Após algumas tentativas frustradas para a instauração do regime republicano, este tornar-se-ia na realidade a 4-5 de Outubro de 1910.
Alguns algarvios estiveram presentes na Rotunda ou contribuíram decisivamente para o seu triunfo. Falamos do 2.º tenente da armada, o louletano José Mendes Cabeçadas Júnior288, do olhanense José Carlos da Maia289, do sambresense João Rosa Beatriz290.
286
GUERREIRO, Zacarias José (1868 ou 1859? - 23/9/1918), nasceu em S. João dos Caldeireiros,
concelho de Mértola, filho de José Diogo Guerreiro, abastado proprietário de Mértola. Desempenhou um papel destacado na organização do Partido Republicano Português no Algarve ainda durante o período da propaganda. Presidente da Câmara Municipal de Tavira de 1914 a 1917. Pertenceu ao Partido Unionista. O seu enterro foi civil. Teve três filhos, um dos quais, Eduardo da Fonseca Guerreiro morreu nos campos da Flandres. (“Zacarias José Guerreiro”, Província do Algarve, n.º 504, 29/9/1918, p. 1).
287
ADF. Inventário do Governo Civil, Livro Copiador de Telegramas do Governo Civil, 1908-1915 (447), «Circular aos Administradores dos Concelhos, excepto Faro», 6/10/1910.
288
CABEÇADAS, José Mendes (Loulé, 19/8/1883 - Lisboa, 11/6/1965) – oficial da Marinha, político e maçon. Participou no 5 de Outubro de 1910 e foi igualmente um dos dirigentes do movimento militar de 28 de Maio de 1926. Integrou com o general Gomes da Costa e o oficial da Marinha Armando Ochoa o triunvirato que assumiu o poder em 1 de Junho de 1926. Presidente do Ministério, do qual seria destituído em 16 de 1926. Em 1931 liderou com o general Norton de Matos a Aliança Republicana e Socialista contra a Ditadura Militar. Participa no 10 de Abril de 1947, sendo preso e compulsivamente reformado e julgado em Tribunal Militar (FREITAS, Pedro, Quadro de Loulé Antigo, 3.ª edição, Loulé, 1991, pp. 335-342).
289
MAIA, José Carlos da (Olhão, 16/3/1878 – Lisboa, 19/10/1921), oficial da armada e republicano. Participou nos movimentos revolucionários de 1908 e do 5 de Outubro. Deputado às Constituintes e à Câmara dos Deputados. Governador de Macau de 1914 a 1917. Apoiou Sidónio Pais, tendo sido Ministro da Marinha, de 9/3/1918 a 7/9/1918. Capitão do porto de Portimão. Ministro das Colónias (1919). Na «Noite Sangrenta», de 19 de Outubro de 1921, foi assassinado.
290
BEATRIZ, João Rosa (S. Brás de Alportel, 19/04/1881 - Casablanca, 27/07/1960), inicialmente fabricante e comerciante de cortiça, depois estabeleceu-se por conta própria como comerciante. Livre- pensador. Pertenceu à Maçonaria, primeiro na «Loja Camões», depois, na «Loja Montanha», com
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Os periódicos, certamente reflectindo o espírito geral, exaltavam a nova era. Faziam eco do fulgurante fim dos Braganças, proclamando hossanas ao progresso e à regeneração do país.
A passagem de testemunho das administrações monárquicas para as republicanas processou-se civilmente, pacificamente, uma espécie de «revolução de veludo».
3.1. As eleições: da República revolucionária à República da Constituição
A 14 de Março de 1911 era publicada a lei eleitoral291, determinando que os eleitores seriam todos os portugueses do sexo masculino maiores de vinte anos, à data de 1 de Maio de 1911, que soubessem ler e escrever, ou que fossem chefes de família. Muitos mais eram os que não podiam ser eleitos (art.º 6.º) e os inelegíveis (art.º 8.º e 9.º).
Da legitimidade revolucionária transitar-se-ia para a legitimidade constitucional, consagrada na eleição da Assembleia Nacional Constituinte, marcada para o dia 28 de Maio de 1911.
