De forma geral, divide-se a Era Viking, em dois períodos. A primeira era viking (ou primitiva) compreende os anos do início do século IX até o final do século X e é marcada pelas pilhagens e pelos assentamentos iniciais. A segunda era viking (ou tardia), que se inicia no século XI e vai até 1066, caracteriza-se por maiores atividades que refletem mudanças mais profundas na região, inclusive com a centralização do poder e o surgimento dos Estados Nacionais escandinavos (Cf EVANS, 2014a: 29).
Falar sobre a Era Viking implica, antes de mais nada, em desconstruir a imagem dos terríveis pagãos sanguinários que permeia o imaginário da época e da
contemporaneidade. Imagem essa que aparece, com frequência quando se lê acerca do tema. Por exemplo, em A History of The Church in the Middle Ages (2006), F. Donald Logan reproduz algumas imagens descritas em crônicas posteriores – nas quais ele mesmo aponta que não se deve crer cegamente: “Os vikings mataram quem eles quiseram em uma carnificina de proporções épicas, parando apenas quando, pingando sangue e carregados de joias ensanguentadas, eles retornaram” (LOGAN, 2006: 83. Tradução nossa)192.
O termo viking (que provavelmente deriva do nome ao redor da cidade de Oslo, na Noruega, Vik) de fato indica algo como piratas e, portanto, muito mais uma ocupação (que envolvia de fato a guerra e a pilhagem) do que, como muitos se imagina, uma etnia. Na verdade, havia vikings oriundos da Noruega, da Suécia e da Dinamarca. E nem todos se dedicavam à atividade bélica. Muitos eram mercadores e exploradores, como mostra Ruthefurd no trecho acima e, outros todos, colonizadores.
Nesse sentido, o que a literatura especializada vem tentando mostrar nas últimas décadas é que a entrada desses homens e dessas mulheres no palco da história é mais complexa do que primeiro se acreditou. O papel dos vikings representou um conjunto de migrações que não eram novas em natureza, mas sim em forma. Além disso, esta literatura procura estabelecer os motivos que levaram a essas mudanças e concorda, geralmente, com quatro grandes chaves de leitura (Cf EVANS, 2014a).
A primeira delas está ligada aos avanços tecnológicos da época; principalmente aqueles ligados às embarcações, ou dracar, do nórdico antigo, drakkar, navio-dragão. Suas pranchas externas eram fixadas com pregos e rebites de tal maneira que a extremidade inferior de uma prancha superior se sobrepusesse à borda superior de uma prancha inferior. Além disso, essas embarcações tinham sua quilha – a estrutura longitudinal ao longo da linha central, na parte inferior do casco, sobre a qual todo o resto do casco é construído – alta, o que implicava em dizer que eram capazes de navegar não apenas águas profundas, mas também águas mais rasas. [FIGURA 49]
192 “The Vikings killed whom they willed in a butchery of epic proportions, stopping only when, dripping
FIGURA 49: O Navio Gokstad, Noruega, c. 900. In: EVANS, 2014a: 06.
“Escavado no fiorde de Oslo em 1881, é um belo exemplar viking de meados do século IX que foi usado como barco funerário para um chefe viking uns 50 anos após sua construção. Tem cerca de 23 metros de comprimento, construído quase inteiramente de carvalho, com mastro, coberta e 16 pares de remos de
pinho” (LOYN, 1997: 169).
A segunda das chaves explicativas liga-se à instabilidade social vivenciada na região. Segundo Evans (2014) há poucos documentos que sustentam essa hipótese. Contudo, os que existem falam de lutas locais e são corroborados por achados arqueológicos. A terceira delas fala de um crescimento populacional que a região teria experimentado à época e que teria gerado pressão sobre os recursos materiais e sobre o próprio espaço geográficos. Essa parece ser a explicação preferida por Dudo de São Quentin193, autor de Gesta Normannorum:
Para essas nações, amplamente inflamadas pela impureza lasciva (...) concebe (...) dessa forma, incontáveis proles infectas através da mistura da união em uma união ilegal. Essa prole, que seria supérflua, continuava a viver nas terras inadequadas que eles habitavam (...) depois que eles chegavam à maturidade (...) eram mandados por sorteio (...) aos reinos de nações estrangeiras para obter por eles mesmos em batalha reinos em que pudessem viver em duradoura paz (ST. QUENTIN in THE ORB, 2014. Tradução nossa)194.
