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duas novas razões para a batalha; ou seja, trazem mais duas causas capazes de levar o

guerreiro homérico à guerra. Essas razões estão relacionadas não à busca da honra, mas à

manutenção desta. Como se sabe, os motivos [literários] da guerra de Tróia foram: (i) o rapto

de Helena pelo troiano Páris, pois aquela era casada com Menelau, um dos chefes argivos; e

(ii) o desprezo à hospitalidade, já que Alexandre raptou Helena quando se encontrava, como

hóspede, na casa de Menelau. Como se o adultério já não fosse motivo suficiente para uma

contenda, para os antigos gregos (e isto também é válido para os romanos e até para o Homem

medieval) era uma grande ofensa ter a sua hospitalidade menosprezada: isto era considerado

algo desonroso. É tão verdade o que acaba de ser dito que há um mito, intitulado Báucis e

Filêmon, inteiramente dedicado a este tema da falta de hospitalidade: furiosos com os

habitantes de uma cidade que não recebiam bem os viajantes que por ela passavam, Júpiter e

Mercúrio, que estavam disfarçados de andarilhos, decidiram destruí-la por completo.

Contudo, eles não se esqueceram de deixar vivo apenas um casal de anciões pobres que os

recebeu honradamente e que compartilhou com eles, sem que soubesse que eram divindades,

o pouco que possuíam. Portanto, o herói da Antigüidade clássica, como acontecia mesmo aos

deuses e aos mais comuns dos homens gregos, valorizava a hospitalidade e abominava o

ultraje, não exatamente o adultério, pois a mulher, na Grécia antiga (e também na Roma

antiga e no Medievo) era vista como mercadoria. Eis os trechos da Ilíada que trazem, por

meio das falas de Aquiles, Nestor e Menelau, o motivo (o literário) da guerra de Tróia.

Saliente-se, nas falas de Aquiles, Nestor e Menelau, o companheirismo, o espírito coletivo, do

herói da Antigüidade clássica, que, muitas vezes, saía para a batalha não em prol de si mesmo,

mas por ter tomado para si a dor alheia, a dor do amigo, companheiro de armas.

Com torvos olhos, Aquiles, de rápidos pés, lhe responde:

“Alma despida de pejo, que só de interesse se ocupa!

Como é possível que algum dos Aqueus ao teu mando obedeça, quer em caminho se pondo, quer seja enfrentando outros homens? Não foi por causa dos fortes Troianos que vim para Tróia, para guerreá-los, pois nunca motivo para isso me deram. Deles, nenhum das manadas um boi me roubou, nem cavalos, nem no terreno de Ftia, nutriz de guerreiros, tampouco, minhas colheitas destruíram, pois grandes montanha escuras e o vasto mar sonoro entre nós de permeio se estendem. Para teu gáudio, grandíssimo despudorado, seguimos-te, cão sem nenhum descortino, a vingar-te do ultraje dos Troas

a Menelau (HOMERO, 2002, I, v. 148-160, p. 62). O domador de cavalos, Nestor, de Gerena, lhes disse:

“Caso inaudito, que todos faleis como crianças ingênuas,

que não possuem nenhuma experiência das coisas da guerra! Para onde as juras se foram, e os votos, que todos fizemos? Sejam lançados ao fogo os desígnios e planos de todos, as libações impolutas e apertos de mão, que trocamos. Só com palavras sabemos brigar, sem que achemos caminho para as ações eficientes, pesar de aqui estarmos há muito. Como o costumas, Atrida, mantém teu propósito firme, E para os prélios terríveis conduze os guerreiros Argivos.

Que este e outros poucos se percam, que têm por costume aos Acaios dar maus conselhos. Porém, jamais hão de alcançar seus intentos, de retornarmos para Argos, sem termos obtido, primeiro,

de Zeus potente a certeza se falso ou veraz prometeu-nos. Sou de opinião, entretanto, que o filho potente de Crono, nos falou certo no dia em que as naves entramos velozes para trazer a estas gentes de Tróia o extermínio e a desgraça: fez-nos surgir um relâmpago à destra, sinal infalível. Por isso tudo, ninguém mais insista em voltar para a pátria, sem que, primeiro, haja ao leito subido de esposa Troiana e ressarcido os trabalhos e o choro por causa de Helena.

