indireto, discurso direto ou discurso indireto livre, a ação assume um rumo linear, momento em que vai ao encontro do pai para conversar sobre a carta.