A análise padrão sobre o impacto econômico de uma instituição de ensino superior pode ser feita por meio da medição da sua folha de pagamento, da quantidade de empregos diretos gerados, dos impostos pagos, dos gastos com investimento e manutenção. Apesar de essa análise retratar um adicional de recursos diretamente injetados na localidade pela IES, que ajuda a movimentar o mercado interno, ela não permite diferenciar os impactos de instituições universitárias em relação a qualquer outra atividade econômica que viesse a se instalar no local. Os recursos econômicos poderiam ser utilizados em outras atividades que podem vir a gerar impactos similares ou até superiores.
Apesar disso, é importante destacar algumas características do segmento econômico do ensino superior que ampliam esses efeitos diretos. Conforme observou Almeida et al. (2004, p. 83), essas instituições fazem parte da expansão e
empregos de boa qualidade, atraindo profissionais com elevada qualificação e remunerações acima da média. Além disso, aumenta a arrecadação municipal, por meio de impostos diretos, e contribui para o “balanço de pagamentos” local.
De acordo com Almeida et al. (2004, p. 83), essa influência diferenciada se deve à capacidade das instituições de ensino superior de captar recursos, sejam de origem nacional ou internacional, e injetar na economia local. No caso das IES públicas, os valores foram repassados por outras esferas governamentais para custeio e investimento. Somente para a Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), única universidade federal com campus em Mossoró, o total das despesas somaram R$ 184 milhões em 20137. Aproximadamente 70% desse valor foram destinados ao pagamento de salários, à contratação de terceirizados e pagamento de aposentadorias, que em boa medida são gastos no comércio local. Para se ter uma ideia, as despesas totais da UFERSA corresponderam a aproximadamente 40% de todas as receitas da prefeitura da cidade no mesmo ano. Mesmo considerando que parte desses recursos foi arrecadada localmente, por meio de impostos, “trata-se, neste caso, de retorno de recursos subtraídos à economia local” (ALMEIDA et al., 2004, p. 83).
Considerando as IES de um modo geral, suas atividades permitem também atrair recursos para a localidade por meio do financiamento estudantil; programas de concessão de bolsas (PROUNI8); financiamentos para investimento em pesquisa; convênios firmados com organismos internacionais, empresas privadas e públicas; recursos para a manutenção de serviços de saúde e bolsas de pós-graduação. Além disso, segundo Almeida et al. (2004, p. 83), as universidades podem vir a exportar para outras localidades serviços tais como os cursos de ensino a distância, material didático, a prestação de consultorias e ganhos com royalties oriundos de suas pesquisas. Essa capacidade de atração de recursos exógenos à região, aliada ao perfil intensivo em mão de obra do setor de serviços, cujas receitas são destinadas, em grande medida, ao pagamento de professores e funcionários, acarreta em um forte impacto no PIB local.
As universidades também contribuem para o desenvolvimento local enquanto fator de atração de pessoas de outras regiões, como alunos e visitantes. A
7 Dados obtidos no site do Portal da Transparência.
8 É o programa do Governo Federal que concede bolsas de estudo integrais e parciais de 50% em instituições privadas de educação superior para alunos que cursaram o ensino médio completo na rede pública.
presença de estudantes estrangeiros aporta na localidade a renda gerada em outras regiões, seja com serviços ou aluguel de apartamentos e pensionatos, quando constituem residência na cidade. Além disso, a realização de seminários e palestras gera um fluxo de visitantes que acabam consumindo os serviços locais de hotelaria e de lazer tais como turistas.
Outro impacto direto importante que as instituições de ensino superior geram em cidades de pequeno e médio portes é a sua interferência na configuração de uma nova classe média, formada por professores e funcionários da instituição. Com base nos dados da RAIS de 2012, na região Nordeste o percentual de vínculos empregatícios ocupados por pessoas com ensino superior, mestrado e doutorado foi somente de 16,8%, enquanto que na atividade de ensino superior é de 71,2%. Analisando isoladamente os profissionais com mestrado e doutorado, enquanto no total da economia situa-se em 0,7% dos vínculos, no setor de ensino superior passa para 14,1%. Com base nesses dados é possível se ter uma ideia do perfil diferenciado dos profissionais que trabalham em instituição de ensino superior.