Mas se houver quem ainda insista em voltar para a pátria querida, e ouse tocar no navio anegrado, de boa coberta,

seja o primeiro a ser presa do Fado inditoso e da Morte. Eia, senhor, aconselha-te bem, mas aceita outros planos, que não será de somenos valor o que passo a dizer-te: Teus homens todos, Atrida, por tribos divide e famílias

que cada tribo se ajude e uns aos outros os membros de um grupo. Caso me aceites o alvitre, e os Acaios, também, te obedeçam, Fácil será de saber qual dos chefes, qual dentre os do povo, fraco, ou de prol, se revela; que à parte eles todos combatem. Hás de, então, ver se a cidade resiste por causa dos deuses,

ou por fraqueza dos homens, nas coisas da guerra inexpertos”. (ibidem, II, v. 336-368, pp. 87-88) Foi por Heitor percebido, porém, que de insultos o cobre:

Bem melhor fora se nunca tivesses nascido, ou se a Morte antes das núpcias te houvesse levado. Mais lucro tivéramos, do que nos seres opróbrio e de escárnio servires aos outros. Riem-se à grande os Aquivos de soltos cabelos nos ombros. Um dos primeiros julgavam que fosses, por seres de físico tão primoroso; no entanto, careces de força e de coragem. Como é possível que, sendo qual és, em navios velozes o mar houvesses cruzado, reunido prestantes consócios e a gente estranha chegado, da qual a raptar te atreveste uma formosa mulher, peregrina, cunhada de príncipes, para desgraça do teu próprio pai, da cidade e do povo, mofa tornando-te, assim, dos imigos, que exultam com isso? Não te atreveste a enfrentar Menelau, de Ares forte discípulo? Fora a ocasião de saberes de quem a mulher seduziste. Esses cabelos, a cítara, os dons de Afrodite, a beleza, não te valeram de nada ao te vires lançado na poeira. Se tão medrosos não fossem os Teucros, há muito vestiras

uma camisa de pedras, por quantas desgraças causaste”.

(ibidem, III, v. 38-57, pp. 104-105) Vira-se, então, Menelau, de voz forte, e lhes diz o seguinte:

“A mim, também, atenção concedei, porque a dor, mais que a todos,

o coração me angustia. Concordo que Teucros e Aquivos devem pôr fim à discórdia, que muitos já tendes sofrido por minha causa e da ofensa provinda do divo Alexandre. Que morra logo o que está pelo negro Destino fadado a perecer; conciliem-se os outros, sem mais perder tempo. Presto um cordeiro trazei para o Sol, de cor branca, e uma ovelha preta, também, para a Terra; que a Zeus um terceiro daremos. A majestade de Príamo desça, também, para as juras

solenizar; que os seus filhos soberbos não são de confiança.

Não venha alguém, com perjúrios, destruir o que Zeus prometer-nos. O coração dos mancebos costuma ser sempre volúvel,

mas quando um velho intervém, o passado e o futuro perscruta,

para que tudo decorra do modo melhor para todos”.

(ibidem, III, v. 96-110, p. 106) Calcando-lhe o peito com o pé, Menelau

as belas armas lhe tira e, a exultar, com a vitória, prorrompe:

“Sequer assim deixareis os navios velozes dos Dânaos,

Teucros soberbos, a quem não saciam jamais os combates! De vós, cadelas!, me vieram as mais revoltantes ofensas, como a que contra o meu lar praticastes, sem terdes receio de Zeus de voz poderosa, que ampara o direito dos hóspedes, e que há de um dia, decerto, destruir-vos o burgo altanado. Sobre me haverdes roubado riqueza infinita, trouxestes

minha legìtima esposa, apesar de vos ter hospedado [...]”.

(HOMERO, 2002, XIII, v. 618-627, p. 313)

Benzer Belgeler