193 Pouco se sabe a respeito da figura de Dudo (ou Dudon) de Saint-Quentin além do fato que foi um
historiador romano, nascido c. 965. Sabemos que ele passou alguns anos na corte da Normandia e que foi durante essa estadia que ele escreveu sua Gesta Normannorum (História dos Normandos). Além disso, parece certo que ele tenha morrido antes de 1043 (THE ORB, 2014).
194 “For these nations, greatly inflamed by lascivious unchastity, (...) in this way (...) beget (...) countless
filthy offspring through mingling in a union of unlawful sexual union. These offspring, who would have been superfluous had they continued to dwell in the inadequate land which they inhabited …after they had come to maturity…are driven out by lot …into the realms of foreign nations to obtain for themselves in battle realms wherein they might be able to live in never-ending peace”.
Por fim, a quarta e última chave de leitura dos motivos que teriam levado os vikings a iniciar sua expansão seria a disponibilidade de riquezas (para butim). Essa disponibilidade seria explicada por conta do reaquecimento da economia europeia no século VIII, pós reestruturação do antigo mundo romano que entrara em colapso.
A leitura da passagem da obra de Dudo de São Quentin e a última das chaves interpretativas da expansão viking nos leva de volta à necessidade de repensar esses povos, fugindo da imagem a eles comumente associadas. O que se vê é que os vikings, como mencionado anteriormente, não se relacionavam com todos os povos, o tempo todo, através da pilhagem; embora essa tenha sido uma atividade importante, tomando gado, pessoas (para serem vendidas como escravas e para resgate) e objetos. Eles também se estabeleciam em alguns lugares, e interagiam, portanto, não apenas pela conquista, mas também pelas relações entre assentamento.
Além disso, há questões de antagonismos religiosos. Os vikings, de fato, eram originalmente pagãos. Politeístas, sua mitologia é complexa e composta não apenas de histórias que explicam coisas do cotidiano, mas também grandes eventos criadores. Veneravam, entre outros, deuses como Odin, Thor e Loki. Não se trata de uma religião de luta do bem contra o mal, mas sim de luta da ordem contra o caos. Outro sustentáculo importante de sua religião era o culto aos ancestrais e a reverência à morte, valorizada e festejada ao redor de ritos que envolviam a queima do corpo do morto com seus pertences e o enterramento das cinzas em potes de cerâmica (Cf TOYNE, 1970: 245). Esta não era, porém, a única forma de enterramento conhecido. Há registros de câmaras construídas, onde o morto era colocado junto com seus pertences, animais e até mesmo escravos (vivos) e, no caso de mortos homens, sua mulher favorita. Grandes homens de prestígio tinham seus barcos como túmulos.
Entretanto, quando do contato com os povos das ilhas britânicas, a ideia do antagonismo religioso parece exagerada, no sentido de que muitos escandinavos se converteram ao cristianismo em pouco tempo (ver SAWYER, 1997); inclusive “em fins do século X, a própria Escandinávia começou a ser atraída para a rede da Cristandade” (LOYN, 1997:358). Isso não significa que não tenham havido conflitos – como veremos quando falarmos, por exemplo, do Saque de Lindisfarne (793), a destruição da Ilha de Skye (795) e o assassinato de monges do monastério de Iona (806). Por outro lado, áreas de assentamento, no mundo celta, no geral, mostram uma transição em direção a uma cultura material escandinava ou, pelo menos, que tenha traços tanto celtas quanto escandinavos ou, ainda, uma terceira forma, híbrida.