Dividindo os vínculos empregatícios do Nordeste por grupos da Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE) na RAIS 2012, o ensino superior foi o 11º que mais gerou empregos (125,6 mil empregos), o 3º em valores pagos em remuneração (R$ 536,06 milhões), e entre os maiores empregadores é o 2º em remuneração média (R$ 4.268). Levando em consideração que parte da remuneração de muitos profissionais de instituições de ensino superior envolvidos em pesquisa não é registrada na RAIS9, é possível supor que o número de empregos e o valor total recebido por seus membros são superiores ao documentado.
Rolim e Kureski (2009, p. 42) analisaram o impacto de curto prazo (renda e emprego) das instituições de ensino superior estaduais no Paraná, em 2000 e 2004, por meio da Matriz de Contabilidade Social do Estado. Os pesquisadores utilizaram os gastos do governo estadual com as IES, e fizeram uma estimativa de despesa dos alunos cuja residência principal está fora do estado, visando a avaliar os impactos de três atores distintos: i) os gastos com bens de consumo corrente e investimentos das IES (excluindo custos com pessoal); ii) os gastos de consumo de
9 Isso acontece por dois motivos: primeiro, devido ao fato de a remuneração do professor coordenador da pesquisa ser computada como bolsa, e não como salário; segundo, os trabalhadores envolvidos nas pesquisas não são registrados como exercendo atividade em uma
seus membros (professores e funcionários); iii) os gastos de consumo dos alunos de outras localidades. Um quarto elemento também foi citado na pesquisa: os gastos dos visitantes que residem fora da região, porém devido à impossibilidade de se computar esse valor o mesmo foi ignorado no modelo.
Os resultados da pesquisa apontaram para um impacto significativo das universidades públicas estaduais na economia do Paraná, com um multiplicador de renda de 2,34, e um multiplicador de emprego de 2,53. Isso significa que para cada unidade adicional de renda aplicada nas IES o resultado é um incremento de 1,34, sendo que o impacto é maior quando aumentam os gastos com professores e funcionários (1,43) em relação aos de custeio e investimento (1,07). A mesma lógica acontece com a geração de empregos, ou seja, para cada emprego direto adicionado nas IES são gerados mais 1,53 empregos indiretos.
As universidades também são instituições importantes na oferta de serviços intensivos em conhecimento, como consultorias e treinamentos prestados às empresas. Além disso, sua estrutura física e de pesquisa pode ser utilizada para fornecer serviços técnicos como análise laboratorial, preparação de laudos ou pesquisas de mercado (ALMEIDA et al., 2004, p. 82).
De acordo com a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (2007), as instituições de ensino superior desempenham um papel importante para o desenvolvimento social e cultural da região onde está inserida. Além de formar alunos que vão atuar localmente, durante ou depois da formação, e realizar pesquisas com o potencial de solucionar problemas locais, as IES podem possuir uma infraestrutura para ofertar uma série de serviços à comunidade, tais como hospitais universitários e clínicas de atendimentos diversos na área da saúde. Por meio das atividades de extensão universitária, muitas IES fornecem à comunidade atendimentos na área da saúde, centros de assessoria jurídica, cursos de línguas etc. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (2007, p. 186), na área da cultura, sua infraestrutura pode vir a proporcionar ao público local museus, bibliotecas, galerias de arte, orquestras, auditórios, instalações desportivas, rádios e TVs universitárias, promover festivais e espetáculos culturais.
Por último, a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (2007, p. 185) aponta que instituições de ensino superior também estão sendo utilizadas para revitalizar áreas urbanas
abandonadas. É uma forma de induzir um fluxo constante de pessoas em área abandonada da cidade que já possui infraestrutura urbana, diminuindo a pressão por investimentos públicos em novas áreas. Em Salvador, por exemplo, no bairro do Comércio, que era o antigo centro financeiro da cidade, encontra-se em processo de abandono, com a fuga dos escritórios para outras regiões e a desvalorização dos imóveis. Por meio do Programa de Revitalização do Comércio vários incentivos fiscais foram concedidos para atrair empresas a se instalar nessa região, “entre elas as hoteleiras, educacionais, culturais, call centers, polos de desenvolvimento de alta tecnologia e unidades imobiliárias financiadas por programas de arrendamento residencial instituídos pelo poder público em suas três instâncias.” (SANTOS, 2007, p. 17).