Enquanto o Província do Algarve, de 25 de Março de 1911, defendia a lei eleitoral, O Algarve, criticava-a pela interferência dos governadores civis, por as comissões locais serem da confiança do Partido Democrático, por os círculos plurinominais prejudicarem as minorias. Aqueles círculos representavam «mais uma
maneira de fazer a concentração da acção eleitoral nas autoridades, em prejuizo da
ligações à Carbonária. No dia 24 de Agosto de 1907 foi eleito tesoureiro da Comissão paroquial republicana. Após a implantação da República formou e comandou o Batalhão de Voluntários de S. Brás de Alportel para a defesa do novo regime. Em 18 de Junho de 1915 o governo civil de Faro providenciava para que lhe fossem entregues as armas e munições pertencentes ao Estado que «consta que o ex- administrador do concelho de S. Braz d‟Alportel, Rosa Beatriz tem em seu poder» (ADF. Inventário do Governo Civil. Livro de Registo da Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1914-1919 (385), «Telegrama de Paulo Pacheco, chefe do gabinete do governador civil», 18/6/1915). Rosa Beatriz nesta altura não se encontrava em Portugal (Livro de Registo da Correspondência Recebida pelo Governo Civil, 1914-1919 (385), «Ofício do Administrador do Concelho de Alportel», 28/6/1915). No crepúsculo da sua movimentada existência redigiu um testamento político, onde perpassa elementos autobiográficos e de conteúdo anticlerical e de livre-pensador.
291
A Lei eleitoral de 14 de Março de 1911 consignava o sufrágio capacitário e restringiu o direito de voto aos maiores de 21 anos, alfabetizados e aos chefes de família não alfabetizados. Os círculos eleitorais eram plurinominais de lista incompleta, introduzindo o regime proporcional em Lisboa e no Porto, favorecendo o Partido Democrático. Esta lei sofreria algumas alterações, pelo que seria publicada uma outra em 5 de Abril.
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ampla liberdade de escolha que teem os cidadãos no systema» dos círculos
uninominais292.
Entretanto, as eleições de 28 de Maio de 1911 criariam a Assembleia Constituinte. Nos círculos algarvios, os deputados foram eleitos administrativamente, designados numa reunião das comissões distrital e paroquiais de toda a região, realizada no dia 30 de Abril de 1911293, visto que a lei eleitoral dispensava a votação nos círculos em que se apresentasse uma única lista candidata (Quadro n.º 45).
Quadro n.º 45
Deputados Eleitos pelos Círculos do Algarve à Assembleia Nacional Constituinte
28 de Maio de 1911
Círculo Deputados Profissão Idade Naturalidade
N.º 46 – Faro António Aresta Branco294 Médico 49 Amareleja António Caetano
Celorico Gil
Advogado (bacharel de Direito pela Universidade de
Coimbra)
33 Cacela João Fiel Stockler295 Capitão-tenente da armada 35 Monte da
Caparica Tomás António da
Guarda Cabreira
Lente da Escola Politécnica – Lisboa, engenheiro e capitão
de artilharia 46
Tavira N.º 47 – Silves António Maria da Silva Engenheiro e Director Geral
dos Correios e Telégrafos 39 Lisboa Carlos Alberto da Silveira Tenente-coronel, Comandante do Corpo de Polícia Cívica 52 Lagos José Maria de Pádua296 Médico 38 Olhão José Mendes Cabeçadas
Júnior Capitão-tenente da armada 28 Loulé
Fonte: VIDIGAL, Luís, “As primeiras eleições republicanas, as estruturas partidárias e os destinos do
Regime democrático”, Anais do Município de Faro, vols. XXIX-XXX, 1999-2000, p. 252.
292 “Lei eleitoral”, O Algarve, n.º 158, 02/04/1911, p. 1.
293 VIEGAS, Libertário Viegas, “Algarve 1908-1927”, Anais do Município de Faro, n.º XVIII, Faro,
1988, p. 155.
294
BRANCO, António Aresta (Amareleja, 1862 – Lisboa, 14/10/1952), Licenciado em Medicina. Fundador do jornal A Pátria, filiou-se no PRP e, posteriormente, aderiu à União Republicana e ao Partido Evolucionista. Deputado por Faro e Beja, exerceu o cargo de governador civil desta cidade até 1911. Presidente da Câmara dos Deputados e Ministro da Marinha de 11/12/1917 a 7/3/1918.
295
O tenente da Marinha João Fiel STOCKLER participou no 5 de Outubro de 1910 (VIEGAS, Libertário, “Algarve 1908-1927”, Anais do Município de Faro, n.º XVIII, Faro, 1988, p. 152.
296
PÁDUA, José Maria de, (Olhão, 8/2/1873 – Lisboa, 17/12/1924), Médico, político e musicógrafo. Filiou-se no Partido Republicano Português, em 1880. nas eleições de 28 de Agosto de 1910 foi o candidato mais votado. Exerceu o cargo de Senador (MARREIROS, Glória Maria, Quem Foi Quem? 200 Algarvios do Século XX, Edições Colibri, Lisboa, 2000, pp. 377-378).
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