4.2. Vikings e surgimento da Inglaterra
Os vikings que cruzaram a Inglaterra no século IX eram, em sua maioria, dinamarqueses. Eles entraram o centro comercial cercado de Londres e queimaram-no. Não fosse pelas heroicas batalhas (...) eles teriam tomado conta de toda a ilha; mesmo depois (...), eles ainda controlavam a maior parte do território inglês ao norte do rio Tamisa. A área em que eles se estabeleceram tornou-se conhecida como Danelaw195. Aqui a população inglesa tinha de viver
segundo os costumes dinamarqueses. Não que isso tenha sido tão ruim. Os dinamarqueses eram um povo nórdico, sua língua próxima do Anglo-Saxão. Inclusive, eles se tornaram cristãos. E enquanto no sul saxão os camponeses mais pobres gradualmente se tornavam servos, os dinamarqueses, campeões da liberdade, levavam uma vida mais aberta, onde os camponeses eram independentes, não pertencendo a homem algum (RUTHERFURD, 1997: 167 e 168. Tradução nossa)196.
Quando os povos germânicos (anglos, saxões e jutas) invadiram a Britânia, impeliram os nativos britânicos (celtas) para as regiões do que é hoje o País de Gales e a Península da Cornualha. Como vimos anteriormente (Capítulo II. Patricius, Columba
e Columbanus), esses povos encontraram-se com britânicos romanizados (e, portanto,
em muitos casos, cristianizados). Sua chegada significou profundas mudanças nas estruturas étnicas (muitos dos britânicos foram escravizados), sociais (alteram-se as forças de poder), econômicas (novos centros comerciais) e religiosas (o paganismo voltou a ser a religião do poder).
Além disso, a vinda de anglos-saxões para a Britânia significou também mudanças na organização política. Então, se durante o período celta os britânicos estavam organizados em grupos sem um grande centro de poder claro e se durante o período romano esse poder emanara da estrutura de província que o Império lhe impusera, desde o século VI era a heptarquia britânica (os sete reinos) que se estabelecia como unidade de poder político: Sussex, Wessex, Essex, Mercia, East Anglia, Kent e Nortúmbria. Além desses reinos, mantiveram-se Gales197 e a Cornualha198 como
espaços celtas (britânicos).
195195 Danelagh, no inglês antigo ou Danelov, em dinamarquês.
196 “The Vikings who swept across England in the ninth century were mostly Danish. They entered the
walled trading centre London and burnt it. But for the heroic battles (…), they would have taken over the whole island; even after (…), they still controlled most of the English territory north of the Thames. The area where they settled came to be known as the Danelaw. Here, the English population had to live by Danish custom. Yet this was not so bad. The Danes were Nordic folk, their language like Anglo-Saxon. They even became Christians. And while in the Saxon south the poorer peasants gradually became serfs, the freebooting Danes led a more open life where peasants were independent, belonging to no man”
197 O País de Gales passou, nos séculos seguintes, por um processo de unificação, com o crescimento do
reino de Gwynedd como o maior centro de poder (força unificadora, tanto por casamento quanto por ações bélicas). Contudo, sua hegemonia só se efetivou a partir do século IX, quando das invasões vikings na região. De forma geral, para se protegerem dos escandinavos, os galeses, como um todo, se uniram.
No século VIII, a historiografia nos mostra o surgimento da ideia de englishness (inglesidade). Esse sentido da identidade tem ligação com um processo pelo qual a heptarquia passava de unificação. Já nessa época, três dos sete reinos haviam desaparecido, e restavam apenas a Nortúmbria, a Mercia, East Anglia e Wessex [MAPA 08]. Pressupor se esses quatro reinos teriam eventualmente se unido, não fossem fatores externos que contribuíram para esse processo é uma atividade de História Subjuntiva cujos frutos são pouco palpáveis199.